O OUTRO LADO DA MEIA-NOITE
AUTOR: SIDNEY SHELDON
Dados da Edio: Publicaes Europa-Amrica, Mem Martins, 1993, 2 Edio.
Coleco: "Obras de Sidney Sheldon".
Ttulo original: The Other Side of Midnight.
Gnero: Romance.
Digitalizao: Dores Cunha correco: Maria Fernanda Pereira.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
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Obras De Sidney Sheldon
Ttulo original: The Other Side of Midnight Traduo de Manuel Cabral
Obras Publicadas Nesta Coleco:
1- Memrias Da Meia Noite
2 - O Outro Lado Da Meia Noite 3 - Um Estranho Ao Espelho
4 - Laos De Sangue
5 - O Rosto Nu
6 - Conspirao - Dia Do Juzo Final 7 - A Fria Dos Anjos
8 - O Brilho Das Estrelas
O Outro Lado Da Meia Noite
Sidney Sheldon
O Outro Lado Da Meia Noite
2. Edio
Publicaes Europa-amrica
Ttulo original: The Other Side of Midnight Traduo de Manuel Cabral
Traduo portuguesa O de P. E. A. Capa: estdios P. E. A.
O Sidney Sheldon, 1973 Direitos reservados por
Publicaes Europa-Amrica, Lda.
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Editor: Francisco Lyon de Castro
PUBLiCAES EUROPA-AMRiCA, LDA. Apartado 8
2726 MEM MARTINS CODEX
PORTUGAL
Edio ": 161202/5937
Execuo tcnica:
Grfica Europam, Lda.
Mira-Sintra - Mem Martins
Depbsito legal ": 71 X6l1193
PARA JORIA que me d prazer de mil e uma maneiras
AGRAdECnNTOS
Desejo manifestar a minha gratido a todos quantos, com a sua generosidade, me ajudaram a compor o mosaico deste romance com os azulejos dos seus conhecimentos,
saber e recordaes. Em ocasies onde senti que a histria seria benefciada, fiz uso da liberdade literria, mas quaisquer erros factuais so da minha inteira responsabilidade.
Os meus reconhecidos agradecimentos vo para as seguintes pessoas:
Em Londres
Sr.  V. SHRUBBALL, do Departamento de Histria do Ar, Ministrio da Defesa britnico, pelas inestimveis informaes fornecidas sobre a Esquadrilha guia, o grupo
de pilotos americanos que voou com a R. A F. antes da entrada dos Estados Unidos na segunda guerra mundial.
Earl Boebert, por informaes comlementares acerca da Esquadrilha guia.
Em Paris:
ArrnR WEiL-CuRIEL, ex-vice-presidente da Cmara de Paris, por sugestes e recordaes teis de Paris durante a ocupao alem.
Madame e HEvAuLEr, chefe do Arquivo da Comdie Franaise, por me ter facultado o acesso aos seus arquivos da histria do teatro francs.
Cinune BnicrrREs, jornalista de1, e Figaro, pelo apoio prestado na obteno de fontes de informao de primeira-mo sobre a ocupao da Frana.
Em Atenas:
Sr.  ASPA LAMBROU, que por magia abriu todas as portas e foi infa lvel e generosamente prestvel.
JEAN PIERRE DE VITRY D, AVAUCOURT, p110t0 pessoal de Aristteles
Onassis, por conselhos e sugestes tcnicos.
COSTAS EFSTATHIADES, distinto advogado, pela ajuda prestada
sobre os procedimentos do direito criminal grego.
Em Los Angeles:
RAOUL AGLION, Conselheiro Econmico do Banco Nacional de
Paris, por partilhar o seu conhecimento da histria e costumes franceses.
Exceptuando a referncia a vrios dirigentes da histria univer- sal, todas as personagens deste livro so fictcias.
PRLOGO
Atenas: 1947
Atravs do pra-brisas sujo de p do seu automvel, o chefe de polcia Georgios Skouri observava o colapso sucessivo dos edifcios de escritrios e hotis da baixa
de Atenas, que se desintegravam numa dana lenta, como filas de pinos gigantes numa pista de boliche csmico.
- Vinte minutos -prometeu o polcia fardado que se encontrava ao volante. - No h trnsito.
Skouri anuiu distraidamente e fitou os edifcios. Sempre se sentiu fascinado por esta iluso. O calor difuso do sol implacvel de Agosto envolvia os edifcios em
vagas ondulantes, dando a impresso de que os mesmos desciam em cascata sobre as ruas numa queda de gua graciosa de ao e vidro.
Passavam dez minutos do meio-dia, e nas ruas quase desertas os poucos transeuntes estavam demasiado letrgicos e apenas se limitaram a dar um relance breve e curioso
s trs viaturas da polcia que se deslocavam velozmente para oriente na direco de Hellenikon, o aeroporto situado a trinta quilmetros do centro de Atenas. O
chefe Skouri viajava no carro da frente. Em circunstncias normais, teria ficado no conforto climatrico do seu gabinete enquanto os subordinados iam trabalhar sob
o calor abrasador do meio-dia, mas as presentes circunstncias estavam longe de ser normais, e Skouri tinha razes redobradas para estar aqui em pessoa. Em primeiro
lugar, no decurso do dia de hoje, os avies trariam pessoas importantes de vrias partes do globo, e era necessrio assegurar-Lhes uma boa recepo e o mnimo de
maada na passagem pela alfndega. Em segundo lugar, e mais importante, o aeroporto estaria cheio de reprteres da imprensa estrangeira, bem como de operadores de
cmara das a: tualidades cinematogrficas. O chefe Skouri no era nenhum idiota, e ocorrera-lhe, nquanto se barbeava esta manh, que a sua carreira
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no sairia prejudicada se ele aparecesse nas actualidades cinematogrficas no momento em que tomava a seu cargo os eminentes visitantes. Era um acaso extraordinrio 
do destino que um acontecimento mundial desta sensao se realizasse nos seus domnios, e ele seria estpido se no tirasse partido. Discutira o caso em grande pormenor 
com as duas pessoas que na vida lhe estavam mais prximas: a mulher e a amante. Anna, uma mulher de meia-idade, feia, azeda e de origem camponesa, dissera-lhe que 
ele no deveria ir ao aeroporto, mas ficar em segundo plano, para que no lhe lanassem as culpas de algum percalo. Melina, o seu anjo doce, belo e jovem, aconselhara-o 
a receber os dignitrios. Ela concordou com a opinio de que um acontecimento destes o catapultaria para a fama imediata. Se Skouri conduzisse bem o assunto, no 
mnimo seria aumentado e - se Deus quisesse - poderia at tornar-se comissrio de polcia quando o actual comissrio se reformasse. Pela centsima vez, Skouri reflectia 
sobre a ironia de Melina ser a sua mulher e Anna a sua amante, e interrogava-se de novo onde errara ele.
Skouri preocupava-se agora com o que ia passar-se. Devia garantir um xito total no aeroporto. Acompanhavam-no doze dos seus melhores homens. Sabia que o seu principal 
problema seria controlar a imprensa. Ficara espantado com o elevado nmero de reprteres de jornais e revistas importantes que chegaram a Atenas vindos de todos 
os cantos do mundo. Ele prprio fora entrevistado seis vezes sempre numa lngua diferente. As suas respostas foram traduzidas para alemo, ingls, japons, francs, 
italiano e russo. Mal comeara a desfrutar desta nova notoriedade quando o comissrio o chamou para lhe fazer sentir a inconvenincia de o chefe da polcia comentar 
publicamente umjulgamento de homicdio que ainda no se realizara. Skouri tinha a certeza de que a verdadeira motivao do comissrio era a inveja, mas prudentemente 
decidira no complicar as coisas e recusara todas as outras entrevistas. Contudo, o comissrio no poderia certamente apresentar queixa se ele, Skouri, se encontrasse 
no aeroporto no centro da actividade no momento em que as cmaras estivessem a fotografar as celebridades que iam chegar.
Quando o carro acelerou na Avenida Sygrou e virou  esquerda,  beira- mar, em direco a Phaleron, Skouri sentiu um n no estmago. Estavam agora apenas a cinco 
minutos do aeroporto. Mentalmente, examinou a lista das celebridades que chegariam a Atenas antes do anoitecer.
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Armand Gautier enjoava quando andava de avio. tinha um medo arraigado de voar, proveniente do amor excessivo que sentia por si prprio e pela vida, o qual, combinado 
com a turbulncia geralmente sentida ao largo da Grcia no Vero, lhe causava um enjoo terrvel. Era um homem alto, asceticamente magro e com ares eruditos, uma 
testa alta e uma boca perpetuamente sardnica. Aos 22 anos, Gautier ajudara a criar La Nouvelle vague na difcil indstria do cinema francs, e, nos anos que se 
seguiram, arrebatara triunfos ainda maiores no teatro. Actualmente reconhecido como um dos maiores realizadores do mundo, Gautier vivia este papel em pleno. At 
aos ltimos vinte minutos, o voo fora muito agradvel. As hospedeiras, assim que o reconheceram, atenderam os seus pedidos e deram-lhe a entender que estavam disponveis 
para outras actividades. Vrios passageiros vieram ao seu encontro durante o voo para exprimir a grande admirao que sentiam pelos seus filmes e pelas suas peas, 
mas ele estava mais interessado na bonita universitria inglesa que frequentava St. Anne's em Oxford. Ela estava a fazer uma tese de mestrado sobre teatro, e como 
tema escolhera Armand Gautier. Conversaram sem problemas at  altura em que ela mencionou o nome de Noelle Page.
- Voc  que era o realizador dela, no era? - disse. - Tenho esperana de poder ir ao julgamento. Vai ser uma palhaada.
Gautier deu por si agarrado aos braos do lugar onde se sentava, e a fora da sua reaco surpreendeu-o. Mesmo depois de todos estes anos, a lembrana de Noelle 
evocava nele a dor aguda de sempre. Nunca ningum o enternecera como ela, e nenhuma outra mulher voltaria afaz-lo. Desde que Gautier soubera, atravs dosjornais, 
da priso de Noelle trs meses antes, no conseguia pensar noutra coisa. Enviara-lhe um telegrama e escrevera-lhe, pondo-se  sua disposio para o que fosse preciso, 
mas nunca recebera uma resposta. No tencionara assistir ao julgamento, mas sabia que no conseguiria ignor-lo.
Disse a si prprio que o seu nico interesse era ver stela se mo dificara desde que viveram juntos. E, no entanto, confessou que havia outra razo. O lado teatral 
que havia nele tinha de estar presente para testemunhar o drama, para observar o rosto de Noelle quando o juiz lhe dissesse se ela ia viver ou morrer.
A voz metlica do piloto surgiu no altifalante para anunciar que aterrariam em Atenas dentro de trs minutos, e a excitao da expec-
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tativa de rever Noelle fez que Armand Gautier esquecesse o enjoo que sentia quando viajava de avio.
O Dr. Israel Katz viajava para Atenas vindo da Cidade do Cabo, onde era o neurocirurgio residente e chefe de equipa em Groote Schuur, um grande hospital de construo 
recente. Israel Katz era reconhecido como um dos principais neurocirurgies do mundo. As revistas mdicas publicavam abundantes descobertas de sua autoria. Entre 
os seus doentes contavam-se um primeiro-ministro, um presidente e um rei.
Recostou-se no assento do avio da BOAC, este homem de estatura mdia, rosto forte e inteligente, olhos castanhos e profundos e mos compridas, esguias e irrequietas. 
Como estava cansado, o Dr. Katz comeou a sentir a dor habitual numa perna direita inexistente, uma perna que lhe fora amputada seis anos antes por um gigante com 
um machado.
Fora um dia cheio. Fizera uma operao ainda o sol no tinha nascido, visitara meia dzia de doentes e depois sara de uma reunio da Administrao para apanhar 
o avio com destino a Atenas e assistir ao julgamento. A mulher, Esther, tentara dissuadi-lo.
- No h nada que possas fazer por ela agora, Israel. Talvez tivesse razo, mas Noelle Page arriscara certa vez a vida para salvar a dele, pelo que ficara em dvida 
para com ela. Pensou em Noelle e teve a mesma sensao indescritvel que sempre sentira quando estava a seu lado. Parecia que o simples facto de se lembrar dela 
bastava para dissipar os anos entretanto passados. Era naturalmente uma fantasia romntica. Nada poderia trazer de volta esses anos. O Dr. Israel Katz sentiu o avio 
estremecer quando baixou as rodas e iniciou a descida. Olhou pela janela, e, estendida sob o seu olhar, estava a cidade do Cairo, onde faria transbordo para um avio 
da TAE que o levaria a Atenas e a Noelle. Seria ela culpada de homi cdio? Quando o avio se fez  pista, pensou no outro homicdio me donho que ela cometera em 
Paris.
Philippe Sorel estava junto  amurada do seu iate observando a chegada ao porto de Pireu. Gostara da viagem por mar porque foi uma das raras oportunidades que teve 
para poder estar longe das admiradoras. Sorel era uma das poucas atraces capazes de garantir um
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xito de bilheteira, e no entanto as desvantagens contra a sua ascenso imparvel ao estrelato foram tremendas. No era um homem bonito. Pelo contrrio. tinha o 
rosto dum pugilista vencido na ltima dzia de combates, partira o nariz vrias vezes, tinha o cabelo ralo e coxeava ligeiramente. Nada disto importava, pois Philippe 
Sorel era sexualmente atraente. Era um homem culto e afvel, e a combinao da delicadeza inata com o rosto e o corpo de camionista deixava as mulheres frenticas 
e fazia dele um heri aos olhos dos outros homens. Agora,  medida que o iate se aproximava do porto, Sorel interrogava-se de novo sobre a razo da sua presena 
aqui. Adiara o incio das filmagens dum novo filme para assistir aojulgamento de Noelle. Estava bem consciente de que seria um alvo fcil para a imprensa mal se 
sentasse na sala de audincias diariamente, completamente desprotegido pelo seu pessoal de apoio. Os reprteres iriam decerto desvirtuar a sua presena, alegando 
que se tratava de umajogada para se aproveitar dojulgamento da ex-amante. Fosse qual fosse o prisma por que visse a questo, ia ser uma experincia agonizante, mas 
Sorel tinha de rever Noelle, tinha de saber se podia ajud-la de alguma forma. quando o iate deslizou para o quebra-mar de rochas brancas, pensou na Noelle que conhecera, 
com quem vivera e a quem amara, e chegou a uma concluso: Noelle era perfeitamente capaz de matar.
Ao mesmo tempo que o iate de Philippe Sorel se aproximava da costa da Grcia, o assistente especial do presidente dos Estados Unidos viajava num clipper da Pan America, 
uma centena de milhas areas a noroeste do Aeroporto de Hellenikon. William Fraser era um homem de 50 anos, grisalho e elegante, com um rosto spero e modos que 
impunham respeito. Fitava um documento que tinha na mo, mas havia mais de uma hora que no virava uma pgina nem se mexia. Fraser pedira uma licena para fazer 
esta viagem, apesar de a altura ser muito inconveniente, em plena crise do Congresso. Sabia como lhe seriam dolorosas as prximas semanas, e no entanto sentia que 
no podia fazer outra coisa seno estar presente. Era uma viagem de vingana, e a ideia encheu- de fria satisfao. Deliberadamente, afastou da ideia ojulgamento 
que comearia amanh e olhou para fora dajanela do avio. L em baixo viu um barco de turismo balanando em direco  Grcia, cuja costa se vislumbrava  distncia.
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Auguste Lanchon andava enjoado e aterrorizado havia trs dias. Enjoado porque o navio em que embarcara em Marselha fora apanhado na parte final dum mistral, e aterrorizado 
porque receava que a mulher descobrisse no que ele andava metido. Auguste Lanchon tinha sessenta e poucos anos, era um homem gordo e calvo com perninhas atarracadas 
e um rosto bexigoso, com olhos de porco e lbios finos que prendiam constantemente um charuto ordinrio. Lanchon era dono duma casa de modas em Marselha e no podia 
dar-se ao luxo - ou pelo menos era o que dizia constantemente  mulher - de tirar frias como os ricos. Obviamente, lembrou a si prprio, isto no eram frias no 
verdadeiro sentido da palavra. tinha de rever a sua querida Noelle. Desde que o deixara, Lanchon seguia avidamente a carreira dela nas colunas de mexericos, nos 
jornais e nas revistas. Quando fez a primeira pea, meteu-se no comboio para Paris s para ir v-la, mas a estpida da secretria de Noelle no o permitiu. Mais 
tarde, assistiu aos filmes de Noelle, vendo-os repetidamente e lembrando-se da forma como ela um dia fizera amor com ele. Sim, esta viagem sairia cara, mas Augusto 
Lanchon sabia que iria compensar todos os tostes gastos. A sua preciosa Noelle lembrar-se-ia dos bons tempos que passaram juntos e pediria a proteco dele. Subornaria 
um juiz ou outro funcionrio - se no fosse demasiado caro, e Noelle seria libertada, e ele dar-lhe-ia num pequeno apartamento em Marselha onde ela ficaria sempre 
 sua disposio.
Mas a mulher no poderia descobrir no que ele andava metido.
Na cidade de Atenas, Frederick Stavros trabalhava no seu minsculo escritrio de advogado no segundo andar dum velho edifcio em runas do bairro antigo de Monastiraki. 
Stavros era umjovem intenso, ansioso e ambicioso, que lutava para ganhar a vida com a profisso que escolhera. Porque no podia pagar a um ajudante, via-se forado 
a proceder sozinho a toda a entediante pesquisa da base legal dos processos. Por hbito, detestava esta fase do trabalho, mas desta vez no se importava porque sabia 
que se ganhasse este caso os seus servios seriam de tal forma requisitados que deixaria de ter preocupaes at ao fim da vida. Ele e Elena poderiam casar-se e 
constituir famlia. Mudar-se-ia para um escritrio luxuoso, empregaria escriturrios e tornar-se-ia membro dum clube elegante como o Lesky Ate- niense, onde se encontravam 
potenciais clientes endinheirados. A metamorfose j comeara. Todas as vezes que Frederick Stavros ca-
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minhava nas ruas de Atenas, era reconhecido e retido por algum que vira a sua fotografia no jornal. Em poucas semanas saltara do anonimato para ser conhecido como 
o advogado que ia defender Larry Douglas. No ntimo, Stavros admitia a si prprio que tinha o cliente enado. Teria preferido defender a deslumbrante Noelle Page 
em vez de uma nulidade como Larry Douglas, mas ele prprio tambm era uma nulidade. Bastava-lhe ser um participante importante no caso de homicdio mais sensacional 
do sculo. Se o acusado fosse absolvido, a glria chegaria para todos. Havia apenas uma coisa que atormentava Stavros, e em que pensava constantemente. Ambos os 
rus eram acusados do mesmo crime, mas Noelle Page ia ser defendida por outro advogado. Se Noelle Page fosse condenada... Stavros teve um arrepio e preferiu no 
pensar no assunto. Os jornalistas perguntavam-lhe a toda a hora se pensava que os rus eram culpados. Sorriu perante a ingenuidade. Que importava se eram culpados 
ou inocentes? tinham direito aos melhores advogados que o dinheiro podia comprar. No seu caso, admitiu que a descrio era um pouco forada. Mas no caso do advogado 
de Noelle Page... ah, isso j era outra coisa. Napoleon Chotas tinha direito a sua defesa, e no havia advogado criminal mais brilhante no mundo. Chotas nunca perdera 
um caso importante. Enquanto pensava nisso, Frederick Stavros sorriu. No teria confessado a ningum, mas planeava chegar  vitria atravs do talento de Napoleon 
Chotas.
Enquanto Frederick Stavros labutava no seu minsculo escritrio de advogado, Napoleon Chotas encontrava-se numa festa de gala numa casa luxuosa do bairro elegante 
de Kolanak em Atenas. Chotas era um homem magro de aspecto macilento, com os olhos grandes e tristes de um co de caa num rosto enrugado. Ocultava um crebro incisivo 
e brilhante atrs de uns modos brandos, vagamente atarantados. Entretido com a sobremesa, Chotas estava sentado, preocupado, a pensar nojulgamento que comearia 
amanh. A maior parte da conversa nessa tarde centrara-se  volta do julgamento que em breve se realizaria. A discusso fora genrica, pois os convidados eram demasiado 
discretos para lhe fazerem perguntas directas. Mas para o fim, quando o ouzo e o brande corriam mais livremente, a anfitri perguntou:
- Diga-nos, acha que eles so culpados?
Chotas respondeu inocentemente:
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- Como poderiam ser? Um deles  meu cliente. - Provocou uma gargalhada de apreo.
- Como  que Noelle Page  na realidade?
Chotas hesitou.
-  uma mulher muito fora do vulgar - respondeu cuidadosamente. - bela e talentosa... -Para sua surpresa, descobriu que ficou repentinamente relutante em falar 
dela. Alm disso, no havia palavras que pudessem descrever Noelle. At h alguns meses, ele tivera apenas uma vaga ideia dela como uma figura deslumbrante que surgia 
nas colunas dos mexericos e adornava as capas das revistas de cinema. Nunca a vira pessoalmente, e se alguma vez tivesse pensado nela fora com o tipo de desprezo 
indiferente que sentia por todas as actrizes. S corpo e sem crebro. Mas, Deus, como se enganara! Desde que conhecera Noelle apaixonara-se irremediavelmente por 
ela. Por causa de Noelle Page quebrara a sua regra fundamental: nunca se envolver emocionalmente com uma cliente. Chotas lembrava-se nitidamente da tarde em que 
fora sondado para aceitar a defesa de Noelle. Estava a fazer as malas para viajar com a mulher para Nova Iorque, onde a filha dera  luz o primeiro filho. Nada, 
acreditara, poderia t-lo impedido de fazer essa viagem. Mas s foram precisas duas palavras. Na imaginao, viu o mordomo entrar no quarto, entregar-lhe o telefone 
e dizer: Constantin Demiris.
 ilha s se chegava de helicptero e iate, e tanto o aerdromo como o porto privativo eram patrulhados vinte e quatro horas por dia por guardas armados com pastores-alemes 
treinados. A ilha era domnio privado de Constantin Demiris, e ningum entrava sem convite. Ao longo dos anos fizeram parte dos seus visitantes reis e rainhas, presidentes 
e ex-presidentes, estrelas de cinema, cantores de pera e famosos escritores e pintores. Todos partiam estupefactos. Constantin Demiris era o terceiro homem mais 
rico e um dos homens mais poderosos do mundo, tinha gosto e estilo e sabia como gastar o seu dinheiro na criao de beleza.
Demiris estava sentado na sua biblioteca ricamente guarnecida, descontrado numa poltrona funda, fumando um cigarro egpcio achatado especialmente fabricado para 
ele, pensando nojulgamento que comearia amanh de manh. A imprensa tentava entrevist-lo havia meses, mas ele tornara-se simplesmente indisponvel. J chegava 
que a amante fosse ajulgamento por homicdio, que o seu nome
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fosse arrastado para o caso, mesmo indirectamente. Recusava alimentar a agitao com uma entrevista. Gostava de saber o que sentia Noelle neste momento, na sua cela 
da Priso da Rua Nikodemous. Estaria a dormir? Acordada? Em pnico por causa da provao que se aproximava? Pensou na ltima conversa com Napoleon Chotas. Confiava 
em Chotas e sabia que o advogado no iria decepcion-lo. Demiris pagava-lhe para defend-la. No, no tinha razes para se preocupar. Ojulgamento seria um xito. 
Porque Constantin Demiris era um homem que nunca esquecia nada, lembrou- se que as flores preferidas de Catherine Douglas eram triantafylias, as belas rosas da Grcia. 
Estendeu o brao e pegou num bloco de notas de cima da secretria. Fez uma anotao: Triantafylias. Catherine Douglas.
Era o mnimo que podia fazer por ela.
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LIv RO
PRIMEIRO
CATHERINE
Chicago: 1919-1939
Todas as grandes cidades tm uma imagem distintiva, uma personalidade que Lhes d um cunho prprio e especial. Chicago, nos anos 20, era uma cidade gigantesca, irrequieta 
e dinmica, rude e sem maneiras, presa ainda  era implacvel dos maganates que participaram na sua fundao: William B. Ogden e John Wentworth, Cyrus McCormck 
e George M. Pullman. Era um reno que pertencia aos Philip Armour e Gustavus Swift e aos Marshall Field. Era o domnio de bandidos profissionais e audaciosos como 
Hymie Weiss e Scarface A1 Capone.
Catherine Alexander ainda se lembrava de quando o pai a levava a um bar que tinha um soalho coberto de serradura e a empoleirava num banco vertiginosamente alto. 
Pedia um copo enorme de cerveja para ele e uma Green River para ela. Ela tinha ento 5 anos, e lembrava-se do orgulho do pai quando os estranhos a cercavam em grande 
nmero para a admirar. Todos os homens pediam bebidas, e era o pai quem as pagava. Recordava-se que passava o tempo a encostar-se ao brao do pai para ter a certeza 
de que ele no se tinha ido embora. regressara a casa apenas a noite passada, e Catherine sabia que em breve partiria outra vez. Era caixeiro-viajante, e explicara-Lhe 
que por causa do trabalho tinha de ir para cidades distantes e ficar longe dela e da me meses e meses seguidos para poder trazer presents bonitos no regresso. Catherine 
tentara desesperadamente fazer um acordo com ele. Se no se fosse embora, ela no queria mais presentes. O pai rira-se e elogiara a sua precocidade, partindo para 
s regressar seis meses depois. Durante esses primeiros anos a me, a quem ela via todos os dias, parecia-Lhe uma figura obscura e amor-
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fa, enquanto o pai, que via s em breves ocasies, era um ser alegre e maravilhosamente ntido. Catherine lembrava-se dele como um homem elegante e risonho, cheio 
de humor espirituoso e gestos sinceros e generosos. Quando chegava a casa, a hora era de frias, plena de festas, presentes e surpresas.
Quando Catherine tinha 7 anos, o pai foi despedido, e a vida tomou novo rumo. Mudaram-se para Gary, no Estado de Indiana, onde arranjou emprego como empregado de 
balco numajoalharia. Catherine matriculou-se na escola primria. tinha um relacionamento circunspecto e distante com as outras crianas e tinha pavor dos professores, 
que erradamente viam a sua reserva solitria como vaidade. O paijantava em casa todas as noites, e pela primeira vez na vida Catherine sentiu que eram uma famlia 
a srio, como as outras famlias. Ao domingo os trs iam at Miller Beach e alugavam cavalos, que montavam durante uma hora ou duas ao longo das dunas de areia. 
Catherine gostava de viver em Gary, mas, seis meses aps a mudana, o pai ficou novamente desempregado e mudaram- se para Harvey, um subrbio de Chicago. As aulasj 
se haviam iniciado, e Catherine era a nova aluna da turma, isolada das amizades que entretanto se formaram. Ficou conhecida como uma criana solitria. Os colegas, 
protegidos na segurana dos seus prprios grupos, aproximavam- se da recm-chegada em grupo e ridicularizavam-na cruelmente.
Durante os anos que se seguiram Catherine vestiu uma armadura de indiferena, que usava como escudo contra os ataques das outras crianas. Quando a armadura era 
trespassada, contra-atacava com um esprito mordaz e custico. Era sua inteno alhear-se dos seus atormentadores, de modo a que a deixassem sozinha, mas a coisa 
teve um efeito inesperadamente diferente. Colaborava com ojornal da escola, e na primeira crtica que fez sobre um sarau musical organizado pelos colegas escreveu: 
Tommy Belden fez um solo com trompete no segundo acto, mas executou a msica. A frase foi amplamente citada, e - surpresa das surpresas - Tommy Belden veio ter  
com ela no trio e disse-Lhe que achara piada.
O professor de Ingls mandou os alunos ler O Capit. o Horco Corneteiro. Catherine detestou. A anlise da leitura s tinha uma frase: e Quem l este livro fica 
a ver navios, e o professor, que era um marinheiro de fim de-semana, deu-Lhe um vinte. Os colegas comearam a citar as suas observaes e pouco tempo depois era 
conhecida como a espirituosa da escola. Nesse ano Catherine fez 14 anos, e o corpo comeou a mostrar promessas da mulher que amadurecia. Costu-
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mava mirar se ao espelho horas a fio, matutando na forma de alterar a desgraa que via. Por dentro era uma Myrna Loy, que enlouquecia os homens, mas o espelho - 
seu inimigo figadal - reflectia uns cabelos irremediavelmente emaranhados e rebeldes, uns olhos cinzentos e solenes, uma boca em constante crescimento e um nariz 
ligeiramente arrebitado. Talvez no fosse realmente feia, disse a si prpria cautelosamente, mas por outro lado ningum arrombaria uma porta para fazer dela uma 
actriz. Chupando as faces e semicerrando os olhos sedutoramente tentou imaginar- se um modelo. Foi deprimente. Fez outra pose. Olhos arregalados, expresso ansiosa, 
um sorriso grande e afvel. No adiantou. Tambm no era do gnero tipicamente americano. No era nada. O corpo no ia ser problema, sups melancolicamente, mas 
nada de especial. E isso, obviamente, era o que mais queria no mundo: ser qualquer coisa de especial, ser algum, ser lembrada, e nunca, nunca, nunca, nunca morrer. 
No Vero em que fez 15 anos, veio sem querer parar s mos de Catherine um exemplar de Cincia e Sade, da autoria de Mary Baker Eddy, e nas duas semanas seguintes 
passou uma hora por dia  frente do espelho, desejando que a sua imagem ficasse bela. Ao fim desse tempo, a nica alterao que conseguiu detectar foi uma nova marca 
de acne no queixo e uma espinha cutnea na testa. Ps de lado os doces, Mary Baker Eddy e o espelho. Catherine e a familia voltaram a mudar-se para Chicago e instalaram-se 
num apartamentozinho sombrio e de renda barata em ftogers Park. O pas afundava-se cada vez mais numa depresso econmica. O pai de Catherine trabalhava menos e 
bebia mais, e ele e a me recriminavam- se mutuamente, o que levava Catherine a sair de casa. Ia at  praia, situada a meia dzia de quarteires, e caminhava pela 
areia, deixando que o vento agreste desse
ao seu corpo magro. Contemplava durante longas horas o lago cinzento e agitado, com uma ansiedade desesperada inexplicvel. Era tal o seu desejo que por vezes a 
devorava numa vaga repentina de dor insuportvel.
Descobrira Thomas Wolfe, e os seus livros foram como a imagem reflectida duma nostalgia agridoce que a preenchia, mas era uma nostalgia de algo que ainda no acontecera, 
como se algures, outrora, tivesse vivido uma vida maravilhosa e estivesse inquieta por voltar aviv-la. Viera-lhe a menstruao, e, embora fisicamente estivesse 
a tornar-se mulher, sabia que essa carncia dolorosa que sentia - as necessidades e as ansiedades que a devoravam - no era fsica e nada tinha a ver com sexo. Era 
uma ansiedade feroz e urgente de ser desconhecida, de elevar-se acima dos bilies de pessoas que proliferavam na Terra, para que todos soubessem quem ela era e, 
quando passassem por ela, dissessem: Ali vai Catherine Alexander, a grande... A grande qu ? Era a que residia o problema. No sabia o que queria, apenas que sofria 
desesperadamente para isso alcanar. Aos sbados  tarde, sempre que o dinheiro chegava, ia ao State and Lake Theatre, ao McVickers ou ao Chicago para ver um filme. 
Perdia-se completamente no mundo sofisticado e maravilhoso de Cary Grant e Jean Arthur, ria-se com Wallace Beery e Marie Dressler e agonizava com as desgraas romnticas 
de Bette Davis. Sentia-se mais prxima de Irene Dunne do que da me.
Catherine estava no ltimo ano do liceu, e o seu arquinimigo, o espelho, tornara-se finalmente um amigo. A rapariga do espelho tinha um rosto interessante e vivo. 
Os cabelos eram de um negro retinto e a pele era alva e macia. As feies eram regulares e finas, com uma boca sensvel e generosa e uns olhos cinzentos inteligentes. 
tinha uma figura bonita com peitos firmes e bem desenvolvidos, ancas delicadamente curvas e pernas bem torneadas. Havia um ar de altivez na sua imagem, uma arrogncia 
que Catherine no sentia, como se a sua imagem possusse uma caracterstica que ela no tinha. Supunha  que fazia parte da carapaa protectora que usava desde a 
escola primria.
A Depresso trazia a nao presa num torno cada vez mais apertado, e o pai de Catherine estava incessantemente envolvido em grandes planos que nunca chegavam a materializar-se. 
Estava sempre a desfiar sonhos, a inventar coisas que iam faz-lo ganhar milhes de dlares. Inventou um conjunto de macacos que se encaixavam sobra as rodas dum 
automvel e que se podiam baixar carregando nunm boto do tablier. Nenhum fabricante de automveis se mostrou interessado. Concebeu um painel elctrico rotativo 
para suporte de anncios no interior das lojas. Houve uma breve agitao de reunies optimistas, mas a ideia acabou por morrer. Pediu dinheiro emprestado ao irmo 
mais novo, Ralph, que vivia em Omaha, para equipar uma carrinha- sapataria que percorreria a vizinhana. Passou horas a falar no assunto com Catherine e com a me.
- No pode falhar - explicou. - Imaginem o sapateiro vir  vossa porta!  a primeira vez que se faz uma coisa dessas. Eu agora tenho  l fora um sapatomvel, no 
 verdade? Basta fazer vinte dlares
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dia, o que d cento e vinte dlares por semana. Duas carrinhas faro duzentos e quarenta por semana. Cento e vinte e cinco mil por ano. E isso  apenas o comeo... 
- Dois meses depois, o sapateiro e a carrinha desapareceram, e foi o fim de mais um sonho.
Catherine esperava poder ingressar na Universidade de Northwestern. Era a melhor aluna da turma, mas mesmo com uma bolsa de estudo ser-lhe-ia difcil prosseguir 
os estudos, e mais tarde ou mais cedo ia chegar o dia, Catherine sabia-o, em que teria de deixar de estudar para trabalhar a tempo inteiro. Empregar-se-ia como secretria, 
mas estava determinada a nunca renunciar ao sonho que ia enriquecer maravilhosamente a sua vida; e o facto de desconhecer quer o contedo quer o significado do sonho 
tornava tudo mais insuportavelmente triste e ftil. Pensou que estava provavelmente a atravessar a fase da adolescncia. Fosse o que fosse, era um inferno. As crianas 
so novas de mais para terem de passar pela adolescnciaa, pensou amargamente. Havia dois rapazes que pensavam estar apaixonados por Catherine. Um era Tony Korman, 
que iria trabalhar no escritrio de advogacia do pai e que era trinta centmetros mais baixo do que Catherine. tinha a pele oleosa e uns olhos mopes e aguados que 
a adoravam. O outro chamava-se Dean McDermott, e era gordo e tmido e queria ser dentista. Mas, como no podia deixar de ser, havia ton Peterson, que era um caso 
 parte. Ron era a estrela de futebol do Liceu de Senn, e todos diziam que o seu ingresso na faculdade com uma bolsa de estudo do atltica eram favas contadas. Era 
alto e espadado, tinha o ar de dolo de filme de matin e era, sem favor, o aluno mais popular da escola.
A nica coisa que impedia o compromisso imediato de Catherine com Ron era o facto de ele ignorar por completo a sua existncia. Sempre que se cruzavam no corredor 
da escola, o corao dela comeava a bater descontroladamente. Pensava em algo inteligente e provocador para lhe dizer, a fim de que lhe pedisse para sair. Mas quando 
se aproximava a lngua emperrava, e eles cruzavam-se em silncio. Como o Queen Mary e uma barcaa de lixo, pensou Catherine sem esperana.
O problema financeiro agudizava-se. A renda estava com trs meses de atraso, e s no foram despejados porque a senhoria se deixou encantar pelo pai de Catherine 
com os seus planos e invenes grandiosos. Ao ouvi-lo Catherine ficava repleta de uma tristeza pungente. Era ainda uma pessoa alegre e optimista, mas ela via alm 
da fachada desgastada. O encanto maravilhoso e descuidado que sempre cobrira de alegria tudo o que fazia tinha desaparecido. Catherine via nele um rapazinho num 
corpo dum homem de meia-idade, desfiando contos do futuro glorioso para esconder os falhanos esfarrapados do passado. Por mais que uma vez, vira-o oferecer um jantar 
a uma dzia de convidados no Henrici e depois alegremente chamar um deles  parte e pedr-lhe emprestado o suficiente para pagar a conta e dar uma gorjeta generosa, 
obviamente. Sempre generosa, pois tinha de manter a reputao. Apesar de tudo isto e do facto de Catherine saber que fora, em relao a ela, um pai despreocupado 
e indiferente, adorava este homem. Amava o entusiasmo e a energia sorridente que possua num mundo de pessoas tristonhas e mal-encaradas. Era o dom que tinha e com 
o qual fora sempre generoso.
No fundo, Catherine pensou, o pai, com os seus sonhos maravilhosos que nunca se concretizariam, era mais feliz do que a me, que tinha medo de sonhar.
Em Abril a me de Catherine morreu de um ataque cardaco. Foi a primeira confrontao de Catherine com a morte. Amigos e vizinhos acorreram em grande nmero ao pequeno 
apartamento, apresentando psames, com as falsas piedades murmuradas a tragdia invocada.
A morte reduzira a me de Catherine a uma mulherzinha mirrada sem seiva ou vitalidade, ou talvez tivesse sido a vida que a transformara nisso, pensou Catherine. 
Tentou lembrar- se de recordaes que ela e a me tivessem partilhado, momentos de boa disposio que tivessem tido juntas, ocasies em que os seus coraes se tivessem 
encontrado; mas era o pai que lhe surgia constantemente na ideia, sorridente, ansioso e alegre. Era como se a vida da me fosse uma sombra plida que se recolhia 
perante a luz da memria. Catherine ( fixou o olhar na figura cercea da me deitada no caixo, num vestido preto simples de gola branca, e pensou no desperdcio 
que fora aquela vida. Para que servira? Os sentimentos que Catherine vivera h uns anos voltaram de novo: a determinao em ser algum, deixar uma marca no mundo, 
para que no acabasse numa sepultura annima, ignorada pelo mundo que nem soubera que Catherine Alexander vivera, morrera e regressara  terra.
Os tios de Catherine, Ralph e Pauline, chegaram no avio de Oma- ha para assistir ao funeral. Ralph era dez anos mais novo do que o pai de Catherine e totalmente 
o oposto do irmo. Dedicava-se, com muito xito, ao comrcio de vitaminas pelo correio. Era um homem grande e encorpado, de ombros quadrados, maxilares quadrados, 
queixo quadrado e, Catherine estava certa, esprito igualmente quadrado. A mulher era um passarinho, cheia de tremeliques e chilreios. Eram boas pessoas, e Catherine 
sabia que o tio emprestara muito dinheiro ao irmo, mas Catherine sentia que ela nada tinha em comum com eles. Tal como a me de Catherine, eram pessoas sem sonhos.
Aps o funeral, o tio Ralph disse que queria falar com Catherine e com o pai. Sentaram-se na minscula sala dejantar do apartamento, enquanto Pauline saltitava pela 
sala com bandejas de caf e biscoitos.
- Sei que em termos de dinheiro as coisas no te tm corrido bem
- disse o tio Ralph ao irmo. - s um sonhador, sempre foste. Mas s meu irmo. No te posso deixar ir ao fundo. Eu e Pauline estivemos a falar sobre o assunto. 
Quero que venhas trabalhar comigo.
- Em Omaha?
- Vais estabilizar a tua vida, e vocs podem viver connosco. Temos uma casa enorme.
O corao de Catherine desfaleceu. Omaha! Era o fim de todos os sonhos.
- Deixa-me pensar no assunto - dizia o pai.
- Nsvamos apanhar o comboio das seis horas-respondeu o tio.
- Digam qualquer coisa antes de partirmos.
Quando Catherine e o pai ficaram a ss, ele resmungou:
- Omaha! Aposto que nem sequer h l uma barbearia decente! Mas Catherine sabia que o pai estava a representar. Com ou sem barbeiro decente, no tinha outra soluo. 
A vida acabara por apanh-lo. Ela s queria saber como reagiria espiritualmente  ideia de ter um emprego fixo e montono com um horrio regular. Seria como um pssaro 
selvagem batendo as asas contra a gaiola, morrendo no cativeiro. Quanto a ela, teria de pr de lado a ideia de ir para a Universidade de Northwestern. Candidatara-se 
a uma bolsa de estudo, mas no tivera resposta. Nessa tarde o pai telefonou ao irmo para dizer que aceitava o emprego. Na manh seguinte, Catherine foi ver o reitor 
com a ideia de o informar da transferncia para uma escola de Omaha. Ele estava de p atrs da secretria e, antes que ela falasse, disse:
- Parabns, Catherine. Conseguiste uma bolsa de estudo completa para a Universidade de Northwestern.
Catherine e o pai discutiram a fundo o assunto nessa noite, e no fim ficou decidido que ele iria para Omaha e Catherine iria para a Faculdade
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 e viveria nas. camaratas universitrias. E por isso, dez dias depois, Catherine acompanhou o pai  estao da Rua de La Salle para se despedir dele. Uma sensao 
profunda de solido apoderou -se de si por v-lo partir, uma tristeza em dizer adeus  pessoa que mais amava; e, no entanto, estava ansiosa pela partida do comboio, 
tomada pela excitao deliciosa da ideia de poder ficar livre, vivendo a sua prpria vida pela primeira vez. Ficou no cais a ver o rosto do pai que se assomara  
janela para a ver pela ltima vez; um homem andrajosamente elegante com a crena sincera de que um dia seria senhor do mundo.
No regresso da estao Catherine lembrou-se de uma coisa e riu -se em voz alta. Para lev-lo at Omaha, para um emprego de que desesperadamente precisava, o pai 
reservara um compartimento privado.
O dia da matrcula em Northwestern era uma excitao quase insuportvel. Para Catherine teve um significado especial que no conseguia exprimir por palavras: era 
a chave que abriria a porta para todos os sonhos e ambies inominveis que ardiam ferozmente dentro de si havia muito tempo. Percorreu o olhar pelo enorme trio 
onde centenas de estudantes faziam bicha para a inscrio e pensou: Um dia todos vocs ho-de saber quem eu sou e dizer: Andei na escola com Catherine Alexander. 
Inscreveu-se no maior nmero possvel de cursos e atriburam-lhe uma camarata. Nessa mesma manh arranjou um emprego a trabalhar  tarde como caixa no Roost, um 
bar popular de sanduches e cerveja que ficava em frente  universidade. O ordenado era de quinze dlarespor semana, e, embora omesmo no lhe consentisse luxos, 
daria para os livros e necessidades bsicas.
A meio do segundo ano Catherine chegou  concluso de que devia ser a nica virgem em toda a universidade. Durante a sua fase de crescimento, ouvira por acaso fragmentos 
espordicos de conversas quando as mais velhas falavam de sexo. Parecia que era maravilhoso, e o seu maior receio era de que isso no acontecesse na altura e que 
ela pudesse desfrut-lo. Parecia que acertara. Pelo menos no que a ela dizia respeito. O sexo parecia ser o nico tema de conversa na escola. Falava-se dele nas 
camaratas, nas salas de aula, nas casas de banho e no Roost. Catherine ficava chocada pela frontalidade das conversas.
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- Jerry  incrvel. Parece o King Kong.
- Ests a falar da pila ou do crebro dele?
- Ele no precisa de crebro, rica. Foram seis vezes ontem  noite.
- J saste com Ernie Robbins?  pequenote, mas  possante.
- Alex pediu-me que eu sasse com ele hoje  noite. Qual  o fenmeno em relao a ele?
- Ele prprio. No te metas com ele. Levou-me para a praia a semana passada. Baixou-me as cuecas e comeou a apalpar-me, e eu comecei a apalp-lo, mas no encontrei 
nada. - Risos.
Catherine achava as conversas ordinrias e nojentas e tentava no perder uma palavra. Era um exerccio de masochismo. Enquanto as raparigas descreviam as suas exploraes 
sexuais, Catherine imaginava-se na cama com um rapaz, em frentico acto sexual. Sentia uma dor fsica no ventre e premia os punhos com fora contra as coxas, tentando 
magoar-se, para tirar a outra dor do pensamento. Meu Deus, pensou ela, vou morrer virgem. A nica virgem de 19 anos de Northwestern. Northwestern, uma ova, talvez 
at em toda a Amrica! A Virgem Catherine A Igreja vai beatificar-me e as pessoas vo acender-me velas uma vez por ano. que se passa comigo? " pensou ela. Eu respondo, 
disse ela a si prpria. Ningum te pediu e so precisas duas pessoas. Isto , para fazeres como deve ser, so precisas duas pessoas. O nome que mais frequentemente 
surgia nas conversas sexuais era o de Ron Peterson. Ele matriculara-se em Northwestern com uma bolsa de estudo atltica e era to popular aqui quanto no Liceu de 
Senn. Fora eleito presidente dos caloiros. Catherine viu- na aula de Latim no dia em que o perodo comeou, estava com mais corpo e o rosto assumira uma maturidade 
viril. Depois daaula, dirigiu-se a Catherine, e o corao dela comeou a bater com fora.
- Catherine!
- Ol, Ron.
- Ests nesta turma?
- Estou.
- que sorte a minha.
- Porqu?
- Porqu? Porque no sei nada de Latim e tu s um gnio. Vamos ser bons amigos. Tens que fazer hoje  noite?
- Nada de especial. Vamos estudarjuntos?
- Vamos at  praia, onde poderemos estar sozinhos. Podemos estudar noutra altura.
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Ele olhava fixamente para ela.
- Eh!... ah... ? -Tentando lembrar-se do nome dela. Engoliu em seco, tentando ela prpria desesperadamente lembrar-se. - Catherine - disse depressa. - Catherine 
Alexander.
- Ah, pois. Que tal a escola? Uma maravilha, no ? Ela tentou pr um tom de ansiedade na voz para lhe agradar, concordar com ele, cortej-lo.
- Pois  - entusiasmou-se ela -,  a mais...
Ele estava a olhar para uma loira estonteante que o aguardava  porta.
- At um dia destes - disse ele, e afastou-se para ir ter com a rapariga.
eE assim terminou a histria da Gata Borralheira e do Principe Encantado, pensou ela. Viveram felizes para sempre, ele no seu harm e ela numa caverna ventosa do 
bete.
De vez em quando Catherine via Ron a passear na universidade, sempre com uma rapariga diferente e por vezes duas ou trs. Meu Deus, ser que ele no se cansa? interrogou-se 
ela. Ainda pensou que ele um dia lhe pediria ajuda em Latim, mas ele nunca mais lhe falou.
 noite, sozinha na cama, pensava em todas as outras raparigas a terem relaes sexuais com os namorados, e o rapaz que lhe vinha sempre ao pensamento era Ron Peterson. 
Imaginava a despi-la depois ela despia-o lentamente, como nos livros romnticos, tirando
- lhe a camisa e passando os dedos suavemente sobre o peito dele depois desapertava-lhe as calas e baixava-lhe as cuecas. Ele levantava-a e levava-a para a cama. 
Nessa altura o sentido cmico Catherine levaria a melhor sobre ela e ele daria um mau jeito nas costas e cairia no cho, lamentando-se e gemendo de dor.
- Idiota - dizia ela a si prpria -, nem nas tuas fantasias consegues fazer como deve ser.
Talvez devesse ir para freira. Gostava de saber se as freiras tinham fantasias sexuais e se era pecado masturbarem-se. Gostaria  de saber se os padres tinham relaes 
sexuais.
Estava sentada num ptio fresco com rvores de sombra numa velha e encantadora abadia nos arredores de Roma, passando os dedos na gua aquecida pelo sol do que fora 
um lago de peixes. O porto abriu-se, e um padre alto entrou no ptio. trazia um chapu de 
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aba larga e uma longa batina preta e parecia-se mesmo com Ron Peterson.
- Ah, scusi, signorina - murmurou ele -, eu no sabia que tinha uma visita.
Catherine ps-se de p rapidamente.
- Eu no devia estar aqui - desculpou-se ela. - Isto era to bonito no resisti a sentar-me e desfrutar esta beleza.
H muito bem-vinda. -Aproximou-se dela, os olhos escuros e ardentes. -Mia cara... eu menti-lhe.
- Sim. - Os olhos dele perfuravam os seus. - Eu sabia que voc estava aqui, porque eu a segui.
Ela sentiu um frmito invadi-la.
- Mas... o senhor  padre.
-Bella signorina, primeiro sou homem e depois padre. -Avanou num passo cambaleante para tom-la nos braos, mas tropeou na bainha da batina e caiu no lago.
Porra!
Ron Peterson vinha ao Roost todos os dias depois das aulas e sentava-se num lugar da mesa do fundo, que logo se enchia de amigos e  tornava-se o centro de gabarolices. 
Catherine ficava atrs do balco perto da caixa registadora e, quando Ron entrava, dava-lhe um sinal distante e agradvel com a cabea e seguia em frente. Nunca 
se lhe dirigia pelo nome. J no se lembra, meditava Catherine.
Mas todos os dias  chegada ela dava-lhe um grande sorriso, esperando que a cumprimentasse, lhe pedisse para sair, um copo de gua, a virgindade, qualquer coisa. 
Ela no era mais que um mvel. Examinando as raparigas do quarto com objectividade total, concluiu que era mais bonita do que todas menos uma, a belssima Jean-Anne, 
a loira sulista que era muitas vezes vista com Ralph e que valia por todas juntas. que havia ento de errado com ela, em nome de Deus? Por que  que nenhum rapaz 
saa com ela? Soube a resposta no dia seguinte.
Ia cheia de pressa pelo lado sul para o Roost quando viu Jean-Anne e uma morena que no conhecia atravessarem o relvado na sua direco.
- Olha, l vai a Sabichona - disse Jean-Anne.
E a Mamuda, pensou Catherine com inveja.
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Em voz alta disse: - Isso foi um gracejo de literatura mortfero, no foi? - No sejas condescendente - disse Jean-Anne friamente. - sabes o suficiente para dar 
o curso de Literatura. E isso no  tudo o que sabes, pois no, rica?
Algo no seu tom fez Catherine corar.
- No... no entendo.
- Deixa-a em paz - disse a morena.
- Por que havia de deixar? - disse Jean-Anne. - Quem  que ela pensa que ? -Virou-se para Catherine. - Queres saber o que dizem de ti?
eu, no.
- Quero.
- Que s uma fufa.
Catherine olhava para ela, incredulamente.
- Sou uma qu?
- Uma lsbica, rica. No enganas ningum com esse teu ar de santinha.
- Isso  ridculo - Catherine balbuciou.
- Julgavas que podias enganar as pessoas? - perguntou JeanAnne. - S te falta andares com um cartaz.
- Mas eu nunca...
- Os rapazes bem andam atrs de ti, mas tu no lhes ds hiptese.
- Eu realmente... - Catherine falava sem pensar.
- Vai bugiar - disse Jean-Anne. - No s das nossas. Afastaram-se, deixando-a ali a olh-las inquiridoramente. Nessa noite, Catherine estava deitada na cama, sem 
conseguir dormir.
- Que idade tem, Catherine?
- Dezanove.
- J teve relaes com um homem?
- Nunca.
- gosta de homens?
- Gostamos todas, no?
- J desejou ter relaes com uma mulher?
Catherine pensou no assunto demorada e seriamente. Sentira-se atrada por outras raparigas, professoras, mas isso fizera parte do crescimento. Ps-se a pensar que 
estava a fazer amor com uma mulher, os corpos entrelaados, os lbios nos lbios da outra mulher, seu corpo a ser acariciado por mos femininas e macias. Estremece
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No!
Em voz alta disse:
- Sou normal. - Ento por que estava ali? Por que no sara para ter relaes sexuais como qualquer outra pessoa? Talvez fosse frgida. Talvez precisasse de submeter 
se a uma operao. A uma lobotomia, provavelmente.
Quando o cu a oriente comeou a clarear no exterior dajanela da camarata, os olhos de Catherine estavam ainda abertos, mas ela tomara uma deciso. Ia perder a virgindade. 
E o felizardo ia ser o companheiro de cama de todas as raparigas solteiras: Ron Peterson.
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NOELLE
Marselha-Paris: 1919-1939
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Nasceu princesa real.
A recordao mais antiga que tinha era um bero branco coberto por um dossel de renda, decorado com laos cor- de-rosa e cheio de bonecos de peluches macios, belas 
bonecas e rocas de ouro. Depressa aprendeu que, se abrisse a boca e soltasse um choro, algum se apre saria a dar-lhe colo e mimos. Depois dos seis meses o pai costumava 
lev-la, no carrinho, at aojardim e deixava-a tocar nas flores e dizia
- So lindas, Princesa, mas tu s mais bonita que todas elas. Em casa gostava que o pai lhe pegasse com os seus braos fortes e a levasse at janela, donde via 
os telhados e os prdios altos, e e dizia:
- Aquele  o teu reino, Princesa. - Apontava para os mastros  dos navios que balanavam fundeados na baa.
- Ests a ver aqueles barcos grandes? Um dia sero todos teus.  Vinham visitantes ao castelo para v-la, mas apenas os especiais podiam pegar-lhe ao colo. Os outros 
olhavam para ela, deitada no bero, e faziam exclamaes sobre as suas feies inacreditavelmente delicadas, os seus belos cabelos loiros, a sua pele macia,  e o 
pai dizia com orgulho:
- Mesmo quem no saiba de quem se trata dir que  uma princesa! -E inclinava-se sobre o bero e sussurrava: -Um dia um prncipe vir buscar-te. - E com ternura 
aconchegava-lhe o cobertor quente e cor-de-rosa, e ela deixava-se levar num sono de contentamento. Todo o seu mundo era um sonho cor-de-rosa de  mastros altos e 
castelos, e s aos 5 anos se deu conta de que era dum vendedor de peixe de Marselha, e que os castelos que via da
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janela do pequeno sto mais no eram que os armazns que rodeavam
o ftido mercado de peixe onde o pai trabalhava, e que a sua armada
se resumia a uma frota de velhos barcos de pesca que saam todas as
madrugadas de Marselha e regressavam ao princpio da tarde para
despejar a carga malcheirosa nas docas da zona porturia.
Este era o reino de Noelle Page.
Os amigos do pai de Noelle costumavam chamar-Lhe a ateno
para o que ele estava a fazer.
- No lhe deves meter essas fantasias na cabea, Jacques. Ainda acaba por pensar que  superior aos outros.
E estas profecias tornaram-se realidade.
Exteriormente, Marselha era uma cidade de violncia, do tipo de
violncia primria gerada em qualquer cidade porturia, repleta de
marinheiros esfaimados, com dinheiro para gastar, e predadores
astutos que sabem aproveitar-se. Mas, ao contrrio dos restantes
franceses, a populao de Marselha possui um esprito de solidariedade resultante da luta em comum pela sobrevivncia, pois a alma da
cidade vem do mar, e os pescadores de Marselha pertencem  familia
 de pescadores de todo o mundo. Partilham de igual modo, quer no
 mau tempo quer na bonana, as desgraas inesperadas e as safras
a abundantes.
 Era por isso que os vizinhos de Jacques Page se regozijavam com
a sorte de ele ter uma filha to maravilhosa.
e Tambm eles reconheciam o milagre de como, no meio da imundcie
e duma cidade torpe e suja, nascera uma verdadeira princesa. 
Os pais de Noelle no conseguiam refazer-se da maravilha da
 beleza delicada da filha. A me de Noelle era uma mulher pesada, de
feies grosseiras e rsticas, com seios cados e coxas e ancas grossas.
 O pai de Noelle era atarracado, de ombros largos e olhinhos desconfiados de breto. O cabelo era da cor da areia molhada das praias da
 Normandia. De incio parecera-lhe que a natureza cometera um erro, 
 que esta delicada criatura loira no podia realmente pertencer-lhe 
a ele e  sua mulher, e que, quando Noelle crescesse, se tornaria uma
rapariga vulgar e sem graa como as filhas dos amigos. Mas o milagre erescia e desabrochava, e Noelle era cada vez mais bela.
  A me de Noelle no ficou to admirada como o marido pelo aparecimento de uma beleza de cabelos dourados na familia.
 Nove meses antes do nascimento de Noelle, a me conhecera um
 rubusto marinheiro noruegus, desembarcado num cargueiro. Era
  um deus vquingue gigantesco, de cabelos loiros e com um sorriso
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largo, afvel e sedutor. Enquanto Jacques estava no trabalho, o marinheiro passara um quarto de hora activo na cama dela, no minsculo apartamento.
A me de Noelle ficara cheia de medo quando viu que a filha era to loira e to bonita. Andou apavorada,  espera do momento em que o marido lhe apontasse um dedo 
acusador e exigisse a identidade do verdadeiro pai. Mas, por incrvel que fosse, uma nsia de vaidade deve t-lo levado a aceitar a criana como sua.
- Deve ter herdado algum sangue escandinavo da minha familia
- gabava-se ele aos amigos -, mas v-se que  a minha cara. A mulher ouvia, acenando com a cabea, e pensava como os homens eram tolos.
Noelle adorava estar na companhia do pai. Adorava a sua alegria desastrada e os cheiros estranhos e insistentes que trazia sempre consigo, e ao mesmo tempo sentia-se 
aterrorizada pela sua brutalidade. Arregalava os olhos quando o via gritar com a me e bater-lhe violentamente no rosto, com as veias do pescoo salientes pela raiva. 
A me gritava de dor, mas havia qualquer coisa mais alm de dor nos seus gritos, algo de animalesco e sexual, e Noelle estremecia de cimes e desejava poder estar 
no lugar da me.
Mas o pai era sempre meigo com ela. Gostava de lev-la at s docas e mostr-la aos homens rudes e grosseiros com quem trabalhava. Todos na doca a tratavam por Princesa, 
o que a deixava orgulhosa, tanto pelo pai como por si prpria.
queria agradar ao pai, e porque comer era uma coisa que ele adorava Noelle comeou a cozinhar para ele, preparando-lhe os pratos preferidos, afastando, aos poucos, 
a me da cozinha.
Aos 17 anos, a promessa da beleza inicial de Noelle estava mais do que cumprida. transformara-se numa mulher belssima. tinha feies finas e delicadas, olhos de 
um violeta-vivo e cabelos macios de um louro- cinza. A pele era fresca e dourada como se tivesse sido embebida em mel. tinha uma figura espantosa, com seios jovens, 
fartos e firmes, e uma cintura fina, anca estreita e pernas compridas e bem torneadas, com tornozelos delicados. A voz era bem timbrada, doce e macia. Havia uma 
sensualidade forte e ardente em Noelle, mas essa no era a sua magia. A sua magia residia no facto de, sob aquela sensualidade, parecer haver uma ilha de inocncia 
intocada, e o resultado era irresistvel. No descia uma rua sem que recebesse proposta dos transeuntes. No eram as ofertas casuais que as prostitutas de Marselha 
recebiam como pagamento dirio, pois, mesmo os homens
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mais obtusos, se apercebiam de que Noelle tinha algo de especial, algo indito e nico, e cada um deles pagaria o que fosse preciso para ser dono disso, por muito 
fugazmente que fosse.
O pai de Noelle tambm no ignorava a beleza da filha. De facto, o pensamento de Jacques Page ia um pouco mais longe. Via o interesse que Noelle provocava nos homens. 
Embora nem ele nem a mulher tivessem falado de sexo com Noelle, tinha a certeza de que ela era ainda virgem, um pequeno capital feminino. A sua mente perspicaz e 
rstica considerou, longa e seriamente, a melhor forma de usufruir da sorte que a natureza inesperadamente lhe concedera. A sua misso era garantir que a beleza 
da filha revertesse o mais generosamente possvel a favor de Noelle e de si prprio. Afinal de contas, fora ele que a gerara, alimentara, vestira, instrura - ela 
devia-lhe tudo. E agora era chegada a hora da recompensa. Se conseguisse torn-la a amante dum homem rico, seria bom para ela, e ele poderia viver a vida desafogada 
a que tinha direito. As dificuldades em ganhar a vida honestamente eram crescentes. O fantasma da guerra comeara a espalhar-se por toda a Europa. Os nazis ocuparam 
a ustria com um golpe de Estado relmpago que deixara a Europa atordoada. Meses depois, os nazis ocuparam a rea dos montes Sudetos e marcharam sobre a Eslovquia. 
Apesar de Hitler garantir o seu desinteresse em mais conquistas, persistia a sensao de que ia haver um conflito de grandes propores.
O impacte dos acontecimentos fez-se sentir marcadamente em Frana. Houve faltas nas lojas e nos mercados quando o Governo comeou a preparar um esforo de defesa 
macio. Em breve, receava Jacques, teriam de acabar com a pesca, e que seria dele? No, a soluo do seu problema era encontrar o amante certo para a filha. O problema 
era que ele no conhecia nenhum homem rico. Os amigos eram todos uns borra botas como ele, e no estava nas suas intenes deixar um pelintra aproximar-se dela.
A resposta ao dilema de Jacques foi inadvertidamente dada pela prpria Noelle. Ultimamente, Noelle andava cada vez mais agitada. tinha boas notas, mas a escola andava 
a ma-la. Disse ao pai que queria arranjar um emprego. Ele estudou-a em silncio, sopesando perspicazmente as possibilidades.
- Que tipo de trabalho? - perguntou ele.
- No sei - respondeu Noelle. - Eu podia ser modelo, pap. Foi to simples quanto isso.
Nas tardes da semana seguinte Jacques Page chegava a casa
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depois do trabalho, lavava-se com cuidado para tirar o cheiro a peixe das mos e do cabelo, vestia o melhor fato que possua e ia at Cana bire, a rua principal 
que se estendia do antigo cais at aos bairros mais ricos. Subia e descia a rua, explorando todas as lojas de roupa de senhora, um rstico desajeitado num mundo 
de rendas e sedas, mas no dava conta de que estava deslocado, nem se importava. S tinha um fim, e encontrou quando chegou ao Bon March. Era a melhor loja de roupa 
de senhora de Marselha, mas no foi por isso que a escolheu. Escolheu-a porque o dono era o sr.auguste Lanchon. Lanchon tinha uns 50 anos, era um homem calvo e feio, 
com umas perninhas de batoque e uma boca sfrega e torcida. A esposa, uma mulherzinha com o perfil dum machado bem afiado, trabalhava na sala de provas, supervisionando 
espalhafatosamente as costureiras. Jacques Page olhou para o Sr. Lanchon e para a esposa e viu que encontrara a soluo para o seu problema.
Lanchon olhou com repugnncia o estranho miseravelmente vestido que entrava na loja.
- Pois no? Em que posso servi-lo?
Jacques Page piscou o olho, encostou um dedo grosso ao peito de Lanchon e sorriu afectadamente:
- Eu  que posso servir o senhor. Vou deixar que a minha filha trabalhe para si.
Augusto Lanchon olhou fixamente para o pobre diabo que tinha diante de si, com uma expresso de incredulidade no rosto.
- Voc vai deixar...
- Ela estar c amanh, pelas nove horas.
- Eu no...
Jacques Page havia sado. Minutos depois, Auguste Lanchon esquecera o incidente por completo. As nove horas da manh seguinte, ergueu o olhar e viu Jacques Page 
entrar na loja.
Preparava-se para dizer ao gerente que expulsasse o homem da loja, quando, atrs dele, viu Noelle. Vinham na sua direco, o pai e a filha, incrivelmente bela. E 
o velho ria-se todo:
- Aqui est ela, pronta para trabalhar.
Augusto Lanchon mirou a rapariga e lambeu os lbios.
- Bom dia, Monsieur - disse Noelle, sorrindo. - O meu pai disse que o senhor tem um emprego para mim.
Auguste Lanchon fez um sinal afirmativo com a cabea, j que no confiava na voz.
- Sim, acho. acho que se pode arranjar qualquer coisa  conse-

guiu gaguejar. Mirou o rosto e o corpo da rapariga e no queria acreditar no que via. J estava a imaginar como seria aquele corpo nu debaixo do seu.
Jacques Page dizia:
- Bem, vou deix-los conhecerem-se melhor. - E deu a Lanchon uma pancada sentida no ombro e um piscar de olhos que teve uma dzia de significados, nenhum deles deixando 
qualquer dvida no pensamento de Lanchon sobre as suas intenes.
Durante as primeiras semanas Noelle teve a sensao de que fora transportada para um outro mundo. As mulheres que vinham  loja trajavam belos vestidos e tinham 
boas maneiras, e os homens que as acompanhavam estavam a uma grande distncia dos pescadores grosseiros e gabarolas com quem ela crescera. Pela primeira vez na vida, 
pareceu a Noelle que o mau cheiro do peixe se lhe afastara das narinas. Nunca tivera conscincia do mesmo, pois sempre fizera parte da vida dela. Mas agora tudo 
se alterou repentinamente. E tudo graas ao pai. Estava orgulhosa da forma como o pai se dava com o Sr. Lanchon.
O pai vinha  loja duas ou trs vezes por semana, e ambos saam sorrateiramente para irem beber um conhaque ou uma cerveja e, quando regressavam, havia um ar de 
camaradagem entre eles.
No incio Noelle no gostava do Sr. Lanchon, mas o seu comportamento em relao a ela era sempre circunspecto. Noelle ouviu uma das raparigas dizer que a mulher 
de Lanchon o apanhara certa vez no armazm com um modelo e que agarrara num par de tesouras, no o tendo castrado por um triz. Noelle reparou que os olhos de Lanchon 
a seguiam por toda a parte, mas era sempre escrupulosamente corts.
Provavelmente, pensou ela, com satisfao, tem medo do meu pipi",
Em casa, o ambiente pareceu alegrar-se de repente. O pai de Noellej no batia na me e as discusses constantes pararam. Havia bifes e assados s refeies, e depois 
do jantar o pai de Noelle puxava de um cachimbo novo e enchia- com rico tabaco aromtico que tirava de uma bolsa de cabedal. Comprou um novo fato domingueiro.
A situao internacional piorava e Noelle ouvia as conversas enbre o pai e os amigos. Todos pareciam estar alarmados pela ameaa imiinente ao seu modo de subsistncia, 
mas Jacques Page parecia singularmente despreocupado.
A 1 de Setembro de 1939, as tropas de Hitler invadiram a Polnia
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e, dois dias depois, a Inglaterra e a Frana declararam guerra  Alemanha.
Deu-se incio  mobilizao, e da noite para o dia as ruas encheram-se de fardas. Havia um ar de resignao sobre o que estava a acontecer, uma sensao requentada 
de rever um filme antigo; mas no havia medo. Outros pases podiam ter razes para se sentirem apreensivos perante o poderio dos exrcitos alemes, mas a Frana 
era invencvel. tinha a Linha Maginot, uma fortaleza impenetrvel que poderia proteger a Frana contra uma invaso durante mil anos. Foi imposto o recolher obrigatrio 
e comeou o racionamento, mas nada disto incomodou Jacques Page. Estava diferente, mais calmo. A nica vez que Noelle o viu enfurecer-se foi uma noite em que ela 
estava na cozinha s escuras a beijar um rapaz com quem ocasionalmen te saa. De repente, as luzes acenderam-se e Jacques Page estava porta tremendo de fria.
- Vai-te embora - gritou ele ao rapaz aterrorizado. - E tira as mos da minha filha, seu porco nojento.
O rapaz fugiu em pnico. Noelle tentou explicar ao pai que eles no estavam a fazer nada de mal, mas ele estava furioso de mais par ouvir.
- No quero que te entregues a qualquer um - vociferou ele.
Ele  um z-ningum que no presta para a minha Princesa. Noelle ficou acordada nessa noite, maravilhada pelo amor que
O pai lhe tinha, e jurou que no voltaria a fazer nada que o entristecesse.
Certa noite, exactamente antes da hora de encerramento, entrou
na loja uma cliente, e Lanchon pediu a Noelle para passar alguns vestidos. Quando Noelle acabou, j todos tinham sado da loja excepto Lanchon e a esposa, que estava 
no escritrio, entretida com a contabilidade. Noelle entrou no quarto de vestir para trocar de roupa. Estava de cuecas e soutien, quando Lanchon entrou no quarto. 
Mirou-a e os seus lbios comearam a contorcer-se. Noelle apanhou vestido, mas, antes que pudesse p-lo no corpo, Lanchon aproximou-se dela rapidamente e meteu-lhe 
a mo entre as pernas. A pele de Noelle comeou a eriar subitamente. Tentou afastar-se, Lanchon prendia-a com fora, a ponto de a magoar.
-  s bela - sussurrou ele. - Bela. Vou dar-te umas horas de prazer.
Nesse momento, a mulher de Lanchon chamou por ele, e
Com relutncia largou-a e apressou a sada do quarto.
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A caminho de casa, Noelle debatia-se sobre se devia contar ao pai o que acontecera. Se calhar ele ainda matava Lanchon. Ela detestava e no conseguiria suportar 
ficar perto dele, mas precisava do emprego. Alm disso, o pai poderia ficar desapontado se ela se despedisse. Decidiu por agora manter-se calada e arranjar forma 
de resolver a questo sozinha.
Na sexta feira seguinte telefonaram a Madame Lanchon a dizer que tinha a me doente, em Vichy.
Lanchon levou a mulher  estao e regressou  loja a toda a pressa. Chamou Noelle ao escritrio e disse que ia lev-la para fora durante o fim-de-semana.
Noelle fitou-o, pensando a princpio que devia ser uma brincadeira.
- Iremos a Viena - balbuciou ele. - Existe l um dos melhores restaurantes do mundo, Le Pyramide. Claro, mas isso no importa, pois eu sei ser generoso com quem 
me quer bem. - Levas muito tempo a aprontar te?
Ela olhou-o fixamente.
- Nem pensar -foi tudo quanto ela conseguiu dizer. -Nem pensar. - E virou-se saindo a correr at  porta da loja.
Lanchon seguiu-a com o olhar por um momento, com a marca da raiva no rosto, depois agarrou no telefone que estava na secretria.
Uma hora depois, o pai de Noelle entrou na loja. Foi direito a ela, e o rosto dela iluminou-se de alvio. Pressentira que havia algo de errado e viera salv-la.
Lanchon estava  porta que dava para o escritrio. O pai de Noelle pegou-lhe pelo brao e arrastou-a para o escritrio de Lanchon. Voltou- se para a olhar de frente.
- Ainda bem que o pai apareceu - disse Noelle. - Eu...
- O Sr. Lanchon disse-me que te fez uma oferta esplndida e que tu recusaste.
Ela fitou, pasmada.
- Oferta? Ele pediu-me para ir passar o fim de-semana fora com
ele.
- E tu recusaste?
Antes que Noelle pudesse responder, o pai levantou a mo e esbofeteou-a violentamente na face. Ela no queria acreditar. Com os ouvidos a zunir e por entre um atordoamento 
indistinto, ouvia o pai dizer:
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- Sua estpida! Sua estpida! J  tempo de comeares a pensar nos outros, minha cabra egosta! - E voltou a bater-lhe.
Meia hora depois, com o pai na esquina a ver o carro em andamento, Noelle e Monsieur Lanchon partiam para Viena.
No quarto do hotel havia uma cama de casal enorme, mobilia barata e um lavatrio a um canto. Monsieur Lanchon no era homem de esbanjar dinheiro. Deu ao paquete 
uma pequena gorjeta, e, quando este se retirou, Lanchon virou-se para Noelle e comeou a despi-la. Ps as mos sobre os seios quentes e hmidos e apertous com fora.
- Meu Deus, tu s bela! - arfava.
Tirou-lhe a blusa e as cuecas e atirou-a para cima da cama. Noelle ficou imvel, sem se importar, como se estivesse a sofrer um choque. No proferira uma palavra 
durante a viagem. Lanchon esperava que ela no estivesse doente. No seria capaz de explicar  polcia ou, quisesse Deus,  mulher. Despiu-se  pressa, atirando 
a roupa para o cho, e depois meteu-se na cama ao lado de Noelle. O corpo dela era ainda mais esplndido do que imaginara.
- O teu pai disse-me que nunca ningum te tocou - disse ele, arreganhando os dentes. - Pois bem, vou-te mostrar o que  um homem. - Deitou a barriga rolia sobre 
Noelle e impeliu com fora o membro entre as pernas dela. Comeou a fazer uma presso cada vez maior, forando a penetrao. Noelle no sentia nada. Na sua mente 
s ouvia o pai gritar: Devias estar agradecida por um cavalheiro atencioso como Monsieur Lanchon querer olhar por ti. S tens de ser simptica com ele. Vais fazer 
isso por mim. E por ti prpria. e Toda a cena fora um pesadelo. tinha a certeza de que o pai devia ter entendido mal, mas quando ela comeou a explicar ele tornara 
a bater-lhe e a gritar:
- Vais fazer o que eu te mando. Outras ficariam felizes se tivessem a tua sorte.
A sorte dela. Olhou para Lanchon. O corpo feio e atarracado, tromba arfante, aqueles olhos de porco. Foi a este prncipe que a a vendera, o seu amado pai que a amava 
e no aceitava que ela se entregasse a um homem indigno. E lembrou-se dos bifes que apareceram subitamente na mesa, dos cachimbos novos do pai e do fato novo, e 
s Lhe apeteceu vomitar.
Noelle teve a sensao de, nas horas que se seguiram, ter morrido e renascido. Morrera princesa e renascera prostituta.

Aos poucos ganhou conscincia do que a rodeava e do que estava
a acontecer lhe. Sentiuum dio como nuncapensara serpossvel sentir. Nunca perdoaria a traio do pai. Por muito estranho que parecesse, no odiava Lanchon, pois 
entendia-o. Era um homem com a
fraqueza comum a todos os homens. Dali em diante decidiu fazer dessa fraqueza a sua fora. Aprenderia a us-la. O pai tivera sempre
razo. Ela era uma princesa e o mundo pertencia-lhe. E agora sabia
como consegui-lo. Era to simples. Os homens mandavam no mundo porque deles eram a fora, o dinheiro e o poder; por conseguinte,
era preciso mandar nos homens ou, pelo menos, num homem. Mas,
para atingir isso, tinha de preparar-se. tinha muito que aprender. 
esta foi a primeira lio.
Concentrou-se em Monsieur Lanchon. Estava debaixo dele, sentindo, experimentando como o rgo masculino se acomodava e o que
podia fazer a uma mulher.
No frenesi de ter esta bela criatura debaixo da gordura e dos solavancos do seu corpo, Lanchon nem sequer reparou que Noelle nem se
mexia, mas tambm no se teria ralado. S deleitar a vista nela bastava para se deixar inflamar por uma paixo que no sentia havia
anos. Estava habituado ao corpo de meia-idade e deformado da mulher e da mercadoria estafada das prostitutas de Marselha, e ter esta
jovem virgem debaixo dele era um milagre na sua vida.
Mas para ele era s o princpio do milagre. Aps ele se ter esgotado a ter relaes com Noelle pela segunda vez, ela falou:
- Fica quieto.
Comeou a usar a lngua, a boca e as mos, tentando novas coisas,
encontrando as partes macias e sensveis do corpo dele e acariciou-as
at Lanchon gritar de prazer. Era como carregar numa srie de
botes. Quando Noelle fazia assim, ele gemia e quando ela fazia
assim, ele contorcia-se de xtase. Era to fcil. A escola dela era esta e este era o curso. Era o incio do seu poder.
Ficaram por l trs dias e no foram ao Le Pyramide uma s vez.
Durante todos esses dias e todas essas noites Lanchon ensinou-Lhe
o pouco sexo que sabia, e Noelle descobriu muitssimo mais.
Quando regressaram a Marselha de automvel, Lanchon era o
homem mais feliz de toda a Frana. Antes tivera casos passageiros
com funcionrias da loja, em gabinetes particulares num restaurante
que tinha uma sala de jantar privada com um div; tinha regateado
com prostitutas, sido sovina com presentes para as amantes e fami-
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geradamente avaro com a mulher e os filhos. Agora deu por si a dizer magnanimamente:
- Vou montar-te um apartamento, Noelle. Sabes cozinhar?
- Sei - respondeu Noelle.
- ptimo. Venho almoar todos os dias e depois fazemos amor. E duas ou trs noites por semana vireijantar. - Pousou a mo no joelho dela e acariciou. - Que tal?
- Maravilhoso - disse Noelle.
- At te vou dar uma mensalidade. No ser nada por a alm - acrescentou logo -, mas o bastante para poderes comprar umas coisas bonitas de vez em quando. S te 
peo que eu seja a nica pessoa da tua vida.  agora pertences-me.
- Como queiras, Auguste - disse ela.
Lanchon suspirou de contentamento, e, quando falou, a sua voz era macia.
- Nunca senti isto por ningum. E sabes porqu?
- No, Auguste.
Porque tu me fazes sentirjovem. Ns os dois vamos viver uma vida maravilhosajuntos.
Chegar a Marselhaj de noite, viajando em silncio. Lanchon com os seus sonhos, Noelle com os dela.
- Encontramo-nos na loja amanh s nove horas - disse Lanchon. Reflectiu. - Se estiveres cansada, fica  mais um pouco na cama. Vem s nove e meia.
- Obrigada, Auguste.
tirou uma mocheia de notas e deu-lhas.
- Toma. Amanh  tarde procura um apartamento. Isto  para o depsito at eu poder ir v-lo.
Ela fitava os francos que estavam na mo dele.
- Passa-se alguma coisa? - perguntou Lanchon.
- Eu queria que o nosso ninho fosse realmente bonito - disse Noelle -, para gostarmos de estar juntos.
- Eu no sou rico - protestou ele.
Noelle sorriu compreensivamente e colocou a mo na coxa dele. Lanchon olhou-a demoradamente e assentiu com a cabea.
- Tens razo - disse ele. Comeou a tirar mais dinheiro da carteira, observando o rosto dela enquanto o fazia.
Quando lhe pareceu satisfeita, parou e corou com a sua prpria generosidade. Ao fim e ao cabo, que importncia tinha?
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Lanchon era um homem de negcios perspicaz e sabia que assim Noelle nunca o abandonaria.
Noelle observava-o quando ele se afastou feliz. Depois subiu as escdas, fez a mala e tirou as poupanas que guardara. i As dez horas dessa noite, estava num comboio 
com destino a Paris.
Quando o comboio chegou a Paris na manhzinha do dia seguinte, a Estao de PiM apinhava-se de passageiros ansiosos que chegavam  cidade, bem como de outros ansiosos 
por partir. A algazarra da estao era ensurdecedora, pois as pessoas saudavam alegremente quem chegava, despediam-se com lgrimas, empurrando e abrindo
caminho sem modos, mas Noelle no se importava. Assim que se apeou do comboio, antes mesmo de poder ver a cidade, sabia que estava em casa. Marselha  que era uma 
cidade estranha e Paris a cidade a que ela pertencia. Era uma sensao esquisita e intoxicante, em
que Noelle se deleitava, absorvendo os rudos, as multides, a excitao de lhe pertencer, AQuilo de que tinha de  tomar a posse. Agarrou na mala e encaminhou- se 
para a sada.
Lfora,  luz do sol brilhante e no zumbido louco do trnsito, Noelle hesitou, apercebendo-se repentinamente de que no tinha para onde ir. Havia uma bicha de seis 
txis  frente da estao.
- Para onde?
Hesitou.
- Recomendava-me um hotel simptico e no muito caro? O motorista voltou-se para olh-la como quem a avaliava.
-  a primeira vez que est c?
- Sim.
Ele fez um sinal de concordncia com a cabea.
- Ento deve querer arranjar trabalho.
-  verdade.
- Est com sorte - disse ele. - J fez passagem de modelos? o corao de Noelle deu um salto.
- por acaso - disse ela.
- A minha irm trabalha numa grande casa de moda -confiou o motorista. -Ainda esta manh me disse que uma das raparigas se despediu. quer ir ver se a vaga ainda 
no foi ocupada?
- Seria maravilhoso - respondeu Noelle.
- Para lev-la l, vou ter de cobrar dez francos.
Ela franziu o sobrolho.
- No os dar por mal empregues - prometeu ele.
- Muito bem. - Ela recostou-se no assento. O motorista meteu
a mudana e mergulhou no trnsito louco que se dirigia para o centro da cidade. Tagarelou no percurso, mas Noelle no ouviu uma palavra do que ele disse. Ela estava 
embriagada com a cidade.
Sups que, por causa do blackout, Paris estaria mais calma do que o normal, mas Noelle sentia uma cidade de pura magia. tinha uma elegncia, um estilo e mesmo um 
aroma prprio. Passaram por NotreDme e atravessaram a Pont Neuf em direco  Margem Direita, curvando em direco  Avenida Foch. Ao longe, Noelle viu a Torre 
Eiffel, dominando a cidade. Pelo espelho retrovisor, o motorista viu a expresso do rosto dela.
-  bonito, no ?
-  belo - respondeu Noelle calmamente. Ainda no queria crer que estava ali. Era um reino talhado para uma princesa... para ela.
O txi encostou  frente de um prdio velho e sombrio da Rua de Provence.
- Chegmos - anunciou o taxista. - o taxmetro marca dois francos, e para mim so dez francos.
- Como  que eu sei se o emprego ainda est livre? - perguntou Noelle.
O motorista encolheu os ombros.
- Euj lhe disse a outra rapariga foi-se embora esta manh. Se no quer entrar, levo-a de volta para a estao.
- No - disse Noelle de imediato. Abriu a carteira, tirou doze francos e deu-os ao motorista. Ele fitou o dinheiro, depois olhou para ela. Envergonhada, ela meteu 
a mo na carteira e tirou mais um franco.
Ele assentiu, sem sorrir, e observou-a enquanto tirava a mala do carro.
quando ele se preparava para se ir embora, Noelle perguntou: - Desculpe, qual  o nome da sua irm? - Pois no? - Desculpe -disse Noelle. -Disseram- me que h uma 
vaga para modelo.
A mulher olhou para ela e pestanejou.
- Quem a mandou?
- O irmo de Jeanette.
- Entre. - Ela abriu mais a porta e Noelle penetrou num trio decorado no estilo do sculo XVIII. Do tecto pendia um enorme lustre de Baccarat, e havia alguns mais 
espalhados pelo trio, e 
do outro lado de uma porta aberta Noelle viu uma sala de estar recheada de mobilirio antigo e umas escadas que davam para o piso superior. Numa bela mesa embutida 
havia cpias do Fgaro e do Echo de Paris.
- Aguarde aqui. Vou ver se Madame Delys a pode receber.
- Obrigada - disse Noelle. Pousou a mala no cho e foi at um espelho enorme de parede. A viagem de comboio amarrotara-lhe a roupa, e de repente arrependeu-se do 
impulso de ter vindo aqui sem se arranjar. Era importante causar boa impresso. Porm, ao olhar -se, viu que era bela. Sabia-o sem presuno, aceitando a sua beleza 
como um trunfo. Noelle voltou-se quando, pelo espelho, viu uma rapariga descer as escadas.
Ajovem tinha uma bonita figura e vestia uma saia comprida castanha e uma blusa de gola alta. Era evidente que a qualidade dos modelos era elevada. Deu a Noelle um 
sorriso breve e entrou na sala de visitas.
Momentos depois Madame Delys entrou na sala. tinha cerca de quarenta anos, uma figura baixa e atarracada e uns olhos frios e cal culistas. trazia um vestido que 
Noelle calculou ter custado dois mil francos no mnimo.
- Regina disse-me que andas  procura de emprego - indagou ela.
-  verdade - respondeu Noelle.
- Donde s?
- De Marselha.
Madame Delys riu com desdm.
- O recreio de marinheiros bbados.
O rosto de Noelle assumiu uma expresso desapontada. Madame Delys bateu-lhe no ombro.
- No tem importncia, minha querida. Que idade tens?
- Dezoito.
Madame Delys anuiu.
- Isso  bom. Acho que os meus clientes gostaro de si. Tem alguma familia em Paris?
- No.
- Excelente. Est pronta para comear j a trabalhar?
- Oh, sim - assegurou Noelle.
De cima veio o som de uma gargalhada e, um momento mais tarde, uma rapariga ruiva desceu as escadas trazida pelo brao de um homem gordo e de meia-idade. A rapariga 
vestia apenas um neglig muito fino.
Sida e Sbidon 2 - 4
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- Acabaram? - perguntou Madame Delys
- Gastei a Angela -riu-se o homem. Depois viu Noelle. - Quem  esta equena beleza?
- E Yvette, a nossa nova rapariga - respondeu Madame Delys. E acrescentou, sem hesitar: - E de Antibes, filha de um prncipe.
- Nunca comi uma princesa - disse o homem. - Quanto?
- Cinquenta francos.
- Deve estar a brincar. trinta.
- quarenta. E acredite-me, vale o seu dinheiro.
- Negcio fechado.
Voltaram-se para Noelle. Mas ela desaparecera.
Noele vagueou pelas ruas de Paris, horas a fio. Caminhou pelos Champs Elises, descendo por um lado, subindo pelo outro, parando em cada loja para apreciar as incrveis 
joalharias, e vestidos e malas e perfumes, e interrogou-se sobre como seria Paris quando no havia falta de nada. Os artigos expostos nas montras eram atraentes, 
e, enquanto uma parte dela se sentia como uma provinciana, outra parte sabia que um dia possuiria aquelas coisas. Mais tarde, comeou a sentir-se cansada e com fome. 
Deixara a mala e a carteira em casa de Madame Delys, mas no tencionava l voltar. Mandaria algum buscar as suas coisas.
Noelle no ficara chocada nem zangada pelo que acontecera. Apenas sabia a diferena entre uma cortes e uma prostituta. As prostitutas no mudavam o curso da histria; 
mas as cortess sim. Entretanto, estava sem um tosto. Tinha de encontrar uma maneira de sobreviver at conseguir arranjar um emprego, no dia seguinte. O dia comeava 
a morrer e os porteiros dos hotis afadigavam-se a pr as cortinas nasjanelas, por causa dos possveis ataques areos. Para resolver o seu problema imediato, Noelle 
precisava de encontrar algum que Lhe pagasse um bomjantar quente. Pediu informaes a um polcia e dirigiu-se para o Hotel Crillon. L fora, asjanelas estavam tapadas 
por folhas de chapa, mas, dentro, a recepo era uma obra-prima de elegncia contida, suave e discreta. Noelle entrou, cheia de confiana, como se o seu lugar fosse 
ali, e sentou-se num sof em frente ao elevador. Nunca fizera aquilo antes e estava um pouco nervosa. Mas lembrou-se de como fora fcil lidar com Auguste Lanchon. 
Os homens so realmente muito simples. Havia apenas uma lio que uma rapariga tinha de aprender: um homem fica mole quando est teso, e  teso quando est mole. 
Era portanto apenas uma questo de o manter teso at ele dar aquilo que se pretendia.

Agora, perscrutando a recepo do hotel, Noelle decidiu que seria coisa simples agarrar o olhar de um homem que fosse a caminho do seu jantar solitrio.
- Perdo, Mademoiselle.
Noelle voltou a cabea para olhar para um homem alto, de fato escuro. Ela nunca vira um detective na sua vida, mas no tinha qualquer dvida na sua mente.
- A Mademoiselle est  espera de algum?
- Sim - respondeu Noelle, tentando manter a voz firme. Estou  espera de um amigo.
Teve subitamente conscincia do seu vestido amarrotado, e do facto de que no trazia a sua mala de mo.
- O seu amigo est hospedado neste hotel?
Noelle sentiu o pnico crescendo dentro de si.
- Ah... no... no propriamente.
O homem estudou Noelle por um momento, e depois disse com voz dura:
- Posso ver os seus documentos?
- No... no os tenho comigo - gaguejou ela.  Perdi-os... O detective disse:
- Talvez seja melhor acompanhar-me. - Ps-lhe a mo firmemente no brao e forou-a a levantar-se.
Nesse mesmo momento, algum lhe agarrou no outro brao e disse:
- Desculpa vir atrasado, chrie, mas sabes como so estes malditos cocktails. Tm de sair  fora. Ests aqui h muito tempo?
Noelle voltou-se, espantada, para ver quem estava a falar consigo. Era um homem muito alto, de corpo bem feito, esguio, e usava um uniforme estranho, invulgar. tinha 
cabelo escuro e olhos da cor do martempestuoso, com longas pestanas espessas. tinha um rosto que fazia lembrar uma velha moeda florentina. Era um rosto irregular, 
em que as duas faces no coincidiam exactamente. Era o rosto de algum extraordinariamente vivo e mvel, de forma que se percebia que estava sempre pronto a rir, 
a fazer  caretas. A nica coisa que o impedia de ter um ar femininamente belo era um queixo largo com um sulco pronunciado ao meio.
O homem gesticulou para o detective.
- Este homem est a maar-te?
A voz dele era profunda, e tinha um ligeiro sotaque.
- No... no... - respondeu Noelle com aflio na voz.

Desculpe-me, senhor... -dizia o detective do hotel. -Fiz confuso. Temos tido problemas ultimamente com... - Voltou-se para Noelle. - Aceite asminhas desculpas, 
Mademoiselle.
O estranho voltou-se para Noelle:
- No sei... que dizes?
Noelle engoliu em seco e assentiu com a cabea.
O homem voltou-se para o detective.
- A Mademoiselle est a ser generosa. De futuro, tenha mais cuidado.
Pegou no brao de Noelle e dirigiram-se para a sada. Quando chegaram  rua, Noelle disse:
- No sei como lhe agradecer, Monsieur.
- Sempre odiei polcias. - O homem sorriu. - Quer que lhe chame um txi?
Noelle ficou a olhar para ele, o pnico a comear a crescer dentro de si, ao lembrar-se da situao em que estava.
- No.
- Certo. Boa noite.
Ele afastou-se e comeou a entrar para um txi, mas voltou-se e viu que ela ficara ali, de p, a olhar para ele.  porta do hotel, o detective observava-os. O estranho 
hesitou, e depois veio ter com Noelle.
-  melhor sair daqui - aconselhou. - O nosso amigo continua interessado em si.
- No tenho para onde ir - respondeu ela.
Ele acenou e meteu a mo no bolso.
- No quero seu dinheiro - disse ela rapidamente. Ele olhou-a surpreendido.
- Ento que quer?
- Jantar consigo. Ele sorriu e disse:
- Desculpe. Tenho um compromisso e j estou atrasado.
- Ento v - respondeu ela. - Eu fico bem.
Ele meteu as notas outra vez no bolso.
- Como queiras, boneca. Au reuoir.
Voltou-se e comeou a andar para o txi. Noelle seguiu- com o olhar, interrogando-se sobre o que estaria errado com ela. Sabia que se tinha comportado estupidamente, 
mas tambm sabia que no poderia ter feito mais nada. No preciso momento em que o vira, experimentara uma sensao que nunca conhecera, uma onda de emoo to forte 
que quase conseguia estender as mos e agarr-la. Nem
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sequer sabia o nome dele, e provavelmente nunca mais o veria. Noelle olhou para o hotel e viu o detective dirigir-se declaradamente para si. Era culpa dela. Desta 
vez, no seria capaz de o convencer. Sentiu uma mo pousar-lhe no ombro, e, quando se voltou para ver quem era, o estranho agarrou-lhe o brao e obrigou-a a entrar 
no txi, e entrou rapidamente a seguir a ela. Deu um endereo ao condutor. O txi arrancou, deixando o detective na esquina, a olhar para eles
- Ento e o seu compromisso? - inquiriu Noelle.
- Era apenas uma festa. Mais uma menos uma, no faz diferena. Como se chama?
- Noelle Page.
- De onde s, Noelle?
Ela olhou para os brilhantes olhos negros dele e disse:
- De Antibes. Sou filha de um prncipe.
Ele riu-se, mostrando dentes muito brancos e direitos.
- Ainda bem para ti, princesa.
-  ingls?
- Americano.
Ela olhou para o uniforme dele.
- A Amrica no est em guerra.
- Estou na R. A F. - explicou ele. - Formaram agora um grupo de pilotos americanos. Chama-se Esquadrilha guia.
- Mas por que ho-de vocs combater pela Inglaterra?
- Porque a Inglaterra est a combater por ns - disse ele. - S que ns ainda no o sabemos.
Noelle abanou a cabea.
- No acredito nisso. O Hitler  um palhao boche.
- Talvez... mas  um palhao que sabe o que o povo alemo quer: governar o mundo.
Noelle escutava fascinada, enquanto Larry discutia a estratgia militar de Hitler, a sbita sada da Sociedade das Naes, o pacto de defesa mtua entre o Japo 
e a Itlia, no por causa do que ele estava a dizer, mas porque gostava de apreciar a cara dele enquanto falava. Os olhos negros de Larry brilhavam, cheios de uma 
vitalidade irresistvel.
Noelle nunca encontrara ningum como ele. Ele era - raridade das raridades -um homem que no se gabava. Era aberto, caloroso e vivo, amante da vida, assegurando-se 
de que todos os que o rodeavam gostassem dele. Era como um im que atrasse para a sua rbita todos os que se aproximassem.
53

Chegaram  festa, que era num pequeno apartamento da rua Chemin Vert. O apartamento estava cheio de um grupo de gente risonha, quase toda muito nova. Larry apresentou 
Noelle  anfitri, uma ruiva sensual com ar de predadora, e depois foi engolido pela
multido. Noelle viu-o ocasionalmente durante toda a noite, rodeado porjovens, todas a tentar chamar a ateno dele. E, no entanto, ele no parecia nada convencido. 
Era como se estivesse absolutamente inconsciente de como era atraente. Algum arranjou uma bebida a Noelle, e outra pessoa qualquer ofereceu-se para lhe trazer um 
prato de comida do buffet, mas ela perdera subitamente todo o apetite. Queria apenas estar com o americano, queria v-lo longe das raparigas que o assediavam. Havia 
homens que vinham ter com ela e tentavam entabular conversa, mas o esprito de Noelle estava longe dali. A partir do momento em que tinham entrado, o americano ignorara-a 
completamente, como se ela no existisse. Por que no? pensava Noelle. Por que havia de se preocupar com ela, se podia ter qualquer
uma das raparigas que estavam ali? Dois homens estavam a tentar meter conversa com ela, mas ela no se conseguia concentrar. A sala tornara-se repentinamente insuportavelmente 
quente. Olhou  sua volta, procurando uma escapatria.
Uma voz sussurrou-lhe ao ouvido:
- Vamos. - E, um momento depois, ela e o americano estavam na rua, no ar frio da noite.
No conseguiram encontrar um txi, e por isso caminharam e jantaram num istrot da Place des Victoires, e Noelle descobriu que estava esfomeada. Estudou o americano 
que estava sentado  sua frente, e interrogou-se sobre o que lhe estava a acontecer. Era como se ele lhe tivesse tocado nalgum ponto sensvel l muito no fundo do
seu ser, de cuja existncia ela nem tinha conscincia. Nunca antes
sentira to feliz. Falaram de tudo. Ela contou-lhe os seus antecedentes, e ele disse-lhe que era do sul de Bston e de ascendncia iri landesa. A me dele nascera 
no Condado de Kerry.
- Onde aprendeste a falar francs to bem? - perguntou Noelle.
- Costumava passar o Vero em Cap d"Antibes quando era mido. O meu pai foi um dos patres da Bolsa at que os ursos deram cabo dele.
- Ursos?
Assim, Larry teve de explicar-lhe as intricadas astcias do mercado de aces americano. Noelle no se importava com o que ele dizia, s queria que ele no parasse 
de falar.
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- Onde moras?
- Em lado nenhum.
Contou-lhe do taxista, de Madame Delys e do homem gordo que acreditara que ela era uma princesa e se prontificara a pagar quarenta francos por ela, e Larry riu se 
alto.
- Lembras-te de onde fica essa casa?
- Sim.
quando chegaram  casa da Rue de Provence, a porta foi aberta pela mesma criada fardada. Os seus olhos brilharam quando viu o jovem americano, mas depois voltaram 
a ficar baos, quando viu com quem ele vinha.
- Queremos ver Madame Delys - disse Larry.
Ele e Noelle entraram para o trio. Havia vrias raparigas na sala ao lado. A rapariga saiu e, minutos depois, entrou Madame Delys.
- Boa noite, Monsieur - disse para Larry. Depois, voltou-se para Noelle e disse: - Espero que tenha mudado de ideias.
- No mudou - respondeu Larry, sorrindo. - Mas a senhora tem. algo que pertence  princesa.
Madame Delys fitou-o com ar interrogativo.
- A mala e a carteira dela.
Madame Delys hesitou por um momento, depois saiu da sala. Minutos depois, a criada regressou com a mala e a carteira de Noelle.
- Merci - disse Larry. Virou-se para Noelle. -Vamos embora, princesa.
Nessa noite, Noelle mudou-se para casa de Larry, uma pequena penso muito limpa na rua Lafayette. No houve qualquer discusso quanto a isso. Era inevitvel para 
ambos. Quando fizeram amor nessa noite, foi mais excitante do que alguma coisa que Noelle alguma vez tivesse experimentado, uma exploso selvagem, primitiva, que 
os abalou aos dois. Ficou nos braos de Larry durante toda a noite, abraando-o, mais feliz do que alguma vez julgara ser possvel.
Na manh seguinte, acordaram, fizeram amor e saram para explorar a cidade. Larry era um ptimo guia, e fez que Paris parecesse a Noelle um maravilhoso brinquedo. 
Almoaram nas Tulherias, passaram a tarde na Mal Maison e passaram horas a vaguear pela Place des Vosges. Ele mostrou-lhe stios que estavam fora das rotas batidas 
pelos turistas, a Place Maubert com o seu colorido mercado de rua e o Quai de La Mgisserie, com as suas gaiolas de pssaros 
55
e animais estranhos. Levou-a ao March de Buci e ouviram os preges dos vendedores, apregoando os mritos dos seus produtos, dos seus tomates frescos e alfaces, 
das suas ostras, dos queijos. Foram at Montparnasse. Jantaram num Bateau Mouche e acabaram por comer uma sopa de cebola s quatro da manh nas Halles, com os magarefes 
e os camionistas. Ainda no tinhaa acabado e j Larry agrupara uma srie de amigos, e Noelle compreendeu que isso se devia ao facto de ele ter o dom do riso. Ensinara-a 
a rir, e ela no sabia que o riso estava dentro de si. Era como uma ddiva dos deuses. Estava grata a Larry e muito apaixonada por ele. Era madrugada quando regressaram 
ao quarto da penso. Noelle estava exausta, mas Larry estava cheio de energia. Noelle ficou deitada a v-lo, de p, a admirar o nascer do Sol sobre os telhados de 
Paris.
- Adoro Paris - disse ele. -  como um templo das melhores coisas que o homem j fez.  uma cidade de beleza, de comida e de amor. -Voltou-se para ela e sorriu. 
-No necessariamente por esta ordem.
Noelle olhou-o enquanto ele tirava a roupa e entrava na cama, para o seu lado. Agarrou-o, sentindo o cheiro msculo dele. Lembrou-se do seu pai e de como ele a tinha 
trado. Enganara-se ao avaliar todos os homens pelo exemplo do pai e de Auguste Lanchon. Sabia agora que tambm havia homens como Larry Douglas. E tam;
bm sabia que nunca mais poderia haver ningum para ela.
- Sabes quem foram os dois maiores homens que j viveram, princesa?
- Um s tu - respondeu ela.
- No. Wilbur e Orville Wright. Eles deram ao homem a sua verdadeira liberdade. Alguma vez voaste? -Ela abanou a cabea. - Ns tnhamos uma casa de Vero em Montauk... 
ao fim de Long Island...
e, quando eu era mido, costumava observar as gaivotas rodopiando pelos ares sobre a praia... e daria a minha alma para poder estar l em cima com elas. Sabia que 
havia de ser piloto antes mesmo de comear a andar. Um amigo da famlia levou-me a dar uma volta no seu biplano quando eu tinha nove anos, e aos catorze tive a primeira 
aula de pilotagem.  quando estou no ar que me sinto verdadeiramente vivo. - Depois, acrescentou: - Vai haver uma guerra mundial. A Alemanha quer o mundo todo para 
ela.
- No apanharo a Frana, Larry. Ningum conseguir passar pela Linha Maginot.
Ele riu.
56
- J a atravessei mais de cem vezes.
Ela olhou para ele surpreendida.
- Pelo ar, princesa. Esta vai ser uma guerra area... a minha
guerra.
Depois de uma pausa, disse casualmente:
- E se nos casssemos?
Foi o momento mais feliz da vida de Noelle
O domingo foi um dia de descontraco, de preguia. Tomaram o
pequeno-almoo numa pequena e splanada em Monmartre, voltaram
para o quarto e passaram o resto do dia na cama. Noelle no podia
acreditar que algum fosse capaz de um tal xtase. Era magia pura, "
quando faziam amor, mas ficava igualmente feliz s por ver Larry i;
andar irrequieto pelo quarto. O simples facto de estar perto dele bastava-Lhe. Era estranha, pensou ela, a forma como as coisas se tinham
resolvido. Crescera habituada a ser tratada por princesa pelo pai, e
agora, embora tivesse acontecido s por uma piada, Larry chamava- Lhe tambm princesa. Quando estava com Larry, era algum. Ele recuperara a sua f nos homens. Ele 
era o mundo dela, e Noelle sabia
Porqu.
que nunca precisaria de mais nada, e parecia-lhe incrvel que
pudesse ter tido tanta sorte ao ponto de ele sentir o mesmo por ela.
- No tencionava casar antes de esta guerra ter acabado  disse-lhe ele. -Mas que se lixe. Os planos so feitos para serem alterados,
no , princesa?
Ela assentiu, cheia de uma felicidade que ardia dentro de si.
- Vamos arranjar um maitre qualquer de provncia que nos case.
A no ser que queiras um casamento  grande.
Noelle abanou a cabea.
- O campo serve perfeitamente.
Ele acenou com a cabea.
- Negcio fechado. Tenho de me apresentar na minha esquadrilha esta noite. Encontramo-nos aqui na prxima sexta feira. Que
tal?
- Eu... no sei se consigo aguentar todo esse tempo sem ti. - A
voz dela tremia.
Larry agarrou-lhe as mos.

- Amas- me?
- Mais do que  minha prpria vida - respondeu ela com simplicidade.
57

Duas horas mais tarde, Larry estava de regresso a Inglaterra. No a deixou ir lev-lo ao aeroporto.
- No gosto de despedidas - disse ele. Deu-lhe um mao de notas. - Compra um vestido de noiva, princesa. Vemo-nos para a semana.
E partiu.
Noelle passou a semana seguinte num estado de euforia, regressando aos lugares onde tinha ido com Larry, passando horas a sonhar com a sua vida a dois. Os dias pareciam 
arrastar-se, os minutos recusavam-se a passar, at ao ponto em que Noelle chegou a pensar que ia enlouquecer.
Foi a uma dzia de lojas  procura de um vestido de noiva, e por fim encontrou o que queria na Madeleine Vionett. Era um belo vestido de organza branca, com um corpete 
alto, longas luvas com seis botes de prola e trs saiotes de crinolina. Foi muito mais caro do que Noelle esperara, mas no hesitou. Gastou todo o dinheiro que 
Larry lhe dera e mais uma parte das suas economias. Todo o seu ser estava concentrado em Larry. Pensou em formas de lhe agradar, perscrutou na sua mente memrias 
que o pudessem divertir, histrias que o entretivessem. Sentia-se como uma colegial.
E foi assim que Noelle esperou que chegasse a sexta-feira, numa agonia de impacincia. E, quando finalmente chegou, ficou acordada at de madrugada e passou duas 
horas a tomar banho e a vestir-se, a mudar outra vez, tentando adivinhar que vestido agradaria mais a Larry. Ps o vestido de noiva, mas tirou-o de novo, rapidamente, 
com medo de que isso desse azar. Estava excitadssima.
s dez horas, Noelle estava frente ao espelho do quarto e teve a certeza de que nunca estivera mais bonita. No havia vaidade na sua avaliao; estava apenas satisfeita 
por Larry, feliz por lhe poder dar esse presente. Ao meio-dia, ele ainda no tinha aparecido, e Noelle desejou que ele lhe tivesse dito a que horas chegaria. Telefonou 
continuamente para a recepo, de dez em dez minutos, para saber se havia algum recado para ela. As seis da tarde, ainda no tinha notcias dele. A meia-noite, ainda 
nada. Noelle sentou-se numa cadeira e ficou a fitar o telefone,  espera de que tocasse. Adormeceu e quando acordou j era madrugada de sbado. Ainda estava na cadeira, 
rgida e gelada. O vestido que escolhera com tanto cuidado estava todo amarrotado, e tinha uma malha na meia.
trocou de roupa e ficou no quarto todo o dia, frente  janela, dizendo a si mesma que, se ficasse ali, Larry acabaria por aparecer; se
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sasse dali, algo de terrvel aconteceria.  medida que o sbado foi decorrendo, ficou convencida de que tinha havido um acidente. O avio
de Larry ter-se-ia despenhado, ele estaria deitado num campo ou
num hospital, ferido ou morto. tinha o esprito cheio de vises aterradoras. Ficou a p toda a noite, agoniada com a preocupao, com
medo de sair do quarto e de no saber como chegar perto de Larry.
 quando chegou o meio-dia de domingo, Noelle continuava sem saber dele, no aguentou mais. tinha de telefonar. Mas como? Com a
pequena, era difcil fazer uma chamada internacional, e ela nem sequer
tinha a certeza de onde estaria Larry. Sabia apenas que ele estava numa esquadrilha americana da R. A. F. Pegou no telefone e falou com
a operadora.
-  impossvel - respondeu a rapariga.
Noelle explicou a situao, e nunca soube se teria sido pelo desespero da sua voz ou por aquilo que disse, mas duas horas mais tarde
estava a falar com o Ministrio do Ar, em Londres. No a podiam ajudar, mas transferiram a chamada para Whitehall, que a transferiu
para as Operaes de Combate, onde Lhe desligaram antes de conseguir qualquer informao. Passaram mais quatro horas at que
Noelle conseguiu outra ligao, e nessa altura estava quase histrica. As Operaes Areas no lhe podiam dar nenhuma informao e
sugeriram que tentasse o Ministrio da Guerra.
- Mas j falei com eles! - gritou Noelle para o telefone.
Comeou a soluar e, do outro lado da linha, a voz masculina de
um ingls disse, embaraada:
- Por favor, Miss, no pode ser assim to mau. Espere um
momento.
Noelle ficou com o auscultador na mo, certa de que no havia esperana, e que Larry estava morto e de que nunca saberia como ou
Onde tinha morrido. E estava quase a desligar quando a voz inglesa
voltou a falar e disse, alegremente:
- O que quer, Miss,  a Esquadrilha guia. So os ianques, tm
uma base em Yorkshire.  um pouco contra os regulamentos, mas vou
pass-la para Church Fenton, a base deles. Os tipos de l podero
ajud-la. E a linha foi cortada.
Eram onze da noite quando conseguiu de novo uma ligao. Uma
voz annima respondeu: "
- Base Area de Church Fenton. - A ligao era to m que
Noelle quase no ouvia. Era como se estivessem a falar por debaixo
de um oceano. Ele estava obviamente com dificuldade em ouvi- la.
59

- Fale mais alto, por favor - disse ele. Nessa altura, os nervos de Noelle estavam j to tensos que quase no conseguia controlar a voz.
- Estou  procura de... - mas nem sabia qual era o posto dele. Tenente? Capito? Major? - Estou  procura de Larry Douglas.  a noiva.
- No consigo ouvi-la, Miss. Pode falar mais alto, por favor?  beira do pnico, Noelle voltou a gritar as palavras, certa de que o homem que estava do outro lado 
da linha lhe estava a tentar esconder que Larry estava morto. Por um instante milagroso, a linha ficou mais ntida, e ouviu a voz dizer, como se estivesse no quarto 
ao lado:
- O tenente Larry Douglas?
- Sim - respondeu, controlando-se.
- S um momento, por favor.
Noelle esperou o que lhe pareceu ser uma eternidade, e ento a mesma voz regressou  linha e disse:
- O tenente Larry Douglas est de licena de fim-de-semana. Se  urgente, pode ser encontrado na sala de baile do Hotel Savoy, em Londres, numa festa dada pelo general 
Davis. - E desligou.
Quando a criada chegou para limpar o quarto, na manh seguinte, encontrou Noelle cada no cho, quase inconsciente. A rapariga olhou para ela por um momento, tentou 
meter-se na sua vida e sair. Por que aconteciam aquelas coisas sempre nos seus quartos? Aproximou-se e tocou na testa de Noelle. Ardia em febre. Resmungando, a criada 
desceu  recepo e pediu ao porteiro para mandar o gerente. Uma hora depois, uma ambulncia apareceu  porta da penso e dois homens subiram ao quarto de Noelle. 
Estava inconsciente. Ojovem mdico de servio levantou-lhe uma plpebra, ps-lhe o estetoscpio no peito e escutou enquanto ela respirava.
- Pneumonia - disse para o outro. - Vamos lev-la daqui.
Puseram Noelle numa maca e, cinco minutos depois, a ambulncia corria para o hospital. Puseram-na a oxignio, e s quatro dias mais tarde voltou a estar plenamente 
consciente. Arrancou-se penosamente da lama da inconscincia, sabendo subconscientemente que algo terrvel tinha acontecido e esforando-se por no descobrir o que 
era.  medida que esse facto terrvel se aproximava mais e mais da sua conscincia e ela se esforava por afast-lo, surgiu-lhe subitamente, claro e evidente. Larry 
Douglas. Noelle comeou a chorar, sacudindse em soluos, at que finalmente caiu numa sonolncia leve. Sentiu uma mo a pegar delicadamente na sua, e soube que

Larry tinha regressado para ela, que estava tudo bem. Noelle abriu
os olhos e fitou um estranho que lhe estava a tomar o pulso.
- Ora seja bem-vinda - disse o estranho alegremente.
- Onde estou? - perguntou Noelle.
- No Hotel Deus, o hospital.
- Que estou aqui a fazer?
- Est a pr-se boa. Teve uma peneumonia dupla. O meu nome
 Israel Katz.
Era jovem, com um rosto forte e inteligente, olhos de um castanho- profundo.
- O senhor  o meu mdico?
- Eu sou interno - disse. - Fui eu que a trouxe. - Ele sorriu-lhe. - Ainda bem que o fiz. Ns no tnhamos a certeza.
- H quanto tempo estou aqui?
- H quatro dias.
- Far-me-ia um grande favor? - perguntou ela com voz fraca.
- Se estiver ao meu alcance...
- Telefone para o Hotel Lafayette. Pergunte... - hesitou -...
pergunte se h alguma mensagem para mim.
- Bem, eu estou tremendamente ocupado...
Noelle levantou a mo com dificuldade.
- Por favor.  importante. O meu noivo est a tentar entrar em
contacto comigo.
Ele assentiu.
- No o censuro por isso. Est bem. Eu trato disso - prometeu.
- Agora veja se dorme.
- No conseguireifaz-lo sem ter alguma notcia sua - disse ela.
Ele saiu, deixando Noelle ali deitada. Claro que Larry estava a
tentar contact-la. Houvera um terrvel mal-entendido. Ele explicar-Lhe-ia tudo, e as coisas ficariam bem outra vez.
Passaram-se duas horas at Israel Katz voltar. Encaminhou-se
para a cama onde ela estava e pousou l uma mala.
- puxe as suas roupas. Eu prprio fui ao hotel - disse.
Ela olhou-o e pde ver sinais de tenso no seu rosto.
- Lamento - disse ele, embaraado. -No havia qualquer mensagem.
Noelle olhou-o durante algum tempo, depois voltou o olhar, fixo,
para a parede.
61
Dois dias mais tarde, Noelle teve alta do hospital. Israel Katz veio despedir-se dela.
- Tem algum stio para onde ir? - perguntou. - Ou um emprego?
Ela abanou a cabea.
- Qual  a sua profisso?
- Sou modelo.
- Talvez eu possa ajud-la.
Recordou o motorista de txi e Madame Delys.
- Eu no preciso de ajuda - disse ela.
Israel Katz escreveu um nome numa folha de papel.
- Se mudar de ideias, v at l.  uma pequena boutique. Pertence a uma tia minha. Eu falar-lhe-ei acerca de si. Tem algum dinheiro?
Ela no respondeu.
- Tome. - tirou alguns francos do bolso e deu-lhos. - Lamento no ter mais. Os internos no so l muito bem pagos...
- Obrigada - disse Noelle.
Foi sentar-se num pequeno caf de rua, a beber um caf quente e tentando decidir da melhor forma de reconstruir a sua vida. Sabia que tinha de sobreviver, pois 
agora tinha uma razo forte para isso. Estava cheia de uma raiva que a queimava, que a consumia de uma forma que no deixava espao para mais nada. Sentia-se uma 
Fnix renascendo das cinzas das emoes que Larry Douglas matara dentro de si. No descansaria enquanto no o destrusse. No sabia como, nem quando, mas sabia que 
um dia ela faria que isso acontecesse.
Naquele momento precisava, isso sim, de um emprego e de um stio para dormir. Noelle abriu a carteira e tirou a folha de papel que ojovem mdico interno lhe dera. 
Olhou para ela por um instante e depois decidiu-se. Naquela mesma tarde, foi procurar a tia de Israel Katz, que lhe deu um emprego como modelo numa pequena boutique 
de segunda na Rua Boursault.
A tia de Israeel Katz era uma senhora de meia-idade, cabelo grisalho, com um rosto humano e alma de anjo. tratava todas as raparigas como se fossem suas prprias 
filhas, e elas adoravam-na. Era Madame Rose. Deu a Noelle um avano sobre o seu salrio e arranjou -lhe um pequeno apartamento perto da loja. A primeira coisa que 
Noelle fez quando abriu as malas foi pendurar o seu vestido de noiva. P-lo encostado  porta do armrio para que fosse a primeira coisa que via de manh e a ltima 
que via antes de se despir,  noite.
62
Noelle soubera que estava grvida muito antes de haver quaisquer
sinais exteriores que o mostrassem, antes de fazer anlises, antes de
lhe faltar o perodo. Podia sentir a nova vida que se desenvolvia no seu
ventre, e  noite ficava deitada, olhando para o tecto e pensando nela,
os olhos brilhando como os de um animal selvagem.
No seu primeiro dia de folga, Noelle telefonou a Israel Katz e marcou um encontro para almoarem juntos.
- Estou grvida - disse-lhe ela.
- Como sabe? J fez anlises?
- No preciso de fazer nada disso.
Ele abanou a cabea.
- Noelle, imensas mulheres pensam que vo ser mes quando
no vo. Quantos perodos j lhe faltaram?
Ela evitou a pergunta, impacientemente.
-  Preciso da sua ajuda.
Ele olhou-a.
- Para se livrar do beb? J discutiu o assunto com o pai?
- Ele no est c.
- Sabe que o aborto  ilegal... ? Eu posso meter-me num grave sarilho por causa disso.
Noelle observou por um momento.
- Qual  o seu preo?
O seu rosto adquiriu uma expresso zangada.
- Pensa que tudo tem um preo, Noelle?
- Claro - disse ela simplesmente. - tudo pode ser vendido ou
comprado.
- Isso inclui-a a si?
- Sim, mas eu sou muito cara. Ajuda- me?
Houve um longo momento de hesitao.
- Est bem. Mas primeiro quero fazer algumas anlises.
- Muito bem.
Na semana seguinte, Israel Katz arranjou maneira de Noelle ir ao
laboratrio do hospital.
Quando, dois dias mais tarde, os resultados dos testes chegaram,
ele telefonou-lhe para o emprego.
- tinha razo - disse. - Est grvida.
- Eu sei.
- Arranjei maneira de fazer o aborto no hospital. Disse-Lhes que
63

o seu marido morreu num acidente e que voc no est em condies de ter o beb. Faremos a operao no sbado.
- No - disse ela.
- Sbado no  um bom dia para si?
- Eu ainda no estou preparada para fazer o aborto, Israel. Queria apenas ter a certeza de que poderia contar consigo para me ajudar.
Madame ele notou uma certa alterao em Noelle, no apenas uma alterao fsica, mas algo que era muito mais profundo, uma aura, um brilho interior que parecia preench-la. 
Noelle andava sempre com um sorriso nos lbios, como se ocultasse um bom segredo.
- Arranjou um amante -disse Madame Rose. -V-se nos seus olhos.
Noelle assentiu.
- Sim, Madame.
- Ele  bom para si. Agarre-o bem.
-  o que farei - prometeu Noelle. - Pelo menos, enquanto puder.
Trs semanas mais tarde, Israel Katz telefonou-lhe.
- Nunca mais soube nada de si - disse. - Pensei que se tinha esquecido.
- No - disse Noelle. - Estou sempre a pensar nisso.
- Como se sente?
- Maravilhosamente bem.
- Estive a ver um calendrio. Acho que est na hora.
- Ainda no estou preparada - disse Noelle.
Passaram-se trs semanas antes de Israel Katz voltar a telefonar-lhe.
- que tal jantarmos juntos? - perguntou.
- Est bem.
Combinaram encontrar-se num cafezinho barato na Rua do Gato que Pesca. Noelle pensara sugerir um restaurante melhor, mas depois lembrou-se do que Israel dissera 
acerca do facto de os internos no terem muito dinheiro.
Ele j estava  sua espera quando ela chegou. Conversaram calmamente durante o jantar, e s quando o caf chegou  que Israel comeou a falar acerca do que lhe ia 
na mente.
- Ainda est a pensar fazer o aborto? - perguntou. Ela acenou com a cabea em sinal de negao.
- No, ainda no, Israel.

-  a primeira vez que est grvida?
- .
- Ento diga-me uma coisa, Noelle. At aos trs meses, um aborto  um processo relativamente fcil. O embrio ainda no est completamente formado e tudo o que  
necessrio  uma pequena interveno, mas depois disso... - hesitou -...  preciso um outro tipo de operao, e pode ser perigoso. Quanto mais esperar mais perigoso 
se torna. Eu quero que o faa j.
Noelle inclinou-se para a frente.
- Como  o beb?
- Agora? -Ele encolheu os ombros. -Apenas um amontoado de clulas. Claro que todo o conjunto est l para formar um ser humano completo.
- E depois dos trs meses?
- O embrio comea a transformar-se numa pessoa.
- Pode sentir alguma coisa?
- Responde a rudos, por exemplo.
Ela permaneceu sentada, os seus olhos fixos nos dele.
- Pode sentir a dor?
- Suponho que sim. Mas est protegido dentro do saco amnitico.
- De repente, sentiu-se incomodado. -Seria bastante difcil alguma coisa mago-lo.
Noelle baixou os olhos e ficou a olhar para a mesa, silenciosa, pensativa.
Israel estudou-a por um instante e depois disse envergonhadamente:
- Noelle, se quer ficar com essa criana mas tem medo porque no tem pai para ela... bem... eu estaria disposto a casar consigo e a dar-lhe o meu nome.
Ela olhou para ele com surpresa.
- J lhe disse. Eu no quero este beb. Eu quero fazer um aborto.
- Ento, pelo amor de Deus, faa-o! -gritou Israel. Baixou a voz quando se apercebeu de que os outros clientes estavam a olhar para ele. - Se esperar muito mais 
tempo, no haver mdico algum em Frana que Lho faa. No consegue compreender? Se esperar muito, pode morrer.
- Eu entendo - disse Noelle calmamente. - Se eu quisesse ter esta criana, que tipo de alimentao me recomendaria?
Ele passou os dedos pelo cabelo, espantado.
- Muito leite e fruta, carne...
65  
Nessa noite, quando se dirigia para casa, Noelle parou no mercado perto do apartamento e comprou dois quartos de leite e uma grande caixa de fruta fresca.
Dez dias depois, Noelle foi ao escritrio de Madame rose e disse- lhe que estava grvida e pediu-lhe uma licena.
- Durante quanto tempo? - perguntou Madame Rose olhando para a figura de Noelle.
- Seis ou sete semanas. Madame Rose suspirou.
- Tem a certeza de que est a fazer o melhor para si?
- Tenho - respondeu Noelle.
- Posso fazer alguma coisa?
- Nada.
- Muito bem. Volte o mais depressa que puder. Pedirei ao tesoureiro para lhe dar um adiantamento sobre o seu salrio.
- Obrigada, Madame.
Durante as quatro semanas que se seguiram, Noelle nunca saiu do apartamento a no ser para comprar mantimentos. No sentia fome e comia muito pouco, mas bebia enormes 
quantidades de leite para o beb se alimentar e enchia o organismo de frutas. No estava sozinha no apartamento. O beb estava l e ela falava com ele constantemente. 
Sabia que era um rapaz, do mesmo modo que soubera da sua gravidez. Chamou-lhe Larry.
- Quero que sejas grande e forte - dizia enquanto bebia o leite.
- quero que sejas saudvel... Saudvel e forte quando morreres. Deitava-se na cama todos os dias, a magicar a sua vingana contra Larry e o filho dele. Ele era o 
pai da criana, e ela ia mat-lo. Fora a nica coisa que lhe deixara, e ela ia destru-la, tal como ele tentara destru-la a ela.
Como Israel Katz a entendera! Ela no estava interessada num embrio que no sabia nada. Queria que o fruto de Larry sentisse o que lhe estava a acontecer, que sofresse 
como ela tambm sofrera. O vestido de noiva estava agora junto da cama dela, sempre  vista, um talism do mal, recordando-lhe a vingana. Primeiro ofilho de Larry, 
depois... o prprio Larry.
O telefone tocou vrias vezes, mas Noelle deixou-se ficar na cama, perdida nos seus sonhos at ele se calar. tinha a certeza de que era Israel Katz a tentar encontr-la.

Uma noite bateram  porta. Noelle ficou deitada, ignorando o facto, masfinalmente, porque continuavam a bater, levantou-se e foi abrir.
Israel Katz estava ali, o seu rosto transparecendo preocupao.
- Meu Deus, Noelle. H dias que te telefono...
Olhou para o seu estmago dilatado.
- Pensei que o tivesses feito noutro lado qualquer. Ela abanou a cabea.
- No. quando  que fais faz-lo.
Israel fixou o olhar nela.
- No compreendeste nada do que te disse?  muito tarde. Ningum o far.
Ele viu as garrafas de leite vazias e a fruta fresca sobre a mesa. Depois tornou a olhar para ela.
-  queres o beb - disse. - Por que no o admites?
- Diz-me, Israel... Como  ele agora?
- Quem?
- O beb. J tem olhos e orelhas? Tem dedos das mos e dos ps? Pode sentir a dor?
- Pelo amor de Deus, Noelle, pra com isso. Falas como se... se...
- O qu?
- Nada. -Ele abanou a cabea desesperadamente. -No te entendo.
Ela sorriu com suavidade.
- No. No entendes.
Ele ficou ali durante um minuto, tentando decidir-se.
- Est bem, vou arriscar-me por ti, mas, se ests mesmo decidida a fazer o aborto, vamos faz-lo j... Tenho um amigo mdico que me deve um favor... Ele...
- No...
Ele ficou a olhar para ela.
- Larry ainda no est pronto - disse ela.
trs semanas mais tarde, s quatro horas da manh, Israel Katz foi acordado por um batimento furioso na sua porta.
- Telefone, Sr. Mocho da Noite -gritavam. -E diga a quem lhe ligou que estamos a meio da noite, nas horas em que as pessoas devem estar a dormir.
Israel saiu estremunhadamente da cama dirigiu-se ao vestbulo
para atender o telefone, pensando no que teria acontecido de grave. Levantou o auscultador.
- Israel?
No reconheceu a voz do outro lado do telefone.
- Sim?
- Agora... - Era um murmrio, sem corpo e annimo.
- Quem fala?
- Agora. Vem agora, Israel...
Havia algo de sinistro na voz, uma caracteristica que o fez arrepiar-se.
- Noelle?
- Agora.
- Por amor de Deus - explodiu. - No o farei.  muito tarde. Vais morrer, e eu serei o responsvel. Vai a um hospital.
Ouviu o clique do telefone a desligar-se no seu ouvido. Pousou o auscultador e voltou para o quarto, o seu esprito fervilhando. Sabia que no podia fazer nada agora, 
ningum podia. Estava grvida de cinco meses e meio. Avisara-a vezes sem conta, mas ela recusara-se a ouvir. Bom, a responsabilidade era dela. Ele no queria participar 
duma coisa dessas.
Comeou a vestir-se to depressa quanto podia, gelado de medo.
Quando Israel Katz entrou no apartamento, Noelle estava estendida no cho numa poa de sangue, com hemorragias. O seu rosto estava to plido como o de uma morta, 
mas no mostrava sinais da agonia por que o seu corpo passara. Estava vestida com o que parecia ser um vestido de noiva. Israel ajoelhou-se a seu lado.
- Que aconteceu? - perguntou. - Como  que... ? - Parou, os seus olhos fixaram-se num cabide ensanguentado que estava junto dos ps dela.
- Jesus Cristo. - Estava cheio de raiva e, ao mesmo tempo, de um sentimento de impotncia para a ajudar.
O sangue saa com intensidade. No havia tempo a perder.
- Vou chamar uma ambulncia. - Comeou a levantar-se.
Noelle estendeu o brao e agarrou-o com uma fora surpreendente, puxando-o para si.
- O beb de Larry est morto - disse ela, e o seu rosto iluminou- se com um belo sorriso.

Uma equipa de seis mdicos trabalhou durante seis horas para salvar a vida de Noelle. O diagnstico foi envenenamento sptico, ventre perfurado, envenenamento do 
sangue e choque. Todos os mdicos eram de opinio de que havia muito poucas hipteses de ela sobreviver. Mas s seis horas dessa tarde Noelle estava fora de perigo 
e, dois dias mais tarde, j estava sentada na cama e capaz de falar. Israel veio v-la.
- Todos os mdicos dizem que  um milagre estares viva, Noelle. Ela abanou a cabea. Simplesmente, no chegara a hora dela. Conclura a sua primeira vingana contra 
Larry, mas esta era apenas o comeo. Havia mais. Mas primeiro ela tinha de o encontrar. E f-lo-ia.
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Chicago: 1939 -1940
3
Os crescentes ventos de guerra que sopravam pela Europa reduziam-se apenas a dfires suaves e sinais quando chegavam s costas dos Estados Unidos.
Na Universidade de Northwestern, mais alguns rapazes ingressaram no Corpo de Instruo de Oficiais na Reserva, havia manifestaes estudantis incitando o presidente 
Roosevelt a declarar guerra  Alemanha e alguns finalistas assentaram praa nas Foras Armadas. No geral, porm, o mar de complacncia permanecia inaltervel, e 
o movimento subterrneo que em breve assolaria o pas era praticamente imperceptvel.
Quando se dirigia a p para o seu emprego de caixa no Roost nessa tarde de sbado, Catherine Alxander interrogava-se se a guerra, a acontecer, iria alterar a sua 
vida. Sabia de uma alterao a que teria de proceder, e estava determinada a faz-la logo que possvel. Queria desesperadamente descobrir como era sentir um homem 
abra-la e am-la, e sabia que desejava isso em parte por causa das suas necessidades fsicas, mas tambm porque sentia que estava a perder uma experincia importante 
e maravilhosa. Meu Deus, e se fosse atropelada por um carro e se durante a autpsia descobrissem que era virgem? No, tinha de fazer alguma coisa. J.
Catherine percorreu o olhar pelo Roost cuidadosamente, mas no viu o rosto que procurava. Quando Ron Peterson entrou uma hora mais tarde com Jean-Anne, Catherine 
sentiu um formigueiro no corpo e o corao comeou a bater depressa. Virou o rosto quando eles
passaram por ela, e do canto do olho viu os dois dirigirem-se  mesa de Ron e sentarem-se. Havia faixas enormes penduradas na sala: ePROVE O NOSSO HAMBURGER DUPLO 
ESPECIAL. PROVE A NOSSA DELCIA DOS NAMORADOS. PROVE A NOSSA CANECA DE CERVEJA.
Catherine respirou fundo e encaminhou-se para a mesa. Ron Peterson estava a ver a lista, tentando decidir-se.
- No sei que  que vou comer - dizia ele.
- Ests com muita fome? - perguntou Jean-Anne.
- Estou morto de fome.
- Ento prove isto.
Ambos ergueram o olhar surpresos. Era Catherine que ali estava junto  mesa. Entregou a Ron Peterson um papel dobrado, virou-se e regressou  mquina registadora.
Ron desdobrou o papel, leu e desatou a rir-se. Jean-Anne fitava-o impvida.
-  uma piada pessoal ou pode-se saber o que est a?
-  pessoal - disse Ron com um sorriso largo. Meteu o papel no bolso.
Ron e Jean-Anne saram pouco depois. Ron no disse nada quando pagou a conta, mas deu a Catherine um olhar demorado e especulativo, sorriu e saiu de brao dado com 
Jean-Anne. Catherine seguius, sentindo-se uma idiota. Nem sabia atirar-se a um rapaz com xito. No fim do turno, Catherine vestiu o casaco, despediu-se da rapariga 
que ia rend-la e saiu. Estava uma noite quente de Outono com uma brisa refrescante que soprava do lago. Estava uma noite perfeita para - qu? Catherine fez uma 
lista mental. Posso ir para casa e lavar a cabea. Posso ir at  biblioteca estudar para o exame de Latim que tenho amanh. Posso ir ao cinema. Posso esconder-me 
nos arbustos e violar o primeiro marinheiro que aparea. Posso empenhar-me. Empenhar-me, decidiu ele.
quando ia a dirigir-se para a biblioteca, surgiu um vulto por detrs de um poste da luz. - Ol, Cathy. Aonde  que vais? 
Era Ron Peterson que lhe sorria, e o corao de Catherine ps-se a bater com tanta fora que lhe saltou para fora do peito. Viu-o levantar voo por si s, batendo 
sozinho no ar. Apercebeu-se de que Ron a fitava. No era de admirar. Quantas raparigas conhecia ele que sabiam fazer aquele truque com o corao? Queria desesperada-
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mente pentear-se, retocar a maquilhagem, ver as costuras das meias, mas esforou-se para que o seu nervosismo no desse qualquer sinal. Regra nmero um: manter a 
calma.
- Hum... - murmurou ela.
- Aonde vais?
Deveria dar-Lhe a lista? Nem pensar! Ainda ia pensar que ela era maluca. Era a sua grande oportunidade, e ela devia fazer tudo para que no a destrusse. Olhou para 
ele, com uns olhos to ardentes e convidativos como os de Carole Lombard em Nada  Sagrado.
- No tinha nada de especial planeado - disse ela convidativamente.
Ron analisava-a, ainda desconfiado dela, devido a algum instinto primitivo que o tornava cauteloso.
- Gostavas de fazer algo de especial? - perguntou ele. A estava. A Proposta. O ponto sem regresso.
- Di-lo - respondeu -, e eu sou tua. - E encolheu-se por dentro.
Pareceu to piegas. Ningum dizia Di-lo, e eu sou tua excepto nos romances de cordel de Fannie Hurst. Ele ia dar meia volta e afastar-se, desgostoso.
Mas no. Incrivelmente, sorriu, pegou-a pelo brao e disse:
- Vamos.
Catherine acompanhou, atnita. Fora to simples quanto isso. Ia ter relaes sexuais. Comeou a tremer por dentro. Se ele descobrisse que ela era virgem, estaria 
destruda. E de que ia falar quando estivesse na cama com ele? As pessoas falavam durante o acto, ou esperavam at acabarem? Ela no queria ser malcriada, mas no 
fazia ideia de quais eram as regras.
- J jantaste? - perguntou Ron.
- Se jjantei? - Olhou para ele, tentando pensar. J deveria ter jantado? Se dissesse que sim, ele podia lev-la j para a cama e ela podia despachar-se com aquilo. 
-No - disse rapidamente. -No jantei.
ePor que  que eu respondi assim? Deitei tudo a perder. Mas Ron no pareceu aborrecido.
- ptimo. Gostas de comida chinesa?
-  a minha preferida. - Detestava, mas os deuses por certo no se importariam com uma pequena mentira amarela na noite mais importante da sua vida.
- H um ptimo restaurante chins para as bandas de Estes. O Lum Fong. Conheces?
No, mas  nunca se esqueceria enquanto fosse viva. Que fizeste na noite em que perdeste a virgindade? Oh, primeiro fui ao Lum Fong jantar comida chinesa com Ron 
Peterson. Era boa? Claro. Mas sabes como  a comida chinesa. Uma hora depois, euj estava outra vez excitada.
Estavam ao p do carro dele, um carro descapotvel de cor castanha. Ron abriu a porta a Catherine, e ela sentou-se no lugar onde todas as outras raparigas que ela 
invejava tambm se haviam sentado. Ron era encantador, bonito, um atleta de primeira. E um tarado sexual. Seria um bom ttulo para um filme. O Tarado Sexual e a 
Virgem. Talvez devesse ter insistido para que fossem a um restaurante mais agradvel como o Henrici na Baixa, e a Ron teria pensado:  uma rapariga como esta que 
quero mostrar  Me.
- Um cntimo pelos teus pensamentos - disse ele. Oh, ptimol Ento ele no era o conversador mais brilhante do mundo. Mas no era por isso que ela estava aqui, pois 
no? Olhou para ele com ternura.
- Eu estava a pensar em ti. - Aconchegou-se a ele. Ele deu um sorriso largo.
-  enganaste-me  certa, Cathy.
- Enganei?
- Pensei sempre que eras do gnero reservado... quero dizer, que no te interessasses por homens.
A palavra em que ests a pensar  lsbica, pensou Catherine, mas em voz alta disse:
-  que eu gosto de escolher a hora e o lugar.
- Estou feliz por me teres escolhido a mim.
- Tambm eu.
E estava. Na verdade. Podia ter a certeza de que Ron era um bom amante. Fora experimentado e aprovado por todas as estudantes assanhadas num raio de duzentos quilmetros. 
Teria sido humilhante se a sua primeira experincia sexual tivesse sido com algum to ignorante quanto ela. Ron era um mestre. Depois desta noite no voltaria a 
autodenominar-se Santa Catarina. Em vez disso, ficaria provavelmente conhecida como Catarina, a Grande. E desta vez sabia qual o significado de Grande, Seria fantstica 
na cama. O truque era no entrar em pnico. Todas as coisas maravilhosas que lera nos livrinhos de capa verde que mantivera escondidos da me e do pai estavam

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prestes a acontecer-lhe. O corpo dela ia ser um rgo repleto
de msica harmoniosa. Oh, sabia que ia doer na primeira vez; doa
sempre. Mas no deixaria que Ron soubesse. Mexer-se-ia bastante
porque os homens detestavam mulheres passivas. E quando Ron a
penetrasse morderia o lbio para ocultar a dor e disfar-la com um
gritinho de excitao.
- Qu?
Voltou-se para Ron, assustada, e apercebeu-se de que dera um
grito em voz alta.
- Eu... eu no disse nada.
- Deste um grito esquisito.
- Dei? - Forou um risinho.
- Ests a um milho de quilmetros daqui. 
Analisou a estratgia e concluiu que era m. Devia ser mais como
Jean-Anne. Ps-Lhe a mo no brao e aproximou-se. - Estou bem aqui - disse ela. 
Tentou fazer uma voz gutural, como Jean Arthur em Calamity
Jane. Ron desceu o olhar sobre ela, confuso, mas a nica coisa que
pde ler no seu rosto foi uma excitao ansiosa. O Lum Fong era um
restaurante chins de aspecto sombrio e barato, localizado sob a linha
frrea elevada. Durante ojantar ouviram o matraquear dos comboios
quando passavam por cima, estremecendo a loia. O restaurante era
idntico a milhares de restaurantes chineses em toda a Amrica, mas
" Catherine cuidadosamente fixou os pormenores do compartimento
em que estavam sentados, empenhando-se para memorizar o papel
de parede barato e sujo, o bule de porcelana rachado, as manchas de
molho de soja na mesa.
Um criado chins de baixa estatura aproximou-se da mesa e perguntou se desejavam uma bebida. Catherine bebera j alguns usques antes e detestava a bebida, mas agora 
era a Noite de Natal, o 4
de Julho, o Fim da Virgindade. Adequava-se  comemorao.
- Vou tomar um bem forte.
- Um usque com gua tnica.
O empregado retirou-se com uma vnia. Catherine gostava de saber se era verdade que as mulheres orientais eram oblquas.
- No entendo como que  que no nos tornmos amigos antesdizia Ron. - Toda a gente diz que s a aluna mais brilhante da universidade.
- Sabes como as pessoas exageram.
- E tu s muito bonita.
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- Obrigada.
Ela tentou imitar a voz de Katherine Hepburn em Alice Adams e deu-lhe um olhar cheio de significado. J no era Catherine Alexander. Era uma mquina de sexo. Estava 
 beira de se juntar a Mae West, Marlene Dietrich, Clepatra. Iam ser irms atravs do prepcio.
O empregado trouxe a bebida, que ela bebeu num trago rpido e nervoso. ron observava-a surpreso.
- Calma - aconselhou ele. - Essa bebida  fortssima.
- Eu aguento - sossegou-o Catherine confiadamente.
- Mais uma rodada - disse ele ao criado. Ron debruou-se sobre a mesa e acariciou-lhe a mo. - engraado. Todos ns nos enganmos a teu respeito.
- Engano. Ningum na escola pensava em mim.
Ele fitou-a. Cuidado, no te armes em esperta. Para a cama os homens preferiam mulheres com glndulas mamrias e msculos glteos excessivamente grandes, mas crebros 
excessivamente pequenos.
- Eu sentia uma... coisa por ti h muito tempo - disse ela, apressadamente.
- No h dvida de que guardaste bem o segredo. -Ron tirou do bolso o papel que ela escrevera e desdobrou-o calmamente. -Experimente a nossa empregada da caixa - 
leu ele em voz alta, e riu-se.
- At agora estou a gostar mais do que de banana split. Percorreu as mos pelo brao de Catherine, o que lhe causava minsculos arrepios pela espinha abaixo, exactamente 
como os livros diziam que aconteceria. Talvez depois desta noite escrevesse um manual sobre sexo para esclarecer todas as virgens idiotas e infelizes que no sabiam 
o que era a vida. Depois da segunda bebida, Catherine comeou a sentir pena delas.
-  uma pena.
- O qu?
Falara de novo em voz alta. Decidiu ser audaz.
- Estava a pensar na pena que sinto de todas as virgens do mundo - disse ela.
Ron deu-lhe um sorriso largo.
- Isso merece um brinde.
Ele ergueu o copo. Ela olhou para ele, ali sentado  sua frente obviamente desfrutando da companhia dela. No tinha nada com que se preocupar. tudo corria s mil 
maravilhas. Perguntou-lhe se queria
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 mais uma bebida, mas Catherine recusou. No fazia tenes de
ficar num estupor alcolico quando fosse desflorada. Desflorada?
Ainda se usava a palavra desflorada? De qualquer modo, queria lembrar-se de cada momento, cada sensao. Oh, meu Deus! Ela no
tomava nada! E ele? Certamente um homem com a experincia de
Ron Peterson teria alguma coisa para usar, uma proteco para que
ela no engravidasse. E se ele estava a contar com a mesma coisa? E
se ele estava a pensar que uma rapariga com a experincia de Catherine Alexander decerto teria alguma proteco? Poderia perguntar-lhe directamente? Preferia morrer, 
ali  mesa. Que levassem o seu
corpo e lhe dessem uma cerimnia fnebre chinesa.
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Ron pediu ojantar de seis pratos que custava um dlar e setenta
e cinco cntimos, e Catherine fingiu que comia, mas poderia igualmente saber a papelo chins. Sentia-se to tensa que no conseguia
saborear nada. A lngua ficou repentinamente seca e o cu da boca
parecia estranhamente dormente. E se Lhe desse uma coisa? Poderia morrer se tivesse relaes logo a seguir a um ataque. Devia avisar Ron. A sua reputao sairia 
prejudicada se encontrassem uma
mulher morta na cama dele. Ou talvez a mesma sasse reforada.
- Que se passa? - Ron perguntou. - Ests plida.
- Sinto-me ptima - disse ela, despreocupadamente. - Estar
contigo excita-me.
ron olhou-a apreciativamente, os seus olhos castanhos abarcan" do todos os pormenores do seu rosto, descendo at aos seios, onde se
detiveram.
- Tambm sinto o mesmo - respondeu ele.
O criado tinha levado os pratos, e Ron tinha pago a conta. Olhou
para ela, mas Catherine no conseguia mexer-se.
- Queres mais alguma coisa? - perguntou Ron.
Se quero? Oh, sim. Quero ir para a China num barco a vapor.
Quero estar na caldeira dum canibal para servir de jantar. Quero a
minha me!
Ron observava-a,  espera. Catherine respirou fundo.
- No consigo pensar em nada.
- ptimo. - Pronunciou a palavra longa e demoradamente,
como se tivesse posto uma cama na mesa entre eles. - Vamos.
Levantou-se e Catherine seguiu-o. A sensao de euforia causada pela bebida havia desaparecido por completo, e as pernas dela
comearam a tremer.
Estavam c fora ao relento da noite quente quando Catherine foi
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atingida por um pensamento repentino que a encheu de alvio. Ele no me vai levar para a cama esta noite. Os homens nunca fazem isso a uma rapariga no primeiro encontro. 
Ele vai-me convidar para jantar fora outra vez e da prxima vez iremos at ao Henrici e ento iremos conhecer-nos melhor. Conhecer-nos realmente. E provavelmente 
vamos apaixonar-nos... loucamente... e ele vai levar-me a conhecer os pais e depois tudo estar bem... e eu no sentirei este pnico estpido.
- Tens alguma preferncia por motis? - perguntou Ron. Catherine olhou para ele fixamente, muda. Idos eram os sonhos de uma noite calma e agradvel com os pais dele. 
O malandro estava mesmo com ideias de dormir com ela num motel! Bem, era o que ela queria, no era? No foi para isto que escrevera aquele bilhete idiota?
Ron tinha agora a mo sobre o ombro de Catherine, deslizando pelo brao. Teve uma sensao de calor no ventre. Engoliu em seco e disse:
- Quem conhece um motel conhece todos.
Ron olhou para ela com um ar estranho. Mas tudo o que disse foi:
- Est bem. Vamos.
Entraram no carro e dirigiram-se para oeste. O corpo de Catherine tornara-se um bloco de gelo, mas a sua mente corria a um ritmo febril. A ltima vez que se alojara 
num motel fora aos 8 anos quando atravessou o pas na companhia da me e do pai. Desta vez ia dormir com um homem que desconhecia totalmente. que sabia ela a respeito 
dele? Apenas que era bonito, popular e sabia reconhecer uma rapariga fcil.
Ron estendeu o brao e tomou lhe a mo.
- Tens as mos frias - disse ele.
- Mos frias, pernas quentes.
Oh, Deus, pensou ela, el estou eu outra vez. Por alguma razo, a letra de Ah, Doce Mistrio da Vida veio-lhe  lembrana. Bem, ela estava prestes a solucionar o 
mistrio. Preparava-se para descobrir tudo sobre o assunto. Os livros, os anncios sedutores, os versos erticos tenuemente velados -eEmbala-me no Bero do Amor, 
Vamos a Isso Outra Vez, eAt Os Passarinhos Gostam. Pronto, pensou ela. Chegou a vez de Catherine.
Ron virou para sul, entrando na Clark Street. Na frente deles, dos dois lados da rua, piscavam olhos enormes de cor vermelha, letreiros luminosos acesos a noite 
inteira, anunciando aos quatro ventos as
suas ofertas de abrigos baratos e temporrios aosjovens amantes que
no podiam esperar. - MOTEL DO BOM DESCANSO, MOTEL
UMA NOITE, ESTALAGEM ABERTA (esta s podia serfreudiana!),
REPOUSO DOS VIAJANTES. A pobreza da imaginao ressaltava,
mas os proprietrios destes lugares estavam atarefados de mais na
incitao dos jovens casais  fornicao para se preocuparem com literatura.
- Parece que este  o melhor de todos - disse Ron, apontando
para um letreiro em frente.
A ESTALAGEM DO PARASO - QUARTO VAGO. "
Era um smbolo. Havia um quarto vago no Paraso, e ela, Catherine Alexander, ia ocup-lo. 
Ron meteu o carro num ptio que ficava ao lado dum pequeno
escritrio caiado com um letreiro que dizia: TOQUE  CAMPAINHA
E ENTRE. No ptio havia cerca de duas dezenas de casas de madeira
numeradas.
- que te parece? - perguntou Ron.
Como o Inferno de Dante. Como o Coliseu de Roma quando os
Cristos estavam prestes a ser lanados s feras. Como o Templo de
Delfos quando uma das virgens vestais ia ser punida por ter pecado.
Catherine teve de novo aquela sensao no ventre.
- Uma maravilha - disse ela. - Simplesmente maravilhoso.
Ron esboou um sorriso entendedor.
- Volto j.
Ps a mo no joelho de Catherine, deslizando-a at  coxa, deu-lhe um beijo rpido e impessoal, saindo do carro, e entrou no escritrio. Ela ficou ali, a olhar para 
ele, tentando no pensar em nada.
Ouviu o uivo duma sirene ao longe. Oh, meu Deus, pensou ela aflita,
Huma rusga! Fazem muitas rusgas e estes stios!" A porta do escritrio do gerente abriu-se e Ron saiu. trazia uma chave e, aparentemente, ignorava a sirene que se 
aproximava cada vez mais. Caminhou at ao lado onde Catherine se sentava e abriu a porta.
- tuddo em ordem - disse ele.
A sirene era um carpido estridente cada vez mais prximo. Poderia a polcia prend-los s por estarem no ptio?
- Anda da - disse Ron.
- No ests a ouvir?
- O qu?
A sirene passou por eles e desceu ululante a rua, afastando-se,
morrendo na distncia.

Bolas!
- Os pssaros - disse ela, num tom frgil. Havia um ar de impacincia no rosto de Ron.
- Se h alguma coisa que esteja a incomodar-te... - disse ele.
- No, no - Catherine logo interrompeu. -J vou. - Saiu do carro e dirigiram-se para um dos apartamentos. -Oxal te tivessem dado o meu nmero de sorte - disse 
ela alegremente.
- Que disseste?
Catherine olhou para ele e repentinamente apercebeu-se de que no dissera nenhuma palavra. tinha a boca completamente seca.
- Nada - disse ela num tom rouco.
Chegaram  porta com o nmero treze. Era exactamente o que ela merecia. Era um sinal dos Cus de que ia engravidar, de que Deus ia castigar Santa Catarina.
Ron abriu a porta e segurou-a para que ela passasse. Acendeu a luz e ela entrou. No queria acreditar. O quarto parecia ter apenas uma cama enorme. Os nicos mveis 
eram uma poltrona com um ar desconfortvel a um canto, um pequeno toucador com um espelho e, ao lado da cama, um rdio velho com uma ranhura onde se punha uma moeda 
de vinte e cinco cntimos. Quem entrasse aqui nunca se enganaria sobre a finalidade deste quarto: um stio para onde um rapaz trazia uma rapariga para ter relaes. 
Ningum poderia dizer: aBem, esta  a cabana de esqui, ou a sala dosjogos de guerra, ou a sute nupcial do Hotel Embaixador. No. Isto no passava de um reles ninho 
de amor. Catherine virou-se para ver o que Ron fazia, e ele estava a trancar a porta. Bom. Se a Brigada de Costumes os procurasse, teria de arrombar a porta primeiro. 
Imaginou-se a ser levada nua pelos dois polcias enquanto era fotografada para a primeira pgina do Chicago Daily Ner. us. Ron aproximou-se de Catherine e abraou- 
a.
- Ests nervosa? perguntou ele.
Ela olhou e forou um sorriso que teria deixado Margaret Sullivan orgulhosa.
- Nervosa, eu? Ron, no sejas parvo. Ele continuava a analis-la, inseguro.
- No  a primeira vez, pois no, Cathy ?
- Eu no tenho nenhuma tabela.
- Tenho uma sensao esquisita a teu respeito.
Pronto. Ia mand-la embora com a sua virgindade e dizer-lhe fosse tomar um duche frio. Bem, ela no ia deixar que isso acontecesse. No esta noite.
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- Que espcie de sensao?
- No sei. - A voz de Ron revelava perplexidade. - Tanto ests sedutora e, sabes, com vontade, e logo a seguir o teu pensamento est longe daqui e ficas frgida 
como o gelo.  como se tivesses uma dupla personalidade. Qual delas  a verdadeira Catherine Alexander?
Frgida como o gelo, disse ela automaticamente a si prpria, acrescentando em voz alta:
- Eu vou-te mostrar. -Abraou-o e beijou na boca de tal forma que sentiu o cheiro dos ovos que haviam comido.
Ele beijou-a com mais fora e puxou- a parajunto de si. Passoulhe as mos pelos seios, acariciandos, introduzindo-lhe a lngua na boca. Catherine sentiu uma humidade 
quente interior e as calcinhashumedecerem. Pronto, pensouela. KVaimesmo acontecer. Vai mesmo acontecer! Abraou- com mais fora, possuda por uma excitao crescente 
quase insuportvel.
- Vamos tirar a roupa - disse Ron com a voz rouca. Recuou e comeou a tirar o casaco.
- No - disse ela. - Deixa-me ser eu a tirar. - A sua voz tinha uma confiana nova.
Se esta era a noite das noites, ela ia portar-se  altura. Ia lembrar- se de tudo o que lera ou vira. ron no ia voltar para a escola e rir- se com as outras de 
como fizera amor com uma virgenzita estpida. Catherine podia no ter a medida do busto de Jean-Anne, mas tinha
um crebro dez vezes mais til, e ia p-lo a funcionar para tornar Ron feliz de uma forma insuportvel. tirou-Lhe o casaco e colocou-o na cama, depois pegou na gravata.
- Calma - disse Ron. - Quero ver-te a tirares a roupa. Catherine olhou-o fixamente, engoliu em seco, alcanou lentamente o fecho de correr e saiu do vestido. Ficou 
de soutien, combi nao, cuecas, sapatos e meias.
- Continua.
Ela hesitou por um momento, depois baixou-se e tirou a combinao. uFeras 2-Cristos o, pensou ela.
- Fantstico! Continua.
Catherine sentou-se lentamente na cama e cuidadosamente tirou os sapatos e as meias, tentando dar  pose o mximo de seduo. Repentinamente, sentiu Ron atrs de 
si, desapertando-lhe o soutien. Deixou-se cair na cama. Ele ergueu-a e comeou a tirar-lhe as cuecas. Ela respirou fundo e fechou os olhos, desejando estar noutro 
lugar com outro homem, um ser humano que a amasse, que ela amasse, que desse filhos esplndidos a quem daria o nome dele, que lutasse por ela e matasse por ela e 
para quem ela seria uma companheira adorvel. Uma prostituta na cama dele, uma ptima cozinheira na cozinha dele, uma anfitri encantadora na sala de visitas dele. 
um homem que matasse um safado como ron Peterson por ousar traz-la para este quarto nojento e degradante. As cuecas caram no cho. Catherine abriu os olhos.
Ron olhava para ela, com um rosto cheio de admirao.
- Meu Deus, Cathy, como s bela - disse ele. - s mesmo bela. Curvou- se e beijou-lhe os seios. Ela viu um relance no espelho do toucador. Parecia uma farsa francesa, 
srdida e suja. Tudo dentro dela,  excepo da dor quente que sentia no ventre, lhe dizia que isto era triste, feio e errado, mas agora no havia maneira de parar. 
Ron estava a arrancar a gravata e a desabotoar a camisa, afogueado. Desapertou o cinto e ficou de cuecas, sentando-se depois na cama para tirar os sapatos e as meias.
-  verdade, Catherine - disse ele, com a voz estrangulada de emoo. -  s a coisa mais bela que eu j vi.
As palavras dele apenas serviram para aumentar o pnico de Catherine. Ron ps-se de p, um sorriso largo de antecipao no rosto, deixando que as cuecas cassem 
para o cho. O seu rgo masculino estava erecto, como um salame enorme e inchado rodeado de plos. Catherine nunca vira coisa maior e mais incrvel.
- Gostas? - disse ele, baixando o olhar com orgulho. Sem pensar, Catherine disse:
- s fatias com centeio. Sem mostarda nem alface. E ela ficou a a v- lo murchar.
No segundo ano de Catherine houve uma alterao no ambiente na universidade.
Pela primeira vez sentia-se uma preocupao crescente sobre o que estava a passar-se na Europa e um pressentimento crescente de que a Amrica ia envolver-se. O sonho 
de Hitler de que o Terceiro Reich dominaria o mundo por mil anos estava a concretizar-se. Os nazis ocuparam a Dinamarca e invadiram a Noruega.
Nos ltimos seis meses o tema de conversa nas universidades do pas deixara de ser o sexo, as roupas e os bailes para girar  volta do Corpo de Instruo de Oficiais 
na Reserva, do alistamento e do 
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emprstimo e Arrendamento. Um nmero crescente de alunos universitrios aparecia com a farda do Exrcito e da Marinha.
Certo dia, Susie roberts, companheira na escola em Senn, deteve Catherine no corredor.
- Quero despedir-me de ti, Cathy. Vou-me embora.
- Para onde vais?
- Para Klondike.
- Klondic?
- Washington. As mulheres l valem ouro. Diz-se que h pelo menos cem homens para uma mulher. Agrada-me esta proporo. Olhou para Catherine. - Para que  que queres 
ficar agarrada a este stio? As aulas so uma seca. Temos um mundo inteiro  nossa espera.
- No posso ir assim sem mais nem menos - disse Catherine. No sabia porqu: nada a prendia de facto a Chicago. Correspondia-se regularmente com o pai em Omaha, 
e telefonava- lhe uma ou duas vezes por ms, e, de cada vez que o fazia, a voz dele parecia a dum prisioneiro.
Catherine estava agora sozinha. Quanto mais pensava em Washington, mais excitante a ideia lhe parecia. Nessa noite telefonou ao pai e disse-lhe que queria abandonar 
os estudos e ir trabalhar para Washington. Ele perguntou-lhe se elagostaria de voltar para Omaha, mas Catherine apercebeu-se de uma certa relutncia na voz dele. 
Ele no queria que ela ficasse com as pernas cortadas, como ele ficara.
Na manh seguinte, Catherine foi falar com a reitora das alunas e comunicou-lhe que ia deixar a escola. Enviou um telegrama a Susie Roberts e no dia seguinte estava 
num comboio a caminho de Washington.
Paris: 1940
4
No sbado, 14 de Junho de 1940, o Quinto Exrcito alemo marchou sobre Paris, deixando a cidade atordoada. A Linha Maginot tornara-se no maior fracasso da histria 
da guerra e a Frana ficou indefesa perante uma das mais poderosas mquinas militares que o mundo j conhecera.
O dia comeara envolto numa mortalha estranha e cinzenta que pairava sobre a cidade, uma aterradora nuvem de origem desconhecida. Durante as ltimas quarenta e oito 
horas o fogo intermitente quebrava o silncio anormal e assustado de Paris. Os canhes ribombavam nas imediaes da cidade, mas os ecos reverberavam no corao de 
Paris. Surgira uma torrente de boatos transportados como uma vaga gigantesca na rdio, nos jornais e de boca em boca. Os boches invadiam a costa francesa... Londres 
fora destruda... Hitler chegara a um acordo com o Governo ingls... Os alemes iam devastar Paris com uma nova bomba mortfera. De incio, cada boato fora aceite 
como um evangelho, criando o seu prprio pnico, mas as crises constantes acabam por surtir um efeito entorpecente, como se a mente e o corpo, incapazes de absorver 
qualquer outro terror, se retrassem numa concha protectora de apatia. Neste momento as fbricas estavam completamente paradas, osjornais deixaram de imprimir-se 
e as antenas das estaes de rdio calaram-se. O instinto humano vencera as mquinas, e os parisienses pressentiam que era chegado o dia de deciso. A nuvem cinzenta 
era um pressgio. E nessa altura os gafanhotos alemes comearam a chegar em enormes enxames.
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de um momento para o outro, Paris era uma cidade cheia de soldados e civis estrangeiros, que falavam uma lngua estranha e gutural, desfilavam pelas avenidas largas 
ladeadas de rvores em grandes Mercedes agitando bandeiras nazis ou empurravam as pessoas ao
longo dos passeios que agora lhes pertenciam. Eram na verdade os
super homens, destinados a conquistar e dominar o mundo.
No espao de duas semanas acontecera uma transformao surpreendente. Os letreiros em alemo apareciam em toda a parte. As
esttuas dos heris franceses haviam sido derrubadas e a sustica
esvoaava em todos os edifcios pblicos. Os esforos alemes para
erradicar tudo o que era gauls atingiram propores ridculas. As
marcas nas torneiras mudaram de quente e frio para heiss e halt. A
Praa de Broglie em Estrasburgo passou a chamar-se Adolf Hitler
Platz. As esttuas de Lafayette, Ney e Kleber foram dinamitadas por sapadores nazis. As inscries sobre os monumentos aos mortos
foram substitudas por TOMBADOS PELA AI. EMANHAH.
As tropas alems da ocupao divertiam-se. Embora a comida
francesa fosse demasiado rica e servida com demasiados molhos,
constitua ainda assim uma mudana agradvel das raes de guerra. Os soldados ignoravam e pouco se importavam que Paris fosse a
cidade de Baudelaire, Dumas e Molire. Para eles, Paris era uma
puta espampanante, vida e com excesso de maquilhagem e com a
saia puxada at s coxas, que eles violaram, um de cada vez. Os soldados da Tempestade levavam as raparigas francesas para a cama 
fora, por vezes na ponta da baioneta, enquanto os chefes como Goering e Himmler violavam o Louvre e as ricas propriedades privadas
que gananciosamente confiscavam aos inimigos recentes do reich.
se a corrupo e o oportunismo franceses vieram  superfcie neste tempo crtico, o mesmo se deu com o herosmo. Uma das armas secretas da resistncia foram os Bombeiros, 
os quais em Frana esto
sobjurisdio do Exrcito. Os alemes apoderaram-se de dezenas de
edifcios para uso militar, a Gestapo e vrios ministrios, e a localizao destes edifcios no era obviamente nenhum segredo. Num
quartel-general da resistncia subterrnea em St. Rmy, os chefes
da Resistncia, debruavam-se sobre enormes mapas assinalando
em pormenor a localizao de cada edifcio. Os peritos recebiam ento
Os seus alvos, e no dia seguinte um carro em alta velocidade ou um
ciclista com ar inocente passava por um desses edifcios e atirava uma

bomba de fabrico caseiro atravs de umajanela. At esse ponto os prejuzos eram de pouca monta. A engenhosidade do plano residia no que acontecia depois. Os alemes 
chamavam os bombeiros para apagarem o fogo. Como em todos os pases, sempre que h uma deflagrao os bombeiros encarregam-se de tudo, e em Paris no era diferente. 
Os bombeiros precipitavam-se para o interior do edifcio enquanto os alemes ficavam docilmente  parte a v-los destruir tudo o que estava  vista com mangueiras 
de alta presso, machados e - sempre que surgia a oportunidade - as suas prprias bombas incendirias. Deste modo, a Resistncia conseguia destruir registos alemes 
de valor inestimvel guardados nas fortalezas da Wehrmacht e da Gestapo. O Alto-Comando precisou de quase seis meses para se dar conta do que estava a acontecer, 
mas por essa alturaj tinham sido causados prejuzos irreparveis. A Gestapo nada podia provar, mas todos os elementos dos bombeiros foram agrupados para combater 
na frente russa.
Havia falta de tudo, desde comida a sabo. No havia gasolina, nem carne, nem lacticnios. Os alemes confiscaram tudo. As lojas que comercializavam produtos de 
luxo permaneciam abertas, apenas frequentadas por soldados que pagavam com marcos de ocupao, os quais eram idnticos aos marcos regulares, s que no tinham a 
tarja branca nas bordas, nem o aval de pagamento, impresso mas no assinado.
- Quem nos trocar isto? -lamentavam-se os lojistas franceses. E os alemes respondiam, sorrindo:
- O Banco de Inglaterra.
Nem todos os Franceses sofriam, porm. Para os que tinham dinheiro e ligaes havia sempre o mercado negro.
A vida de Noelle Page sofreu poucas alteraes com a ocupao. Trabalhava como modelo na boutique Chanel na Rua Canbon, num edifcio de pedra cinzenta com 150 anos 
e de aspecto vulgar, mas cujo interior estava elegantemente decorado. A guerra, como todas as guerras, produzira milionrios da noite para o dia, e no havia falta 
de clientes. Noelle recebia propostas como nunca; a nica diferena era que a maioria delas eram agora feitas em alemo. Quando no estava a trabalhar, tinha por 
hbito sentar-se horas a fio em pequenas
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esplanadas dos Campos Elsios ou na Margem Esquerda, junto  Pont Neuf. Havia centenas de homens em uniformes alemes, muitos deles acompanhados dejovens francesas. 
Os civis franceses ou eram velhos de mais ou aleijados, e Noelle supunha que os mais novos tinham sido enviados para acampamentos ou chamados a cumprir o servio 
militar. Reconhecia os alemes  primeira vista, mesmo quando no estavam fardados. tinham um ar de arrogncia estampado nos rostos, o ar que os conquistadores tinham 
desde os dias de Alexandre e Adriano. Noelle no os odiava, mas tambm no gostava deles. Eram-lhe simplesmente indiferentes.
tinha uma vida interior completa, planeando com cuidado cada um dos seus movimentos. Sabia exactamente o que desejava, e sabia que nada poderia impedi-la. Assim 
que pde, contratou um detective privado que tratara do divrcio duma modelo com quem trabalhava. O detective chamava-se Christian Barbet e tinha um escritorizinho 
miservel da Rua de So Lzaro. Na tabuleta da porta lia-se:
INVESTIGAES
PESSOAIS E COMERCIAIS INQURITOS INFORMAES CONFIDENCIAIS
VIGILNCIAS
PROVAS
A tabuleta era quase maior que o escritrio. Barbet era baixo e careca e tinha uns dentes amarelos e partidos, olhos pequenos e estrbicos e uns dedos que a nicotina 
manchara.
- Em que posso servi-la? - perguntou a Noelle.
- Desejo informaes sobre uma pessoa que se encontra em Inglaterra.
Ele pestanejou com um ar suspeito.
- Que tipo de informaes?
- De todo o gnero. Se  casado, com quem se encontra. Sej a o que for. Quero fazer um arquivo sobre ele.
Barbet coou a virilha cautelosamente e olhou fixamente para ela.
- Ele  ingls?
-  americano.  piloto da Esquadrilha guia da R. A. F. Barbet coou a cabea calva, embaraado.

- No sei - resmungou ele. - Estamos em guerra. Se me apanham a tentar obter informaes de Inglaterra sobre um aviador...
A voz arrastou-se e encolheu os ombros expressivamente.
- Os alemes atiram primeiro e fazem perguntas depois.
- Eu no quero nenhuma informao militar - assegurou-lhe Noelle. Abriu a carteira e tirou um mao de francos.
Barbet olhou-os sofregamente.
- Eu tenho ligaes em Inglaterra-disse ele cautelosamente, mas isso vai sair-lhe caro.
E foi assim que comeou. Passaram-se trs meses quando o pequeno detective telefonou a Noelle. Ela foi ao escritrio, e as suas primeiras palavras foram:
- Ele est vivo?
E, quando Barbetfez um sinal afirmativo com a cabea, o seu corpo deixou transparecer o alvio que ela sentiu, e Barbet pensou: Deve ser maravilhoso termos algum 
que nos ame tanto.
- O seu namorado foi transferido - disse-lhe Barbet.
- Para onde?
Ele olhou para um bloco de notas que estava sobre a secretria.
- Ele estava adstrito  Esquadrilha 609 da R. A F. Foi transferido para a Esquadrilha 121 em Martlesham East, em East Anglia. Ele anda a pilotar Hurricanes
- Isso no me interessa.
- A senhora est a pagar por tudo - disse ele. - Deve querer dar o seu dinheiro por bem empregue. - Voltou a olhar para os apontamentos. - Ele anda a pilotar Hurricanes. 
Antes, voava com Bffalos americanos.
Virou uma pgina e acrescentou:
- Agora  um pouco pessoal.
- Diga - disse Noelle.
Barbet encolheu os ombros.
- Aqui est uma lista das mulheres com quem se encontra. Eu no sei se queria...
- Eu disse-lhe: tudo.
Havia na voz dela um tom estranho que o confundiu. Havia neste caso alguma coisa que no era completamente normal, algo que no soava a verdade. Christian Barbet 
era um investigador de terceira classe que se ocupava de clientes de terceira classe, mas por causa disso ele desenvolvera um instinto brutal pela verdade, um nariz 
que farejava os factos. A bela rapariga que se encontrava no seu escritrio
 perturbava-o. A princpio, Barbet pensara que ela poderia estar a tentar envolv-lo em alguma espcie de espionagem. Depois concluiu que era uma mulher abandonada 
em busca de provas contra o marido. Admitiu ter-se enganado, e agora andava s aranhas para entender o que queria a sua cliente... ou porqu. Entregou a Noelle a 
lista das namoradas de Larry Douglas e observou o rosto dela enquanto a lia. Era como se estivesse a ler o rol da lavandaria.
Terminou e ergueu o olhar. Christian Barbet no fazia a mnima ideia do que ela ia proferir a seguir.
- Estou muito satisfeita - disse Noelle.
Olhou-a e pestanejou rapidamente.
- Por favor, telefone-me quando tiver mais informaes. Muito depois de Noelle Page ter sado, Barbet sentou-se a olhar fixamente parafora dajanela, tentando adivinhar 
as verdadeiras pretenses da sua cliente.
Os teatros de Paris registavam novas enchentes. Os alemes frequentavam-no para comemorar a glria das suas vitrias e exibir as belas francesas que traziam pelo 
brao como se fossem trofus. Os franceses frequentavam para esquecer por algumas horas que eram
um povo infeliz e derrotado.
Noelle tinha ido ao teatro em Marselha vrias vezes, mas vira peas amadoras, onde predominava o desleixo, representadas por actores de quarta categoria para plateias 
indiferentes. O teatro em Paris era novamente algo de especial. Estava vivo e resplandecente, com o esprito e a graa de Molire, Racine e Colette. O incomparvel 
Sacha Guitry inaugurara o seu teatro, e Noelle foi v-lo actuar. Assistiu a uma reposio de A Morte de Danton de Biichner e a uma pea intitulada Asmode, da autoria 
dum novo e prometedorjovem escritor chamado Franois Mauriac. Foi  Comdie Franaise ver A Cada Um a Sua Verdade, de Pirandello, e Cyrano de Bergerac, de Rostand. 
Noelle ia sempre sozinha, alheia aos olhares de admirao dos que a  rodeavam, completamente perdida no drama que se desenrolava no palco. Um pouco da magia que 
se prolongava atrs das luzes da ribalta fazia-lhe lembrar algo. Tal como os actores do palco, tambm ela
representava um papel, fingindo ser uma coisa que no era, escondendo-se por detrs de uma mscara.
Uma pea em particular, Huis Clos, de Jean-Paul Sartre, tocou-lhe profundamente. O actor principal era Philippe Sorel, um dos dolos da
Europa. Sorel era feio, baixo e gordo, e tinha um nariz torto e um rosto de pugilista. Mas quando falava o momento era de magia. Transformava-se num homem sensvel 
e elegante.  como a histria do Prncipe e do Sapo,pensou Noelle ao v-lo representar. S que ele  os dois. Foi v-lo repetidamente, sentando-se na primeira fila 
para analisar a actuao dele, tentando captar o segredo daquele magnetismo.
Certa noite, durante o intervalo, um arrumador entregou a Noelle um bilhete que dizia o seguinte: Tenho-a visto na plateia noites seguidas. Por favor venha aos bastidores 
esta noite para eu a conhecer. P.S. Noelle voltou a l-lo, saboreando-o. No porque Philippe Sorel fosse alguma coisa, mas porque sabia que isto era o incio daquilo 
que procurava.
Dirigiu-se aos bastidores no final do espectculo. Um velho que estava  porta levou-a ao camarim de Sorel. Estava diante de um espelho, apenas de cuecas, tirando 
a maquilhagem. Analisou Noelle pelo espelho.
- E incrvel - disse ele por fim. - Voc  ainda mais bonita de perto.
- Obrigada, Sr. Sorel.
- Donde ?
- Marselha.
Sorel voltou-se parav-la melhor. Comeou a analis-la desde os ps at  cabea, sem perder nada. Noelle deixou-se estar sob o olhar atento sem se mexer.
- A procura de emprego? - perguntou ele.
- No.
- Eu nunca pago - disse Sorel. - do  que lhe posso arranjar  uma entrada permanente para as minhas peas. Se quer dinheiro, meta-se com um banqueiro.
Noelle deixou-se ficar, observando-o calmamente. Por fim, Sorel disse:
- Anda  procura de qu?
- Acho que de si.
Jantaram e depois voltaram para o apartamento de Sorel, situado na bonita rua Maurice-Barres e que dava para a esquina onde comeava o Bosque de Bolonha. Philippe 
Sorel era um amante habilidoso, surpreendentemente atencioso e abnegado. Sorel s estava a contar com a beleza de Noelle, e ficou espantado com a sua versatilidade 
na cama.

- Caramba! - disse ele. - s fantstica. Onde aprendeste tudo isto?
Noelle pensou na pergunta durante um momento. No era de facto uma questo de aprender. Era uma questo de sentir. Para ela o corpo dum homem era um instrumento 
para se aproveitar, para explorar at s mais ntimas profundezas, encontrando os pontos sensveis para os manipular, sendo o seu corpo um meio para criar harmonias 
delicadas.
- Nasceu comigo - disse ela simplesmente.
As pontas dos dedos comearam a tocar levemente os lbios dele, toques rpidos e leves de borboleta, e depois desceram at ao estmago. Viu ganhar nova ereco. 
Levantou-se para ir  casa de banho e regressou logo depois, metendo o pnis na boca. tinha a boca quente, cheia de gua morna.
- Oh, Deus - disse ele.
Passaram a noite a fazer amor, e de manh Sorel convidou Noelle a morar com ele.
Noelle viveu com Philippe Sorel durante seis meses. No foi feliz nem infeliz. Sabia que a sua presena deixava Sorel arrebatadoramente feliz, o que para Noelle 
no tinha a mnima importncia. Considerava-se simplesmente uma aluna, determinada a aprender uma coisa nova todos os dias. Ele era uma escola que ela frequentava, 
uma parte nfimo do seu imenso plano. Para Noelle no havia nada de pessoal na relao deles, pois ela no se entregava. Cometera esse erro duas vezes e no voltaria 
a comet-lo. S havia lugar para um homem no pensamento de Noelle, e esse homem era Larry Douglas. Sempre que passava pela Praa des Victoires ou por um parque ou 
restaurante aonde Larry a tinha levado, Catherine sentia um dio intenso que a sufocava, de tal forma que era difcil respirar, e havia algo mais naquele dio, algo 
que Noelle no conseguia identificar.
Dois meses depois de ter ido viver com Sorel, Noelle recebeu uma chamada de Christian Barbet.
- Tenho mais um relatrio para si - disse o pequeno detective.
- Ele est bem? - perguntou logo Noelle.
Barbet voltou a sentir-se completamente embaraado. - Sim, est - disse ele.
A voz de Noelle encheu-se de alvio.
- Vou j para a.

O relatrio dividia-se em duas partes. A primeira referia-se  carreira militar de Larry Douglas. Abatera cinco avies alemes e foi o primeiro americano a tornar-se 
um s da guerra. Fora promovido a capito. A segunda parte do relatrio interessou a mais. Tornara-se muito popular na vida social de Londres em tempo de guerra 
e estava comprometido com a filha de um almirante ingls. Seguia-se uma lista de raparigas com quem Larry dormia, que ia desde coristas  mulher dum subsecretrio 
do Ministrio.
- quer que eu v por diante? - perguntou Barbet.
- Naturalmente -respondeu Noelle. tirou um envelope da carteira e entregou- a Barbet. - Telefone-me quando tiver mais notcias.
E foi-se embora.
Barbet suspirou e olhou para o tecto.
- Louca - disse ele pensativamente.
Se Philippe Sorel tivesse feito a mnima ideia do que se passava na cabea de Noelle, teria ficado espantado. Noelle parecia totalmente dedicada a ele. Fazia tudo 
por ele: cozinhava refeies maravilhosas, fazia compras, dirigia a limpeza do apartamento dele e fazia amor sempre que ele tinha vontade. E nada pedia em troca. 
Sorel felicitava-se por ter encontrado a amante perfeita. Levava-a a todo o lado, e ela conheceu todos os amigos dele. Ficavam encantados com ela e achavam que Sorel 
era um homem cheio de sorte.
Uma noite, quando ceavam depois do espectculo, Noelle disse-lhe:
- Eu quero ser actriz, Philippe.
Ele abanou a cabea.
- Deus sabe como s bastante bela, Noelle, mas estoufarto de andar com actrizes.  s diferente, e eu quero que continues assim. No quero dividir-te com ningum. 
-Acariciou-lhe a mo. -No te dou tudo o que precisas?
- Ds, Philippe - respondeu Noelle.
quando regressaram ao apartamento nessa noite, Sorel quis fazer amor. quando acabaram, ele estava esgotado. Noelle nunca fora to excitante, e Sorel congratulou-se 
por ela apenas precisar da firme orientao dum homem.
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No domingo seguinte era o aniversrio de Noelle, e Philippe Sorel ofereceu-lhe um jantar no Maxim. Reservara a enorme sala de jantar privada do andar de cima, decorada 
com veludo vermelho e painis de madeira escura. Noelle ajudara a fazer a lista de convidados, incluindo um nome de que no deu conhecimento a Philippe. Havia quarenta 
pessoas na festa. Brindaram ao aniversrio de Noelle e deram-lhe presentes caros. Findo ojantar, Sorel levantou-se. Bebera uma boa quantidade de brande e champanhe 
e estava um pouco desequilibrado, as palavras eram pronunciadas de forma um tanto indistinta.
- Meus amigos-disse ele-, bebemos em honra da mulhermais bonita do mundo e demos-lhe belos presentes, mas tenho um presente que a vai deixar boquiaberta. - Sorel 
baixou o olhar para Noelle e sorriu, voltando-se depois para a multido. -Ns vamos casar-nos.
Houve um aplauso de apoio, e os convidados apressaram-se a bater nas costas de Sorel e desejar sorte  futura noiva. Noelle deixou -se estar, sorrindo, murmurando 
o seu agradecimento. Um dos clientes no se levantara. Estava sentado a uma mesa no fundo da sala, fumando uma longa boquilha e contemplando a cena sardonicamente. 
Noelle apercebeu-se de que estivera a observ-la durante todo o jantar. Era um homem alto e muito magro, com um rosto intenso e meditativo. Parecia divertir-se com 
tudo o que estava a acontecer  sua volta, mais observador do que participante. O olhar de ambos cruzou-se, e ela sorriu.
Armand Gautier era um dos principais encenadores de Frana. Dirigia o Teatro de Repertrio Francs, e as suas produes tinham sido aclamadas no mundo inteiro. O 
nome de Gautier  frente de uma pea ou de um filme era garantia de xito quase certo. tinha a fama de ser particularmente competente na direco de actrizes e lanara 
meia dzia de estrelas importantes.
Sorel estava ao lado de Noelle, a falar com ela.
- Ficaste surpreendida, minha querida? - perguntou ele.
- Fiquei, Philippe - disse ela.
- Vamos casarj. A cerimnia vai ser na minha casa de campo. Sobre o ombro, Noelle via que Armand Gautier a observava, com aquele seu sorriso enigmtico. Alguns 
amigos aproximaram- se e levaram Philippe, e quando Noelle se voltou Gautier estava ao p dela.
- Parabns - disse ele. Havia um tom trocista na voz dele. -Voc pescou um peixe grado.
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- No me diga.
- Philippe Sorel  uma boa presa.
- Para algumas pessoas, talvez - disse Noelle com indiferena. Gautier olhou-a surpreendido.
- Est a tentar dizer-me que no est interessada?
- No estou a tentar dizer nada.
- Boa sorte. - E fez meno de se afastar.
- Sr. Gautier... Ele deteve-se.
- Posso v-lo hoje  noite? - perguntou Noelle calmamente. Gostava de falar consigo a ss.
Armand Gautier olhou-a por um momento, depois encolheu os ombros.
- Como quiser.
- Irei ter  sua casa. Est bem assim?
- Sim, claro. A morada ...
- Eu tenho a morada. Meia-noite?
- Meia-noite.
Armand Gautier vivia num velho edifcio de apartamentos elegantes da Rua Marbeu. Um porteiro conduziu Noelle ao trio, e um ascensorista levou-a ao quarto piso e 
indicou o apartamento de Gautier. Noelle tocou  campainha. Alguns momentos depois, a porta foi aberta por Gautier. trazia um roupo s flores.
- Entre - disse ele.
Noelle entrou no apartamento. No era muito entendida na matria, mas sentiu que estava decorado com bom gosto e que os objectos de arte eram valiosos.
- Desculpe no estar vestido - Gautier desculpou-se. - Estive ao telefone.
Os olhos de Noelle firmaram-se nos dele.
- No ser necessrio vestir-se. - Ela aproximou-se do sof e sentou- se.
Gautier sorriu.
- Tambm pressenti isso, Noelle. Mas h uma coisa que me intriga. Porqu eu? Voc est comprometida com um homem famoso e rico. Se o seu desejo  andar  procura 
de outras actividades, estou certo de que poderia achar homens mais atraentes que eu, e certamente mais ricos e jovens. que quer de mim?
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- Quero que me ensine a representar - disse Noelle. Armand Gautier fitou-a por um instante, depois suspirou.
- Voc desaponta-me. Estava  espera de algo mais original.
- A sua profisso  trabalhar com actores.
- Com actores, no com amadores. J representou?
- No. Mas voc vai ensinar-me. - tirou o chapu e as luvas. Onde  que fica o seu quarto? - perguntou ela.
Gautier hesitou. A sua vida estava cheia de mulheres bonitas que desejavam ingressar no teatro ou que desejavam um papel maior, ou o principal papel de uma nova 
pea, ou um camarim maior. Eram todas umas chatas. Sabia que seria uma parvoce envolver-se com mais uma. E no entanto no havia necessidade nenhuma de se envolver. 
Aqui estava uma rapariga bonita que se oferecia. Bastaria lev-la para a cama e depois mand-la embora.
- Ali - disse ele, apontando para uma porta.
Ficou a ver Noelle caminhar na direco do quarto. Perguntou a si prprio que pensaria Philippe Sorel se soubesse que a futura noiva ia passar a noite ali. Mulheres. 
Todas umas putas. Gautier serviu -se de brande e fez vrios telefonemas. Quando por fim entrou no quarto, Noelle estava deitada, nua,  espera dele. Gautier tinha 
de admitir que ela era um refinado produto da natureza. O rosto era de cortar a respirao, o corpo impecvel. A pele era da cor do mel, excepto o tringulo de plos 
louros e macios entre as pernas. Gautier sabia por experincia que as mulheres bonitas eram quase invariavelmente narcisistas, to preocupadas com os seus prprios 
egocentrismos que no valiam nada na cama. Sentiam que a sua contribuio no acto de amor simplesmente se limitava  sua presena na cama dum homem, de forma que 
o homem acabava por fazer amor com um monte inerte de barro e devia ficar grato pela experincia. Ah, bem, talvez pudesse ensinar alguma coisa a esta.
Sob o olhar de Noelle, Gautier despiu-se, deixando a roupa descuidadamente espalhada no cho, e dirigiu-se para a cama.
- No te vou dizer que s bela - disse ele. - J ouviste isso muitas vezes.
- A beleza de nada vale - Noelle encolheu os ombros - se no for usada para dar prazer.
Gautier olhou-a bruscamente surpreso, depois sorriu.
- Concordo. Vamos usar a tua.
Sentou-se ao lado dela. Como a maior parte dos franceses, Armand Gautier orgulhava-se de ser um amante habilidoso. Divertia- se com as histrias que ouvira de alemes 
e americanos que pensavam que fazer amor era saltar para cima de uma rapariga, ter um orgasmo instantneo e depois pr o chapu e partir. Quando Armand
gautier se envolvia emocionalmente, usava muitos artificios para
aumentar o prazer da relao sexual. Havia sempre um jantar perfeito, os vinhos propcios. Criava o ambiente de forma a agradar aos
sentidos, o quarto era delicadamente perfumado e havia msica suave. Excitava as mulheres com ternos sentimentos de amor e mais tarde com uma linguagem grosseira 
de viela. E Gautier era um adepto
das brincadeiras manuais que precediam o sexo. No caso de Noelle,
dispensou tudo isto. S por uma noite no havia necessidade de perfume, nem de msica ou ternuras vazias. Ela estava aqui simplesmente para ser parceira dum acto 
sexual. Seria uma idiota chapada
se estava a pensar poder trocar uma coisa que todas as mulheres
tinham entre as pernas pelo grande e nico gnio que Armand Gautier possua na cabea. Deitou-se em cima dela. Noelle deteve-o.
- Espera - sussurrou ela.
Enquanto ele olhava, intrigado, ela agarrou em dois pequenos tubos que colocara em cima da mesinha-de-cabeceira. Espremeu o contedo de um deles e comeou a esfregar 
o pnis dele com a mo.
- Para que  isso? - perguntou ele.
Ela sorriu.
- J vais ver.
Beijou-lhe os lbios, bicando-lhe o interior da boca com a lngua.
A lngua depois desceu at ao ventre, o cabelo escorregando pelo corpo dele como dedos leves e sedosos. Sentia o rgo ficar erecto. Meteu-lhe a lngua entre as 
pernas e desceu at aos ps, chupando-lhe os
dedos em suaves movimentos. O rgo estava agora duro e erecto e ela
montou-se nele.  medida que a penetrava, o calor da vagina ia
actuando sobre o creme que colocara no pnis, e a sensao tornou-se
insuportavelmente excitante. Enquanto o montava, movimentando-se para baixo e para cima, a mo esquerda acariciava-lhe os testculos, que comearam a aquecer. O 
creme tinha mentol, e a sensao
de frescura no meio do calor dela, juntamente com o calor dos testculos, levaram-no  loucura completa.
Fizeram amor durante toda a noite, e de cada vez Noelle fazia
amor de maneira diferente. Foi a experincia mais sensual e mais incrvel que ele alguma vez tivera.
De manh, Armand Gautier disse:
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- Se conseguir levantar-me, vamos tomar o pequeno-almoo fora.
- Deixa-te estar deitado - disse Noelle. Foi at ao guarda fatos, donde escolheu um roupo que vestiu. - Fica a descansar que eu volto j.
trinta e cinco minutos depois Noelle regressou com o pequeno-almoo num tabuleiro. Havia sumo de laranja acabado de espremer, uma deliciosa omolete de salsicha e 
cebola, croissants quentes com manteiga e compota e caf. Sabia tudo muito bem.
- No vais comer nada? - perguntou Gautier.
Noelle abanou a cabea.
- No.
Ficou sentada numa poltrona enquanto ele comia. Era ainda mais bonita com o roupo dele aberto em cima, revelando a curva dos seus deliciosos seios. O cabelo estava 
despenteado e solto.
Armand Gautier modificara radicalmente a primeira avaliao que fizera de Noelle. Ela no era apenas uma parceira fcil; era um tesouro absoluto. Contudo, ele encontrara 
muitos tesouros na sua carreira no teatro, e no ia perder tempo e talento como director com uma amadora de olhos brilhantes que queria entrar  viva fora para 
o teatro, independentemente da sua beleza ou habilidade na cama. Gautier era um homem dedicado que levava a arte muito a srio. Recusara compromet-la no passado 
e no ia comear agora.
A noite anterior decidira pass-la com Noelle e mand-la fazer as malas de manh. Agora, enquanto tomava o pequeno-almoo e a analisava, tentava descortinar uma 
maneira de ter Noelle como amante at se fartar dela, sem encoraj-la como actriz. Sabia que tinha de encontrar um motivo. Abordou a questo com cautela.
- Ests a pensar casar com Philippe Sorel?
- Claro que no - respondeu Noelle. - No  isso que quero. Era agora.
- Que  que tu queres? - perguntou Gautier.
- J te disse - respondeu Noelle calmamente. - Quero ser actriz.
Gautier comeou a comer outro croissant, fazendo um compasso de espera.
- Claro - disse ele. Depois acrescentou:
- H muitos professores de drama que eu te podia recomendar, Noelle, e que...
- No - disse ela.

Noelle observava com agrado e paixo, como se estivesse ansiosa por aceder a tudo o que ele sugerisse. E no entanto Gautier sentia que dentro dela havia um corao 
de ao. Poderia ter dito nom de muitas maneiras. Com raiva, censura, decepo, amuo, mas dissera com meiguice. E definitivamente. A coisa ia ser mais difcil do 
que previra. Por um momento, Gautier esteve tentado a dizer-lhe, como dizia a dezenas de raparigas todas as semanas, que se fosse embora, que no tinha tempo para 
perder com ela. Mas pensou nas sensaes incrveis por que passara durante a noite, e sabia que seria um idiota se a deixasse partir to cedo. Ela valia um compromisso 
leve, muito leve.
- Muito bem -disse Gautier. -Vou dar-te uma pea para estudares. Quando a souberes de cor, vou pedir-te que ma leias e veremos se tens talento. Depois poderemos 
decidir o que fazer contigo.
- Obrigada, Armand - disse ela. - No havia qualquer triunfo nas palavras dela, nem mesmo qualquer prazer que ele pudesse detectar. Apenas uma simples aceitao 
do inevitvel.
Pela primeira vez, Gautier sentiu uma ponta de dvida. Mas isso obviamente era ridculo. Ele era um mestre em lidar com as mulheres.
Enquanto Noelle se vestia, Armand Gautier entrou no escritrio cheio de livros e procurou entre os volumes gastos to seus conhecidos que havia nas prateleiras. 
Por fim, com um sorriso malicioso, tirou Andrgena, de Eurpedes. Era um dos clssicos mais difceis de representar. Regressou ao quarto e entregou a pea a Noelle.
- Aqui est, minha querida-disse ele. -Quando souberes o teu papel de cor, vamos l-lajuntos.
- Obrigada, Armand. No te irs arrepender.
Quanto mais pensava no assunto, mais satisfeito ficava com o seu plano. Noelle precisaria de uma ou duas semanas para memorizar o papel, ou, o que era o mais provvel, 
viria ter com ele e confessaria que fora incapaz de decor-lo. Ele mostrar-se-ia compreensivo com ela, explicar- lhia como era difcil a arte da representao, e 
poderiam assumir uma relao isenta da ambio dela. Depois de Gautier combinarjantar com ela nessa noite, ela foi-se embora.
Quando Noelle regressou ao apartamento que partilhava com Philippe Sorel, encontrou-o  espera dela. Estava muito embriagado.
- Sua cabra - gritou ele. - Onde  que passaste a noite? A explicao dela no teria importncia. Sorel sabia que ia ouvir as desculpas, bater-lhe, depois lev-la 
para a cama e perdo-la.
Mas, em lugar de pedir desculpa, Noelle disse simplesmente:
- Com outro homem, Philippe. Vim buscar as minhas coisas. E, enquanto Sorel a observava com descrena atnita, Noelle foi para o quarto e comeou a fazer as malas.
- Pelo amor de Deus, Noelle-suplicou ele. -Nofaasisto! Ns amamo-nos. Ns vamos casar.
Falou-lhe durante a meiahora seguinte, discutindo, ameaando, adulando, e nessa altura j Noelle acabara de fazer as malas e sara do apartamento, e Sorel no fazia 
ideia nenhuma por que a perdera, pois nunca soube que ela jamais lhe pertencera.
Armand Gautier encenava uma nova pea que se estrearia dali a duas semanas, de forma que ele passava o dia no teatro em ensaios. Por regra, durante a fase da produo, 
Gautier no pensava noutra coisa. Parte do seu gnio provinha da concentrao intensa que conseguia pr no seu trabalho. Para ele s existiam as quatro paredes do 
teatro e os actores com quem trabalhava. Hoje, contudo, era diferente. Gautier dava por si a divagar constantemente sobre Noelle e sobre a noite incrvel que passaram 
juntos. Os actores representavam uma cena e depois ficavam  espera dos comentrios dele, e Gautier de repente apercebia-se de que no estivera a prestar ateno. 
Furioso consigo prprio, tentava concentrar-se no que fazia, mas as imagens de Noelle nua e daquilo que ela Lhe fizera no o abandonavam. A meio de uma cena dramtica 
viu que circulava pelo palco com uma ereco, e pediu licena para se retirar.
Porque era dotado de um esprito analtico, Gautier tentou descobrir o que havia naquela mulher que tanto o afectava. Noelle era bela, mas ele dormira com algumas 
das mais belas mulheres do mundo. Era extremamente hbil na arte de amar, mas o mesmo podia dizer de outras mulheres que possura. Parecia inteligente, mas no brilhante; 
a sua personalidade era agradvel, mas no complexa. Havia mais qualquer coisa, mas que o director tinha dificuldade em definir. E depois lembrou-se do suave no 
que ela Lhe dissera e sentiu que era uma pista. Havia nela uma fora irresistvel, que conseguiria tudo o que quisesse. Havia nela alguma coisa de intocvel. E, 
como outros homens antes de si, Armand Gautier sentiu que, embora Noelle o tivesse afectado mais profundamente do que desejava admitir a si prprio, ele no a afectara 
minimamente, o que era um desafio que a sua masculinidade no podia recusar.
Gautier passou o dia num estado de esprito confuso. Ansiava a chegada da noite com uma antecipao tremenda, no tanto porque quisesse fazer amor com Noelle, mas 
porque queria provar a si prprio que andara a preocupar-se em vo. Queria que Noelle o desiludisse, para poder afast- la da sua vida. Quando faziam amor nessa 
noite, Armand Gautier ficou bem consciente dos truques, recursos e artifcios a que ela recorria para perceber que tudo era mecnico, sem emoo. Mas enganou-se. 
Ela entregou-se-Lhe total e completamente, apenas desejando dar-lhe um prazer que ele nunca conhecera antes e deleitar-se nesse seu prazer. Quando a manh chegou, 
Gautier estava mais firmemente enfeitiado por ela do que nunca.
Noelle preparou o pequeno-almoo outra vez, desta vez crepes
- saborosos com bacon e compota e caf quente, e tudo estava magnfico.
Muito bem", disse Gautier a si prprio. Encontraste uma rapariga que  bonita de se ver, que sabe amar e cozinhar. Bravo! Mas isso
basta para um homem inteligente? Depois de amares e de comeres,  tens de falar. De que poder ela falar contigo?
A resposta era que isso no tinha nenhuma importncia. No se voltara a falar da pea e Gautier estava com a esperana de que Noelle se esquecera ou no conseguira 
decorar o papel. Quando saiu nessa manh, prometeu jantar com ele nesse dia.
- Consegues ver-te livre de Philippe? - Gautier perguntou.
- J o deixei - disse Noelle simplesmente. Deu a Gautier a sua nova morada.
Olhou para Noelle fixamente.
- Compreendo. Mas no compreendia nada. No fazia a mnima ideia.
Passaram novamente a noite juntos. Quando no faziam amor, conversavam. Ou, antes, era Gautier quem falava. Noelle parecia to interessada que ele dava por si a 
falar de coisas que no falava havia anos, coisas pessoais que nunca revelara a ningum. No se falou da pea que lhe dera a ler, e Gautier congratulou-se por ter 
resolvido o problema to habilmente. Na noite seguinte, depois dojantar e quando estavam se preparando para sair, Gautier dirigiu-se ao quarto.
- Ainda no - disse Noelle. Ele voltou-se, surpreendido.
 disseste que me ias ouvir a representar a pea.
- Bem, pois claro - gaguejou Gautier -, quando estiveres preparada.
- Estou preparada. Ele abanou a cabea.
- No quero que tu a leias, querida - disse ele. - Quero ouvi-la quando a souberes de cor para que eu possa realmente avaliar-te como actriz.
- J a sei toda de cor - respondeu Noelle.
Ele fitou-a incrdulo. Era impossvel que tivesse decorado tudo em apenas trs dias.
- Ests pronto para me ouvir? - perguntou ela.
Armand Gautier no tinha alternativa.
- Claro - disse ele. Apontou para o meio da sala. - O teu palco  aqui. O pblico ficar ali.
Sentou-se num sof largo e confortvel. Noelle comeou a representar. Gautier sentiu a pele arrepiar-se; era o seu prprio sinal pessoal, o que lhe acontecia sempre 
que estava diante de um talento verdadeiro. No que Noelle fosse perfeita. Longe disso. A sua inexperincia transparecia em cada gesto e movimento,  Mas tinha algo 
muito superior  mera aptido. Tinha uma honestidade rara, um talento natural que davam a cada frase um novo significado e uma nova energia. Quando Noelle terminou 
o solilquio, Gautier disse calorosamente:
- Acho que um dia sers uma actriz de nomeada, Noelle. Digo-o com sinceridade. Vais falar com Georges Faber, que  o melhor professor de arte dramtica de toda a 
Frana. Trabalhando com ele, poders...
- No.
Olhou para ela surpreendido. Era novamente o mesmo no suave. Definitivo e final.
- No, o qu? - perguntou Gautier um quanto confuso. Faber s aceita os maiores actores. S te ir aceitar porque serei eu a pedir-lhe.
- Eu vou trabalhar contigo - disse Noelle. Gautier sentia a raiva crescer dentro de si.
- Eu no treino ningum - ripostou ele. - No sou professor. Dirijo actores profissionais. Quando fores profissional, ento traba-
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lhars sob a minha direco. - Esforava-se para conter a raiva da
voz. - Percebes?
Noelle anuiu.
- Sim, Armand, percebo.
- Ento estamos conversados.
Amolecido, abraou Noelle e recebeu dela um beijo sentido. Sabia
agora que se preocupara desnecessariamente. Ela era igual s outras,
precisava de ser dominada. No teria mais problemas com ela.
A relao sexual que tiveram essa noite ultrapassou tudo o que
acontecera antes, possivelmente, pensou Gautier, por causa da excitao acrescida da breve briga que tveram.
Durante a noite disse-lhe:
- Podes de facto ser uma actriz maravilhosa, Noelle. Vou ficar
muito orgulhoso de ti.
- Obrigada, Armand - murmurou ela.
Noelle preparou o pequeno-almoo de manh, e Gautier foi para
O teatro. Quando telefonou a Noelle durante o dia, ela no atendeu,
e quando chegou a casa nessa noite ela no estava l. Gautier esperou que regressasse, e como ela no aparecia ficou acordado a pensar
se ela podia ter tido um acidente. Telefonou para o apartamento dela,
mas ningum atendeu. Enviou um telegrama que no foi entregue, e,
quando parou no apartamento dela depois do ensaio, ningum veio 
porta.
Durante a semana seguinte, Gautier andava frentico. Os ensaios
eram um inferno. Gritava com os actores e perturbava-os de tal forma que o contra-regra sugeriu que tirassem o dia, e Gautier concordou. Depois de os actores terem 
sado, sentou-se no palco sozinho,
tentando perceber o que Lhe acontecera. Disse a si prprio que Noele era apenas mais uma mulher, uma loira reles e ambiciosa com
corao de caixeira que queria ser uma estrela. Denegriu-a de toda
a maneira e feitio, mas no fim sabia que no adiantava. tinha de ser
sua. Nessa noite deambulou pelas ruas de Paris, embebedando-se em
botequins onde no era reconhecido. Tentou pensar em maneiras de
alcanar Noelle, mas no conseguiu. No tinha ningum com quem
pudesse sequer falar sobre ela, salvo Philippe Sorel, e isso, naturalmente, estava fora de questo. Uma semana depois do desaparecimento de Noelle, Armand Gautier 
chegou a casa s quatro da manh,
bbado, abriu a porta e foi para a sala de visitas. As luzes estavam
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todas  acesas. Noelle estava encolhida numa cadeira de descanso vestida num dos seus roupes, lendo um livro. Ela ergueu o olhar quando ele entrou, e sorriu.
- Ol, Armand.
Gautier fitou-a, o corao a bater, uma sensao de alvio e felicidade sem fim invadindo-. Disse:
- Comeamos a trabalhar amanh.
102
CATHERINE
Washington: 1940
Washington era a cidade mais excitante que Catherine j conhecera. Sempre pensara em Chicago como a principal cidade, mas Washington foi uma revelao. O verdadeiro 
centro da Amrica estava aqui, o corao palpitante do poder. Aprincpio, Catherine ficara pasmada com a variedade de fardas que enchiam as ruas: Exrcito, Corpo 
Areo da Marinha, Fuzileiros. Pela primeira vez, Catherine comeou a sentir que a possibilidade sombria da guerra podia tornar-se real.
Em Washington, a presenafisica da guerra estava por toda a parte. Esta era a cidade onde a guerra, a acontecer, teria o seu comeo. Aqui seria declarada, mobilizada 
e conduzida. Esta era a cidade que trazia nas mos o destino do mundo. E ela, Catherine Alexander, ia fazer parte da mesma.
Fora viver na companhia de Susie Roberts, que morava num apartamento alegre e bonito num quarto andar sem elevador, com uma sala de tamanho razovel, dois pequenos 
quartos de cama contguos, uma casa de banho minscula e uma cozinhota feita para um ano. Susie parecera contente de a ver. As suas primeiras palavras foram estas:
- Desfazj as malas e engoma o teu melhor vestido. Tens um encontro para jantar hoje  noite.
Catherine pestanejou.
- Por que demoraste tanto tempo?
- Cathy, em Washington, so as mulheres que marcam os encontros. Esta cidade est to cheia de homens solitrios que at mete d.
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Jantaram nessa primeira noite no Hotel Willard. O companheiro de Susie era um congressista do Indiana e o de Catherine era um politiqueiro do Orego, e os dois homens 
estavam na cidade sem as mulheres. Depois do jantar foram danar ao Country Club de Washington. Catherine tivera esperanas de que o poltico pudesse arranjar-lhe 
um emprego. Em vez disso ofereceu-lhe um carro e um apartamento, o que declinou agradecendo. Susie trouxe o congressista para o apartamento, e Catherine foi dormir. 
Pouco tempo depois, ouviu-os entrar no quarto de Susie, e as molas do colcho comearam a ranger. Catherine ps a cabea debaixo da almofada para abafar o som, mas 
era impossvel. Imaginou Susie na cama com o companheiro a fazer amor louca e apaixonadamente. De manh, quando Catherine se levantou para tomar o pequeno-almoo, 
Susiej estava a p, com um ar vivo e alegre, pronta para ir trabalhar. Catherine procurou rugas denunciadoras e outros sinais de cansao em Susie, mas no havia 
nenhum. Pelo contrrio, parecia radiante, a sua pele perfeitamente impecvel. U Meu Deus, pensou Catherine, Hela  como Dorian Gray. Um dia h-de entrar aqui com 
um aspecto estupendo, e eu parecerei ter cento e dez anos.
Alguns dias depois, ao pequeno- almoo, Susie disse:
- Soube de uma vaga que te poder interessar. Uma das raparigas que estava na festa de ontem  noite disse que se vai despedir para regressar ao Texas. S Deus sabe 
a razo por que uma pessoa do Texas quer voltar para l. Lembro-me de que estive em Amarillo aqui h uns anos...
- Onde  que ela trabalha? - Catherine interrompeu.
- Quem?
- A tal rapariga - disse Catherine com pacincia.
- Ah. trabalha com Bill Fraser.  o encarregado das relaes pblicas do Departamento de Estado. A Newsweek escreveu um artigo de fundo sobre ele o ms passado. 
Parece que  um emprego agradvel e bem pago. S soube ontem  noite; se fores l agora, deves chegar primeiro que as outras.
- Obrigada-disse Catherine agradecidamente. -William Fraser, aqui vou eu a caminho.
Vinte minutos depois, Catherine dirigia-se para o Departamento de Estado. Quando chegou, o guarda disse-lhe onde ficava o gabinete de Fraser, e ela subiu pelo elevador. 
Relaes Pblicas. Era mesmo o tipo de trabalho de que andava  procura. Catherine parou no corredor exterior do gabinete e tirou o espelho para ver a maqui-
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lhagem. Estava bem. Ainda no eram nove e meia, pelo que teria o campo livre. Abriu a porta e entrou. O gabinete exterior estava cheio de raparigas de p, sentadas, 
encostadas  parede, aparentemente falando ao mesmo tempo. A recepcionista nervosa que se encontrava atrs da secretria assediada tentava em vo pr ordem na sala.
- O sr. Fraser tem muito que fazer agora - repetia ela. - No sei se as poder receber.
- Ele est a entrevistar secretrias ou no? - perguntou uma das raparigas.
- Sim, mas... - Olhou em volta desesperadamente para a multido. - Meu Deus! Isto  ridculo!
A porta do corredor abriu-se e trs outras raparigas foraram a entrada, empurrando Catherine para o lado.
- A vaga j foi preenchida? - perguntou uma delas.
- Talvez ele queira um harm - sugeriu uma outra rapariga. Assim podemos ficar todas.
A porta do gabinete interior abriu-se e um homem saiu de l. tinha pouco menos de um metro e oitenta e um corpo quase esbelto de algum que era atleta, mas que se 
mantm em forma frequentando o ginsio trs manhs por semana. O cabelo era louro e encaracolado e com fontes grisalhas e tinha olhos azul-brilhantes e um queixo 
forte bastante agressivo.
- Que diabo se passa aqui, Sally? - A sua voz era profunda e de respeito.
- Estas raparigas souberam da vaga, Sr. Fraser.
- Puxa! Eu prprio s soube dela h uma hora atrs. - Os olhos dele percorreram a sala. -Parecem tambores da selva. - Quando os seus olhos se moveram na direco 
de Catherine, ela endireitou-se e deu-lhe o seu mais quente sorriso de eu-serei-uma-ptima-secretria, mas os olhos dele passaram por ela e regressaram  recepcionista. 
-Preciso de uma cpia da Life -disse-lhe ele. -Uma edio de h trs ou quatro semanas. -traz uma fotografia de Estaline na capa.
- Vou encomend-la, Sr. Fraser - disse a recepcionista.
- Preciso dela agora. - Comeou a dirigir-se para o gabinete.
- Vou ligar para os escritrios da Time Life - disse a recepcionista - para ver se conseguem desencantar um exemplar. Fraser parou  porta. - Susie, eu tenho o senador 
Borah na linha. Quero ler-lhe um pargrafo dessa edio. Tem dois minutos para me encontrar uma cpia. - Entrou no gabinete e fechou a porta.
As raparigas que estavam na sala entreolharam-se e encolheram
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os ombros. Catherine deixou-se ficar, concentrada. Virou-se e saiu da sala.
- Ainda bem.  menos uma - disse uma das raparigas. A recepcionista pegou no telefone e marcou o nmero das informaes.
- Queria o nmero dos escritrios da Tim, e Life - disse ela. A sala ficou em silncio enquanto as raparigas a observavam. - Obrigada. - Pousou o auscultador, voltando 
a levant-lo para marcar. Est sim? Aqui  do gabinete do Sr. William Fraser do Departamento de Estado. O Sr. Fraser necessita urgentemente de um nmero atrasado 
da Life.  uma que traz Estaline na capa... No tm a edies atrasadas? Com quem  que eu poderiafalar?... Percebo. Obrigada. - Desligou.
- Pouca sorte, querida - disse uma das raparigas. Uma outra acrescentou: - Eles lembram-se de cada coisa, no ? Se ele quiser aparecer no meu apartamento esta noite, 
eu leio-lhe o artigo. - Houve uma gargalhada.
O intercomunicador soou. Ela carregou no boto.
- Os seus dois minutos acabaram - disse Fraser. - Onde  que est a revista?
A recepcionista respirou fundo.
- Acabei de falar para os escritrios da Time Life, Sr. Fraser, e eles disseram que seria impossvel arranjar...
A porta abriu-se e Catherine entrou em passo apressado. Na mo trazia uma cpia da Life com a fotografia de Estaline na capa. Abriu caminho at  secretria e colocou 
a revista na mo da recepcionista. A recepcionista olhou para a publicao incredulamente.
- Eu. eu tenho uma cpia aqui, Sr. Fraser. J lha levo. - Levantou-se, deu a Catherine um sorriso de agradecimento e precipitou-se para o gabinete. As outras raparigas 
fitaram Catherine com hostilidade.
Cinco minutos depois, a porta do gabinete de Fraser abriu-se, deixando ver Fraser e a recepcionista. A recepcionista apontou para Catherine.
-  aquela rapariga. William Fraser virou-se para olhar Catherine especulativamente.
- Queira entrar, por favor.
- Pois no. - Catherine seguiu atrs de Fraser, sentindo que os olhos das outras raparigas a apunhalavam.
Fraser fechou a porta.

O gabinete era o escritrio burocrtico tpico de Washington, mas ele decorara com estilo, imprimindo-lhe o seu gosto pessoal em mobilirio e arte.
- Sente-se...
- Alexander, Catherine Alexander.
- Sally disse-me que foi voc quem lhe trouxe a Life.
- Fui, sim.
- Assumo que no foi um acaso que lhe ps uma edio de h trs semanas na carteira.
- Claro que no.
- Como  que a encontrou to depressa?
- Desci at  barbearia. Nas barbearias e nos dentistas h sempre edies antigas.
- Percebo. - Fraser sorriu, e o seu rosto duro pareceu menos severo. - Acho que isso a mim nunca me teria ocorrido - disse ele. Voc  sempre assim to brilhante?
Catherine pensou em Ron Peterson.
- No sou, no - respondeu ela.
- Anda  procura de emprego de secretria?
- Nem por isso. - Catherine viu o seu olhar de surpresa. - Fico com o emprego - acrescentou precipitadamente. - Eu realmente queria era ser sua assistente.
- Por que no comeamos hoje como secretria? - disse Fraser secamente. - Amanh poder ser minha assistente.
Ela olhou- esperanosamente.
- Est a querer dizer que o emprego  meu?
-  experincia. - Premiu o boto do intercomunicador e inclinou-se sobre o aparelho. - Sally, agradea s outras jovens. Diga-lhes que a vaga foi preenchida.
- Certo, Sr. Fraser.
Ele largou o boto.
- Trinta dlares semanais chegam?
- Oh, sim. Obrigada, Sr. Fraser.
- Pode comear amanh de manh, s nove horas. Pea uma ficha a Sally e preencha-a.
Assim que saiu do gabinete, Catherine foi ao Washington Post. O polcia que estava  secretria no conedor deteve-a.
- Sou a secretria pessoal de William Fraser - disse ela com altivez -, do Departamento de Estado. Preciso de umas informaes do vosso arquivo.
- que tipo de informaes?
- Sobre William Fraser.
Analisou-a por um momento e disse:
-  o pedido mais estranho que tive esta semana. O seu patro anda a chate-la ou qu?
- No - disse ela afavelmente. - Tenciono escrever um artigo sobre ele.
Cinco minutos mais tarde, um funcionrio levou-a ao arquivo. tirou a pasta sobre William Fraser, e Catherine comeou a ler.
Uma hora mais tarde, Catherine era uma das autoridades mais competentes sobre William Fraser. Ele tinha 45 anos, licenciara-se em Princeton com distino e louvor, 
fundara uma agncia de publicidade, a Fraser Associates, que se tornara uma das agncias mais bem sucedidas do ramo, e metera licena havia um ano, a pedido do presidente, 
para trabalhar para o Governo. Fora casado eom Lydia Campion, uma figura abastada da alta sociedade. tinham-se divorciado havia quatro anos. No tiveram filhos. 
Fraser era milionrio e tinha uma casa em Georgetown e uma residncia de Vero em Bar Harbor, no Maine. Ocupava os tempos livres ajogar tnis, a andar de barco e 
a jogar plo. Vrios artigos da imprensa referiam-se a ele como Hum dos solteires mais elegveis da Amrica,
Quando Catherine chegou a casa e contou a Susie a boa nova, esta insistiu que sassem para comemorar. Na cidade havia dois cadetes ricos de Anpolis.
O companheiro de Catherine revelou-se um rapaz bastante agradvel, mas ela passou a noite a compar-lo mentalmente com William Fraser, e, comparado com Fraser, o 
rapaz parecia imaturo e maador. Catherine interrogou-se se ia apaixonar-se pelo seu novo patro. No tivera nenhuma sensao estranha, prpria de uma adolescente, 
quando estiverajunto dele, mas havia outra coisa, uma simpatia por ele como pessoa e um sentimento de respeito. Concluiu que a sensao estranha provavelmente s 
existia nos romances franceses sobre sexo.
Os cadetes levaram as raparigas a um restaurantezinho italiano nos arredores de Washington, onde comeram um excelente jantar, depois foram ver Arsnico e Rendas 
Velhas, de que Catherine gostou imenso. Ao fim da noite os rapazes trouxeram-nas a casa, e Susie convidous para uma ltima bebida. Quando pareceu a Catherine que
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se preparavam para passar a noite, pediu desculpa e disse que tinha de ir deitar-se.
O companheiro dela protestou.
- Ns ainda nem comemos - disse ele. - Olha para eles.
Susie e a companhia dela estavam no sof, presos num abrao apaixonado.
O companheiro de Catherine agarrou-lhe o brao.
- Pode haver uma guerra em breve - disse ele sinceramente. Antes que Catherine pudesse det-lo, ele pegou-lhe na mo e p-la de encontro ao volume que tinha entre 
as pernas. - No ias mandar um homem para a guerra neste estado, pois no?
Catherine retirou a mo, esforando-se para no se zangar.
- J pensei muito nisso - disse ela serenamente -, e decidi dormir s com os feridos que consigam andar. - Voltou-se e foi para o quarto, trancando a porta atrs 
de si.
Custou-lhe adormecer. Ficou na cama a pensar em William Fraser, no seu novo emprego e no volume duro e msculo do rapaz de Anpolis. Uma hora depois de se deitar, 
ouviu as molas da cama de Susie ranger impetuosamente. Da em diante foi impossvel dormir. As oito e meia da manh do dia seguinte, Catherine chegou ao seu novo 
local de trabalho. A porta no estava trancada, e a luz da sala de recepo estava acesa. Do gabinete interior vinha uma voz de homem, e ela entrou.
William Fraser estava  secretria, ditando para uma mquina. Ergueu o olhar quando Catherine entrou e desligou a mquina.
- Chegou cedo - disse ele.
- Quis vir ambientar-me e orientar-me antes de comear a trabalhar.
- Sente-se. -Havia algo no tom dele que aintrigou. Parecia zangado. Catherine sentou-se. -No gosto de bisbilhoteiros, Catherine.
Catherine sentiu o rosto ruborizar-se.
- No... no entendo.
- Washington  uma cidade pequena. No  uma cidade pequena. No passa de uma aldeia. No h nada que acontea aqui que toda a gente no saiba cinco minutos depois.
- Continuo a no...
- O editor do Post telefonou-me dois minutos depois de voc l ter chegado a perguntar-me por que razo andava a minha secretria a fazer investigaes sobre a minha 
pessoa. Catherine ficou atordoada, sem saber o que dizer. -Descobriu todos os mexericos que desejava
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saber? Ela sentiu que o seu embarao se transformava rapidamente em raiva.
- Eu no estava a bisbilhotar - disse Catherine. Ps-se de p.
- A nica razo por que eu queria informar-me a seu respeito era para saber com que tipo de homem eu ia trabalhar. - A sua voz tremia de indignao. -Acho que uma 
secretria eficiente se deve adaptar ao chefe, e eu queria saber a que coisas me devia adaptar.
Fraser deixou-se estar, a sua expresso hostil. Catherine fitou-o, cheia de dio, a ponto de chorar.
- J no precisa de se preocupar mais, Sr. Fraser. Despeo-me.
- Virou-se a fim de se dirigir para a porta.
- Sente-se - disse Fraser, numa voz que parecia uma chicotada. Catherine virou-se, chocada. - Detesto primas-donas.
Ela olhou-o ferozmente.
- Eu no sou nenhuma...
- Est bem. Perdo. Agora sente-se. Est bem? -Pegou num cachimbo que estava sobre a secretria e acendeu-o.
Catherine ficou sem saber que fazer, cheia de humilhao.
- No acho que isto v resultar - comeou ela. - Eu... Fraser mordeu o cachimbo e riscou o fsforo.
- Claro que vai resultar, Catherine - disse ele apaziguadoramente. - No pode despedir-se agora. Veja o trabalho que eu tive para arranjar uma secretria nova.
Catherine olhou para ele e viu o claro de divertimento nos seus olhos azul-brilhantes. Ele sorriu, e relutantemente os lbios dela esboaram um breve pequeno sorriso. 
Afundou-se numa cadeira.
- Assim est melhor. J lhe disseram que  sensvel de mais?
- Acho que sim. Desculpe.
Fraser inclinou-se para trs na cadeira.
- Ou talvez seja eu o hipersensvel.  uma chatice chamarem a uma pessoa um dos solteires mais elegveis da Amrica".
Catherine bem gostaria que ele no usasse aquela palavra. Mas que  que a incomodava mais? interrogou-se. Chatice ou solteiro?
Talvez Fraser tivesse razo. Talvez o seu interesse por ele no fosse to impessoal como pensava. Talvez no seu subconsciente...
um alvo para todas as idiotas solteiras do mundo -dizia Fraser. - Voc no acreditaria se eu lhe dissesse que as mulheres so muito agressivas. 
Ser que no? Experimente a nossa caixa." Catherine corou ao pensar nisso.
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-  o suficiente para um homem dar em maricas. - Fraser suspirou. -J que esta parece ser a Semana Nacional da Investigao,
fale-me de si. Namorados?
- Nenhum - disse ela. - Isto , ningum em especial - acrescentou logo a seguir.
Olhou-a curiosamente.
- Onde vive?
- Divido um apartamento com uma rapariga que foi minha colega de faculdade.
- De Northwestern.
Olhou-o surpresa, concluindo depois que ele devia tervisto aficha
de inscrio que ela preenchera.
-  verdade.
- Vou dizer-lhe uma coisa sobre mim que no vinha no arquivo
dojornal. Sou o pior companheiro de trabalho. Voc vai achar-mejusto, mas tenho a mania da perfeio, o que no facilita o convvio. Acha
que vai aguentar?
- Tentarei - disse Catherine.
- Bom. Sally vai p-la ao corrente da rotina. A coisa mais importante a no esquecer  que passo a vida a beber caf. Gosto dele puro
e quente. - No me esquecerei. - Ps-se de p e fez meno de se dirigir
para a porta.
- Mais uma coisa, Catherine.
- Pois no, Sr. Fraser? - Quando chegar a casa esta noite, tente dizer alguns palavres
em frente do espelho. Se vai continuar a melindrar-se sempre que eu
disser uma palavra de cinco letras, isso vai fazer-me trepar s paredes. 
L estava ele outra vez, fazendo-a sentir-se uma criana. - Est bem, Sr. Fraser - disse ela friamente. Saiu furiosa do gabinete, quase batendo com a porta atrs 
de si. 
O encontro no decorrera nada como Catherine esperara. J no
gostava de William Fraser. Achava-o um palerma cheio de presuno, arrogante e dominador. No era de admirar que a mulher o
tivesse deixado. Bem, j que estava ali ia trabalhar, mas decidiu procurar outro emprego, onde pudesse trabalhar com um ser humano em
vez de um dspota.
Quando Catherine saiu a porta, Fraser recostou-se na cadeira,
com um sorriso disfarado nos lbios. As raparigas eram ainda to do-
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lorosamentejovens, to atentas e dedicadas? Na sua ira, com os olhos flamejantes e os lbios trementes, Catherine parecera to indefesa que Fraser desejou abra-la 
e proteg- la. Contra sua vontade, admitiu pesarosamente. Havia nela uma espcie de virtude resplandecente antiquada que ele quase esquecera poder existir nas raparigas. 
Era amorosa e era brilhante, e tinha vontade prpria. Ia tornar -se a secretria mais competente que elej tivera. E, bem no ntimo, Fraser teve um pressentimento 
de que ia ser muito mais do que isso. At que ponto, ainda no sabia. Queimara-se tantas vezes que um sistema de alerta automtico disparava no momento em que as 
suas emoes eram despertadas por qualquer mulher. Essas alturas aconteciam muito raramente. O cachimbo apagara-se. Voltou a acend -lo, e o sorriso ainda lhe estava 
no rosto. Um pouco mais tarde, quando Fraser a chamou para lhe ditar uma carta, Catherine foi corts mas fria. Esperou que Fraser dissesse algo pessoal para que 
pudesse mostrar-lhe a sua distncia, mas ele foi frio e profissional. Era bvio, pensou Catherine, que tinha varrido da mente o incidente desta manh. Quo insensvel 
poderia um homem ser?
Contra a sua vontade, Catherine achou o novo emprego fascinante. O telefone tocava constantemente, e os nomes das pessoas que ligavam enchiam-na de excitao. Durante 
a primeira sesso, o vice -presidente dos Estados Unidos telefonou duas vezes, meia dzia de senadores, o secretrio de Estado e uma actriz famosa que se encontrava 
na cidade a fazer publicidade ao seu ltimo filme. A semana atingiu o clmace com um telefonema do presidente Roosevelt, e Catherine ficou to nervosa que deixou 
cair o telefone e desligou a chamada da secretria do presidente. Para alm dos telefonemas, Fraser tinha uma roda-viva de encontros no gabinete, no clube ou nos 
melhores restaurantes. Aps as primeiras semanas, Fraser autorizou-a a marcar-lhe os encontros e a fazer-lhe as reservas. Comeou a saber quais as pessoas que Fraser 
queria receber e as que queria evitar. O trabalho era to absorvente que no fim do ms ela se esqueceu por completo de procurar outro emprego.
O relacionamento de Catherine com Fraser estava ainda num nvel impessoal, masj o conhecia o suficiente para perceber que o seu distanciamento no era antipatia. 
Era uma dignidade, um muro de reserva que servia de escudo contra o mundo. Catherine sentia que Fraser era realmente muito solitrio. O seu trabalho obrigava-o a 
conviver, mas ela pressentiu que por natureza ele era um homem solitrio. Apercebeu-se tambm de que William Fraser no estava ao seu
112

alcance. Por esse motivo, tambm est a maioria dos homens americanos, concluiu ela.
De vez em quando ainda saa com Susie, mas achava que a maioria dos companheiros eram atletas sexuais casados, e preferia ir ao cinema ou ao teatro sozinha. Viu 
Gertrude Lawrence, e umjovem comediante chamado Danny Kaye em Lady in the Dark e Life with Father e Alice in Arms, com umjovem actor chamado Kirk Douglas. Adorou 
Kitty Foyle com Ginger Rogers porque lhe fez lembrar de si prpria. Numa noite, durante uma representao de Hamlet, viu Fraser sentado num camarote acompanhado 
de uma bela rapariga que trazia um vestido de noite branco e carssimo que Catherine vira na Vogue. No fazia ideia de quem se tratava. Fraser marcava os seus prprios 
encontros pessoais, e ela no sabia aonde ia ou com quem. Ele ia. percorreu a plateia e viu-a. Na manh seguinte, ele no se referiu ao assunto at ter acabado o 
ditado.
- Gostou de Hamlet? - perguntou ele.
- A pea vai ter xito, mas eu no gostei muito dos desempenhos.
- Eu gostei dos actores - disse ele. - Achei que a actriz que fazia de Oflia era particularmente boa.
Catherine anuiu e fez meno de se retirar. - No gostou de Oflia? - insistiu Fraser. - Se quer a minha opinio sincera - disse Catherine cuidadosamente -, achei 
que ela no conseguiu salvar a situao. -Voltou-se e saiu.
Quando Catherine chegou ao apartamento nessa noite, Susie estava  espera dela.
- tiveste uma visita - disse Susie.
I quem 
- Um tipo do FBI. Andam a investigar-te. 
Meu Deus pensou Catherine. Descobriram que sou virgem, e deve haver alguma guerra contra isso em Washington. Em voz alta
disse:
- Por que andaria o FBI a investigar-me? - agora trabalhas para o Governo.
- Pois .
- Como  que est o Sr. Fraser?
- O Sr. Fraser est ptimo - disse Catherine. - Que achar ele de mim?
Catherine fitou a alta, esguia e morena companheira de quarto.
- ptima para o pequeno-almoo.
- 113
 medida que as semanas iam passando, Catherine travava conhecimento com as outras secretrias dos gabinetes prximos.
Algumas delas tinham casos com os chefes, e pareciam no dar impor tncia ao estado civil dos homens. Invejavam Catherine por trabalhar para William Fraser.
- Como  mesmo esse borracho? - perguntou-lhe uma delas um dia ao almoo. - J te arrastou a asa?
- Oh, no se d a esse trabalho - disse Catherine com franqueza. - Eu chego s nove da manh, rebolamos no sof at  uma, depois paramos para almoar.
- Diz l, que  que achas dele?
- irresistvel - mentiu Catherine.
Os seus sentimentos em relao a William Fraser tinham abrandado consideravelmente desde a primeira discusso. Ele dissera-Lhe a verdade quando afirmou que tinha 
a mania da perfeio. Sempre que ela dava um erro, era repreendida, mas achara-o justo e compreensivo. Vira-o tomar do seu prprio tempo para ajudar outras pessoas, 
pessoas que nada podiam fazer por ele, e ele fazia sempre as coisas por forma a que no se soubesse que ele interferira. Sim, gostava muitssimo de William Fraser, 
mas isso era assunto seu. Certa vez, quando tinham muito trabalho para pr em dia, Fraser pedira a Catherine que jantasse na casa dele para que pudessem ficar a 
trabalhar at tarde. Talmadge, o motorista de Fraser, aguardava na limusina  frente do edifcio. Vrias secretrias que saam do prdio aperceberam-se de quando 
Fraser indicou a Catherine o banco traseiro e se sentou ao lado dela. A limusina juntou-se suavemente ao trnsito do fim de tarde.
- Vou arruinar a sua reputao - disse Catherine. Fraser riu- se.
- Vou dar-lhe um conselho. Se algum dia quiser ter um caso com uma figura pblica, faa ao ar livre.
- E se ficar constipada? Ele deu um sorriso largo.
- Eu estava a dizer-lhe que levasse o seu galanteador, se  que ainda se usa esta palavra, para lugares pblicos, restaurantes conhecidos, teatros.
- Ver Shakespeare? - perguntou Catherine inocentemente. Fraser no fez caso.
- As pessoas andam sempre  procura de motivos sinuosos. Pen saro: hum, aquele anda com fulana em pblico. Com quem
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andar a encontrar-se s escondidas? As pessoas nunca vem o bvio.
-  uma teoria interessante.
- Edgar Allan Poe escreveu um conto sobre enganar as pessoas com o bvio - disse Fraser. - No me lembro do ttulo.
- Foi Arthur Conan Doyle. Era A Carta Roubada. - Mal o disse, Catherine desejou no t-lo feito. Os homens no gostavam de mulheres espertas. Mas que importava isso? 
Ela no era a mulher dele, apenas a sua secretria.
Fizeram o resto do caminho em silncio.
A casa de Fraser em Georgetown parecia ter sado de um livro ilustrado. Era uma casa georgiana de quatro pisos que devia ter mais de duzentos anos. A porta foi aberta 
por um mordomo de casa branca. Fraser disse:
- Frank, esta  Miss Alexander.
- Ol, Frank. J nos falmos ao telefone - disse Catherine.
-  verdade. Prazer em conhec-la, Miss Alexander. Catherine examinou o trio de entrada. tinha uma bela e velha escadaria que
dava para o segundo piso, feita da antiga madeira de carvalho polida e brilhante. O cho era de mrmore, e no tecto havia um lustre deslumbrante.
Fraser examinava o rosto dela.
- Gosta? - perguntou.
- Se gosto? Oh, sim!
Ele sorriu, e Catherine interrogou-se se mostrara entusiasmo a mais, como se fosse uma rapariga atrada pela fortuna, como aquelas mulheres agressivas que o perseguiam 
a todo o momento.
- ...  agradvel - acrescentou desajeitadamente. Fraser olhou-a com um ar trocista, e Catherine teve a terrvel sensao de que ele lhe adivinhava o pensamento.
- Venha at ao escritrio.
Catherine seguiu at ao interior duma sala cheia de livros decorada com painis escuros.
 115
 tinha a aura duma outra era, a graciosidade dum estilo de vida mais fcil, mais ameno. Fraser analisava-a. - Ento? - perguntou ele num tom grave.
Catherine no ia deixar-se apanhar outra vez.
-  mais pequena que Biblioteca do Congresso - disse ela, na defensiva.
Ele deu uma gargalhada.
- Tem razo.
115
Frank entrou na sala, trazendo um balde de gelo de prata. Colocou-o sobre o bar situado num canto.
- A que horas deseja jantar, Sr. Fraser?
- s sete e meia.
- Vou dizer ao cozinheiro. - Frank retirou-se da sala.
- que posso arranjar-lhe para beber?
- Nada, obrigada. Ele olhou para ela.
- No bebe, Catherine?
- quando estou a trabalhar, no - disse ela. -  que depois troco as letras, o que no deve acontecer. Por isso  que me paga um resgate real todas as semanas.
- quanto  que eu lhe pago? - perguntou Fraser.
- trinta dlares e jantar na mais bela casa de Washington.
- Tem a certeza de que no vai mudar de ideias quanto  bebida?
- No, obrigada - disse Catherine.
Fraser arranjou um martini para ele, e Catherine andou pela sala a ver os livros. L estavam todos os clssicos tradicionais e, alm disso, uma seco completa de 
livros em italiano e outra em rabe.
Fraser ps-se ao lado dela.
- No fala italiano nem rabe? - perguntou Catherine.
- Falo. Vivi no Mdio Oriente durante alguns anos e aprendi rabe.
- E italiano?
- Andei com uma actriz italiana por uns tempos.
O rosto dela corou.
- Desculpe. No era minha inteno intrometer-me. Fraser olhou-a com uns olhos divertidos, e Catherine sentiu-se uma colegial. No sabia se odiava William Fraser 
ou se o amava. De uma coisa estava certa: era o homem mais simptico que conhecera.
O jantar foi soberbo. Todos os pratos eram franceses com molhos divinos. A sobremesa foi Jubileu de Cerejas. No admirava que Fraser fizesse manuteno fsica no 
clube trs manhs por semana.
- Que tal? - perguntou-lhe Fraser.
- No se compara  comida do refeitrio - disse ela, e sorriu. Fraser riu-se.
- Tenho de comer no refeitrio um dia destes.
- Eu no o faria se fosse a si.
Ele olhou-a.
- A comida  assim to m?
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- No  a comida. So as raparigas. No o largavam.
- Que a faz pensar assim?
- Esto sempre a falar de si.
- Est a dizer-me que fazem perguntas a meu respeito?
- Digamos que sim - disse ela com um sorriso largo.
- Imagino que no fim se devem sentir frustradas pela falta de informao.
Ela abanou a cabea.
- Enganou-se. Eu invento todo o tipo de histrias a seu respeito. Fraser estava recostado na cadeira, relaxando enquanto bebia um brande.
- Que tipo de histrias?
- Tem a certeza de que quer ouvir?
- Toda.
- Bem, digo-lhes que o senhor  um papo e que passa o dia a gritar comigo.
Ele sorriu, mostrando os dentes.
- No o dia todo.
- Digo-lhes que  doido por caa e que anda com uma espingarda carregada pelo escritrio enquanto dita, e que eu estou sempre cheia de medo de que a arma dispare 
e me mate.
- Isso deve prender-lhes a ateno.
- Divertem-se bastant tentando imagin-lo como  na realidade.
- Disse-lhes como sou na realidade? - O tom de Fraser tornara-se srio.
Ela olhou para dentro dos seus olhos azul-brilhantes por um momento, depois desviou o olhar.
- Acho que sim - disse ela.
- quem sou eu?
Catherine sentiu uma sbita tenso dentro de si. A brincadeira chegara ao fim e a conversa ganhava um novo tom. Um tom excitante, um tom perturbador. Ela no respondeu. 
Fraser fitou-a por um momento, depois sorriu.
- Eu sou um assunto sem graa. Mais sobremesa?
- No, obrigada. Vou ficar uma semana sem comer.
- Ento mos  obra.
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trabalharam at  meia-noite. Fraser acompanhou Catherine 
porta, e Talmadge aguardava l fora para lev-la de volta ao apartamento.
Pensou em Fraser durante todo o trajecto para casa. Na sua forma, no seu humor, na sua compaixo. Algum uma vez dissera que um

homem tinha de ser muito forte antes de poder permitir-se ser meigo. William Fraser era muito forte. Esta noite fora um dos seres mais
agradveis da vida de Catherine, e isso preocupava-a. receava que
pudesse transformar-se numa daquelas secretrias ciumentas que
passa o dia no gabinete com raiva de todas as mulheres que telefonam
ao chefe. Bem, no ia permitir que isso acontecesse. Todas as mulheres elegveis de Washington se atiravam  cabea de Fraser. Ela no
ia ser mais uma. Quando Catherine regressou ao apartamento, Susie
estava acordada  espera dela. Comeou a fazer perguntas assim que
Catherine entrou.
- Diz l - Susie perguntou. - Que aconteceu?
- No aconteceu nada - replicou Catherine. - Jantmos.
Susie fitou-a com incredulidade.
- Ele nem sequer se atirou a ti?
- No, claro que no.
Susie suspirou.
- Eu devia ter calculado. Ele teve medo.
- Que queres dizer com isso?
- O que eu quero dizer com isso, minha querida,  que tu saste
de l como a Virgem Maria. Ele devia estar com medo de que tu comeasses aos gritos, a dizer que estavas a ser violada e desmaiavas, se
te tocasse com um dedo. 
Catherine sentiu um rubor nas faces.
- No estou assim to interessada nele - disse ela asperamente. - E no sou a Virgem Maria.
 Sou como a Virgem Catarina. A querida e velha Santa Catarina.
tudo o que fizera foi mudar o seu santurio para Washington. Nada
mais havia mudado. Ainda trabalhava na velha igreja de sempre.
Durante os seis meses que se seguiram, Fraser ausentou-se com muita frequncia. Esteve em Chicago, So Francisco e na Europa. Catherine teve sempre bastante que 
fazer, e no entanto o gabinete parecia solitrio e vazio com Fraser ausente. Havia sempre uma corrente de visitantes interessantes, a maior parte homens, e Catherine
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 deu por si assediada de convites. Podia escolher almoos, jantares, viagens  Europa e camas. No aceitou nenhum dos convites, em parte porque no se interessava 
por nenhum dos homens, mas principalmente porque sentia que Fraser no aprovaria que ela misturasse negcios com prazer. Se Fraser soubesse das oportunidades constantes 
que ela declinava.
No dia seguinte, depois de ter jantado em casa dele, recebeu um aumento de dez dlares semanais.
Catherine achava que a cidade tinha um ritmo diferente. As pessoas movimentavam-se mais depressa, cada vez mais tensas. Os ttulos anunciavam invases e crises na 
Europa. A rendio da Frana
- afectara os Americanos muito mais profundamente que outros acontecimentos ocorridos na Europa, pois sentiam uma sensao de violao pessoal, uma perda de liberdade 
num pas que era um dos beros da Liberdade.
A Noruega cara. Londres lutava pela sobrevivncia na Batalha
de Inglaterra, e a Alemanha, a Itlia e o Japo haviam assinado um
pacto. Todos pressentiam que a entrada da Amrica na guerra era inevitvel. Um dia, Catherine falou no assunto a Fraser.
- Acho que o nosso envolvimento  s uma questo de tempo disse ele pensativamente. - Se a Europa no conseguir deter Hitler,
vamos ter de o fazer. - Mas o senador Borah diz...
- O smbolo daqueles que pem a Amrica acima de tudo devia
ser um avestruz - comentou Fraser, zangado.
- Que vai fazer se houver uma guerra?
- Ser heri - disse ele.
Catherine imaginou-o numa farda de oficial a partir para a guerra, elegante, e detestou a ideia. Achava estpido que numa poca iluminada os povos ainda pensassem 
que podiam pr fim s suas desavenas destruindo-se mutuamente.
- No se preocupe, Catherine - disse Fraser. - No acontecer nada por enquanto. E, quando acontecer, ns estaremos preparados. - E a Inglaterra? - perguntou ela. 
- Se Hitler decide invadir,
Os ingleses sero capazes de o enfrentar? Ele est cheio de avies e
tanques, e os ingleses no tm nada.
- Vo ter - assegurou-lhe Fraser. - Muito em breve. Ele 
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mudara de assunto, e regressaram ao trabalho. Uma semana depois, os ttulos s falavam do novo conceito de Roosevelt sobre Emprstimo e Arrendamento. afinal Fraser 
soubera do assunto e tentara tranquiliz-la sem revelar qualquer informao.
As semanas passaram-se velozmente. Catherine aceitava um encontro ocasional, mas de todas as vezes dava por si a comparar o seu companheiro a William Fraser, e perguntou 
a si prpria por que se maava em sair com outras pessoas. Sabia que se tinha enfiado num canto emocional perigoso, mas no sabia como sair dele. Disse para consigo 
que era apenas uma paixoneta por Fraser e que ia passar, mas entretanto os seus sentimentos impediam-na de desfrutar a companhia de outros homens porque todos ficavam 
muito aqum dele.
Certa noite, j tarde, enquanto Catherine trabalhava, Fraser regressou ao gabinete inesperadamente depois de uma ida ao teatro. Ergueu o olhar, espantada, quando 
ele entrou.
- Mas que diabo temos ns aqui? - resmungou ele. - Um navio de escravos?
- Eu queria acabar este relatrio primeiro - disse ela -, para o poder levar amanh para So Francisco.
- Poderia ter mo enviado pelo correio - respondeu ele. Sentou- se numa cadeira em frente a Catherine e examinou-a. - No tem coisas melhores para fazer  noite du 
que fazer relatrios maadores?
- perguntou ele.
- No tinha nenhum compromisso esta noite.
Fraser recostou-se na cadeira, entrelaou os dedos e colocou-os sob o queixo, fitando-a.
- lembra-se do que me disse no dia em que entrou nesta sala pela primeira vez?
- Eu disse tantas parvoces.
- Disse que no queria ser secretria. queria ser minha assistente.
Ela sorriu.
- Eu no sabia fazer outra coisa.
- Agora sabe.
Ela olhou-o.
- No estou a perceber.
-  muito simples, Catherine - disse ele calmamente. -Nos ltimos trs meses, voc foi realmente minha assistente. Agora vou oficializar o facto.

Ela fitou-o, incrdula.
- Tem a certeza de que... ?
- No lhe dei o ttulo ou um aumento de salrio antes porque no
queria amedront-la. Mas agora voc sabe que  capaz de exercer o
cargo.
- No sei que dizer - gaguejou Catherine. - Eu... no se arrepender, Sr. Fraser.
- J estou arrependido. As minhas assistentes tratam-me por
Bill.
- Bill.
Mais tarde, nessa mesma noite, quando Catherine estava deitada, lembrou-se do modo como ele a olhara e como ela se sentira, e s
muito tempo depois conseguiu adormecer. Catherine escrevera ao pai
diversas vezes perguntando-lhe quando vinha a Washington visit-la. Estava ansiosa por lhe mostrar a cidade e apresent-lo aos amigos e a Bill Fraser. No recebera 
resposta s duas ltimas cartas.
Preocupada, telefonou para casa do tio em Omaha. Foi o tio quem
atendeu o telefone. - Cathy! Eu... eu ia telefonar-te. 
O corao de Catherine baqueou.
- Como  que est o pai?
Seguiu-se uma pausa breve.
- Teve uma trombose. Eu quis ligar-te mais cedo, mas o teu pai
pediu-me que aguardasse as melhoras dele.
Catherine apertou o auscultador.
- Ele est melhor?
- Parece-me que no, Cathy - disse a voz triste do tio. - Ficou
paralisado.
- Vou j para a - disse Catherine.
Foi ter com Bill Fraser e deu-lhe a notcia.
- Lamento - disse Fraser. - Posso ajudar em alguma coisa?
- No sei. Quero ir ter com ele agora mesmo.
- Claro.
Ele pegou no telefone e fez umas chamadas. O motorista levou
Catherine ao apartamento, onde atirou umas roupas para dentro de
uma mala, e depois levou-a ao aeroporto, ondej tinha uma reserva
que Fraser lhe fizera.
121

buando o avio aterrou no aeroporto de Omaha, os tios de Catherine estavam  espera dela, e bastou olh-los para saber que chegara tarde de mais. Viajaram em silncio 
at  casa morturia, e quando Catherine entrou no edifcio foi invadida por uma inefvel sensao de perda. Uma parte de si morrera e no poderia ser recuperada. 
Levaram-na at  pequena capela. O corpo do paijazia num caixo simples, envergando o seu melhor fato. O tempo encolhera-o, como se o desgaste constante de viver 
o tivesse esgotado e diminudo. O tio entregara a Catherine os objectos pessoais do pai, as recordaes e os tesouros duma vida inteira, que se resumiam a cinquenta 
dlares em dinheiro, umas fotografias antigas, alguns recibos, um relgio de pulso, um canivete de prata suja e um mao das cartas dela, cuidadosamente atadas com 
um cordel e gastas de tanta leitura. Era um legado pobre para qualquer homem deixar, e o corao de Catherine chorou pelo pai. Lembrou-se da vitalidade dele quando 
era uma mida e da excitao quando chegava a casa de viagem com os bolsos cheios de dinheiro e os braos cheios de presentes. Lembrou-se das suas invenes maravilhosas 
que nunca funcionavam totalmente. No eram muitas as lembranas, mas era tudo o que restava dele. Havia subitamente tantas coisas que Catherine queria dizer-lhe, 
tanto que queria fazer por ele; e seria sempre tarde de mais.
O pai foi enterrado num pequeno cemitriojunto  igreja. Catherine tencionara passar a noite com os tios e apanhar o comboio de regresso no dia seguinte, mas de 
repente no podia ficar nem mais um momento, e telefonou para o aeroporto a fazer uma reserva no primeiro avio para Washington. Bill Fraser estava  espera dela 
no aeroporto, e pareceu a coisa mais natural do mundo que ele estivesse l aguardando-a, olhando por ela quando ela precisava dele.
Levou Catherine a jantar numa velha estalagem campestre na Virgnia, e ouviu-a enquanto ela falou do pai. A meio duma histria engraada, Catherine comeou a chorar, 
mas estranhamente a presena de Bill Fraser no a embaraou.
Ele sugeriu que Catherine tirasse umas frias, mas ela queria manter se ocupada, no queria pensar na morte do pai. Ganhou o hbito dejantar com Fraser uma ou duas 
vezes por semana, e Catherine sentiu-se prxima dele como nunca. Aconteceu sem qualquer plano ou premeditao. tinham ficado a trabalhar at tarde no escritrio. 
Catherine estava a verificar uns papis e sentiu a presena de Bill Fraser atrs de si. Os dedos dele tocaram-Lhe no pescoo, numa carcia lenta.
122

- Catherine...
Voltou-se para o ver, e um instante depois estava nos seus braos.
Era como se tivessem trocado mil beijos, como se este fosse o seu passado bem como o seu futuro, a que sempre pertencera.
 assim to simples, pensou Catherine. Sempre foi assim to
simples, mas eu no sabia.
- Traz o teu casaco, querida - disse Bill Fraser. -Vamos para
casa.
No carro que os levou a Georgetown, sentaram-sejuntos, Catherine abraada por Fraser, gentil e protectoramente. Ela nunca conhecera tamanha felicidade. tinha a certeza 
de que ele estava apaixonado por ela. Ela gostava dele, e isso deixava-a feliz. Quando pensou
naquilo que a teria deixado feliz antes de ron Peterson - teve um
arrepio.  Passa-se alguma coisa? 
Catherine pensou no quarto da penso com o espelho sujo e quebrado. Olhou para o rosto inteligente do homem que a abraava.
- Agora no - disse ela graciosamente. - Engoliu em seco. -
Tenho de dizer-te uma coisa. estou virgem. 
Fraser sorriu e sacudiu a cabea maravilhado.
-  incrvel - disse ele. - Como  que vim dar com a nica virgem de Washington? - Eu tentei emendar isso - disse Catherine francamente -, s
que no resultou. - Ainda bem que no - disse Fraser. 
- Isso quer dizer que no te importas?
Ele sorria para ela outra vez, um sorriso provocador que lhe iluminou o rosto.
- Sabes qual  o teu problema? - perguntou ele.
- Se sei!
- Tens-te preocupado de mais com isso.
- Eu que o diga!
-  preciso  descontraco.
Ela abanou a cabea gentilmente.
- No, querido. O que  preciso  paixo.
Meia hora depois, o carro estacionou defronte da casa dele. Fraser levou Catherine para a biblioteca. - Queres tomar alguma coisa? 
Olhou para ele. - Vamos subir. 
123

Abraou-a e beijou-a com fora. Ela abraou-o ferozmente, desejando devor-lo. Se alguma coisa correr mal esta noite, pensou
Catherine, Kmato-me. Palavra que me mato.
- Anda - disse ele.
Pegou na mo de Catherine. O quarto de Bill Fraser era um espao enorme, com aspecto masculino, e tinha uma cmoda espanhola
encostado a uma parede. Ao fundo havia uma alcova com uma lareira, que tinha  frente uma mesa de pequeno-almoo. Contra uma
parede havia uma enorme cama de casal. A esquerda estava o quarto de vestir com a casa de banho ao lado.
- Tens a certeza de que no te apetece uma bebida? - perguntou Fraser.
- No preciso.
Abraou-a de novo e beijou-a. Ela sentiu a ereco dele, e um calor delicioso atravessou-lhe o corpo. - J venho - disse ele.
Catherine viu-o entrar no quarto de vestir. Era o homem mais
simptico e maravilhoso que conhecera. Ficou a pensar nele, depois
repentinamente entendeu por que ele sara do quarto. Queria deix-la despir-se sozinha, para no ficar embaraada. Catherine comeou a tirar a roupa  pressa. Permaneceu 
um minuto nua e baixou os
O lhos para ver o seu corpo e pensou: Adeus, Santa Catarina. Deitou-se, puxou as roupas e enfiou-se entre os lenis.
Fraser entrou, vestido num roupo roxo de seda moir. Aproximou-se da cama e contemplou-a. O cabelo negro dela estava aberto
em leque contra a almofada branca, enquadrando o seu belo rosto.
Era tanto mais excitante porque ele sabia que nada fora planeado.
Deixou cair o roupo e meteu-se na cama ao lado dela. De repente, ela lembrou-se.
- Eu no uso nada - disse Catherine. - Achas que vou engravidar?
- Esperemos que sim.
O lhou-o, intrigada, e abriu a boca para lhe perguntar o que queria dizer com isso, mas ele ps os seus lbios nos dela e as suas mos
comearam a percorrer-lhe o corpo, que explorava com gentileza, e
ela esqueceu-se de tudo menos do que estava a acontecer-lhe, toda
a sua ateno concentrada numa parte do corpo, sentindo que ele queria penetr-la, rgido e palpitante, forando, um instante de dor aguda e inesperada, depois deslizando, 
movimentando-se cadavez mais
depressa, um corpo estranho dentro do corpo dela, mergulhando nas
124

suas profundezas, movendo-se num ritmo cada vez mais frentico,
at que ele disse:
- Ests pronta?
Ela no sabia para qu, mas disse eSim, e de repente ele gritou:
- Oh, Cathy! - E deu um ltimo impulso espordico e permaneceu inerte em cima dela.
E quando acabou disse:
" - Achaste maravilhoso?
Ao que ela respondeu: - Sim, foi maravilhoso. 
E ele disse: - Ainda  melhor com a prtica.
E ela ficou cheia de alegria por ter conseguido dar-lhe esta felicidade e tentou ficar sria com o desapontamento que tudo aquilo fora
para ela. Talvez fosse como as azeitonas. tinha de tomar-lhe o gosto.
Ficou nos braos dele, deixando que o som da voz dele a embalasse, 
confortando-a, e pensou: Isto  que  importante, estarmos juntos
como dois seres humanos, amando-se e partilhando-se mutuamente. Lera demasiados romances fantsticos, ouvirademasiadasfalsas
canes de amor. Esperara demasiado. Ou talvez - e se a verdade era
esta teria de encar-la - ela fosse frgida. Como se estivesse a ler os
seus pensamentos, Fraser puxou-a mais para junto de si e disse:
" - No te preocupes se ficaste desapontada, querida. A primeira
vez  sempre traumatizante.
Como Catherine no respondia, Fraser ergueu-se sobre um cotovelo e olhou para ela, preocupado, e disse:
- Como  que te sentes?
- Muito bem -disse ela de imediato. Ela sorriu. -foste o melhor amante que eu j tive.
Beijou-o e abraou-o, sentindo-se quente e segura at que finalmente o n duro dentro de si comeou a desfazer-se, e uma sensao
de descontraco apoderou-se deixando-a satisfeita.
- Queres tomar um brande? - perguntou ele.
" - No, obrigada.
- Acho que vou arranjar um para mim. No  todas as noites que
um homem dorme com uma virgem. - Importaste-te com isso? - disse ela.
Ele olhou-a com aquele lhar estranho e entendedor, ia dizer alguma coisa, mas mudou de ideia.
125
-No - disse. Havia qualquer coisa na voz dele que escapou a Catherine.
- Eu portei-me... ? - Ela engoliu. - Sabes... bem?
- Foste maravilhosa - disse ele.
- A srio?
- A srio.
- Sabes que estive quase a no vir para a cama contigo?
- Porqu?
- Receava que no quisesses voltar a ver-me.
Deu uma gargalhada.
- Isso  uma histria antiga de esposas protegidas por mes nervosas que querem manter as filhas puras. O sexo no separa as pessoas, Catherine. Aproxima-as.
E era verdade. Ela nunca se sentira to prxima de outra pessoa. Por fora podia parecer a mesma, mas Catherine sabia que mudara. A rapariga que viera a esta casa 
no princpio da noite desaparecera para sempre e no seu lugar estava uma mulher. A mulher de William Fraser. Encontrara por fim o misterioso Santo Graal de que andara 
 procura. A busca terminara.
Agora at o FBI ficaria satisfeito.
126
NOELLE
Paris: 1941
Para alguns, a Paris de 1941era uma cornucpia de fortunas e
oportunidades; para outros era um inferno vivo. A Gestapo tornara -  se um mundo de terror, e as histrias das suas actividades transformaram-se - embora sussurradas 
- num dos principais temas de
conversa. As agresses contra os judeus franceses, comeadas quase
como uma brincadeira de partir montras de lojasjudias, tinham sido
organizadas pela eficiente Gestapo num sistema de confiscao, segregao e extermnio. A 29de Maio foi publicada uma nova lei. e
uma astrela de seis pontas com as dimenses da palma da mo e uma
sarja preta. ever ser de tecido amarelo e levar em letra preta a inscrio JUDEU. Deve ser usada desde os 6anos, visivelmente, no lado
esquerdo do peito e firmemente pregada no tecido. e Nem todos os
franceses se mostravam dispostos a ser espezinhados pela bota
alem. O Maquis, a resistncia subterrnea francesa, travava uma
luta dura e inteligente, e os seus elementos, quando presos, eram condenados  morte das maneiras mais engenhosas. Umajovem condessa, cuja famlia possua um castelo 
nos arredores de Chartres, viu-se forada a alojar os oficiais do comando alemo
local nos quartos trreos durante seis meses, durante os quais escondeu cinco membros do Maquis, procurados pelas autoridades, nos
pisos superiores do castelo.
Os dois grupos nunca se cruzaram, mas em trs meses o cabelo da
condessa embranquecera por completo. 
Os alemes seguiam  risca o estatuto de conquistadores, mas para o francs comum havia escassez de tudo, excepto frio e misria. O
gs de cozinha era racionado, e no havia aquecimento. Os parisien-
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ses resistiam ao Inverno comprando serradura s toneladas, armazenavam-na numa parte das suas casas e aqueciam a outra metade em
fornos especiais onde queimavam serradura. tudo era reles, dos
cigarros ao couro, passando pelo caf. Os franceses diziam por graa
que no importava o que se comia; o paladar era sempre o mesmo. As
francesas - por tradio as mulheres mais bem vestidas do mundo
- usavam casacos velhos feitos de pele de carneiro em vez de l e sapatos com solas de madeira, de forma que o barulho das mulheres que
andavam nas ruas de Paris parecia o som dos cascos dos cavalos.
At os baptizados foram afectados, poisfaltava doce de amndoas,
a iguaria tradicional da cerimnia baptismal, e as lojas de doces expunham convites  entrada e  inscrio para arranjarem o doce de
amndoas. Havia alguns txis Renault na rua, mas a forma de transporte mais popular eram os carros de dois lugares puxados por bicicletas tambm.
o teatro, como sempre sucede em pocas de crise prolongada, florescia. As pessoas encontravam refgio s esmagadoras realidades
da vida quotidiana nas telas e nos palcos. Do dia para a noite, Noelle
Page transformara-se numa estrela. Outros artistas do teatro, rodos
de inveja, diziam que isso se devia unicamente ao poder e ao talento
de Armand Gautier, e, embora fosse verdade que Gautier tivesse treinado a sua carreira,  um axioma entre os que trabalham no teatro que
ningum pode fabricar uma estrela excepto o pblico, esse rbitro
sem rosto, adorador e inconstante na carreira dum actor. O pblico
adorava Noelle. 
Quanto a Armand Gautier, lamentava amargamente o papel que
desempenhara no incio da carreira dela. Ela j no precisava dele;
tudo o que os ligava era uma fantasia, e ele vivia num terror constante do dia em que ela o deixasse. Gautier trabalhara quase a vida inteira no teatro, mas nunca 
conhecera ningum como Noelle. Ela era uma
esponja insacivel, que aprendia tudo quanto ele tinha para lhe ensinar e exigia mais. Fora uma experincia fantstica observar a metamorfose que se operara nela 
 medida que passava do contacto inicial e hesitante com um papel at ao domnio interior e cheio de segurana. Gautier soubera desde o princpio que Noelle ia ser 
uma
estrela. - sobre isso nunca houve qualquer dvida -, mas o que o surpreendia,  medida que a conhecia melhor, era que o estrelato no era
O objectivo dela. A verdade era que Noelle nem sequer estava interessada em representar.
No incio, Gautier simplesmente no queria acreditar nisso. Ser
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uma estrela era o topo da escada, o sine qua non. Mas para Noelle representar era simplesmente um degrau, e Gautier no tinha a mnima indicao de qual era o seu 
verdadeiro objectivo. Ela era um mistrio, um enigma, e quanto mais Gautier procurava saber maior era o enigma, como as caixas chinesas que se abriam e revelavam 
outras caixas no interior. Gautier orgulhava-se de entender as pessoas, em particular as mulheres, e o facto de no saber absolutamente nada sobre a mulher com quem 
vivia e que amava deixava frentico. Pediu a Noelle que casasse com ele, e ela disse: Est bem, Armand, mas ele sabia que ela no quis dizer nada com isso, que isso 
para ela no significava mais do que o compromisso com Philippe Sorel ou s Deus sabia com quantos outros mais na sua vida passada. Sabia que o casamento nunca se 
realizaria. Quando Noelle estivesse pronta, partiria. Gautier estava certo de que todos os homens que a conheciam tentavam dormir com ela. Tambm sabia atravs dos 
seus amigos invejosos que nenhum deles o conseguira.
- s um tipo cheio de sorte - dissera-lhe um amigo. - Deves ser um touro. Ofereci-lhe um iate, um castelo s dela e um squito de criados em Cap d'Antibes, e ela 
riu-se na minha cara.
Outro amigo, um banqueiro, disse-lhe:
- Descobri finalmente a primeira coisa que o dinheiro no consegue comprar.
- Noelle?
O banqueiro fez um sinal afirmativo com a cabea.
-  verdade. Pedi-Lhe que dissesse um preo. No se mostrou interessada. Que  que tu lhe ds, meu amigo?
Isso queria Armand Gautier saber.
Gautier lembrava-se da altura em que encontrara a primeira pea para ela. No lera mais de uma dzia de pginas quando viu que era exactamente aquilo que procurava. 
Era uma grande pea, um drama sobre uma mulher cujo marido fora para a guerra. Um dia um soldado bate-lhe  porta e diz-lhe que fora camarada do marido com quem 
servira na Frente russa. Com o desenrolar da pea, a mulher apaixona-se pelo soldado, sem saber que se tratava de um homicida psicopata e que a sua vida corria perigo. 
Era um grande papel feminino, e Gautier aceitou dirigi-la imediatamente, contanto que o papel principal fosse entregue a Noelle Page. Os financiadores mostraram-se 
relutantes em ver o papel principal entregue a uma desconhecida.
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 mas concordaram em v-la numa audio. Gautier foi a correr para casa dar a notcia a Noelle. Viera ao encontro dele porque queria ser uma estrela e agora ele ia 
satisfazer-lhe o desejo. Disse a si prprio que isto iria uni-los, iria faz-la am-lo realmente. Casariam e ela seria sua, para sempre.
Mas quando Gautier lhe deu a novidade Noelle olhou simplesmente para ele e disse:
- Isso  maravilhoso, Armand, obrigada. -Exactamente no mesmo tom de voz com o qual poderia ter-lhe agradecido por lhe ter dito as horas ou acendido o cigarro.
Gautier observou-a por um longo momento, sabendo que Noelle era, de uma forma estranha, uma doente, que alguma emoo dentro de si morrera ou nunca estivera viva 
e que nunca ningum iria possu-la. Sabia isto e no entanto no conseguia acreditar, porque o que via era uma rapariga bela e afectuosa que lhe satisfazia qualquer 
capricho alegremente e nada pedia em troca. Porque a amava, Gautier ps as suas dvidas de lado, e eles iam trabalhar na pea.
Noelle foi brilhante na audio e conseguiu o papel sem hesitaes, como Gautier sempre soubera. Quando a pea se estreou em Paris, dois meses depois, Noelle tornou-se, 
subitamente, a maior estrela de Frana. Os crticos tinham-se preparado para zurzir a pea e Noelle porque sabiam que Gautier entregara o papel principal  amante, 
uma actriz inexperiente, o que era algo delicioso de mais para deixarem passar em branco. Mas ela cativara-os completamente. Buscaram novos superlativos para descrever 
o seu desempenho e a sua beleza. A pea foi um verdadeiro xito de bilheteira.
Todas as noites, depois de cada actuao, o camarim de Noelle enchia-se de visitas. recebia toda a gente: empregados de sapatarias, soldados, milionrios e caixeiros, 
a todos tratando com a mesma delicadeza paciente. Gautier observava espantado. Quase parece uma princesa recebendo os seus sbditos, pensou ele.
No decurso de um ano, Noelle recebeu trs cartas de Marselha. Rasgou-as, sem as abrir, at que deixou de as receber. Na Primavera, Noelle fez um filme realizado 
por Armand Gautier, o qual, depois do lanamento, lhe aumentou a fama. Gautier maravilhava-se com a pacincia de Noelle em dar entrevistas e ser fotografada. A maioria 
das estrelas detestava-o e fazia-o para aumentar o seu valor de bilheteira ou por razes egostas. Noelle era indiferente a ambas as motivaes. Mudava de assunto 
quando Gautier a questionava sobre a razo por que se dispunha a deixar passar uma oportunidade de ds-
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cansar no Sul de Frana para ficar em Paris, com frio e chuva, a tirar fotografias maadoras para Le Matin, La Petite Parisinne ou L'lllustration. Era prefervel 
assim, pois Gautier teria ficado pasmado se soubesse a verdadeira razo. A motivao de Noelle era muito simples.
tudo o que fazia era por causa de Larry Douglas.  quando Noelle tirava fotografias, imaginava o seu antigo apaixonado pegar numa revista e reconhecer o seu retrato. 
Quando fazia uma cena num filme, via Larry Douglas sentado numa sala, numa noite, num pas distante, vendo-a. O trabalho dela era uma recordao para ele, um recado 
do passado, um sinal que o traria de volta um dia para o p dela; e isso era tudo quanto Noelle queria, que voltasse para ela, para que pudesse destru-lo. Graas 
a Christian Barbet, Noelle tinha um arquivo que no parava de crescer sobre Larry Douglas. O pequeno detective mudara-se dos seuspobres escritriosparaumasuite enorme 
e luxuosa na Rua Richer, perto do Folies Bergres. A primeira vez que Noelle fora v-lo nas suas novas instalaes, Barbet sorrira perante a expresso de surpresa 
e dissera:
- Arranjei isto por um bom preo. Estes escritrios estavam ocupados por um judeu.
- Disse que tinha notcias para mim - disse Noelle cortando a conversa.
O sorriso afectado desapareceu do rosto de Barbet.
- Ah, sim.
Tinha de facto novidades. Era difcil obter informaes de Inglaterra mesmo nas barbas dos nazis, mas Barbetl se arranjara. Subornava marinheiros de navios neutrais 
que passavam cartas de uma agncia em Londres. Mas essa era apenas uma das suas fontes. Apelava ao patriotismo da resistncia francesa,  humanidade da Cruz Vermelha 
Internacional e  cobia dos candongueiros com ligaes ultramarinas. A cada um contava uma histria diferente, e o fluxo de informao no parava de chegar. Pegou 
num relatrio que estava sobre a secretria.
- O seu amigo foi abatido no canal da Mancha - disse sem qualquer prembulo.
Do canto do olho observou o rosto de Noelle,  espera de que a sua fachada distante quebrasse, tirando prazer da dor que Lhe infligia.
Mas a expresso de Noelle no se alterou. Olhou para ele e disse confiante
- Ele foi salvo.
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Barbet fitou-a, engoliu em seco e respondeu com relutncia:
- Bem,  verdade. Um barco de salvamento ingls recolheu-o. E perguntou a si prprio como teria ela sabido.
Tudo o que dizia respeito a esta mulher o confundia, e ele odiava-a como cliente e esteve tentado a abandonar o caso, mas Barbet sabia que isso teria sido uma estupidez.
Tentara uma vez fazer-se a ela, dando a entender que os seus servios seriam mais baratos, mas Noelle pusera-o no seu lugar de um modo que o fizera sentir-se um 
parolo desajeitado, e ele nunca mais a perdoaria por causa disso. Um dia, Barbet prometeu a si prprio, calmamente, que a cabrona iria pag-las.
Agora que Noelle estava no seu escritrio, com um olhar de desdm no belo rosto, Barbet passou logo ao relatrio, ansioso por se ver livre dela.
- A esquadrilha mudou-se para Kirton, no Lincolnshire. De momento pilotam Hurricanes e... - Noelle estava interessada noutra coisa.
- O compromisso que ele tinha com a filha do almirante - disse ela - foi cancelado, no foi?
Barbet ergueu o olhar surpreendido e murmurou:
- Foi. Ela descobriu que ele andava com outras mulheres. -At parecia que Noelle j tinha visto o relatrio. De facto no tinha, mas no importava. Os laos de dio 
que uniam Noelle a Larry Douglas eram to fortes que dava a impresso de que ela sabia tudo o que se passava na vida dele. Noelle pegou no relatrio e saiu. Quando 
regressou a casa, leu o relatrio com vagar, arquivando depois cuidadosamente entre os outros relatrios, e trancou-o onde no poderia ser achado.
Numa sexta-feira  noite, depois do espectculo, Noelle estava no camarim a tirar a pintura com a ajuda dum creme quando bateram  porta, e Marius, o porteiro do 
palco, um homem idoso e coxo, entrou.
- Desculpe-me, Miss Page, mas um cavalheiro pediu-me que Lhe trouxesse isto.
Noelle olhou de relance pelo espelho e viu que trazia um enorme ramo de rosas vermelhas dentro de uma jarra invulgar.
- Pe-nas ali, Marius - disse Noelle, e ficou a v-lo pr ajarra de rosas sobre a mesa.
Estava-se no fim de Novembro e ningum em Paris via rosas h mais de trs meses. Deviam ser umas quatro dzias, de um vermelho rubi, p alto, ainda hmidas de orvalho. 
Curiosa, Noelle levantou-
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- se e pegou no carto. Dizia assim: Para a bela Nuelle Page. Pousou-As na jarra onde estavam
gostaria de cear comigo? General Hans Scheider.
A jarra das flores era de porcelana de Delft, com um desenho intrincado, e muito cara. O general Scheider no olhara a meios.
- Ele queria receber uma resposta - disse o porteiro.
- Diz-lhe que eu nunca ceio, e tu leva estas flores e d-as  tua
mulher. 
Ele fitou-a surpreendido. - Mas o general... -  tudo.
Marius abanou a cabea, pegou na jarra e saiu  pressa. Noelle sabia que iria logo espalhar a histria de que ela desafiara um general
alemo. O mesmoj acontecera antes com outros oficiais alemes, e
Os franceses consideravam-na uma espcie de herona. Era ridculo.
Averdade era que Noelle nada tinha contra os nazis, apenas no lhes
ligava. No eram parte da sua vida, nem dos seus planos, pelo que
simplesmente os tolerava, aguardando o dia em que pudessem
regressar  ptria. Sabia que se se envolvesse com quaisquer alemes
sairia prejudicada. Agora no, talvez, mas no era o presente que
preocupava Noelle; era o futuro. Achava que a ideia de o Terceiro
Reich governar o mundo durante mil anos era uma merda. Qualquer
estudante de Histria sabia que todos os conquistadores acabavam
por ser conquistados. Por isso no iria fazer nada que virasse os seus
concidados contra ela quando os alemes fossem finalmente expulsos. A ocupao nazi no a afectava minimamente e, quando o assunto vinha  baila - o que acontecia 
com frequncia -, Noelle evitava
pronunciar se.
Fascinado pela sua atitude, Armand Gautier tentava muitas vezes lev-la a pronunciar-se.
- No te importas que os nazis tenham conquistado a Frana? perguntava-lhe ele.
- Teria importncia se eu me importasse?
- A questo no  essa. Se todos sentissem o que tu sentes, estaramos desgraados.
- Seja como for, estamos desgraados, no estamos?
- No se acreditarmos na fora de vontade. Achas que a nossa
vida j est traada desde o nosso nascimento?
- Em certa medida. Do-nos o corpo, uma terra e um trabalho,
mas isso no significa que no possamos mudar. Podemos ser tudo
aquilo que queremos.
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- Exactamente o que eu penso. Por isso devemos combater os nazis.
Ela fitou.
- Porque Deus est do nosso lado?
- Sim - respondeu ele.
- Se Deus existe - respondeu Noelle sensatamente - e se Ele os criou, ento Ele tambm deve estar do lado deles.
Em Outubro, no primeiro aniversrio da pea de Noelle, os financiadores deram uma festa em honra do elenco naTour d'Argent. Havia uma amlgama de actores, banqueiros 
e homens de negcios influentes. Os convidados eram na sua maioria franceses, mas havia uma dzia de alemes na festa, alguns fardados, todos acompanhados por francesas, 
menos um. A excepo era um oficial alemo na casa dos 40, de rosto comprido, magro e inteligente, olhos fundos verdes e um corpo atltico e elegante. Uma tnue 
cicatriz ia do maxilar ao queixo. Noelle apercebeu-se de que ele a observou toda a noite, embora no se tivesse aproximado.
- Quem  aquele homem? - perguntou ela informalmente a um dos anfitries.
Ele olhou de relance para o oficial que estava sentado sozinho a uma mesa bebericando champanhe, depois voltou-se para Noelle surpreso.
-  estranho que me faa essa pergunta. Pensei que fosse um amigo seu.  o general Hans Scheider. Faz parte do Estado-Maior.
Noelle lembrou-se das rosas e do carto.
Por que  que pensou que era meu amigo? - perguntou ela.
O homem pareceu perturbado.
- Conclu naturalmente... quero dizer, todas as peas e filmes produzidos em Frana tm de ser aprovados pelos alemes. Quando a censura tentava proibir a produo 
de um novo filme seu, o general intervinha pessoalmente e dava a sua aprovao.
Nesse momento, Armand Gautier aproximou-se com algum para apresentar a Noelle e a conversa mudou.
Noelle no voltou a prestar ateno ao general Scheider. Na noite seguinte, quando chegou ao camarim, havia uma rosa numa pequenajarra com um cartozinho que dizia: 
Talvez devamos comear com coisas maispequenas. Posso encontrar-me consigo? Hans Scheider.
Noelle rasgou o bilhete e atirou a flor para o cesto dos papis.
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Depois dessa noite, Noelle apercebeu-se de que o general Scheider se encontrava presente em quase todas as festas a que ela e Armand Gautier iam. Ficava sempre a 
um canto a observ la. Eram vezes de mais para ser coincidncia. Noelle concluiu que ele devia esforar-se para se manter informado sobre os seus movimentos e receber 
os mesmos convites que ela.
Perguntava a si prpria a razo de tanto interesse, mas era uma especulao ociosa, e ela no estava para se maar. Ocasionalmente, Noelle divertia-se aceitando 
um convite e no aparecia, perguntando no dia seguinte  anfitri se o general Scheider estivera l. A resposta era sempre afirmativa. A despeito da punio rpida 
e letal imposta pelos nazis a quem se lhes opusesse, a sabotagem continuava a aumentar em Paris. Alm do Maquis, havia dezenas de pequenos grupos de amantes da liberdade 
franceses que arriscavam a vida para combater o inimigo com todas as armas que tinham  mo. Matavam os soldados alemes quando os apanhavam desprevenidos, rebentavam 
camies de abastecimentos e minavam pontes e comboios. As suas actividades eram denunciadas na imprensa diria controlada como actos de infmia, mas para os franceses 
leais os feitos de infmia eram feitos gloriosos. O nome dum homem surgia sempre nosjornais - tinha a alcunha de Le Cafard, a barata, porque parecia correr por toda 
a parte, e a Gestapo mostrava-se impotente para o apanhar. Ningum sabia quem era. Alguns pensavam que era um ingls que vivia em Paris; uma outra teoria sustentava 
que era um agente do general De Gaulle, o chefe das Foras da Frana Livre; e alguns diziam mesmo que era um traidor alemo. Fosse quem fosse, comearam a aparecer 
desenhos de baratas por toda a cidade de Paris, em edifcios, ruas e at no quartel-general do exrcito alemo. A Gestapo concentrava os seus esforos para prend-lo. 
De um facto no havia dvida: Le Cafard tornara- se um heri popular.
Numa tarde chuvosa de Dezembro, Noelle foi  inaugurao duma exposio de arte dumjovem artista que ela e Armand conheciam. A exposio realizava-se numa galeria 
da Rua du Faubourg St. Honor. A sala estava apinhada. Estavam presentes muitas celebridades, e os fotgrafos estavam por toda a parte. Enquanto Noelle circulava, 
observando todos os quadros, sentiu algum tocar-lhe no brao. Voltou-se e deparou com Madame rose. Noelle levou um minuto a reconhec-la. Era o mesmo rosto feio, 
e no entanto envelhecera vinte
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anos, como se uma alquimia temporal a tivesse transformado na sua prpria me. Vestia uma capa negra enorme, e Noelle captou um pensamento quase imperceptvel de 
que ela no trazia a estrela amarela que os Judeus deviam usar obrigatoriamente.
Noelle comeou a falar, mas a mulher mais velha impediu-a, aper tando-lhe o brao.
- Pode encontrar-se comigo? -perguntou ela numa voz praticamente inaudvel. - Les Deux Magots.
Antes que Noelle pudesse responder, Madame Rose misturou-se com a multido, e Noelle viu-se rodeada por fotgrafos. Enquanto posava e se ria para eles, Noelle lembrava-se 
de Madame Rose e do seu sobrinho, Israel Katz. Ambos a tinham valido numa altura crtica. Israel salvara-lhe a vida duas vezes. Noelle interrogou-se sobre o objectivo 
de Madame Rose. Dinheiro, era o mais certo.
Vinte minutos depois, Noelle saiu sorrateiramente e apanhou um txi para a Praa de St. Germain des Prs. A chuva deixara o dia molhado, e era agora uma neve fria 
e impetuosa. Quando o txi em que viajava parou defronte de Les Deux Magots e um frio cortante envolveu Noelle, um homem de gabardina e chapu de aba largajuntou-se 
-lhe vindo no se sabia donde. Noelle levou algum tempo a reconhec-lo. Tal como a tia, parecia mais velho, mas a mudana ia mais alm. Havia uma autoridade, uma 
fora que antes no existira. Israel Katz emagrecera desde a ltima vez que o vira, e tinha os olhos encovados, como se no tivesse dormido nos ltimos dias. Noelle 
reparou que ele no usava a estrela amarela de seis pontas.
- Vamos sair da chuva - disse Israel Katz.
Pegou no brao de Noelle e entraram. Havia uma dzia de clientes no caf, todos franceses. Israel levou Noelle para uma mesa situada num canto.
- Quer beber alguma coisa? - perguntou ele.
- No, obrigada.
Ele tirou o chapu ensopado pela chuva, e Noelle examinou-lhe o rosto. Viu naquele instante que no a convidara quele lugar para Lhe pedir dinheiro. Ele observava-a.
- Voc mantm-se bonita, Noelle - disse com uma voz calma. Vi todos os seus filmes, bem como as suas peas.  uma grande actriz.
- Por que  que nunca me procurou nos bastidores? Israel hesitou, depois sorriu acanhadamente.
- No queria embara-la.
Noelle fitou-o por um momento antes de entender o que ele que-
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ria dizer. Para ela, judeu era apenas uma palavra que aparecia nos jornais de tempos a tempos, e no significava nada na sua vida; mas como devia ser viver aquela 
palavra, serjudeu num pas apostado em dizimar, exterminar a sua raa, particularmente quando no era a prpria ptria?
- Quem escolhe os meus amigos sou eu - respondeu Noelle. Ningum me diz quem  que eu devo ver.
Israel deu um sorriso de desagrado.
- No desperdice a sua coragem - aconselhou. -Use-a sempre que for til.
- Fale-me de si - disse ela.
Ele encolheu os ombros.
- Vivo uma vida apagada. Agora sou cirurgio. Fui aluno do Dr. Angibouse. J ouviu falar dele?
- No.
-  um grande cirurgio-cardiologista. Decidiu proteger-me. Depois os nazis tiraram-me a licena para exercer Medicina. - Ergueu ao alto umas mos belamente esculpidas 
e examinou-as como se pertencessem a outra pessoa. - De forma que me tornei carpinteiro.
Olhou para ele durante um momento.
-  s isso? - perguntou.
Israel examinou-a, surpreso.
- Claro - disse ele. - Porqu?
Noelle ps de lado uma ideia que lhe surgiu.
- Por nada. Por que me quis ver?
Inclinou-se mais para ela e baixou a voz.
- Preciso de um favor. Um amigo...
Nesse momento, a porta abriu-se e quatro soldados da Gestapo, na sua farda verde-acinzentada,  entraram no caf, liderados por um cabo. O cabo disse em voz alta:
- Achtung! Queremos ver a vossa identificao.
Israel Katz empertigou-se, como se tivesse posto uma mscara. Noelle viu-o a meter a mo no bolso do sobretudo. Os olhos apontaram na direco da passagem estreita 
que dava para a porta dos fundos, mas um dos soldados j l estava, bloqueando- a. Israel disse em tom baixo e apressado.
- Afaste-se de mim. Saia pela porta da frente. J.
- Porqu? - perguntou Noelle.
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Os alemes examinavam os documentos duns clientes que se sentavam a uma mesa junto  entrada.
- No faa perguntas - ordenou ele. - Apenas v. Noelle hesitou um momento, depois levantou-se e comeou a dirigir-se para a porta. Os soldados aproximavam-se da 
mesa seguinte. Israel puxara a cadeira para trs para ter mais espao. O movimento chamou a ateno de dois soldados. Vieram ter com ele.
- Identifique-se.
Noelle pressentiu que os soldados andavam atrs de Israel, e que ele tentaria escapar, mas que seria abatido. No tinha hiptese.
Virou-se e chamou-o.
- Franois! Vamos chegar tarde ao teatro. Paga a conta e vamos. Os soldados olharam-na surpresos. Noelle voltava para a mesa. O cabo Schultz foi ao encontro dela. 
tinha o cabelo louro, as mas rosadas e pouco mais de vinte anos.
- Est com este senhor, Fraulein? - perguntou ele.
- Claro que estou! No tem mais nada que fazer seno incomodar cidados franceses honestos? - perguntou Noelle, num tom irado.
- Lamento, minha boa Fraulein, mas...
- No sou sua boa Fraulein coisa nenhuma! - ripostou Noelle.
- O meu nome  Noelle Page. Sou actriz do Teatro Varits, e trabalhamos os dois na mesma pea. Hoje, quando estiver a jantar com o meu caro amigo general Hans Scheider, 
vou dar-lhe conta deste seu comportamento, e ele vai ficar furioso consigo.
Noelle viu o reconhecimento que invadiu os olhos do cabo, mas, se foi do seu nome ou do general Scheider, no tinha a certeza.
- Peo... peo desculpa, Fr; ulein -gaguejou ele. - Claro que estou a reconhec-la. - Virou-se para Israel Katz, que se sentava em silncio, com a mo enfiada no 
bolso. - Mas no estou a reconhecer este cavalheiro.
- Reconhec-lo-ia se os brbaros fossem ao teatro - disse Noelle com desprezo contundente. - Estamos presos ou podemos ir embora?
Ojovem cabo estava consciente de que todos o olhavam. tinha de tomar uma deciso naquele instante.
- Claro que a Fraulein e o seu amigo no esto presos -disse ele.
- Peo desculpa se a macei. Eu...
Israel Katz ergueu o olhar para o soldado e disse friamente:
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- Est a chover, cabo. Ser que um dos seus homens nos poderia Ir arranjar um txi?
- Pois no...  paraj.
Israel entrou no txi acompanhado por Noelle, e o cabo alemo ficou  chuva vendo-os partir. Quando o txi parou num semforo trs quarteires adiante, Israel abriu 
a porta, apertou a mo de Noelle e sumiu sem uma palavra.
Por volta das sete horas, ao entrar no camarim, Noelle deparou com dois homens que a aguardavam. Um era o cabo alemo do caf dessa tarde. O outro estava  paisana. 
Era albino, completamente calvo, com olhos cor de-rosa, o que de certo modo lembrou a Noelle um beb sem forma. tinha trinta e poucos anos e um rosto de Lua cheia. 
A voz era aguda e quase ridiculamente feminina, mas havia uma qualidade inefvel, algo nele que arrepiava.
- Miss Noelle Page?
- Sim.
- Sou o coronel Kurt Mnller, da Gestapo. Julgo que conhece o cabo Schultz.
Noelle virou-se para o cabo, com um ar de indiferena:
- No, no creio.
- No caf hoje  tarde - disse o cabo num tom solcito. Noelle virou-se para Mnller.
- Conheo tantas pessoas!
O coronel fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Deve ser difcil lembrar-se de todas as pessoas quando se tem muitos amigos, Fraulein.
Concordou.
-  verdade.
- Por exemplo, o amigo que a acompanhava esta tarde. - Fez uma pausa, observando os olhos de Noelle. - Disse ao cabo Schultz que ele entrava na pea consigo?
Noelle olhou para o homem da Gestapo surpreendida.
- O cabo no me deve ter percebido bem.
- No, Fr; ulein - respondeu o cabo indignado. - A Fr"ulein disse...
O coronel deu-lhe um olhar mortal, e a boca do cabo fechou-se a meio da frase.
- Talvez - disse Kurt Mnller num tom amigvel. - Essas coisas podem acontecer to facilmente quando estamos a tentar comunicar numa lngua estrangeira.
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- L isso  verdade - disse Noelle rapidamente.
Do canto do olho viu o rosto do cabo enrubescer de raiva, mantendo, no entanto, a boca fechada.
- Lamento t-la maado por nada - disse Kurt Mnller. Noelle sentiu os ombros descontrair e de repente deu conta da tenso em que estivera.
- No h qualquer problema - disse ela. - Talvez queiram bilhetes para a pea.
- Eu j a vi - disse o homem da Gestapo -, e o cabo Schultz j comprou bilhete. De qualquer forma, muito obrigado.
Ia dirigir-se para a porta, mas fez uma pausa.
- Quando chamou o cabo Schultz de brbaro, ele decidiu comprar um bilhete para a ver actuar. Quando olhava para as fotografias dos actores no trio, no viu o seu 
amigo do caf. Foi quando me telefonou.
O corao de Noelle comeou a bater mais depressa.
- Apenas para informao, Mademoiselle. Se no era seu coadjuvante, quem era ele?
- Um... um amigo.
- O nome? - A voz aguda era ainda suave, mas tornara-se peri gosa.
- Que diferena faz? - perguntou Noelle.
- O seu amigo corresponde  descrio dum criminoso que procuramos. Sabe-se que foi visto nas vizinhanas da Praa de St. Germain des Prs esta tarde.
Noelle continuava a fit-lo, o seu pensamento galopando.
- Como se chama o seu amigo? - A voz do coronel aMbller era insistente.
- No... no sei.
- Ah, ento era um desconhecido?
- Era.
Ele fitou-a, perfurando-a com os seus olhos cor-de-rosa.
- Estava na companhia dele. Impediu que os soldados vissem os documentos dele. Porqu?
- Senti pena dele - disse Noelle. - Ele veio ter comigo...
- Onde?
Noelle pensava rapidamente. Algum podia t-los visto entrar juntos no caf.
- C fora. Disse-me que os soldados o procuravam porque tinha roubado comida numa mercearia para a mulher e para os filhos.
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Parecia um crime to insignificante que eu... - Olhou suplicante para aMller. - Eu ajudei.
Miiller examinou-a por um momento e abanou a cabea num gesto de admirao.
- Agora entendo por que  uma grande actriz. - O sorriso morreu no rosto dele, e quando voltou a falar tinha a voz mais suave. Deixe-me dar lhe um conselho, Mademoiselle 
Page. Ns queremos estar de boas relaes com os franceses. Queremos que sejam nossos amigos e nossos aliados. Mas todo aquele que ajudar o inimigo torna -se nosso 
inimigo. Havemos de apanhar o seu amigo, Mademoiselle, e quando o conseguirmos vamos interrog-lo, e prometo- lhe que ele h-de falar.
- Eu no tenho medo de nada - disse Noelle.
- Engana-se. - Ela mal podia ouvi-lo. - Tem de ter medo de mim. - O coronel aMnller fez um sinal ao cabo e dirigiu-se novamente para a porta. Voltou-se uma vez mais. 
- Se tiver notcias do seu amigo, informe-me de imediato. Se o no fizer... - Soniu-lhe.
E os dois homens partiram.
Noelle afundou-se numa cadeira, esgotada. Sabia que no fora convincente, mas tinha sido apanhada completamente desprevenida. Acreditara que o incidente tinha sido 
esquecido. Lembrava-se agora de algumas histrias que ouvira sobre a Gestapo, e teve um arrepio breve. Se calhar tinham apanhado Israel Katz, e ele falou. Podia 
confessar-Lhes que eram velhos amigos, que Noelle mentira ao dizer que no o conhecia. Mas por certo isso no podia ser importante. A menos que... o nome que pensara 
no restaurante veio-lhe subitamente  ideia outra vez. I, e Cafard.
Meia hora depois, quando entrou no palco, Noelle conseguiu esquecer tudo menos a personagem que desempenhava. Era uma plateia apreciadora, e quando veio agradecer 
recebeu uma tremenda ovao. Ouvia ainda o aplauso quando regressava ao camarim e abriu a porta. Sentado numa cadeira estava o general Hans Scheider. Ps-se de p 
assim que Noelle entrou e disse polidamente:
- Informaram-me de que vamos cear esta noite.
Cearam no Fruit Perdu, um restaurante na margem do Sena, a cerca de trinta quilmetros de Paris. Uma limusina preta e brilhante levou-os at l. A chuva parara, 
e a noite estava fresca e agradvel. O general no se referira ao incidente do dia antes do fim da
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refeio. O primeiro impulso de Noelle fora lhe no fazer companhia, mas decidiu que devia saber o que sabiam os alemes ao certo e em que medida a complicao a 
envolvera.
- Recebi uma chamada do quartel-general da Gestapo esta tarde - dizia o general Scheider. - Disseram-me que voc tinha dito a um certo cabo Schultz que ia cear comigo 
esta noite. - Noelle observava-, sem dizer nada. Ele prosseguiu. - Achei que seria muito desagradvel para si se negasse, e muito agradvel para mim se confirmasse. 
- Ele sorriu. - Por isso eis-nos aqui.
-  tudo to ridculo - protestou Noelle. - Ajudar um homem que roubou umas coi...
- No! -Avoz do general foi cortante. Noelle olhou-o surpresa.
- No cometa o erro de pensar que todos os alemes so parvos. E no subestime a Gestapo.
Noelle disse:
- Eles nada tm a ver comigo, general. Ele brincava com o p o copo de vinho.
- O coronel Miiller suspeita que voc tenha ajudado um homem muito procurado por ele. Se for verdade, meteu-se num grande sarilho. O coronel aMbler no perdoa nem 
esquece. - Olhou para Noelle. Por outro lado - disse cuidadosamente -, se no voltar a ver o seu
amigo, tudo isto poder simplesmente passar ao esquecimento. Quer um conhaque?
- Agradeo - disse Noelle.
Mandou vir dois brandes Napolon.
- H quanto tempo vive com Armand Gautier?
- Tenho a certeza de que sabe a resposta - retrucou Noelle. O general Scheider sorriu.
- De facto, sei. O que eu realmente queria perguntar era a razo por que recusou jantar comigo antes. Era por causa de Gautier?
Noelle sacudiu a cabea.
- No.
- Entendo - disse ele com dureza. Houve um tom na sua voz que a surpreendeu.
- Paris est cheia de mulheres - disse Noelle. - Tenho a certeza de que poderia arranjar uma.
- Voc no me conhece - disse o general calmamente -, ou ento no teria dito isso. - Parecia embaraado. - Tenho mulher e filho em Berlim. Amo-os muito, mas h 
mais de um ano que estou longe deles, e no fao ideia de quando voltarei a v-los.
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- Quem o forou a vir para Paris? - Noelle perguntou cruelmente.
- Eu no estava a pedir compaixo. Apenas queria explicar-me um pouco. No sou um homem promscuo. A primeira vez que a vi no palco - disse ele - aconteceu-me algo. 
Senti um enorme desejo de a conhecer. Gostaria que fssemos bons amigos. Havia uma dignidade calma na maneira como falava.
- No lhe posso prometer nada - disse Noelle.
Ele anuiu.
 -  Entendo.
Claro que no entendia. Porque Noelle tencionava no voltar a v -lo. O general Scheider mudou habilmente de assunto e falaram de formas de representao e de teatro, 
e Noelle achou surpreendentemente culto. Tinha um esprito eclctico e uma inteligncia profunda. Casualmente, ia mudando de assunto, pondo em destaque os interesses 
mtuos que os dois partilhavam. Era uma actuao habilidosa, e Noelle divertia-se. Esforara-se bastante para se informar a respeito dela. Em tudo era o tpico general 
alemo no seu uniforme verde- azeitona, frte e autoritrio, mas havia uma gentileza que ao mesmo tempo revelava um certo tipo de homem, uma qualidade intelectual 
que pertencia mais ao erudito do que ao soldado. E no entanto havia aquela cicatriz que lhe atravessava o rosto.
- Como  que fez essa cicatriz?
Passou os dedos pela inciso profunda.
- Foi num duelo h muitos anos - disse, encolhendo os ombros.
- Na Alemanha, damos a isto o nome de Wildfleisch, que significa pele orgulhosa.
Falaram da filosofia nazi.
- No somos monstros - declarou o general Scheider. - E no desejamos governar o mundo. Mas tambm no tencionamos ficar sentados e ser castigados durante mais tempo 
por uma guerra que perdemos h mais de vinte anos. O Tratado de Versalhes  um cativeiro de que o povo alemo se libertou finalmente. Falaram da ocupao de Paris. 
- No foram os soldados franceses que nos facilitaram a empreitada - disse o general Scheider. - Uma grande dose de responsabilidade devia cair sobre os ombros de 
Napoleo III.
- O senhor est a brincar - respondeu Noelle.
- Estou a falar muito a srio - assegurou-Lhe ele. - No tempo de Napoleo, as massas revoltosas usavam constantemente as ruas emaranhadas e sinuosas de Paris para 
erguerem barricadas e embos-
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cadas contra os soldados de Napoleo. Para os impedir, incumbiu o baro Eugne Georges Haussmann de endireitar as ruas e encher a cidade de belas e largas avenidas. 
- Ele sorriu. -As avenidas onde as nossas tropas desfilaram. Receio que a histria no poupar o projectista Haussmann.
Depois do jantar, no regresso a Paris, perguntou:
- Est apaixonada por Armand Gautier?
O tom era informal, mas Noelle teve a sensao de que a resposta era importante para ele.
- No - disse calmamente.
Ele abanou a cabea, satisfeito.
- Foi o que eu pensei. Eu poderia faz-la muito feliz.
- Tanto quanto faz feliz a sua mulher?
O general Scheider empertigou-se por um momento como se lhe tivessem batido e depois voltou-se para Noelle.
- Posso ser um bom amigo - disse ele calmamente. - Faamos votos para que nunca venhamos a ser inimigos.
Quando Noelle regressou ao apartamento, eram quase trs horas da manh, e Armand Gautier estava  espera dela num estado de agitao.
- Onde  que estiveste? - perguntou ele, assim que ela entrou a porta.
- tive um compromisso. - Noelle desviou o olhar e contemplou a sala.
Parecia que um ciclone passara por l. As gavetas da secretria estavam abertas e as coisas espalhadas no cho. Revolveram os armrios, um candeeiro fora derrubado 
e uma mesinha estava de lado, com uma perna partida.
- que aconteceu? - perguntou Noelle.
- A Gestapo esteve aqui! Meu Deus, Noelle, que  que tu fizeste?
- Nada.
- Ento como  que se justifica que tenham feito isto? Noelle comeou a andar pelo quarto, endireitando a mobla, concentrando-se. Gautier agarrou-a pelos ombros 
e virou-a.
- Quero saber o que est a acontecer.
Ela respirou fundo.
- Est bem.
Contou-lhe o encontro que tivera com Israel Katz, omitindo o nome e a conversa que teve mais tarde com o coronel Miiller.
- No sei se o meu amigo  Le Cafard, mas  possvel.
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Gautier afundou-se numa cadeira, abismado.
- Meu Deus! - exclamou. - No me importo quem ele seja! S quero  que no te metas nisso. Podem prejudicar-nos por causa disto. Odeio os alemes tanto quanto tu... 
-Deteve-se, no sabendo se Noelle odiava os alemes ou no. Recomeou: - Querida, enquanto forem os alemes a ditar as leis, temos de lhes obedecer. Nenhum de ns 
se pode dar ao luxo de provocar a Gestapo. Estejudeu. como  que disseste que ele se chamava?
- Eu no disse.
Olhou para ela um momento.
- Foi teu amante?
- No, Armand.
- Significa alguma coisa para ti?
- No.
- Ainda bem. - Gautier pareceu aliviado. -Acho que no temos de nos preocupar. No te vo culpar s porque o encontraste por acaso. Se no voltares a v-lo, vo 
esquecer o caso.
- Claro que vo - disse Noelle.
A caminho do teatro, na noite seguinte, Noelle foi seguida por dois
homens da Gestapo.
Desse dia em diante, Noelle era constantemente seguida. tudo comeou por ser um pressentimento, uma premonio de que estava a ser vigiada. Noelle virava-se e via 
numa multido umjovem de aparncia teutnica vestido  civil, com ar de quem no lhe prestava ateno. Depois o pressentimento voltava, e desta vez era outrojovem 
teutnico. Era sempre algum diferente e, embora vestidos  civil, envergavam um uniforme exclusivo: uma atitude de desprezo, superioridade e crueldade, e as emanaes 
eram inconfundveis.
Noelle nunca contou a Gautier o que estava a acontecer, pois no via motivo para o preocupar ainda mais. O incidente com a Gestapo no apartamento deixara muito nervoso. 
S falava no que os alemes poderiam fazer s suas carreiras, e Noelle sentiu que ele tinha razo. Bastava olhar para os jornais dirios para saber que os nazis 
eram impiedosos com os inimigos. Recebera vrios recados telefnicos do general Scheider, mas Noelle ignorara-os. Se no queria ter os nazis como inimigos, tambm 
no os queria como amigos. Decidiu ser como a Sua: neutra. Os Israel Katz que se cuidassem. Noelle ficou um
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tanto curiosa quanto ao que ele queria, mas no tinha inteno de se envolver.
Duas semanas depois do encontro de Noelle com Israel Katz, os jornais publicaram na primeira pgina que a Gestapo prendera um grupo de sabotadores chefiados por 
I, e Cafard. Noelle leu a notcia com cuidado, mas no referia se o prprio Le Cafard fora preso ou no. Lembrava-se do rosto de Israel Katz quando os alemes o 
cercaram, e sabia que ele nunca se entregaria vivo. Claro, disse Noelle a si prpria, poderia ser imaginao minha. Ele deve ser um carpinteiro ino fensivo, como 
disse. Mas, se era inofensivo, por que se interessava a Gestapo por ele? Seria I, e Cafard? E fora preso ou fugira? Noelle foi at  janela do apartamento, que dava 
para a Avenida Martigny. Duas figuras de gabardina preta estavam sob um candeeiro,  espera. De qu? Noelle comeou a sentir a mesma sensao de ansiedade que Gautier, 
mas tambm uma sensao de raiva. Lembrou-se das palavras do coronel aMbller: Tem de ter medo de mim. Era um desafio. Noelle tinha o pressentimento de que ia voltar 
a ter notcias de Israel Katz.
A mensagem chegou na manh seguinte atravs da pessoa mais insuspeita: o porteiro. Era um homem baixo de olhos lacrimejantes, de setenta e tal anos, com um rosto 
comprido e rijo e maxilar inferior desdentado, pelo que era difcil entend-lo. Noelle chamou o elevador e encontrou o porteiro l dentro. Desceram sozinhos, e quando 
se aproximaram do trio murmurou:
- O bolo de aniversrio que encomendou est pronto na padaria da Rua Passy.
Noelle fitou-o por um momento, sem saber se o percebera bem, depois disse:
- Mas eu no encomendei nenhum bolo.
- Rua Passy - repetiu ele teimosamente.
E Noelle de repente compreendeu. Mesmo nessa altura no teria feito nada em relao ao assunto se no tivesse visto os dois agentes da Gestapo  sua espera no outro 
lado da rua. Ser seguida como uma criminosa! Os dois homens conversavam. Ainda no a tinham visto. Irada, Noelle virou-se para o porteiro e disse:
- Onde  que fica a entrada de servio?
- Por aqui, Mademoiselle.
Noelle seguiu-o por um corredor traseiro, desceu um lano de
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escadas at  cave e saiu para uma viela. 15  minutos depois estava num txi, ao encontro de Israel Katz. 
A padaria era uma loja de aspecto normal situada num bairro degradado de classe mdia. O letreiro da montra formavam a palavra PADARIA, e as letras estavamj meio 
apagadas e a cair. Noelle abriu a porta e entrou. Foi recebida por uma mulherzinha que vestia um avental impecavelmente branco.
- Pois no, Mademoiselle?
Noelle hesitou. Ainda estava a tempo de se ir embora, de regressar e no se envolver numa coisa perigosa que nada tinha a ver com ela.
A mulher aguardava.
- A senhora. a senhora tem um bolo de aniversrio para mimdisse Noelle, sentindo que fazia figura de parva, como se de alguma forma a gravidade do que estava a passar-se 
fosse diminuda pelos artifcios infantis que eram utilizados.
A mulher abanou a cabea.
- Est pronto, Miss Page. -Ps a tabuleta de ENCERRADO na porta, trancou-a e disse: - Por aqui.
Ele estava deitado num catre no pequeno quarto dos fundos da padaria, o seu rosto uma mscara de dor, banhado de transpirao. O lenol que o enrolava estava empapado 
em sangue, e tinha um grande torniquete no joelho esquerdo.
- Israel.
Mexeu-se para olhar para a porta, e o lenol caiu, revelando uma massa esponjosa de osso e carne esmagados no que antes fora um joelho.
- que aconteceu? - perguntou Noelle.
Ele tentou sorrir, mas no conseguiu. A voz estava rouca e cheia de dor.
- Pisaram Le Cafard, mas as baratas no morrem logo. Afinal ela tinha acertado.
- Eu li a notcia - disse Noelle. - Vai ficar bom? Israel inspirou profunda e dolorosamente e disse que sim com a cabea. Ofegava ao falar.
- A Gestapo anda a virar Paris do avesso para me encontrar. S me resta sair da cidade: Se conseguir chegar ao Havre, tenho amigos que me ajudaro a apanhar um barco 
para fora do pas.
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- No consegue arranjar um amigo que o tire de Paris numa viatura? -perguntou Noelle. -Poderiaesconder-se nacarroaria dum camio...
Israel sacudiu a cabea com dificuldade.
- As estradas esto bloqueadas. Nem um rato consegue sair de Paris.
eNem mesmo uma barata, pensou Noelle.
- Pode viajar com essa perna assim? - perguntou ela, num compasso de espera para chegar a uma deciso.
Os lbios dele comprimiram-se num esgar.
- Eu no vou viajar com esta perna assim - disse Israel. Noelle fitou-o sem perceber, e nesse momento, a porta abriu-se e entrou um homem enorme, de ombros pesados 
e barbado. trazia um machado na mo. Caminhou at  cama e retirou o lenol, e Noelle ficou sem pinga de sangue. Pensou no general Scheider e no albino calvo da 
Gestapo e no que lhe fariam se a prendessem.
- Eu vou ajud-lo - disse Noelle.
148
CATHERINE
Washington-Hollywood: 1941
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Catherine Alexander tinha a impresso de que a sua vida entrara numa nova fase, como se estivesse num nvel emocional mais elevado, um clmace estonteante e feliz. 
Quando Bill Fraser no se ausentava, jantavam semprejuntos e iam a concertos, ao teatro ou  pera. Ele achou um pequeno apartamento encantador perto de Arlington. 
Queria pagar a renda, mas Catherine insistiu em ser ela afaz-lo. Ele oferecia-lhe roupas ejias. No comeo resistira, embaraada por uma moral profundamente enraizada, 
mas o prazer de Fraser era to bvio que por fim Catherine deixou de discutir por causa disso.
Quer queiras, quer no, pensou ela, s uma amante. Nunca gostara dessa palavra, cheia de conotaes de mulheres fceis e ordinrias que viviam em apartamentos de 
ruas estreitas e cujas vidas eram umafrustrao emocional. Agora, que se encontrava em situao semelhante, verificou que as coisas no eram bem assim. Apenas significava 
que dormia com o homem que amava. No parecia sujo ou srdido, parecia perfeitamente natural.  interessante, pensou ela, como as coisas parecem horrveis quando 
feitas por outros, e no entanto quando somos ns a faz-las parecem to normais. Quando lemos as experincias sexuais de outras pessoas, vemo-las como As Verdadeiras 
Confisses, mas as nossas parecem tiradas da Crnica Feminina.
Fraser era um companheiro atencioso e compreensivo, e a relao de ambos parecia de longa data. Catherine era capaz de prever as reaces que ele teria em relao 
a quase todas as situaes e conhecia quase todos os estados de esprito. Ao contrrio do que Fraser 
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dissera, as relaes sexuais entre eles no se tornou mais excitante, mas Catherine disse a si prpria que o sexo era apenas uma pequena parte duma relao. No 
era nenhuma colegial que precisasse de estmulos constantes, era uma mulher madura. D ou tira um pouco, pensou ela, com desagrado. A agncia publicitria de Fraser 
era dirigida na sua ausncia por Wallace lZrner, um perito contabilista. William Fraser tentava envolver-se o mnimo possvel no negcio, para poder dedicar-se s 
funes que tinha em Washington, mas, sempre que surgia um problema importante na agncia e era necessrio o seu conselho, Fraser costumava discuti-lo com Catherine, 
sondando as suas reaces. Descobriu que ela tinha umjeito especial para o negcio. Catherine tinha com frequncia ideias para campanhas que se revelavam eficazes.
- Se eu no fosse to egosta, Catherine - disse Fraser uma noite ao jantar -, punha-te na agncia e dava-te carta branca para algumas das nossas campanhas. - Cobriu 
a mo dela com a sua. - Eu ia ficar cheio de saudades - acrescentou ele. - Quero-te aquijunto a mim.
- quero ficar aqui, Bill. Sou feliz assim.
E era verdade. Em tempos pensara que se um dia estivesse numa situao destas quereria logo casar-se, mas agora no via urgncia nisso. No fundamental, j estavam 
casados.
Certa tarde, quando Catherine terminava uma tarefa, Fraser entrou no gabinete.
- Gostavas de ir dar um passeio pelo campo esta noite? - perguntou ele.
- Adorava. Aonde vamos?
-  Virgnia. Vamos jantar com os meus pais.
Catherine ergueu o olhar surpreendida.
- Eles sabem o que h entre ns? - perguntou ela.
- Nem tudo - disse ele num sorriso largo. - Apenas sabem que tenho uma colaboradora fantstica e que vou lev-la para jantar.
Se sentiu uma angstia de desapontamento, no deu a entender.
- ptimo - disse ela. - Tenho de ir a casa mudar de roupa.
- Vou buscar-te s sete horas.
- Combinado.
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A residncia dos Fraser, situada nas belas colinas ondulantes da Virgnia, era uma enorme casa de campo colonial rodeada de sessenta acres de relva viosa e terras 
de cultivo, que datava do sculo XVII.
- Nunca vi nada assim - disse Catherine maravilhada.
-  uma das melhores quintas de criao de cavalos da Amrica
- informou Fraser.
O carro passou por uma cavalaria cheia de belos exemplares, por penenos muito bem tratados e pela casa do guarda.
- Isto  outro mundo - exclamou Catherine. -  como se fssemos donos do nosso prprio pas.
Haviam chegado  porta da casa.
Fraser virou-se para ela.
- O meu pai e a minha me so um pouco formais - advertiu ele
-  mas no te preocupes. S natural. Nervosa?
- No -disse Catherine. -Em pnico. -E, quando o disse, sentiu para seu espanto que mentia.
Na tradio clssica de todas as raparigas prestes a conhecer os pais do namorado, deveria sentir-se aterrorizada. Mas apenas sentia curiosidade. Mais tarde, com 
tempo, examinaria porqu. Iam a sair do carro quando um mordomo de libr abriu a porta, cumprimentando-os com um sorriso de boas-vindas.
O coronel Fraser e a esposa podiam ter sado de um livro de contos de antes da guerra. A primeira coisa que surpreendeu Catherine foi o aspecto idoso e frgil de 
ambos.
O coronel Fraser era uma cpia plida do homem bonito e cheio de vida de outrora. trouxe a Catherine a forte lembrana de algum, e, obviamente, concluiu de quem 
se tratava: uma verso velha e gasta do filho. O coronel tinha pouco cabelo branco e coxeava dolorosamente. Os olhos eram de um azul-plido e as mos antes poderosas 
estavam deformadas pela artrite. A mulher parecia uma aristocrata e guardava ainda traos da jovem bela que fora. Mostrou-se delicada e amvel com Catherine.
Apesar do que Fraser lhe dissera, Catherine teve a sensao de que estava ali para ser examinada. O coronel e a mulher passaram o sero a intenog-la. Foram muito 
discretos, porm minuciosos. Catherine falou-lhes dos pais e da infncia, e quando se referiu s muitas escolas que frequentou deu a entender que fora uma aventura 
divertida, e no a agonia que tinha sido. Enquanto falava via o orgulho radiante de Bill Fraser por ela. O jantar foi soberbo. Comeram  luz da vela numa sala dejantar 
enorme e antiquada com uma
lareira de mrmore a srio e criados de libr. ePrata antiga, dinheiro antigo, vinho velho. Olhou para Bill Fraser e foi invadida por uma agradvel vaga de gratido. 
Teve a sensao de que poderia ter esta vida se o desejasse. Sabia que ambos se amavam. E no entanto faltava qualquer coisa: o entusiasmo. Possivelmente, pensou, 
estou a pedir de mais. Devo ter sido arrastada por Gary Cooper, Humphrey Bogart e Spencer Z'acy! O amor no  um cavaleiro de armadura brilhante. E um fazendeiro 
de fato cinzento s riscas. Malditos filmes e livros! Sempre que olhava para o coronel, via Fraser daqui a vinte anos, igualzinho ao pai. Esteve muito calada o resto 
do sero. No regresso Fraser perguntou:
- Gostaste do sero?
- Bastante. Gostei dos teus pais.
- Eles tambm gostaram de ti.
- Sinto-me feliz. - E sentia-se.
Fora o pensamento que a perturbava vagamente, de que deveria ter estado mais nervosa por conhec-los.
Na noite seguinte, enquanto Catherine e Fraser jantavam no Jockey Club, Fraser disse-lhe que tinha de ir a Londres por uma semana.
- Na minha ausncia - disse ele -, vais ter um trabalho interessante. Querem que o nosso gabinete supervisione um filme de recrutamento para o Corpo Areo do Exrcito' 
a rodar nos estdios da M. G. M. em Hollywood. queria que te encarregasses do filme na minha ausncia.
Catherine no queria acreditar.
- Eu? Nem sequer sei pr o rolo numa mquina fotogrfica. Que  que eu sei sobre a produo de um filme de instruo?
- quase o mesmo que qualquer pessoa - sorriu Fraser. -  tudo novidade, mas no tens que te preocupar. Eles tm l um produtor e outros tcnicos. O Exrcito vai 
usar actores no filme.
- Porqu?
- Parece que os soldados no convencem no papel de soldados.
- Isso s podia vir do Exrcito.
- Falei longamente com o general Mathews esta tarde. Deve ter usado a palavra deslumbre uma centena de vezes.  isso que eles
Antiga designao da actual Fora Area Americana. (N. do T.)
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pretendem vender. Vo iniciar uma grande campanha de recrutamento dirigida aosjovens dalite americana. Esta  uma das primeiras armas.
- Que  que eu tenho de fazer? - perguntou Catherine.
- Apenas tentar que tudo corra sem problemas. Ters a ltima palavra. Tens uma reserva para Los Angeles num avio que sai amanh s nove da manh.
Catherine anuiu.
- Muito bem.
- Vais ter saudades minhas?
-  sabes que sim - respondeu ela.
- Vou trazer-te uma prenda.
- Eu no quero prendas. quero  que regresses bem. - Ela hesitou. - A situao est a piorar, no est, Bill?
Eleconcordou.
-  verdade - disse ele. - Acho que em breve estaremos em guerra.
- que horror.
- O horror ser maior se ns no entrarmos - disse ele calmamente: - A Inglaterra escapou em Dunquerque por milagre. Se Hitler decide atravessar a Mancha, duvido 
muito que os ingleses o consigam deter. - Terminaram o caf em silncio, e ele pagou a conta.
- Queres ir dormir a minha casa? - perguntou Fraser.
- Hoje no - disse Catherine. - Temos de nos levantar cedo.
- Tens razo.
Deixou-a em casa. Quando ia deitar-se, Catherine ps-se a pensar por que no fora com Bill na vspera da sua partida. No obteve resposta.
Catherine crescera em Hollywood, apesar de nunca l ter estado. Passara centenas de horas em salas de cinema s escuras, perdida nos sonhos mgicos fabricados pela 
capital do cinema, e sentir-se-ia sempre grata pela alegria dessas horas felizes. Quando o avio de Catherine aterrou no aeroporto de Burbank, ficou toda excitada. 
Aguardava-a uma limusina que a levou ao hotel. quando percorriam as ruas largas e ensolaradas, Catherine reparou logo nas palmeiras. Lera coisas a seu respeito e 
vira fotografias, mas a realidade era esmagadora. Estavam por toda a parte, projectando a sua altura de 
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encontro ao cu, e nua era a parte inferior dos seus troncos graciosos, bela e verdejante a parte superior. No centro de cada rvore havia copas frondosas, como 
se fossem um saiote sujo, pensou Catherine, pendendo desalinhadamente debaixo de um manto verde.
Passaram por um edifcio enorme que parecia uma fbrica. Sobre a entrada via-se um cartaz grande que dizia Warner Bros, e por baixo lia-se A aliana do bom cinema 
com a boa cidadania. Quando o carro passoujunto ao porto, Catherine pensou em James Cagney em Yankee Doodle Dandy, e Bette Davis em Vitria Negra, e sorriu feliz.
Passaram pelo Pavilho de Hollywood, que do exterior parecia enorme, viraram para Highland Avenue e seguiram para oeste em direco a Hollywood Boulevard. Passaram 
pelo Teatro Egpcio e, dois quarteires para oeste, pelo Grauman's Chinese, e Catherine estava no cu. Foi como rever dois velhos amigos. O motorista desceu o Sunset 
Boulevard e dirigiu-se para o Hotel Beverly Hills.
- Vai gostar deste hotel.  um dos melhores do mundo. Era certamente um dos mais belos hotis que Catherine j vira. Ficava a norte do Sunset, num semicrculo de 
palmeiras protectoras rodeadas porjardins enormes. Uma estrada graciosa ia dar  porta principal do hotel, de um rosa-delicado. Um subgerente, jovem e ansioso, acompanhou 
Catherine ao quarto, que era afinal um apartamento luxuoso situado nosjardins, atrs do edifcio central do hotel. Havia um ramo de flores sobre a mesa com os cumprimentos 
da gerncia e um ramo ainda maior e mais bonito com um carto que dizia: Pudesse eu estar on outu nqui. Amte, Bill. O subgerente entregou a Catherine trs recados 
telefnicos. Eram de Allan Benjamin, o produtor do filme. quando Catherine estava a ler o carto de Bill, o telefone tocou. Ela precipitou-se, levantou o auscultador 
e disse ansiosamente.
- Bill?
- Afinal, tratava-se de Allan Benjamin.
- Bem-vinda  Califrnia, Miss Alexander. - tinha uma voz estridente. - Fala o cabo Allan Benjamin, produtor da trapalhada.
Um cabo. Pensaria sempre que a tarefa teria sido entregue a um capito ou um coronel.
- Comeamos a rodar amanh. Disseram-Lhe que vamos usar actores em vez de soldados?
- Sim, ouvi dizer - respondeu Catherine.
- As filmagens comeam amanh s nove horas. Gostaria que
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pudesse c estar por volta das oito para os ver. Sabe o que o Corpo Areo do Exrcito quer.
- Est bem - disse Catherine bruscamente.
No fazia a mnima ideia do que o Corpo Areo do Exrcito queria, mas supunha que bastaria o bom senso de escolher quem tivesse ar de piloto.
- Vou mandar um carro busc-la s sete e meia - dizia a voz. At  Metro  s meia hora. Fica em Culver City. Fico  sua espera no Palco Treze.
Eram quase quatro da manh quanto Catherine adormeceu, ejulgou ouvir, no momento em que fechou os olhos, que o telefone tocou e a telefonista Lhe disse que uma limusina 
estava  espera dela.
Trinta minutos depois, Catherine ia a caminho da Metro-Goldwyn-Mayer.
Era o maior estdio cinematogrfico do mundo. Havia um bloco principal que tinha trinta e dois estdios de som, o enorme Edifcio da Administrao Thalberg, onde 
se instalavam Louis Bill Mayer, vinte e cinco executivos e alguns dos realizadores, produtores e argumentistas mais famosos do cinema. O segundo bloco continha os 
enormes cenrios exteriores fixos que eram estavam sempre a ser redecorados para vrios filmes. No espao de trs minutos, era possvel atravessar os Alpes Suos, 
uma cidade do Oeste, um quarteiro de casas de Manhattan e uma praia do Havai. O bloco trs, situado no extremo do Washington Boulevard, albergava adereos e cenrios 
de interiores no valor de milhes de dlares e era usado na filmagem de espectculos ao ar livre. tudo isto foi explicado a Catherine pela guia, uma jovem que estava 
incumbida de a levar ao Estdio 13.
- Isto  uma autntica cidade - dizia ela com orgulho. - Produzimos a electricidade que consumimos, fazemos seis mil refeies dirias e construmos os nossos prprios 
cenrios naquele bloco. Somos completamente auto-suficientes. No precisamos de ningum.
- A no ser do pblico.
Enquanto caminhavam ao longo da rua, passaram por um castelo de fachada apoiado em dois suportes.  frente havia um lago, e ao fundo do quarteiro havia o trio 
dum teatro de S. Francisco. No havia sala, s o trio.
Catherine deu uma gargalhada, e a rapariga voltou-se para olh-la.
- Passa-se alguma coisa? - perguntou.
- No - disse Catherine. - E tudo maravilhoso.
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Dezenas de figurantes andavam na rua, cowboys e ndios em conversa amigvel enquanto se dirigiam para os estdios de som. Um homem surgiu inesperadamente de uma 
esquina e, quando Catherine recuou para no chocar com ele, viu que era um cavaleiro de armadura. Atrs dele vinha um grupo de jovens em fato de banho. Catherine 
achou que ia gostar desta sua breve incurso no mundo do espectculo. Como desejava que o pai pudesse ter visto isto! Teria gostado muito.
- Chegmos-disse a guia. Estavam defronte de um enorme edifcio cinzento. Ao lado, um cartaz dizia ESTDIO 13. -Vou deix-la aqui. No h problema?
- Nenhum - disse Catherine. - Muito obrigada. A guia fez um sinal com a cabea e retirou-se. Catherine dirigiuse para o estdio de som. Sobre a porta havia um letreiro 
que dizia: NO ENTRAR COM A LUZ VERMELHAACESA. e Como a luz estava apagada, Catherine abriu a porta. Ou tentou, pois era inesperadamente pesada e teve de usar toda 
a sua fora para conseguir abri-la.
L dentro, Catherine confrontou-se com uma segunda porta to pesada e macia como a primeira. Era como entrar numa cmara de descompresso.
No interior do estdio de som, que parecia uma caverna, dezenas de pessoas corriam dum lado para o outro, todas ocupadas com uma tarefa misteriosa. Um grupo de homens 
trajava fardas do Corpo Areo, e Catherine concluiu que eram os actores que iriam aparecer no fzlme. Num canto do estdio de som havia o cenrio dum gabinete com 
uma secretria, cadeiras e um mapa militar enorme pendurado na parede. Os tcnicos estavam a iluminar o cenrio.
- Desculpe-me - disse ela a um homem que passava por perto.
- O sr.allan Benjamin est por aqui?
- O cabozinho? - Esticou o brao. - Acol.
Catherine voltou-se e viu um homem baixo e franzino, cujas divisas de cabo assentavam numa farda que lhe ficava grande. Gritava com um homem com estrelas de general.
- Que se lixe o que o director de cena disse - gritava ele. - Estou farto de generais. Quero  pessoal no graduado. - Ergueu as mos em desespero. - Quer tudo ser 
chefe, ningum quer ser ndio.
- Perdo - disse Catherine. - Chamo-me Catherine Alexander.
- Graas a Deus! - disse o homenzinho. Virou-se para os outros,
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com amargura na voz: -Acabou-se a brincadeira, seus malandros. Washington chegou.
Catherine pestanejou. Antes que pudesse falar, o pequeno cabo disse:
- No sei o que estou a fazer aqui. tinha um emprego a ganhar trinta e cinco mil dlares por ano em Dearborn na edio dum catlogo de mobilirio quando me recrutaram 
para o Corpo de Sinaleiros e me puseram a escrever argumentos de filmes. que sei eu de produo ou realizao? Isto  a coisa mais desorganizada que euj vi.
- Anotou e tocou no estmago. -J arranjei uma lcera queixou-se, gemendo -, e nem sequer fao parte do mundo do espectculo. Com licena.
Voltou-se e apressou-se para a sada, deixando Catherine ali plantada. Ela olhou em volta, sem saber o que fazer. Todos pareciam fit la,  espera que desse uma 
ordem.
Um homem de camisola, magro e grisalho, aproximou-se dela, com um sorriso divertido no rosto.
- Precisa de ajuda? - perguntou-lhe calmamente.
- Preciso de um milagre - disse Catherine abertamente. - Deram-me a chefia disto e no sei o que fazer.
Ele deu-lhe um sorriso largo.
- Bem-vinda a Hollywood. Sou Tom O'Brien, o A. R. Olhou para ele, com um olhar cmico.
- O assistente de realizao. O seu amigo, o cabo, devia ser o realizador, mas pressinto que ele no vai voltar.
O homem exprimia uma segurana calma que agradou a Catherine.
- H quanto tempo trabalha na Metro-Goldwyn-Mayer? - perguntou ela.
- H vinte e cinco anos.
- Acha que seria capaz de realizar isto?
Ela viu-o esboar um sorriso.
- Eu poderia tentar-disse gravemente. -J fiz seis filmes com llillie Wyler. -Fez um olhar srio. -A situao no  to m quanto parece - disse ele. - S precisa 
de um pouco de organizao. O guio est escrito e o cenrio est pronto.
- Isso  um princpio - disse Catherine. Olhou para os actores fardados que estavam no estdio. Os uniformes assentavam mal e os homens que os usavam no estavam 
 vontade. -Parecem anncios de recrutamento para a Marinha - comentou.
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O'Brien riu com gosto.
- Quem  que forneceu estas fardas?
- A Western Costume. O nosso Departamento de Guarda-Roupa esgotou-se. Estamos a rodar trs filmes de guerra.
Catherine examinou os homens criticamente.
- S meia dzia deles  que so mesmo maus - concluiu ela. Vamos mand-los l outra vez para ver se Lhes arranjam coisa melhor.
O'Brien concordou com um aceno de cabea.
- Est bem. Catherine e O'Brien aproximaram-se do grupo de figurantes. A algazarra no estdio enorme era ensurdecedora.
- Vamos a calar, rapazes - gritou O'Brien. - Esta  Miss Alexander. Quem vai mandar aqui  ela.
Ouviram-se alguns assobios.
- Obrigada - Catherine sorriu. - Esto quase todos vestidos adequadamente, mas alguns vo ter de voltar  Western Costume para arranjar outras fardas. Ponham-se 
em linha para os vermos melhor.
- A si  que eu queria poder ver bem. Tem alguma coisa que fazer hoje ao jantar? - gritou um dos homens.
- Vou jantar com o meu marido - disse Catherine -, depois do combate de boxe que ele tem.
O'Brien disps os homens numa filla desalinhada. Catherine ouviu risos e vozes por perto e voltou-se, incomodada. Um dos figurantes estavajunto a uma parte do cenrio, 
falando com trs raparigas que lhe bebiam as palavras e davam risinhos histricos de tudo quanto dizia. Catherine observou-o  um momento, depois encaminhou-se at 
a ele e disse:
- Desculpe. Importava-se de ir para o p dos outros? O homem virou-se lentamente.
- Est a falar comigo? - perguntou ele num tom arrastado.
- Estou, sim-disse Catherine. -Ns queramos comear atra balhar. - Ela afastou-se.
Sussurrou qualquer coisa s raparigas, que as fez dar uma sonora gargalhada, e lentamente foi atrs de Catherine. Era alto, esbelto e msculo, muito bonito, cabelo 
negro-azulado e olhos escuros e arrebatadores. A voz, quando falou, era profunda e insolentemente trocista.
- Em que posso servi-la? - perguntou a Catherine.
- quer trabalhar? - respondeu Catherine.
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- Quero, quero - garantiu ele.
Catherine lera certa vez um artigo sobre figurantes. Eram pessoas estranhas que consumiam as vidas annimas nos estdios, emprestando ambiente s cenas de multides 
em que as estrelas apareciam. Eram pessoas sem rosto e sem voz, da sem ambies para procurarem um emprego a srio. O homem que tinha  sua frente era um exemplar 
perfeito. Por ser extremamente bonito, devem ter-lhe dito na terra dele que poderia ser uma estrela, e l viera ele para Hollywood para saber que o talento era to 
necessrio como a beleza, optando pelo estatuto de figurante. A soluo fcil.
- Vamos ter de alterar algumas das nossas fardas -disse Catherine pacientemente.
- A minha tem algum defeito? - perguntou ele.
Catherine olhou com mais ateno para a farda dele. Teve de admitir que a mesma lhe assentava perfeitamente, destacando os seus ombros largos, mas no em demasia, 
adelgaando-se na cintura estreita. Examinou o casaco. Os ombros ostentavam os gales de capito. No peito pregara uma srie de fitas de cores vivas.
- As fitas impressionaram-na assim tanto, chefe? - perguntou ele.
- Quem  que lhe disse que ia fazer de capito?
Olhou-a, com um ar srio.
- A ideia foi minha. No acha que eu dava um bom capito? Catherine abanou a cabea.
- No. No acho.
Ele apertou os lbios pensativamente.
- Primeiro-tenente?
- No.
- E segundo-tenente?
- Realmente, no o vejo como oficial.
Os seus olhos escuros olhavam-na de modo trocista.
- Oh! ? H mais alguma coisa que no esteja bem?  perguntou-lhe.
- Sim - disse ela. - As medalhas. Voc deve ser muito valente. Ele riu-se.
- Pensei que poderiam dar a este desgraado filme um pouco de cor.
- Esqueceu-se foi de uma coisa - disse Catherine num tom brusco. - que ns ainda no estamos em guerra. Deve ter ganho essas nalguma festa de Carnavl.
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Sorriu-lhe.
- Tem razo - admitiu ele acanhado. - No pensei nisso. Vou tirar algumas.
- tire todas - disse Catherine.
Deu-Lhe novamente aquele sorriso demorado e insolente.
- A chefe  quem manda.
Ela quase ripostou: Deixe de me tratar por chefe", mas pensou: que v para o diabo que o carregue, e retirou-se para ir falar com O'Brien.
Catherine mandou oito homens trocarem as fardas e passou a hora seguinte a debater a cena com OBrien. O pequeno cabo tinha voltado, mas desaparecera pouco depois. 
Ainda bem, pensou Catherine. S sabia queixar-se e enervar toda a gente. O'Brien acabou de filmar a primeira cena antes do almoo, e Catherine achou que no comera 
muito mal. Apenas um incidente lhe ensombrara a manh. Catherine dera ao odioso extra mais um texto s para o humilhar. Quisera ridiculariz-lo, para se vingar da 
impertinncia dele. Lera o texto com perfeio, desempenhara a cena com grande segurana. Depois de acabar, voltou-se para ela e disse:
- Estive bem, chefe?
Quando a companhia se separou para almoar, Catherine foi at ao enorme refeitrio do estdio e sentou-se a uma pequena mesa do canto. A uma mesa enorme ao lado 
estava um grupo de soldados fardados. Catherine estava virada para a porta, quando viu o figurante entrar acompanhado por trs raparigas que se atrelavam a ele, 
todas esforando-se para estarem ao p dele. Catherine sentiu o sangue vir-lhe ao rosto. Pensou que era uma mera reaco qumica. Havia pessoas que se odiavam  
primeira vista, tal como havia outras de quem se gostava  primeira vista. A sua arrogncia petulante deixava-a furiosa. Teria dado umgigolo perfeito, e isso devia 
ser exactamente o que ele era. Escolheu uma mesa para as raparigas se sentarem, ergueu o olhar e viu Catherine, depois debruou-se e disse-lhes qualquer coisa. Viraram-se 
todas para ela e desataram-se a rir. Parvalho! Viu-o aproximar-se da mesa dela. Baixou o olhar e fitou-o, com aquele sorriso lento e demolidor no rosto.
- Deixava-me sentar por um momento? - perguntou ele.
- Eu... - Mas ele j estava sentado, examinando-a, com um olhar curioso e brincalho.
- Que  que deseja? - perguntou Catherine.
O sorriso dele alargou-se.
- Deseja realmente saber? Apertou os lbios com raiva.
- Oua.
- Eu queria perguntar-lhe - disse ele rapidamente - como  que eu me sa esta manh.  Inclinou-se para a frente ansioso. -Fui convincente?
- Pode ser convincente com elas - disse Catherine, apontando na direco das raparigas -, mas, se quer a minha opinio, acho que voc no vale nada.
- Fiz alguma coisa que a ofendesse?
- tudo o que voc faz me ofende - disse ela tranquilamente.  que nem sequer gosto do seu tipo.
- De que tipo sou eu?
- Voc  um embuste. Gosta de usar esse uniforme e pavonear-se por a no meio das raparigas, masj pensou em alistar- se? Olhou-a incredulamente.
- E levar um tiro? - perguntou ele. - Isso  bom  para idiotas.
- Debruou-se e sorriu. - Assim tem muito mais graa. Os lbios de Catherine tremiam de raiva.
- No pode ser convocado por sorteio?
- Tecnicamente, parece que sim, mas tenho um amigo que conhece um tipo em Washington e... - baixou a voz -julgo que nunca irei l parar.
- Eu acho-o uma pessoa desprezvel - explodiu Catherine.
- Porqu?
- Se voc no sabe porqu, eu no seria capaz de lhe explicar.
- Por que no tenta? Hoje  noite ao jantar. Na sua casa. Sabe cozinhar?
Catherine levantou-se, as faces afogueadas de raiva.
- Escusa de voltar ao estdio - disse ela. - Vou dizer ao Sr. O'Brien que Lhe envie um cheque pelo trabalho de hoje. Ia afastar-se quando se lembrou e perguntou: 
- Como  que voc se chama?
- Douglas - disse ele. - Larry Douglas.
raser telefonou de Londres para Catherine na noite seguinte, saber como tinham corrido as coisas. Ela informou-o dos aconteCimentos do dia, mas no fez qualquer 
referncia ao incidente com ry Douglas. Quando Fraser voltasse para Washington, iria comtar-lhe e rir se-iam juntos. Logo pela manh seguinte, enquanto
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Catherine se vestia para ir para o estdio, a campainha da porta tocou. Abriu e deu de caras com um paquete que trazia um enorme ramo de rosas.
- Catherine Alexander? - perguntou ele.
- Sou, sim.
- Assine aqui, por favor.
Ela assinou o recibo que ele lhe entregou.
- So lindas - disse ela, aceitando as flores. - So quinze dlares.
- Desculpe?
- fquinze dlares. Vm  cobrana.
- No per... - Comprimiu os lbios.
Catherine pegou no carto apenso s flores e retirou-o do envelope. O carto dizia: Eu t-las-iapago, mas estou desempregado. Com amor, Larry. Ela fitou o carto 
incredulamente.
- Ento, fica com elas ou no? - perguntou o moo de fretes.
- No - ripostou ela. Atirou-lhe as flores para os braos. Ele fitou-a, intrigado.
- Ele disse que a senhora iria achar graa. Que era uma brincadeira entre os dois.
- No estou a achar graa nenhuma - disse Catherine. Bateu com a porta furiosamente.
Durante o dia, o incidente no a largou. Tinha conhecido homens egostas, mas nunca nenhum se mostrara to insultuosamente vaidoso como o Sr. Larry Douglas. tinha 
a certeza de que sempre se sara vitorioso com louras acfalas e morenas de busto grande que morriam por se deitarem com ele. Mas o facto de a pr na mesma categoria 
fez que Catherine se sentisse uma mulher fcil e humilhada. S de pensar nele ficava com a pele arrepiada. Decidiu nunca mais pensar nele.
s sete horas dessa tarde, Catherine preparava-se para abando nar o estdio. Um ajudante aproxmou-se dela com um envelope mo.
- Isto  para a senhora pagar? - perguntou ele.
Era uma nota de dbito da Seco de Actores onde se lia:
Uma farda (capito)
Seis fitas militares (sortidas)
Seis medalhas (sortidas)
Nome do Actor: Larry Douglas... (a debitar na conta Catherine Alexander - MGM).
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Catherine ergueu o olhar, o rosto afogueado.
- No! - disse ela.
O homem ficou a olhar.
- Que  que eu lhes digo?
- Diga que pago as medalhas se lhe forem agraciadas a ttulo pstumo.
As filmagens terminaram trs dias depois. Catherine viu a primeira verso no dia seguinte e aprovou-a. O filme no conquistaria quaisquer prmios, mas era simples 
e eficaz. Tom O'Brien fizera um bom trabalho.
No sbado de manh, Catherine embarcou num avio para Washington. Nunca deixara um stio com tanto prazer. Na segunda- feira de manh estava de volta ao escritrio, 
tentando pr em dia o trabalho que entretanto se amontoara durante a sua ausncia. Quase  hora do almoo, Annie, a secretria, chamou-a pelo intercomunicador.
- Est ao telefone um tal Sr. Larry Douglas a falar de Hollywood, com chamada a pagar no destino. Aceita a chamada?
- No -gritou ela. -Diga-lhe que eu... deixe estar, eu prpria lhe direi. - Inspirou fundo e premiu o boto do telefone. - Sr. Douglas?
- Bom dia. - Falou com uma voz doce. - No me foi fcil encontr-la. No gosta de rosas?
- Sr. Douglas... -comeou Catherine. Avoz tremia-Lhe de fria. Inspirou fundo e disse: - Sr. Douglas, eu adoro rosas. No gosto  de si. do o que vem de si me desgosta. 
Isto  claro?
- Voc no sabe nada a meu respeito.
- Sei mais do que quero saber. Acho que voc  covarde e desprezvel, e no quero que torne a telefonar-me. - A tremer, bateu com o auscultador, os olhos cheios 
de lgrimas de raiva. A ousadia! Ficaria to contente quando Bill voltasse.
15 dias  depois, Catherine recebia pelo correio uma fotografia dez por doze de Lawrence Douglas. -azia uma dedicatria: Para a chefe, com amor, de Larry.
Annie fitou o retrato pasmada e disse:
- Meu Deus! Ele existe mesmo?
-  falso - retorquiu Catherine. - A nica coisa verdadeira  o papel em que vem impresso. - Furiosamente, rasgou a fotografia em pedacinhos.
Annie testemunhava a cena, desolada.
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- Que desperdcio. Nunca vi ningum assim em carne e osso.
- Em Hollywood - disse Catherine ferozmente -, h cenrios que s tm fachada... no tm alicerces. Acabaste de ver um.
Durante as duas semanas que se seguiram, Larry Douglas telefonou pelo menos uma dzia de vezes. Catherine deu instrues a Annie para lhe dizer que no voltasse 
a telefonar e para no se incomodar a inform-la das chamadas dele. Uma manh, enquanto escrevia as notas ditadas, Annie ergueu o olhar e disse em tom de desculpa.
- Sei que no quer ser incomodada com as chamadas do Sr. Douglas, mas ele voltou a telefonar e parecia to desesperado e, bem... quase perdido.
- Ele est perdido - disse Catherine friamente -, e se voc  esperta no tentar encontr-lo.
- Ele tem um ar divino.
- Foi ele que inventou o melao.
- Fez muitas perguntas a seu respeito. - Viu o olhar de Catherine. - Mas, claro - acrescentou ela de seguida -, eu no lhe disse nada.
- Foi muito inteligente de tua parte, Annie.
Catherine comeou a ditar de novo, mas no era nisso que pensava. Achava que o mundo estava cheio de Larry Douglas. Isso F-la dar ainda mais valor a William Fraser.
Bill Fraser regressaria na manh do prximo domingo, e Catherine foi ao aeroporto esper-lo. Contemplava enquanto se desembaraava na Alfndega e se dirigia para 
a sada onde ela se encontrava. O seu rosto iluminou-se assim que a viu.
- Cathy - disse ele. - Que surpresa to boa. No contava que estivesses  minha espera.
- No podia esperar. -Sorriu e deu-lhe um abrao sentido, o que o levou a olhar para ela curiosamente.
- tiveste saudades minhas - disse ele.
- Mais do que pensas.
- Como estava Hollywood? -perguntou ele. -Correu tudo bem. Hesitou.
- Optimamente. Ficaram muito satisfeitos com o filme.
- Foi o que me disseram.
- Bill, da prxima vez que te ausentares - disse ela -, leva-me contigo.
Olhou para ela, satisfeito e comovido.
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- Fica combinado -disse Fraser. -Senti a tua falta. Tenho pensado muito em ti.
- Verdade?
- Amas-me?
- Muito, Sr. Fraser.
- Tambm te amo - disse ele. - Por que no vamos sair esta noite para comemorar?
Ela sorriu.
- Maravilhoso.
- Vamos jantar ao Jefferson Club.
Fraser ficou em casa.
- Tenho milhares de chamadas para fazer - disse ele. - Podes ir ter comigo ao clube? Oito horas.
- Sem falta.
Catherine voltou para casa, lavou um pouco de loua e passou a ferro. Sempre que passava pelo telefone, tinha a leve esperana de que o mesmo tocasse, mas permaneceu 
mudo. Imaginou Larry Dougls a tentar tirar nabos da pcara a seu respeito atravs de Annie, e deu por si a ranger os dentes. Talvez falasse a Fraser para pr o nome 
de Douglas na lista de mobilizao. No, no me vou maar com isso, pensou ela. eTalvez o recusassem. Seria posto  prova e dado como inapto. Lavou o cabelo, tomou 
um banho demorado e lascivo, e estava a secar o cabelo quando o telefone tocou. Ficou tensa e foi atender.
- Sim? - disse ela friamente.
Era Fraser.
- Viva - disse ele. - Passa-se alguma coisa?
- Claro que no... Bill - disse ela apressadamente. - Eu... estava na banheira.
- Desculpa. -A voz assumiu um tom provocador. - Isto , desculpa no estar ao p de ti.
- Tambm eu queria - respondeu ela.
- Telefonei para te dizer que sinto a tua falta. No te atrases. Catherine sorriu.
- Est bem.
Pousou o telefone lentamente, pensando em Bill. Pela primeira vez sentiu que ele estava pronto para lhe pedir a mo. Ia pedir-lhe que se tornasse na Sr William 
Fraser. Disse o nome em voz alta: Sr  lilliam Fraser. O nome soava bem e tinha dignidade. Meu Deus, pensou. Estou a ficar blase. H seis meses, teria pulado de 
alegria,
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SO o que sei dizer  que o nome  digno e soa bem. e Mudara tanto assim? No era um pensamento reconfortante. Olhou para o relgio e comeou a vestir-se  pressa.
O Jefferson Club ficava na rua F, um discreto edifcio de tijolo separado da rua por um gradeamento de ferro forjado. Era um dos clubes mais exclusivos numa cidade 
cheia de clubes exclusivos. O processo mais fcil de ser scio era ser filho dum scio. Quem no estava nessa condio precisava da recomendao de trs membros. 
As propostas de associao eram votadas uma vez por ano, e bastava um voto contra para afastar algum do Jefferson Club para sempre, pois era ponto assente que nenhum 
candidato poderia ser proposto duas vezes.
O pai de William Fraser fora scio fundador do clube, e Fraser e Catherine jantavam l pelo menos uma vez por semana. O chefe de cozinha trabalhara na casa dos Rothschild 
franceses durante vinte anos, a cozinha era soberba e a adega encontrava-se entre as trs melhores da Amrica. A decorao do clube estivera a cargo dum dos principais 
decoradores mundiais, que prestou um cuidado especial s cores e luzes, de forma que as mulheres fossem banhadas pelo fulgor das velas que acentuava a sua beleza. 
Todas as noites os comensais cruzar se-iam com o vice-presidente, membros do Governo, do Supremo Tribunal, senadores e os poderosos industriais que controlavam imprios 
multinacionais. Fraser estava no salo  espera de Catherine quando ela chegou.
- Estou atrasada? - perguntou ela.
- No teria importncia se estivesses - disse Fraser, olhando-a com uma admirao declarada. - Sabias que ests fantasticament bela?
- Claro - respondeu ela. - Toda a gente sabe que eu sou a fantasticamente bela Catherine Alexander.
- A srio, Catherine. - O tom dele era to srio que a embara ou.
- Obrigada, Bill-disse ela semjeito. -E pra de me fitares de se modo.
- No consigo - disse ela. Tomou-lhe o brao.
Louis, o maitre d'htel, levou-os para uma mesa do canto.
-  esta mesa, Miss Alexander, Sr. Fraser; bom apetite para jantar.
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Catherine gostava que o maitre do Jefferson Club soubesse quem ela era. Sabia que era infantil e ingnuo da sua parte, mas isso dava-Lhe a sensao de ser algum, 
de pertencer quele meio. Sentou-se, descontrada e satisfeita, examinando a sala.
- Vais tomar uma bebida? - perguntou Fraser.
- No, obrigada - disse Catherine.
Ele abanou a cabea.
- Tenho de ensinar-te alguns maus hbitos.
- J ensinaste - murmurou Catherine. Sorriu-Lhe e pediu um usque com soda.
Ela examinou, pensando no homem querido e delicado que ali estava. tinha a certeza de que poderia torn-lo muito feliz. E ela seria feliz como mulher dele. Muito 
feliz", disse a si prpria com mpeto. Perguntem a qualquer pessoa. Perguntem  Time. Odiava-se pela forma como raciocinava. Que havia de errado com ela?
- Bill - comeou ela... e ficou gelada.
Larry Douglas vinha na direco deles, um sorriso de reconhecimento nos lbios assim que viu Catherine. Envergava o uniforme do Corpo Areo do Exrcito da Seco 
de Actores. No queria acreditar quando o viu aproximar-se da mesa, sorrindo alegremente e dizendo:
- Viva.
Mas no se dirigia a Catherine. Dirigia-se a Bill, que se levantou e lhe apertou a mo.
- Que prazer em ver-te, Larry.
- bque bom ver-te, Bill.
Catherine fitou os dois homens, a mente paralisada, recusando-se a funcionar. Fraser dizia:
- Cathy, este  o capito Lawrence Douglas. Larry, esta  Miss Alexander... Catherine.
Larry desceu o olhar para a ver, os olhos escuros troando dela.
- No consigo exprimir o prazer que sinto, Miss Alexander - disse ele solenemente.
Catherine abriu a boca para falar, mas repentinamente apercebeu-se de que no havia nada que pudesse dizer. Fraser observava-a,  espera de que falasse. Mas tudo 
o que conseguiu fazer foi um sinal afirmativo com a cabea. No confiava na voz.
- Fazes-nos companhia, Larry? - perguntou Fraser. Larry olhou para Catherine e disse modestamente:
- Se tens a certeza de que eu no sou um intruso...
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- Claro que no. Senta-te.
Larry sentou-se ao lado de Catherine.
- Que  que tomas? - perguntou Fraser.
- Um usque com soda.
- Tambm tomo - disse Catherine imprudentemente. - Pede um duplo.
Fraser olhou para ela surpreso.
- No posso acreditar.
- Disseste que me querias ensinar maus hbitos - explicou- se Catherine. - Acho que gostaria de comear agora.
Depois de Fraser pedir as bebidas, virou-se para Larry e disse:
- O general Terry contou-me algumas das tuas proezas... tanto no ar como em terra.
Catherine olhava fixamente para Larry, o pensamento num rodopio, tentando acostumar-se  ideia.
- Essas medalhas... - disse ela. Ele mirava-a com um ar inocente.
- Sim?
Ela engoliu em seco.
- Onde  que as arranjou?
- Ganhei-as numa festa de Carnaval - disse ele num tom srio.
- que festa - riu-se Fraser. - Larry pilotou na R. A. F. Era o chefe da esquadrilha americana. Convidaram-no a chefear uma base de caas em Washington para preparar 
alguns dos nossos rapazes para combate.
Catherine voltou-se para olhar para Larry. Ele sorria-lhe benevolamente, os seus olhos irrequietos. Como na reposio dum filme antigo, Catherine lembrou-se de cada 
palavra do seu primeiro encontro. Mandara tirar os gales de capito e as medalhas, e ele obedecera alegremente. Fora presumida e prepotente - e chamara-lhe cobarde! 
S lhe apetecia meter-se debaixo da mesa.
- Devias ter-me avisado de que vinhas  cidade - dizia Fraser.
- Teria mandado matar uma vitela gorda em tua honra. Devamos ter dado uma grande festa para comemorar o teu regresso.
- Prefiro assim - disse Larry. Olhou para Catherine, e ela desviou o olhar, incapaz de o olhar de frente. - Na realidade - Larry prosseguia inocentemente -, andei 
 tua procura quando estive e Hollywood, Bill. Ouvi dizer que ias produzir um filme para a Fora Area.
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Parou para acender um cigarro, e cuidadosamente apagou o fsforo com um sopro.
- Estive no local das filmagens, mas no te encontrei l.
- tive de ir a Londres -respondeu Fraser. - Quem esteve l foi Catherine. Espanta-me que vocs no se tenham encontrado.
Catherine ergueu o olhar para Larry, e ele observava-a, com um olhar divertido. Era chegada a hora de contar o que se passara. Contaria a Fraser e todos ririam como 
se fosse uma anedota divertida. Mas, sem sabr porqu, as palavras ficaram-lhe presas na garganta.
Larry esperou um momento, depois disse:
- Havia l muita gente. Acho que no demos um pelo outro.
No gostou nada que a tivesse ajudado, pois tornaram-se companheiros numa conspirao contra Fraser.
Quando as bebidas chegaram, Catherine engoliu a dela rapidamente e pediu outra. Ia ser a noite mais terrvel da sua vida. No podia aguentar at ao fim para se ver 
longe de Larry Douglas.
Fraser quis saber das suas experincias de guerra, e, pelo tom de Lary, as mesmas pareceram fceis e divertidas. Obviamente, no levava nada a srio. Era um estoura-vergas. 
Catherine admitiu porm com relutncia que um estoura-vergas no se ofereceria como voluntrio na R. A. F. nem se tornava um heri no combate  Luf twaffe. Irracionalmente, 
detestava ainda mais por ser um heri. No entendia a sua prpria atitude, na qual matutou durante o terceiro usque duplo. Que diferena fazia se era um heri ou 
um vagabundo? E foi ento que se apercebeu de que, sendo um vadio, pertencia a uma classe que ela poderia controlar. Atordoada pela bebida, recostou-se e ouviu a 
conversa entre os dois. Larry falava com um entusiasmo e uma vitalidade to transbordantes que a deixavam comovida. Parecia-Lhe o homem mais alegre que j conhecera. 
Catherine tinha uma sensao de que a vida dele era um livro aberto, de que se entregava a tudo de alma e corao e de que troava de quem tinha medo de se entregar. 
Dos que tinham medo, ponto final. Como ela.
Mal tocou na comida, e nem sabia o que comia. Olharam-se de frente, e era como se fosse j seu amante, como sej tivessem estado juntos, se tivessem pertencido um 
ao outro, e sabia que isso era uma loucura. Ele era um ciclone, uma fora da natureza, e qualquer mulher que fosse sugada no seu turbilho seria destruda.
Lary sorria-lhe.
- Receio que estejamos a deixar Miss Alexander fora da conversa
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- disse ele educadamente. -Acho que ela  mais interessante do que ns dois juntos.
- Engana-se - disse Catherine prontamente. -Vivo uma vida muito montona. Trabalho com Bill. - Assim que falou, apercebeu-se do que dissera e corou. - No foi isso 
que eu quis dizer - disse ela. - O que eu quis dizer foi que...
- Eu sei o que quis dizer - disse Larry em tom de ajuda. E ela detestou-o. Virou-se para Bill: - Onde  que a encontraste?
- tive sorte - disse Fraser calorosamente. - Muita sorte. Ainda no te casaste?
Larry encolheu os ombros.
- Quem havia de me querer?
Parvalho, pensou Catherine. Olhou em redor da sala. Meia dzia de mulheres olhavam para Larry, umas disfaradamente, outras abertamente. Era um man sexual.
- Como eram as inglesas? - perguntou Catherine imprudente mente.
- Bonitas - disse num tom educado. - Claro que me faltava tempo para essas coisas. Era um piloto ocupado.
HO tanas  que no tinhas, pensou Catherine. Aposto que no deixaste uma virgem intacta numa rea de cem quilmetros. Em voz alta, disse:
- Tenho pena dessas pobres raparigas. No sabem o que perderam. - Exprimiu-se num tom mais mordaz do que intencionara.
Fraser olhava para ela, pasmado com a sua m-criao.
- Cathy - disse ele.
- Vamos tomar outra bebida -interrompeu Larry prontamente.
- Acho que Catherinej bebeu o suficiente - respondeu Fraser.
- No  bem assim - comeou Catherine e, para seu horror, deu por si a balbuciar. - Acho que quero ir para casa - disse ela.
- Est bem -Fraser voltou-se para Larry. - Catherine por norma no bebe - disse em tom de desculpa.
- Acho que ficou muito contente por voltar a ver-te - disse Larry.
Catherine sentiu vontade de Lhe atirar um copo de gua  cara, quando era apenas vadio, odiava-o menos. Agora odiava-o mais. no sabia porqu.
Na manh seguinte, Catherine acordou com uma ressaca que
Na sua opinio pertenceria  histria da Medicina. tinha pelo menos trs cabeas sobre os ombros, todas ressoando. Ficar deitada era uma 
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mania, mas tentar mexer-se era pior. Enquanto esteve ali a controlar os vmitos, o que se passara na noite anterior veio- lhe  lembrana, e a dor aumentou. Sem 
razo, culpou Larry pela ressaca, pois, se no tivesse sido ele, no teria bebido nada. Dolorosamente, Catherine virou a cabea e olhou para o relgio da mesinha-de-cabeceira. 
Dormira de mais. No sabia se ficava deitada ou se chamava uma brigada de reanimao. Com cuidado, saiu do leito de morte e arrastou-se at  casa de banho. Foi 
a tropear at ao chuveiro, abriu a torneira da gua fria e deixou que osjactos gelados corressem pelo seu corpo. Deu um grito quando a gua a atingiu, mas, no fim 
do duche, sentia-se melhor.     Apenas melhor. Quarenta e cinco minutos depois estava  escrivaninha. Annie entrou excitada.
- Adivinhe - disse ela.
- Hoje no - sussurrou Catherine. - Porta-te bem e fala baixinho.
- Veja! - Annie atirou-lhe o jornal. -  ele. Na primeira pgina havia uma fotografia de Larry Douglas fardado, sorrindo- lhe insolentemente. Dizia a legenda: HEROI 
AMERICANO DA R. A. F. REGRESSAAWASHINGTON PARADIRIGIRUMAUNIDADE DE CAAS. Seguia-se uma histria, a duas colunas.
- No  excitante? - gritou Annie.
- Muito - disse Catherine. Atirou o jornal para o cesto dos papis. - Podemos continuar a trabalhar?
Annie olhou para ela, surpresa.
- Desculpe - disse. - Eu... como era seu amigo, pensei que pudesse estar interessada.
- Ele no  um amigo - Catherine corrigiu-a. -  mais um inimigo. - Viu o olhar de Annie. - Ser que podamos simplesmente esquecer o Sr. Douglas ?
- Claro - disse Annie com uma voz intrigada. - Eu disse-lhe que voc talvez gostasse de saber.
Catherine fitou-a.
- Quando?
- Quando telefonou esta manh. Ligou trs vezes. Catherine fez um esforo para falar num tom informal.
- Por que no me disse nada?
- Pediu-me para no a informar dos telefonemas dele. - Observava Catherine, o seu rosto cheio de confuso.
- Deixou algum nmero?
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No.
- Ainda bem. - Catherine via o rosto dele, aqueles olhos grandes, escuros e provocadores. -Ainda bem - disse outra vez, mais firmemente.
Acabou de ditar algumas cartas e, depois de Annie sair do gabinete, Catherine foi ao cesto dos papis e apanhou ojornal. Leu a histria sobre Larry palavra por palavra. 
Era um s, com um crdito de oito avies alemes. Fora atingido duas vezes na Mancha. Chamou Annie pelo intercomunicador.
- Se o Sr. Douglas voltar a ligar, passe-me a chamada. Houve apenas uma pausa de segundos.
- Pois no, Miss Alexander.
Afinal de contas no havia razo para ser malcriada com homem. Catherine iria simplesmente desculpar-se pelo comportamento que tivera no estdio e pedir-lhe que 
no voltasse a telefonar -lhe. Ela ia casar-se com William Fraser. Esperou que ele voltasse a telefonar-lhe toda a tarde. Ele no ligara at s seis horas. ePor 
que havia de o fazer?  perguntou Catherine a si prpria. Anda para a com outras mulheres. Tens sorte. Meteres-te com ele seria o mesmo que ires ao talho. lravas 
a ficha e aguardavas a tua vez.
 sada disse a Annie.
- Se o Sr. Douglas telefonar amanh, diz-lhe que eu no estou. Annie nem sequer pestanejou.
- Pois no, Miss Alexander. Boa noite.
- Boa noite.
Catherine apanhou o elevador, perdida em pensamentos. tinha a certeza de que Bill Fraser queria casar-se com ela. A melhor coisa a fazer seria dizer-lhe que desejava 
casar-se imediatamente. Dir-lhe-ia hoje  noite. Iriam passar a lua de-mel fora. No regresso, Larry Douglas teria deixado a cidade. Ou coisa no gnero.
A porta do elevador abriu-se no trio, e ali estava Larry Douglas, encostado  parede. mostrara as medalhas e fitas e usava os gales de segundo-tenente. Sorriu 
e encaminhou-se at ela.
- Assim est melhor? - perguntou vivamente.
Catherine olhou-o fixamente, o corao dela batendo acelerada mente.
- O uso de insgnias falsas no  contra o regulamento?
- No sei - disse ele com sinceridade. - Pensei que voc se encarregasse de tudo isso.
Ficou a olhar para ela, que disse numa voz sem fora:

- No me faa isso. Deixe-me em paz. Eu perteno a Bill. - Onde  que est a aliana de casamento? Catherine passou  frente dele e comeou a dirigir-se para a porta 
da rua. Quando a alcanou, elej l estava, abrindo-a para que ela sasse.
Na rua ele agarrou-Lhe o brao. Um choque percorreu-lhe o corpo. Havia nele uma electricidade que a queimava.
- Cathy... - comeou ele.
- Pelo amor de Deus-disse ela desesperadamente. -Que quer de mim?
- tudo - disse ele calmamente. - quero-a a si.
- Bem, no posso ser sua - disse ela num gemido. - V torturar outra pessoa. - Virou-se para se ir embora, e ele deteve-a.
- fque significa isso?
- No sei - disse Catherine, cujos olhos estavam rasos de gua.
- No sei o que estou a dizer. Eu... estou com uma ressaca. Quero morrer.
Ele sorriu com um  ar de compreenso.
- Tenho uma cura maravilhosa para ressacas. - Levou-a para a garagem do prdio.
- Aonde  que vamos? - perguntou ela em pnico.
- Buscar o meu carro.
Catherine olhou-o,  espera de encontrar no rosto dele um sinal de triunfo, mas tudo o que viu foi a sua face forte e incrivelmente bonita cheia de carinho e compaixo. 
O empregado da garagem trouxe um descapotvel castanho-amarelado com a capota para trs. Larry ajudou Catherine a entrar na viatura e sentou-se ao volante. tinha 
o olhar fixo no horizonte, sabendo que estava a deitar a sua vida a perder e no era capaz de voltar atrs. Era como se tudo aquilo estivesse acontecer a outra pessoa. 
Queria dizer  coitada que estava dentro o ano que se fosse embora.
- Para a sua casa ou para a minha? - perguntou Larry com gentileza.
Abanou a cabea.
- Tanto faz - disse ela sem esperana.
- Vamos para minha casa.
Afinal, no era totalmente insensvel. Ou antes, receava competir com a sombra de William Fraser.
Observava-o enquanto ele conduzia com percia o automvel por
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entre o trnsito do fim do dia. No, no tinha medo de nada. Era parte da atraco danada que possua.
Tentou convencer-se de que era livre de lhe dizer no, livre de partir. Como podia amar William Fraser e sentir isto por Larry?
- Se lhe serve de consolo - disse Larry calmamente -, estou to nervoso como voc.
Catherine olhou para ele.
- Obrigada - disse ela.
Claro que mentia. Devia dizer a mesma coisa a todas as vtimas quando as levava para a cama para as seduzir. No entanto, no se gabava disso. O que mais a incomodava 
era que traa Bill Fraser. Era um homem bom de mais para ser magoado, e isto ia deix-lo muito abalado. Catherine sabia e sabia que agia errada e insensatamente, 
mas j no tinha vontade prpria.
tinham chegado a uma zona residencial agradvel, com rvores enormes e frondosas que flanqueavam a rua. Larry parou o carro  frente de um edifcio de apartamentos.
O apartamento de Larry fora decorado para ser habitado por um homem. tinha cores slidas e fortes e moblia de aspecto masculino.
Assim que entraram, Larry tirou o casaco de Catherine, e ela tremia.
- Est com frio? - perguntou ele.
- No.
- Quer tomar alguma coisa?
- No.
Gentilmente abraou-a, e beijaram-se. Parecia que tinha o corpo em chamas. Sem uma palavra, Larry levou-a para o quarto. Havia uma urgncia crescente  medida que 
ambos se iam despindo. Ela deitou-se na cama nua, e ele deitou-se a seu lado.
- Larry.
Mas ele j tinha os lbios nos dela, e as mos dele comearam percorrer o seu corpo, explorando com suavidade, e esqueceu tudo menos o prazer que sentia, e as mos 
dela comearam a acariciar o corpo dele. E sentiu-o quente, duro e palpitante, e os dedos dele estavam dentro dela, abrindo-a suave e amorosamente, e ps-se em cima 
dela e dentro dela, e havia uma alegria imensa inimaginvel e depois ficaram juntos, vibrando num ritmo fantstico que abalava o quarto, o nundo e o universo at 
que houve uma exploso que foi um xtase delrio, uma viagem incrvel e arrasante, uma chegada e uma partida, um fim e um comeo, e Catherine ficou deitada exausta 
e ento-
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pecida apertando-o nos braos, no querendo deix-lo sair, no querendo que a sensao chegasse ao fim. Nada do que lera ou ouvira poderia t-la preparado para isto. 
Era inacreditvel que o corpo de outra pessoa pudesse trazer tamanha alegria. Ficou ali em paz: uma mulher. E sabia que, se no voltasse a v-lo, lhe ficaria eternamente 
grata.
- Cathy?
Virou-se para olhar para ele, lenta e indolentemente.
- Sim? - At a voz lhe pareceu mais profunda, mais madura.
- Podias tirar as unhas das minhas costas?
Subitamente deu conta de que cravara as unhas na carne dele.
- Oh, desculpa? - exclamou ela.
Ps-se a examinar as costas dele, mas ele agarrou-lhe as mos e puxou-a para junto de si.
- No tem importncia. Ests feliz?
- Feliz? - O lbio dela tremeu, e para seu desgosto comeou a chorar. Soluos sentidos que lhe contorciam o corpo.
Ele abraava-a, acariciando-a docemente, deixando que a tempestade se extinguisse.
- Desculpa - disse ela. - No sei por que reagi assim.
- Desiluso?
Catherine olhou logo para ele para protestar, depois viu que estava a provoc-la. Tomou-a nos braos e fez amor de novo. Foi ainda mais incrvel do que antes. Depois 
ficaram na cama e ele ps-se a falar, mas ela no ouviu. tudo o que queria ouvir era o som da sua voz, e no se importava com o que dizia. Sabia que este seria o 
nico homem, para ela s haveria este homem. E sabia que na sua vida s haveria este homem e que provavelmente nunca mais o veria, que era apenas mais uma conquista. 
Deu conta de que a voz se calara e de que ele a observava.
- No ouviste uma palavra do que eu disse.
- Desculpa - disse ela. - Estava a sonhar acordada.
- Eu devia estar ofendido - disse num tom reprovador. - S ests interessada em mim por causa do meu corpo. Passou a mo pelo peito e o estmago bronzeado e esbelto.
- No sou nenhuma especialista - disse ela -, mas parece-me que vai servir muito bem.
- Serviu muito bem.
Quis perguntar-lhe se a apreciara, mas teve receio.
-  s bela, Catherine.
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Comoveu-se por ouvi-lo dizer isso, mas ao mesmo tempo ficou ressentida. tudo o que lhe dizia dissera-o milhares de vezes a outras mulheres. Gostava de saber como 
iria ele despedir-se. Telefonas -me? Ou: Depois telefono-te? Talvez quisesse mesmo v-la uma ou duas vezes antes de atacar nova presa. Bem, a culpa era s dela. 
Soube sempre no que ia meter-se. Meti-me nisto com os olhos e as pernas bem abertos. Acontea o que acontecer, nunca deverei culp-lo.
Ele abraou-a e apertou-a.
- Sabes que s uma rapariga muito especial, Cathy? Sabes que s uma rapariga muito especial... Alice, Susan, Margaret, Peggy, Lana...
- Senti isso a primeira vez que te vi. Nunca senti isso por ningum antes.
lanet, Evelyn, ftuth, Georgia, ad infinitum. Enterrou a cabea no peito dele, incapaz de falar, e apertou-o com fora, dizendo adeus em silncio.
- Tenho fome - disse Larry. - Sabes o que me apetecia? Catherine sorriu.
- Claro que sei. Larry sorriu-lhe.
- Sabes uma coisa? - perguntou ele. - s uma tarada sexual. Ela ergueu o olhar.
- Obrigada.
Levou-a para o chuveiro e abriu-o. tirou uma touca de um gancho da parede e colocou-a sobre a cabea de Catherine, ajeitando-lhe o cabelo.
- Anda - disse ele, e puxou-a para o jacto de gua penetrante. Pegou no sabonete e ps-se a esfregar-lhe o corpo, comeando no pescoo, nos braos e em crculos 
lentos sobre os seios, descendo at ao estmago e s coxas. Ela comeou a sentir uma excitao no ventre, e tirou-lhe o sabonete da mo e comeou a lav-lo, enchendo-lhe 
o peito de espuma e depois entre as pernas. O rgo dele endureceu-lhe nas mos. Abriu-Lhe as pernas e penetrou-a, e Catherine ficou nova mente arrebatada, inundada 
pela torrente de gua que lhe fustigava o corpo, enquanto o seu interior se enchia com a mesma alegria insuportvel, at que deu um grito de loucura total. Depois, 
vestiram-se, entraram no carro e foram para Maryland, onde encontraram um restaurantezinho ainda aberto e pediram lagosta e champanhe.
s cinco da manh, em casa, Catherine marcou o nmero de casa
176

de William Fraser e ficou a ouvir os longos toques a cento e cinquenta quilmetros, at que finalmente a voz ensonada de Fraser surgiu no aparelho e disse:
- Estou?
- Bill.  Catherine.
- Catherine! Ando a tentar telefonar-te toda a noite. Onde  que ests? Ests bem?
- Estou ptima. Estou no Maryland com Larry Douglas. Acabmos de casar.
   
Paris: 1941
8
Christian Barbet era um homem infeliz. O pequeno detective calvo estava sentado  secretria, um cigarro entre os dentes manchados e partidos, e contemplava com 
um ar sombrio a pasta que tinha diante de si. A informao nela contida ia custar-lhe um cliente. Cobrava a Noelle Page honorrios exorbitantes pelos seus servios, 
mas no era apenas a perda do rendimento que o entristecia: iria perder a prpria cliente. Odiava Noelle Page, e no entanto era a mulher mais excitante quej conhecera. 
Barbet imaginava as mais loucasfantasias com Noelle, nas quais acabava sempre dominada por ele. Agora a misso estava prestes a chegar ao fim, e no voltaria v-la. 
Mantivera-a  espera na sala enquanto tentava pensar numa maneira de abordar o assunto de forma a poder sacar mais algum dinheiro para prolongar o caso. Mas relutantemente 
concluiu que no havia forma. Barbet suspirou, apagou o cigarro e abriu a porta. Noelle estava sentada no sof preto da napa, e ao v-la ficou extremamente emocionado 
por um momento. Era injusto uma mulher ser assim to bela.
- Boa tarde - disse ele. - Entre.
Entrou no gabinete movimentando-se com a graa dum modelo Era vantajoso para Barbet ter uma cliente como Noelle Page, e ele se rogava em mencionar o nome dela sempre 
que podia. Atraa outros clientes, e Christian Barbet no era homem de perder o sono com tica.
- Por favor, sente-se - disse ele, apontando para uma cadeira

 Quer que lhe arranje um brande, um aperitivo?
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Parte da sua fantasia era embriagar Noelle para ela implorar que ele a seduzisse.
- No - respondeu ela. - Vim aqui saber de notcias. A gaja podia pelo menos tomar uma ltima bebida com ele!
-  verdade - disse Barbet. - De facto, tenho vrias notcias. Debruou-se sobre a secretria e fingiu analisar o processo, o qual j sabia de cor.
- Paraj - informou ele -, o seu amigo foi promovido a capito e transferido para 
 133.  esquadrilha, de que  comandante. O campo  em Coltisall, Duxtford, no Cambridgeshire. Pilotavam... -falava lenta e deliberadamente, sabendo que no estava 
interessada na parte tcnica - Hurricanes e Spitfires II e depois mudaram para lark V. Depois comearam a pilotar...
- Isso no me interessa - interrompeu Noelle impacientemente. - Onde  que est ele agora?
Barbet aguardava a pergunta.
- Nos Estados Unidos. - Reparou na reaco que teve antes de poder dominar-se, e aproveitou-se sem escrpulos da mesma. -Em Washington - prosseguiu ele.
- De licena?
Barbet abanou a cabea.
- No. Saiu da R. A F.  capito da Fora Area Americana.
Contemplou Noelle, que digeria a informao e cuja expresso no dava nenhum indcio do que sentia. Mas Barbet ainda no tinha acabado. Apanhou um recorte de jornal 
com os dedos em forma de salsicha e amarelos da nicotina e entregou-lho.
- Acho que vai achar isto interessante - disse ele. Viu Noelle empertigar-se, parecendo que sabia do que se tratava. Era um recorte do Daily News de Nova Iorque. 
A legenda dizia Heri daguerra casa-se sob uma fotografia de Larry Douglas com a noiva. Noelle olhou-a demoradamente, depois estendeu a mo para receber o resto 
do processo. Christian Barbet encolheu os ombros e meteu todos os papis num envelope amarelo e entregou-Lho. Quando abriu a boca para fazer o discurso de despedida, 
Noelle Page disse:
- Se no tem correspondente em Washington, arranje um. Ficarei  espera de relatrios semanais. - E partiu, deixando Christian Barbet a olh-la num estado de total 
confuso.
Quando regressou ao apartamento, Noelle foi para o quarto, transportada e retirou os recortes do envelope. P-los sobre a cama e examinou-os. Larry, na fotografia, 
era exactamente
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como se lembrava dele. Alis, a imagem mental que tinha era mais ntida do que a do jornal, pois Larry estava mais vivo na sua mente do que na realidade.
No passava um dia sem que Noelle se lembrasse dos dias que vivera com ele. Era como se tivessem ambos sido protagonistas duma pea havia muito tempo, e conseguia 
facilmente recordar-se de cenas, representando umas em certos dias e guardando outras para outros dias, de forma que cada lembrana fosse sempre viva e fresca.
Noelle prestou ateno  noiva de Larry:  que via era um rosto bonito, jovem e inteligente com um sorriso nos lbios. O rosto do inimigo. Um rosto que teria de ser 
destrudo da mesma forma que Larry.
Noelle permaneceu trancada com a fotografia a tarde inteira. Horas mais tarde, quando Armand Gautier bateu  porta do quarto, Noelle disse-lhe que se fosse embora. 
Aguardou na sala, apreensivo em relao  disposio dela, mas, quando por fim saiu, parecia alegre e bem-disposta como nunca, como se tivesse recebido uma ptima 
notcia. No deu qualquer explicao a Gautier, e ele conheci-a o bastante para no lhe pedir nenhuma. Depois do teatro, nessa noite, amou-o com uma paixo desenfreada 
como nos primeiros dias que passaram juntos. Depois Gautier permaneceu deitado, tentando perceber a bela rapariga que dormia a seu lado, mas no tinha um indcio.
 noite Noelle Page sonhou com o coronel Muller. O oficial albino e imberbe torturava-a com um ferro em brasa, gravando-lhe susticas a fogo na carne. Interrogava-a 
continuamente em voz to baixa que Noelle mal o ouvia, mantendo o metal quente sobre ela, mas de repente era Larry gritando de dor. Noelle acordou banhada em suores 
frios, o corao a bater, e acendeu o candeeiro da mesa-de-cabeceira. Acendeu um cigarro com dedos trementes e tentou acalmar-se, Pensou em Israel Katz. A perna 
dele fora amputada com um machado, e, embora no o tivesse visto desde aquela tarde na padaria soubera pelo porteiro que estava vivo, embora debilitado. Era cada 
vez mais difcil escond-lo, e s por si no conseguia. As buscas tinham-se intensificado. Se ia ser levado para fora de Paris, teria de ser rapidamente. Noelle 
de facto nada fizera para que a Gestapo pudesse prend-la: at agora. Seria o sono uma premonio, advertncia para no ajudar Israel Katz? Ficou na cama perdida 
em lembranas. Ajudara-a na altura do aborto. Ajudara-a a matar o filho de Larry. Dera-lhe dinheiro para arranjar um emprego. Muitos outros homens tinham-lhe feito 
coisas mais importantes do que isso.
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mas Noelle no se sentia em dvida para com eles. Todos eles, incluindo o pai, quiseram algo em troca, e ela pagara na ntegra tudo o que alguma vez recebera. Israel 
Katz nunca lhe pedira nada. tinha de ajud-lo.
Noelle no subestimou o problema. O coronel Muller j estava desconfiado dela. Lembrou-se do sonho e teve um arrepio. Devia ter cuidado para que Muller no fosse 
capaz de provar nada contra ela. Israel Katz tinha de ser levado s escondidas para fora de Paris, mas como? Noelle tinha a certeza de que todas as sadas estavam 
rigorosamente vigiadas. As estradas e o rio deviam estar igualmente vigiados. Os nazis podiam ser porcos, mas eram porcos eficientes. O desafio poderia ser fatal, 
mas estava disposta a enfrent-lo. O problema era que no havia ningum a quem pudesse recorrer. Os nazis haviam reduzido Armand Gautier a uma gelatina trmula. 
No, teria defazeristo sozinha. Pensou no coronel Muller e no general Scheider, e perguntou a si prpria qual deles sairia vitorioso em caso de embate.
Na noite a seguir ao sonho, Noelle e Armand foram a uma ceia. O anfitrio era Leslie Rocas, um abastado patrono das artes. Era uma coleco ecltica de convidados 
- banqueiros, artistas, dirigentes polticos e um grupo de mulheres bonitas cuja presena, na opinio de Noelle, vertia principalmente em proveito dos alemes que 
ali estavam. Gautier reparara na preocupao de Noelle, mas quando lhe perguntou o que se passava respondeu-lhe que estava tudo bem.
quinze ininutos antes do anncio da ceia, chegou um novo convidado; assim que Noelle o viu, sabia que o seu problema ia ser resolvido. Aproximou-se da anfitri e 
disse:
- Querida, seja um anjo e sente-me ao lado de Albert Heller.
Albert Heller era o dramaturgo mais conhecido de Frana. Era um homem enorme e corpulento com os seus 60 anos, uma farta cabeleira branca e ombros largos e descados. 
Como francs era invulgarmente alto, mas ter se-ia destacado numa multido de qualquer
pois possua um rosto notavelmente feio e uns olhos verdes penetrantes, aos quais nada escapava. Heller tinha uma imaginao muito frtil e escrevera acima de uma 
vintena de peas. Andava atrs de Noelle para que integrasse o elenco duma outra pea sua, e enviara-lhe uma cpia do manuscrito. Assim que se sentou a seu lado 
ao jantar, Noelle disse:
- Acabei de ler a pea que me mandou, Albert. Adorei.
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O seu rosto iluminou-se.
- quer faz-la?
Noelle colocou a mo sobre a dele.
- Bem me apetecia, querido. Armand j me comprometeu para uma outra pea.
Ele franziu o sobrolho, depois suspirou resignadamente.
- Merde! Ah, bem, um dia havemos de trabalharjuntos.
- Gostaria muito - disse Noelle. - Adoro o seu estilo de escrever. Fascina-me a forma como os escritores criam os enredos. No sei como conseguem faz-lo.
Ele encolheu os ombros.
- Da mesma forma como voc representa.  a nossa profisso, a modo de ganharmos a vida.
- No - respondeu ela. - A habilidade com que usa a sua imaginao  para mim um milagre. - Deu uma gargalhada de embarao. - Eu bem sei. Eu tenho tentado escrever.
- Oh? - disse ele num tom educado.
- Sim, mas emperrei. - Noelle respirou fundo e depois passou o olhar pela mesa. Todos os outros convidados entretinham-se nas suas conversas. Inclinou-se, e Albert 
Heller baixou a voz. - Estou num ponto em que a minha herona tenta fazer sair o amante de Paris. Os nazis andam  procura dele.
- Ah. - O homem enorme ficou calado, a brincar com o garfo que batia no prato. Depois disse: -  fcil. Vista-lhe uma farda alem e misture-o com eles.
Noelle suspirou e disse.
- H um problema. Ele foi ferido. No pode andar. Perdeu uma perna.
O tamborilar parou de repente. Houve uma longa pausa, depois Heller disse:
- Uma barcaa no Sena?
- Vigiado.
- E andam a fazer buscas a todo o transporte que sai de Paris:
- Andam.
- Ento ter de pr os nazis a fazerem o servio por si.
- Como?
- A sua herona - disse ele, sem olhar para Noelle -, ela
atraente?
- .
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- Faa de conta - disse ele - que a sua herona se tornava amiga dum oficial alemo. Uma alta patente.  possvel?
Noelle virou-se para olh lo, mas ele evitou-lhe o olhar.
- .
- Ento no h problemas. Ela que marque um encontro com o oficial. Vo passar o fim de-semana fora de Paris. Os amigos podiam esconder o seu heri no porta-bagagens 
do cano. O oficial tem de ser muito importante para no revistarem o carro.
- Se a mala do carro estiver trancada-perguntou Noelle -, no poder sufocar?
Albert Heller sorveu um pouco de vinho, calmamente, perdido em pensamentos. Disse por fim:
- No necessariamente. Falou com Noelle durante cinco minutos, em voz baixa, e quando terminou disse: - Boa sorte. - E nem nessa altura olhou para ela.
Logo de manh Noelle telefonou ao general Scheider. Atendeu a tlefonista, e momentos depois ligaram Noelle a um ajudante e por fim  secretria do general.
- Quem deseja falar com o general Scheider, por favor?
- Noelle Page - disse ela, pela terceira vez.
- Lamento, mas o general est numa reunio. No pode ser incomodado.
Hesitou.
- Posso voltar a ligar mais tarde?
- Estar em reunio todo o dia. Sugiro que escreva uma carta ao general a expor o seu assunto.
Noelle considerou a ideia por um momento, e um sorriso irnico eflorou-lhe aos lbios.
- Deixe estar - disse ela. - Diga-lhe apenas que eu telefonei. Uma hora depois, o telefone tocou. Era o general Scheider.
- Peo imensa desculpa - disse ele. -Aquele idiota s agora me deu o seu recado. Eu teria dado ordens para que me passassem as suas chamadas, mas nunca me ocorreu 
que voc me telefonasse.
- Quem deve pedir desculpa sou eu - disse Noelle. - Sei que est muito ocupado.
- Por favor. Que posso fazer por si?
Noelle hesitou, escolhendo as palavras.
- Lembra-se do que disse a nosso respeito ao jantar?
183

Houve ento uma curta pausa.
- Lembro-me.
- Tenho pensado muito em si, Hans. Gostaria muito de v- lo.
- Querjantar comigo hoje  noite? - Houve uma ansiedade repentina na voz dele.
- No em Paris - respondeu Noelle. - Se vamos estar juntos, gostaria que fosse longe daqui.
- Onde? - perguntou o general Scheider.
- Quero que seja um lugar especial. Conhece Etratat?
- No.
-  uma aldeiazinha amorosa a cerca de cento e cinquenta quilmetros de Paris, perto do Havre. H l uma velha estalagem, que  um sossego.
-  uma ideia maravilhosa, Noelle. Mas ser difcil ausentar- me agora - disse ele em tom de desculpa. - Estou a meio de...
- Compreendo - interrompeu Noelle gelidamente -, talvez numa outra altura.
- Espere! - Houve uma longa pausa. - Quando  que poderia sair?
- Sbado  noite depois do espectculo.
- Vou tratar de tudo - disse ele. - Podemos apanhar um avio para...
- Por que novamos de carro? -perguntou Noelle. - to agra dvel.
- Como queira. Passo no teatro para busc-la.
Noelle raciocinava rapidamente.
- Primeiro tenho de vir a casa mudar-me. Passe no no meu apartamento, est bem?
- Como queira, minha querida. At sbado  noite. Quinze minutos depois, Noelle falava com o porteiro. Ele escutava enquanto ela falava, sacudindo a cabea em vigoroso 
protesto.
- No, no, no! Darei o recado ao nosso amigo, Mademoiselle, mas ele ir recusar. Estaria louco se aceitasse! J agora, pedia tambm que lhe arranjassem um emprego 
no quartel-general da Gestapo.
- No ir falhar -assegurou-Lhe Noelle. -Foi uma ideia do melhor crebro de Frana.
Quando saiu da entrada do prdio nessa tarde, viu um homem encostado  parede fingindo que lia absorvido um jornal. Assim que Noelle ps o p na rua invernosa, o 
homem endireitou-se e ps-se a
184
segui-la a uma distncia discreta. Noelle vagueou pelas ruas vagarosamente, parando para ver todas as montras. Cinco minutos depois de Noelle ter deixado o prdio, 
o porteiro saiu, olhou em volta para ter a certeza de que no era observado, depois mandou parar um txi e deu a morada duma loja de artigos de desporto em Montmartre.
Duas horas mais tarde o porteiro informou Noelle.
- Viro entreg-lo sbado  noite.
Sbado  noite, quando Noelle acabou a sua actuao, o coronel Kurt Muller da Gestapo esperava-a nos bastidores. Noelle sentiu um arrepio. O plano de fuga fora pensado 
at ao segundo, e no havia lugar para quaisquer demoras.
- Vi a sua representao na primeira fila, Frulein Page - disse o coronel Muller. - Cada vez melhor.
A voz fina e aguda trouxe-lhe de volta a memria viva do seu sonho.
- Obrigada, coronel. Se me d licena, vou ter de me trocar.
Noelle fez meno de caminhar para o camarim, e ele colocou-se junto dela.
- Eu acompanho-a - disse o coronel Muller.
Ela entrou no camarim, seguida pelo coronel albino e calvo. Ele instalou-se numa poltrona. Noelle hesitou por um momento e comeou a despir-se enquanto ele a observava 
com indiferena. Sabia que erahomossexual, o que o privava de uma arma valiosa - a sua sexualidade.
- Um passarinho contou-me uma coisa ao ouvido - disse o coronel Muller. - Ele vai tentar fugir esta noite.
O corao de Noelle bateu forte, mas o seu rosto no se alterou. Comeou a tirar a pintura para fazer tempo e perguntou:
- quem  que vai tentar fugir esta noite?
- o seu amigo, Israel Katz.
Noelle voltou-se, e s ento se apercebeu subitamente de que tirara o soutien.
- No conheo ningum... - Captou o fulgor rpido e triunfante! e com os olhos rseos  deu conta da armadilha mesmo em cima da hora:
- Espere - disse ela. - Est a falar dum jovem mdico interno?
- Ah, afinal lembra-se dele.
- Muito pouco. tratou-me de uma pneumonia aqui h uns tempos.
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de um aborto provocado - disse o coronel Muller naquela voz fina e aguda. 
O medo invadiu-a de novo. A Gestapo no se teria dado a tanto trabalho se no tivesse a certeza do seu envolvimento. Era uma idiota por ter-se metido nisto; mas, 
enquanto reflectia, sabia que era tarde de mais para voltar atrs. As rodas j estavam em movimento e dentro de algumas horas Israel Katz estaria livre... ou morto. 
E ela?
O coronel Muller dizia:
- Disse que o viu pela ltima vez no caf aqui h umas semanas. Noelle abanou a cabea.
- Eu no disse nada disso, coronel.
O coronel Muller fitou-a, deixando cair insolentemente o olhar sobre os seus seios nus, o ventre e parando nas cuecas transparentes. Depois voltou a olhar Noelle 
de frente e suspirou.
- Adoro coisas belas - disse suavemente. - Seria uma pena ver uma beleza como a sua ser destruda. E tudo por causa de um homem que no lhe diz nada. Qual  o plano 
de fuga do seu amigo, Friulein?
Havia uma calma na voz dele que lhe causou um arrepio na espinha. transformou-se em Annette, a personagem inocente e desamparada da pea.
- Realmente no sei do que  que est a falar, coronel. Gostaria de ajud-lo, mas no sei como.
O coronel Mulller olhou para Noelle durante muito tempo, depois rigidamente ps-se de p.
- Eu dir-lhei como, Fraulein - prometeu ele suavemente, o que me dar o maior prazer. Virou-sejunto  porta para dar uma derradeira aluso. -Apropsito, aconselhei 
o general Scheider a no sair consigo este fim-dde semana.
Noelle sentiu um peso no corao. Era tarde de mais para entrar
em contacto com Israel Katz.
- Os coronis interferem sempre na vida privada dos generais
- Desta vez, no - disse o coronel Miller pesarosamente. general Scheider ir comparecer ao encontro. - Voltou-se e saiu.
Noelle ficou especada, o corao a bater depressa. Olhou para o relgio de ouro que estava sobre o toucador e comeou rapidamente a vestir-se.
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Quando faltava um quarto de hora para a meia-noite, o porteiro telefonou a Noelle para avisar que o general Scheider ia caminho do apartamento. A voz tremia-lhe.
- O motorista est no carro? - perguntou Noelle. - No, madenoiselle - respondeu o porteiro cautelosamente. - Vai a subir com o general.
- Obrigada.
Noelle desligou o telefone e dirigiu-se apressadamente para o quarto para verificar a bagagem uma vez mais. Nada podia correr mal. A campainha da porta da frente 
tocou, e Noelle atravessou a sala e abriu a porta.
O general Scheider estava no corredor, tendo atrs de si o motorista, umjovem capito. O general Scheider estava  civil e tinha um ar muito distinto num fato cinzento-escuro 
impecvel, camisa de um azul-suave e uma gravata preta.
- Boa noite - disse ele formalmente. Entrou e fez um sinal com a cabea para o motorista.
- As minhas malas esto no quarto - disse Noelle. Indicou a porta.
- Obrigado, Fraulein.
O capito entrou no quarto:
O general Scheider aproximou-se de Noelle e pegou-lhe nas mos.
- Sabe no que estive a pensar todo o dia? - perguntou ele. - Que poderia no encontr-la aqui, que poderia ter mudado de ideias. Sempre que o telefone tocava, eu 
receava.
- Eu nunca falto ao prometido - disse Noelle.
Observava o capito que saa do quarto com o estojo o de maquilhagem e a mala de fim-de-semana na mo.
- H mais alguma coisa? - perguntou ele.
- No - disse Noelle. -  tudo.
O capito ps as malas  porta.
- Pronta? - perguntou o general Scheider.
- Vamos tomar uma bebida para a viagem - sugeriu Noelle. abriu uma garrafa de champanhe que estava no bar, dentro de um balde de gelo.
- Permita-me. -Aproximou-se do balde de gelo e abriu o champanhe.
- Vamos brindar a qu?
- A Etratat.
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Examinou-a por um momento, dizendo em seguida:
- A Etratat.
Tocaram os copos num brinde e beberam. Quando Noelle colocava o copo na mesa, olhou sub-repticiamente para o relgio de pulso. O general Scheider falava com ela, 
mas Noelle s ouvia metade do que dizia. O pensamento dela visualizava o que estava a acontecer l em baixo. Devia ser cautelosa. Se se adiantasse ou atrasasse de 
mais, seria fatal. Para todas as pessoas.
- Est a pensar em qu? - perguntou o general Scheider. Noelle virou-se rapidamente.
- Em nada.
- Mas no estava a prestar ateno.
- Desculpe. Acho que estava a pensar em ns. - Voltou-se para ele e deu-lhe um sorriso fugaz.
- Voc intriga-me - disse ele.
- As mulheres no so todas um enigma?
- No como voc. Eu nunca apostaria que voc  caprichosa e no entanto... - ele fez um gesto -primeiro no me quer ver, e de repente vamos passar um fime-semana 
no campo.
- Est arrependido, Hans?
- Claro que no. No entanto, gostava de saber: porqu o campo?
- J lhe expliquei.
- Ah, pois - disse o general Scheider. -  romntico. A est outra coisa que me intriga. Julgo-a uma realista e no romntica.
- que est a tentar dizer? - perguntou Noelle.
- Nada - respondeu o general  vontade. - Estou s a pensar em voz alta. Gosto de solucionar mistrios, Noelle. Com o tempo vou saber o que voc .
Ela encolheu os ombros.
- Quando souber a soluo, o mistrio poder no ser interessante.
- Veremos. - Ele pousou o copo. - Vamos?
Noelle levantou os copos de champanhe vazios.
- Vou s pr isto no lava-loua.
O general Scheider seguiu-a com o olhar enquanto ela se dirigia para a cozinha. Noelle era uma das mulheres mais bonitas e desejveis que conhecera, e fazia tenes 
de possu-la. Isso no significa porm, que fosse estpido ou cego. Ela andava atrs de qualquer coisa. Tencionava descobrir do que se tratava. O coronel Miiller 
prevenira-o de que era muito provvel que ela estava a dar ajuda a um
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amigo perigoso do reich, e o coronel Muller raramente se enganava. Se tinha razo, Noelle Page estava provavelmente a contar com o general Scheider para proteg-la 
de alguma forma. Se assim fosse, ela nada sabia da mentalidade militar alem e muito menos a seu respeito. Entreg-la-ia  Gestapo sem a mnima hesitao, mas primeiro 
queria satisfazer o seu desejo. Esperava pelo fim-de-semana com ansiedade. Noelle saiu da cozinha. trazia uma expresso preocupada no rosto.
- Quantos sacos levou o seu motorista para baixo? - perguntou ela.
- Dois - respondeu ele. - Uma mala de fim de-semana e um estojo de maquilhagem.
Ela fez uma careta.
- Oh, que maada. Desculpe, Hans. Ele esqueceu-se desta. Importa-se?
Fitou Noelle, que se dirigiu para o telefone, levantou e falou.
- Importa-se de pedir ao motorista do general que suba outra vez? - disse ela. - H mais uma mala. - Desligou o telefone. - Sei que vamos s por um fim-de-semana 
- sorriu ela -, mas quero agradar-lhe.
- Se deseja agradar-me - disse o general Scheider -, no vai precisar de muita roupa. - Ele olhou de relance para o retrato de Armand Gautier que estava sobre o 
piano. - O Sr. Gautier sabe que vai sair comigo? - perguntou.
- Sabe - mentiu Noelle.
Armand estava em Nice reunido com um produtor por causa de um filme, e ela no vira razo para alarm-lo com os seus planos. A campainha da porta tocou e Noelle 
foi at  porta e abriu-a. Era o capito.
- Parece que h mais um saco - disse ele.
- Sim - desculpou-se Noelle. - Est no quarto.
O capito fez um sinal afirmativo com a cabea e entrou no quarto.
- Quando  que tem de estar de volta a Paris? - perguntou-lhe o general Scheider.
Noelle virou-se e olhou para ele.
- Eu quero ficar o mximo possvel. Regressaremos segunda-feira  tardinha. Teremos dois dias.
O capito saiu do quarto.
- Desculpe-me, Fraulein. Como  que  a mala?
-  uma mala grande azul - disse Noelle. Virou-se para o general. - Arrumei l dentro um vestido novo que ainda no estreei. Guardei para si.
Falava agora pelos cotovelos, tentando disfarar os nervos. O capito regressara ao quarto. Momentos depois, voltou a sair.
- Desculpe - disse ele. - No consigo ach-la.
- D-me licena - disse Noelle. Entrou no quarto e comeou a procurar dentro do roupeiro. - A idiota da criada deve t-la guardado a num canto - disse ela.
Os trs procuraram em todos os armrios do apartamento. Foi o general que finalmente encontrou a mala no roupeiro da entrada. Levantou-a e disse:
- Parece que est vazia.
Noelle abriu logo a mala e examinou-a. No havia nada l dentro.
- Oh, aquela tonta - disse ela. - Deve ter encafuado o meu lindssimo vestido novo na outra mala. Espero que no fique todo amarrotado. -Suspirou de desespero. - 
Na Alemanha tambm tm tantos problemas com as criadas?
- Parece-me que  assim em todo o stio - respondeu o general Scheider. Ele observava Noelle atentamente. tinha um comportamento estranho, falando demasiado. Reparou 
no olhar dele. -A sua presena faz-me sentir uma colegial - disse Noelle. - No me lembro de ter estado assim to nervosa.
O general Scheider sorriu. Afinal era isso. Ou estaria ela a pregar-lhe alguma partida? Se estava, em breve descobriria. Olhou de relance para o relgio.
- Se no formos agora, vamos l chegar muito tarde.
- Estou pronta - disse Noelle.
Pediu a Deus que os outros tambm estivessem. quando chegaram ao trio, depararam com o porteiro, branco como a cal da parede. Noelle pensou que alguma coisa correra 
mal. Olhou para ele e busca de um sinal, um gesto, mas, antes que respondesse, o general tomara o brao de Noelle e f-la sair a porta.
A limusina do general Scheider estava parado mesmo  frente
Da porta. O porta-bagagens estava fechado. A rua estava deserta. O motorista apressou-a a abrir a porta. Noelle virou-se para ver se via o porteiro no trio, mas 
o general mexeu-se e tapou-lhe a vista. Depsito? Noelle olhou para a bagageira num relance, mas ficou na mala. S dali a umas horas saberia do xito dos seus planos, 
e a aflio seria insuportvel.
- lido bem consigo? - O general Scheider olhava-a fixamente.
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Pressentia que algo correra muito mal. tinha de encontrar uma desculpa para voltar  portaria, para falar a ss com o porteiro por uns segundos. Forou um sorriso 
nos lbios.
- Lembrei-me agora - disse Noelle. - Um amigo meu vai telefonar-me. Tenho de deixar um recado...
O general Scheider agarrou-lhe o brao com fora.
- Tarde de mais - sorriu ele. - A partir de agora, s deve pensar em mim. - E meteu-a no carro.
Um momento depois iam de viagem.
Cinco minutos depois de a limusina do general Scheider se ter afastado do edifcio, um Mercedes preto travou bruscamente  frente do prdio, e do veculo saram 
o coronel Muller e dois homens da Gestapo. O coronel Muller deu um olhar rpido para os dois lados da rua.
- J se foram embora - disse ele.
Os homens correram at  portaria do prdio de Noelle e tocaram  campainha do porteiro. A porta abriu-se e o porteiro surgiu no corredor, com um ar assustado.
- O que  que... ? - O coronel Muller empurrou- para dentro do pequeno apartamento.
- A Fraulein Page! - perguntou bruscamente. - Onde  que
est Ela?
O porteiro olhou-o, cheio de pnico.
- Ela... ela saiu - disse ele.
- Isso sei eu, estpido! quero saber  para onde. O porteiro abanou a cabea sem saber o que dizer.
- No fao ideia, senhor. S sei que saiu com um oficial do exrcito.
- Ela no lhe disse onde poderia ser contactada?
- N... no, senhor. Mademoiselle Page no confia em mim. O coronel Muller lanou ao velho um olhar feroz por um momento e rodou sobre os calcanhares.
- No devem estar longe - disse aos seus homens. - Contactem  as patrulhas de estrada o mais rpido possvel. que retenham o carro do general Scheider at eu chegar, 
e que me telefonem imediatamente!
Por causa da hora, o trnsito militar era escasso, o que significa que no havia virtualmente trnsito nenhum. O carro do general schneider virou para a Rua Oeste, 
que era uma sada de Paris, pas
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Versalhes. Atravessaram Mantes, Vernon e Gaillon e em vinte e cinco minutos aproxmavam-se do principal cruzamento rodovirio, do qual partiam as estradas para Vichy, 
Havre e a Cte d'Azur.
Noelle julgou que se dera um milagre. Iam sair de Paris sem que lhe tivessem mandado parar. Devia ter adivinhado que at os alemes, apesar de toda a sua eficincia, 
no seriam capazes de verificar todas as ruas da cidade. E nesse preciso momento surgiu da escurido em frente uma patrulha de estrada. No centro da estrada piscavam 
umas luzes vermelhas intermitentes, e atrs das luzes um camio do exrcito alemo bloqueava a autostrada. Na berma da estrada estavam meia dzia de soldados alemes 
e dois carros da Polcia Francesa. Um tenente alemo fez sinal  limusina e, assim que a mesma parou, dirigiu-se na direco do motorista.
- Saia e identifique-se!
O general Scheider abriu o vidro, ps a cabea de fora e disse num tom irritado.
- General Scheider. Mas que raio se passa aqui?
O tenente ps-se em sentido.
- Desculpe, meu general. No sabia que era o seu carro. Os olhos do general percorreram a barricada.
- Qual a razo de tudo isto?
- Temos ordens para inspeccionar todos os veculos vindos de Paris, Herr General. Todas as sadas da cidade esto bloqueadas.
O general virou-se para Noelle.
- Esta Gestapo. Lamento muito, Liebchen.
Noelle conseguia sentir o sangue a esvair-se-lhe do rosto, e ficou; grata pela escurido do carro. Quando falou, a voz estava controlada
- No tem importncia - disse ela.
Pensou na carga que estava na bagageira. Se o plano tinha falhado, Israel Katz estava l dentro, e dentro de um minuto seria preso. Tal como ela.
O tenente alemo voltou-se para o motorista.
- Abra o porta-malas, por favor.
- S trazemos malas l dentro, nada mais - protestou o capito.
- Eu prprio as coloquei.
- Lamento, capito. As ordens que recebi so bem claras. Todos os veculos vindos de Paris tm de ser inspeccionados. Abra.
A resmungar, o motorista abriu a porta e preparou-se para abri-lo. O pensamento de Noelle galopava furiosamente. tinha de achar meio para os impedir, sem levantar 
suspeitas. O motorista estava
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fora do carro. O tempo esgotara-se. Noelle lanou um olhar de soslaio para o rosto do general Scheider. tinha os olhos semicerrados e os lbios comprimidos de raiva. 
Virou-se para ele e disse ingenuamente:
- Vamos ter de sair, Hans? Vo revistar-nos?
Sentia o corpo dele tenso de fria.
- Espere! -Avoz do general pareceu o estalo dum chicote. -V para o carro - disse ele ao motorista. Virou-se para o tenente com a voz cheia de raiva. - Diga a quem 
lhe deu essas ordens que as mesmas no se aplicam a generais do Exrcito Alemo. Eu no recebo ordens de tenentes. Afaste a patrulha do meu caminho.
O pobre tenente fixou o rosto furioso do general, bateu os calcanhares e disse:
- Pois no, general Scheider. - Fez sinal ao condutor do camio que bloqueava a estrada, e o camio encostou-se  berma.
- Vamos embora - ordenou o general Scheider.
E o carro desapareceu na noite.
Lentamente Noelle descontraiu o corpo, sentindo que a tenso a abandonava. A crise passara. Como gostaria de saber se Israel Katz estava na mala do carro. E se estava 
vivo. O general Scheider virou-se para Noelle e ela sentiu que a raiva ainda fervilhava nele.
- Peo desculpa - disse ele, extenuado. - Esta guerra  estranha. s vezes  preciso lembrar  Gestapo que  a tropa quem dirige guerra.
Noelle sorriu-lhe e meteu o brao no dele.
- E que a tropa  dirigida pelos generais.
- Exactamente - concordou ele. - A tropa  dirigida por generais. O coronel Muller vai ter de aprender uma lio.
Dez minutos depois de o carro do general Scheider ter passado a barricada, telefonaram do Quartel-General da Gestapo a alertar para estarem atentos ao carro.
- j passou por aqui - informou o tenente, invadido por um pressentimento.
Um momento depois, tinha o coronel Muller na linha.
- H quanto tempo? - perguntou o oficial da Gestapo em tom leve.
- Dez minutos.
- Revistaram-lhes o carro? 
O tenente sentiu uma revolta nos intestinos. 
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No, coronel. O general no deixou...
- Scheiss! Para onde  que ia?
O tenente engoliu em seco. Quando voltou a falar, f-lo na voz desesperanada dum homem que sabia ter o futuro destrudo.
- No tenho a certeza - respondeu ele. - Este cruzamento  muito grande. Poderia ter seguido para o interior em direco au sul ou para o litoral, na direco do 
Havre.
- Apresente-se no Quartel-general da Gestapo amanh s nove horas. No meu gabinete.
- Sim, meu coronel - respondeu o tenente.
Furiosamente, o coronel Muller desligou. Virou-se para os outros dois homens que estavam a seu lado e disse:
- O Havre. V buscar o meu carro. Vamos  caa das baratas.
A estrada para o Havre serpenteia ao longo do rio, por entre o  vale do Sena com a suas ricas colinas e quintas frteis. A noite e:estava clara e estrelada e as 
casas das quintas ao longe eram poos  como osis na escurido. No conforto do assento traseiro da limusine Noelle e o general Scheider conversavam. Falou-lhe da 
mulher e filhos e de como era difcil o casamento para um oficial do exrcito. Noelle escutou com compreenso e disse-lhe como era difcil a actriz tervida romntica. 
Cada um estava consciente de que a vida era um jogo, ambos mantendo-a a um nvel superficial que trasse algo mais profundo. Noelle nem por um instante subestimou 
a inteligncia do homem que se sentava a seu lado, e compreendu perfeitamente o perigo enorme da aventura em que se metera. Sabia que o general Scheider era esperto 
de mais para acreditar que ela o tinha achado repentinamente irresistvel, que devia desconfiar que ela andava atrs de alguma coisa. Noelle contava que puderia 
levar-lhe a melhor no jogo que jogavam. O general mal falou no assunto da guerra, mas disse algo que se lembrou durante muito tempo.
- Os ingleses so uma raa estranha - disse ele. -  em paz so de relacionamento impossvel, mas numa crise so magnficos. Um marinheiro ingls s o  verdadeiramente 
quando o navio est a ir ao fundo.
Chegaram ao Havre s primeiras horas da manh, a caminho daldeia de Ertrat.
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- Podemos parar para comer? - perguntou Noelle. - Estou a morrer de fome.
O general Scheider anuiu.
- Claro, se quiser. -Elevou avoz. -Veja se encontra um daqueles restaurantes que esto abertos toda a noite.
- Tenho a certeza de que h um junto ao cais - sugeriu Noelle. O capito obedientemente virou o carro para a zona porturia. Parou o carro junto  gua, onde vrios 
cargueiros estavam atracados. No quarteiro seguinte um letreiro dizia Caf.
O capito abriu a porta e Noelle saiu, seguida pelo general Scheider.
- Deve estar sempre aberto por causa dos trabalhadores da doca - disse Noelle.
Ouviu o som dum motor e virou-se. Era uma empilhadora que se aproximara e pararajunto  limusina. Dois homens de fato- macaco e bons de pala comprida que Lhes ocultavam 
o rosto saram da mquina. Um deles lanou um olhar demorado a Noelle, depois tirou a mala das ferramentas e comeou a apertar o garfo da empilhadora. Noelle sentiu 
uma contraco nos msculos do estmago. Deu o brao ao general Scheider, e dirigiram-se para o caf. Noelle virou-se para o motorista que se sentava ao volante.
- Ele no querer tomar um caf? - perguntou Noelle.
- Ele fica no carro - disse o general.
Noelle fitou. O motorista no podia ficar no carro, ou tudo iria por gua abaixo. Noelle, porm, no se atreveu a insistir.
Caminharam at  esplanada sobre um pavimento empedrado e desnivelado. De repente, ao dar um passo, torceu o tornozelo e caiu, emitindo um grito agudo de dor. O 
general Scheider ainda esticou um brao para socorr-la, mas j o seu corpo batera nas pedras.
- No se aleijou? - perguntou ele.
O motorista, vendo o que acontecera, abandonou o volante do carro e veio a correr ao encontro deles.
- Desculpe - disse Noelle -, mas torci o tornozelo. Parece que st partido.
O general Scheider passou a mo destramente sobre o tornozelo. - No est inchado. Deve ter sido apenas um entorse. Consegue pr-se de p?
 -  No... no sei - disse Noelle.
O motorista chegou, colocando-se a seu lado, e os dois homens ergueram-na. Noelle deu um passo e o tornozelo deu de si.
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- Desculpem-me - gemeu ela. - Se me pudesse sentar.
- Ajude-me a lev-la at ali - disse o general Scheider, apontando para o caf.
Com os dois homens a apoi-la em ambos os lados Noelle entrou no restaurante. Quando atravessou a porta, arriscou um olhar rpido para o carro. Os dois trabalhadores 
da doca estavam junto ao porta-bagagens da limusina.
- Tem a certeza de que no preferia seguirj para Ertrat? - perguntava o general.
- No, eu vou ficar bem, acredite - respondeu Noelle. O proprietrio levou-os para uma mesa do canto, e os dois homens instalaram-na numa cadeira.
- Di-lhe? - perguntou o general Scheider.
- Um pouco - respondeu Noelle. Ps a mo sobre a dele. - No se preocupe. No deixarei que isto nos prejudique, Hans.
Na altura em que Noelle e o general Hans Scheider estavam no caf, o coronel Muller e dois dos seus homens aproximavam-se rapidamente dos limtrofes da cidade do 
Havre. O comandante da polcia local fora acordado e aguardava os homens da Gestapo em frente  esquadra da polcia.
- Um agente localizou o carro do general -disse ele. -Est estacionado na zona do cais.
Um brilho de satisfao surgiu no rosto do coronel Muller.
- Leve-me at l - ordenou ele.
Cinco minutos depois, o carro da Gestapo que transportava o coronel Muller, os seus dois homens e o comandante da polcia parara de rompante junto  viatura do general 
Scheider no cais. Os homens saram e cercaram o carro. Nesse momento, o general Scheider, Noele e o motorista preparavam-se para abandonar o caf. O motorista foi 
quem primeiro reparou nos homens que se encontravam junto ao carro. Correu na sua direco.
- que se passa? - perguntou Noelle, reconhecendo nesse preciso momento a figura do coronel Muller ao longe e sentindo um calafrio invadi-la.
- No sei - disse o general Scheider. Comeou a andar na direco da limusina com passos largos, deixando Noelle atrs coxeando.

- Que faz voc aqui? - perguntou o general Scheider ao coronel Muller assim que chegou ao carro.
- Lamento perturbar as suas frias - respondeu o coronel Muller, sem maneiras. - Gostava de inspeccionar a mala do seu carro, general.
- S h l bagagem.
Noelle chegou ao ajuntamento. Reparou que a empilhadora j l no estava. O general e os homens da Gestapo entreolhavam- se furiosamente.
- Tenho de insistir, meu general. Tenho razes para crer que um inimigo procurado pelo Terceiro Reich est escondido ali dentro e que a sua convidada  cmplice 
dele.
O general Scheider fitou- longamente e depois virou-se para examinar Noelle.
- No fao ideia do que ele est a dizer - disse ela com firmeza. Os olhos do general baixaram at ao tornozelo dela, tomando depois uma deciso, e voltou-se para 
o motorista.
- Abra.
- Pois no, meu general.
Todos os olhares se fixaram no porta-bagagens quando o motorista deu a volta ao manpulo. Noelle sentiu subitamente que ia perder os sentidos. Lentamente, a porta 
abriu-se.
O porta-bagagens estava vazio.
- Roubaram-nos a bagagem! - exclamou o motorista. O rosto do coronel Muller estava contorcido de fria.
- Ele fugiu!
- Quem  que fugiu?
- Le Cafard - trovejou o coronel Muller.
- Umjudeu chamado Israel Katz. Saiu de Paris no porta-bagagens deste carro.
- Isso  impossvel - retorquiu o general Scheider.
- o porta-bagagens estava trancado. Ele teria sufocado. O coronel muller examinou o porta-bagagens por um momento, depois voltou-se para um dos seus homens.
- Meta-se l dentro.
- Sim, meu coronel.
Obedientemente, o homem enfiou-se no porta-bagagens. O coronel Muller fechou bem a porta e olhou para o relgio. Nos quatro minutos seguintes, todos permaneceram 
em silncio, cada um entretido nos seus pensamentos. Por fim, depois do que pareceu ter sido
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uma eternidade para Noelle, o coronel Muller abriu a porta. O homem perdera os sentidos. O general Scheider voltou-se para o coronel Muller com uma expresso de 
desdm no rosto.
- Se estava algum a dentro - declarou o general -, encontraram foi o cadver dele. Posso ajud-lo em mais alguma coisa, coronel?
O oficial da Gestapo abanou a cabea, fervilhando de raiva e frustrao. O general Scheider voltou-se para o motorista.
- Vamos embora.
Ajudou Noelle a entrar no carro, e seguiram para Ertrart, afastando-se do grupo de homens, que diminuam na distncia.
O coronel Kurt Muller ordenou uma busca imediata  zona do cais, mas s na tarde do dia seguinte encontraram uma garrafa de oxignio dentro de um barril num canto 
dum armazm abandonado. Um cargueiro africano levantara ferros do Havre com destino  Cidade do Cabo na noite anterior, estando agora algures em alto mar. A bagagem 
desaparecida surgiu dias depois na seco de perdidos e achados da Gare du Nord em Paris.
Noelle e o general Scheider passaram o fim-de-semana em Ertrat e regressaram a Paris ao fim da tarde de segunda-feira, a tempo de Noelle actuar na sesso dessa noite.
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CATHERINE
Washington: 1941-1944
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Catherine deixara de trabalhar para William Fraser na manh seguinte depois do casamento com Larry. Fraser convidou-a a almoar com ele no dia em que regressou a 
Washington. tinha um ar abatido e macilento e tornara-se subitamente mais velho. Catherine sentira compaixo por ele, mas nada mais do que isso. Estava sentada  
frente de um estranho alto e elegante por quem sentira afeio, mas agora nem queria acreditar que um dia pensara casar-se com ele. Fasser deu-lhe um sorriso plido.
- Ento s uma mulher casada - disse ele.
- A mulher mais casada do mundo.
- Deve ter acontecido muito repentinamente. Como eu teria desejado poder competir!
- Nem eu consegui - disse Catherine honestamente. - Apenas aconteceu.
- Larry  uma ptima pessoa.
- , sim.
- Catherine - Fraser hesitou -, no sabes realmente muita coisa a respeito de Larry, pois no?
Catherine sentiu o corpo empertigar-se.
- Sei que o amo, Bill - disse ela tranquilamente -, e sei que ele me ama. E um comeo muito bom, no ?
Ele franziu o sobrolho, em silncio, com dificuldade em exprimir-se.
- Catherine.
- Sim?
- Tem cuidado.

- Com qu? - perguntou ela.
Fraser falava lentamente, apalpando com cautela o campo de minas que  o terreno das palavras.
- Larry ... diferente.
- Em que sentido? -perguntou ela, dificultando-lhe a conversa.
- Bem, ele no  como a maioria dos homens. -Viu o ar com que ela ficou. - Oh, que diabo - disse ele. - No ligues ao que eu estou a dizer. - Conseguiu um sorriso 
forado. -J deves ter lido a biografia que Esopo fez de mim. A raposa e as uvas verdes.
Catherine tomou-lhe a mo afectuosamente.
- Nunca me esquecerei de ti, Bill. Espero que possamos ser amigos.
- Tambm eu espero isso - disse Fraser. -Tens a certeza de que no queres continuar a trabalhar no meu gabinete?
- Larry quer que eu me despea.  um bota de-lstico. Acha que os maridos devem sustentar as mulheres.
- Se algum dia mudares de ideias - disse Fraser -, diz-me. Passaram o resto do almoo a falar de assuntos de trabalho e da pessoa que substituiria Catherine. Sabia 
que ia ter muitas saudades de Bill Fraser. Achava que o primeiro namorado ocuparia sempre um lugar especial na vida duma mulher, mas Bill significara para ela um, 
pouco mais do que isso. Era um homem amoroso e um bom amigo. Catherine ficou perturbada com a atitude dele em relao a Larry. Foi como se Bill quisesse preveni-la 
de alguma coisa, e depois parou para no lhe estragar a felicidade. Ou foi, como dissera, apenas um caso de uvas verdes? Bill Fraser no era um homem mesquinho, 
nem ciumento. Certamente desejava a felicidade dela. E no entanto Catherine tinha a certeza de que tentara dizer-Lhe alguma coisa. Tinha um vago pressentimento. 
Mas, uma hora depois, quando se encontrou com Larry e ele lhe sorriu, esqueceu-se de tudo, excepto da felicidade de estar casada com este ser humano incrvel e alegre.
Catherine nunca tivera uma companhia como a de Larry. Cada dia era uma aventura, um feriado. Viajavam para o campo todos os fins de-semana e hospedavam-se em pequenas 
pousadas e iam de feiras de regio. Iz a Lake Placid e escorregavam no enorme tobo e a Montauk, onde remavam e pescavam. Catherine morria de medo da gua porque 
nunca aprendera a nadar, mas Larry disse-lhe q
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no se preocupasse com isso, e na companhia dele ela sentia-se segura.
Larry era meigo e atencioso e parecia completamente alheio da traco que produzia nas outras mulheres. Catherine parecia ser tudo o que ele desejava. Durante a 
lua-de-mel Larry descobrira um passarinho de prata numa loja de antiguidades e Catherine gostara tanto que Larry lhe comprou um de cristal que se tornara o primeiro 
duma coleco. Num sbado  noite foram at ao Maryland para comemorar o terceiro ms de casados e jantaram no mesmo restaurantezinho.
No domingo, 7 de Dezembro, osjaponeses atacaram Pearl Harbor.
A declarao de guerra da Amrica contra o Japo surgiu no dia seguinte, quando passavam trinta e dois minutos das treze horas, a menos de vinte quatro horas aps 
o ataque japons. Na segunda-feira, enquanto Larry estava na Base Area de Andrews, Catherine, incapaz de suportar estar sozinha no apartamento, apanhouum txi para 
o Capitlio para ver o que estava a acontecer. Grupos de pessoas aglomeravam-se em torno dos aparelhos de rdio espalhados entre a multido que enchia os passeios 
da Praa do Capitlio. Catherine viu o cortejo presidencial que se aproximava do porto e paroujunto  entrada do Capitlio. Catherine estava suficientemente perto 
para ver o presidente Roosevelt sair ajudado por dois ajudantes. Havia dezenas de polcias em cada esquina, atentos a tumultos. O esprito que predominava na multido 
pareceu, no ver de Catherine, ser de violncia, como se fosse um grupo de linchadores vido de entrar em aco.
Cinco minutos depois de ter entrado no Capitlio, o presidente Roosevelt falava na rdio, quando se dirigia  Sesso Plenria do Congresso. A sua voz era forte e 
firme, plena de determinao irada.
- AAmrica no se esquecer desta chacina... O poder dosjustos vencer... Ser um triunfo inevitvel, se Deus quiser.
Quinze minutos depois de Roosevelt ter entrado no Capitlio, o Plenrio aprovou a Resoluo n." 254, que declarava guerra ao Japo. Foi aprovada por unanimidade, 
excepto pela deputada Jeanette Rantin do Estado de Montana, que votou contra a declarao de guerra, de forma que a votao final foi de 388 votos a favor e 300contra. 
O dignssimo  presidente Roosevelt demorara dez minutos exactos - a

Fazer a mais curta mensagem de guerra j alguma vez dirigida ao Congresso americano.
A multido na rua ovacionava, um rugido de aprovao em plena voz, uma raiva e uma promessa de vingana. A Amrica entrava finalmente em aco.
Catherine examinou os homens e as mulheres que se encontravam junto dela. Nos rostos dos homens havia o mesmo ar de regozijo que vira no rosto de Larry no dia anterior, 
como se todos pertencessem a um clube secreto cujos membros sentiam que a guerra era um desporto excitante. At as mulheres pareciam tomadas pelo entusiasmo espontneo 
que arrebatava a multido. Mas Catherine gostava de saber o que sentiriam quando os homens partissem e elas ficassem sozinhas  espera de notcias dos maridos e 
dos filhos. Lentamente, Catherine virou-se e voltou a p para casa. Na esquina viu soldados com as baionetas caladas. Em breve, pensou, o pas inteiro estaria fardado. 
Aconteceu ainda mais cedo do que Catherine previra. Num pice, Washington transformou-se num exrcito de cidados vestidos de caqui.
No ar havia uma excitao elctrica e contagiante. Era como se a paz fosse uma letargia, um miasma que enchia a raa humana com uma sensao de aborrecimento, e 
s uma guerra conseguia estimular o homem a ser completamente feliz.
Larry ficava entre dezasseis e dezoito horas na Base Area, e frequentemente passava l a noite. Disse a Catherine que a situao em Pearl Harbor e Hickman Field 
era muito pior do que se dizia. O ataque traioeiro fora um xito devastador. A Marinha americana e uma boa parte da Fora Area tinham ficado praticamente destrudas.
- Ests a dizer que podemos perder a guerra? - perguntou Catherine, chocada.
Larry olhou para ela pensativamente.
- tudo depende da rapidez da nossa reaco - respondeu ele. Toda a gente pensa que os japoneses so uns homenzinhos engraados com os olhos em bico. Isso  conversafiada. 
Eles so rijos e no tm medo de morrer. Ns somos moles.
Nos meses seguintes nada parecia deter osjaponeses. Os dirios gritavam os seus xitos: estavam a atacar Wake... de das Filipinas para a invaso. desembarque em 
Guam. em Bo em Hong-Kong. Manila declarada cidade aberta pelo general
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thur, e as tropas americanas encurraladas nas Filipinas renderam-se.
Certo dia de Abril, Larry telefonou a Catherine da Base para lhe dizer que fosse ter com ele  Baixa para um jantar de celebrao no Hotel Willard.
- Celebrar o qu? - perguntou Catherine.
- Digo-te hoje  noite - respondeu Larry. A sua voz tinha um tom de grande excitao.
Quando Catherine desligou, estava totalmente possuda por um mau pressentimento. Tentou imaginar todas as razes possveis que Larry teria para comemorar, mas pensava 
sempre na mesma e achava que no teria fora suficiente para enfrentar. As cinco horas dessa tarde Catherine estava arranjada, sentada na cama com o olhar fixo no 
espelho do toucador. Posso estar enganada, pensava. Talvez tenha sido promovido.  isso que vamos comemorar. Ou ento tem boas notcias sobre a guerra. Catherine 
queria em vo convencer-se. Mirou-se no espelho demoradamente, tentando ser objectiva. Embora no tirasse o sono a Ingrid Bergman, era, concluiu com imparcialidade, 
uma mulher atraente. tinha um corpo sinuoso e provocante. es inteligente, alegre, educada, amvel e atraente, disse a si prpria. Por que estaria um homem normal 
e de sangue quente ansioso por te deixar para ir morrer numa guerra?
As sete horas Catherine entrou na sala dejantar do Hotel Willard. Larry ainda no tinha chegado, e o maitre d'htel conduziu-a  mesa. No quis beber nada, depois 
nervosamente mudou de ideias e pediu um martini.
Quando o empregado trouxe a bebida, Catherine levou o copo  boca e viu que as mos tremiam. Ergueu o olhar e viu Larry vir em direco  mesa. Caminhava por entre 
as mesas, respondendo s saudaes que lhe dirigiam. trazia consigo aquela vitalidade incrvel, aquela aura que fazia que todos os olhares se virassem para ele. 
Catherine olhava-o, lembrando-se do dia em que viera  mesa dela no refeitrio da MGM em Hollywood. recordou-se do pouco que sabia dele na altura, desejando saber 
quanto o conhecia agora. Ele chegou e deu-lhe um beijo rpido na face.
- Desculpa o atraso, Cathy - pediu desculpa. - A Base hoje parecia um manicmio. - Sentou-se, cumprimentou o chefe de mesa pelo nome e pediu um martini. Se reparou 
que Catherine bebia, no fez nenhum comentrio.
O pensamento de Catherine gritava: Conta-me a tua surpresa.
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Diz-me o que vamos celebrar. Mas ficou calada. Diz um velho provrbio hngaro que s os idiotas do logo as ms notcias. Sorveu um pouco mais do martini. Bem, talvez 
no fosse um velho provrbio hngaro. Talvez fosse um novo provrbio de Catherine Douglas, destinado a proteger os fracos. Talvez o martini estivesse a deix-la 
um pouco embriagada. Se no se enganara, estaria bbeda antes do fim do jantar. Mas, ao olhar agora para Larry, o seu rosto repleto de amor, Catherine viu que tinha 
de estar enganada. A Larry custaria igualmente deix-la. Estivera a magicar um pesadelo. Com a expresso de felicidade no rosto, ele s tinha uma boa notcia para 
lhe dar.
Larry debruava-se sobre ela, com o seu sorriso de adolescente, segurando-lhe a mo.
- No te passa pela cabea o que aconteceu, Cathy. Vou para o Havai.
Foi como se uma cortina transparente descesse, deixando tudo irreal e confuso. Larry estava sentado a seu lado, mexendo os lbios, mas o rosto dele surgia focado 
e desfocado, e Catherine no conseguia ouvir o que dizia. Olhou por cima do ombro dele, e as paredes do restaurante moviam-se. Ficou a olhar, fascinada.
- Catherine! - Larry abnava-lhe o brao e lentamente os olhos dela focaram-no e tudo voltou ao normal. - Ests bem?
Catherine disse que sim com a cabea, engoliu em seco e disse, com a voz trmula:
- Sinto-me bem. Fico sempre bem quando recebo uma notcia boa.
- Aceitas que eu tenha de ir, no aceitas?
- Sim, aceito. - Averdade  que nunca aceitaria nem que vivesse um milho de anos, meu querido. Mas se to dissesse ias detestar
- me, no ias? Quem  que quer uma mulher chata? As mulheres dos heris despedem-se dos maridos com um sorriso nos lbios.
Larry observava-a, preocupado.
-  ests a chorar.
- No estou nada - disse Catherine indignada e viu, cheia de raiva, que estava. - S tenho de me habituar  ideia.
- Vou ter a minha prpria esquadrilha - disse Larry.
- Ah ? - Catherine tentou encher a voz de orgulho. Uma esquadrilha. Quando era rapazinho, devia ter um combo completo para brincar. E agora que era um menino crescido 
tinha uma esquadrilha s para ele. S que estes brinquedos eram verdadeiros, com a garantia de serem abatidos, sangrarem e morrerem.
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- Apetecia-me outra bebida - disse ela.
- Com certeza.
- Vais-te embora quando?
- S para o ms que vem.
Dava a entender que estava ansioso por partir. Custava-lhe muito sentir que a estrutura do casamento era fortemente abalada. No palco um cantor entoava Uma viagem 
at  Lua em asas de fina gaze...
Gaze fina, pensou ela.  disso que o meu casamento  feito: gaze. A Cole Porter nada escapava.
- Temos muito tempo antes da minha partida - dizia Larry. Muito tempo para qu? perguntava Catherine a si prpria. Muito tempo para constituirmos famlia, esquiarmos 
com os nossos filhos em Vermont, envelhecermosjuntos...
- Que gostarias de fazer hoje  noite? - perguntou Larry. eGostava de te levar ao hospital para te extrarem um dedo do p. Ou furarem-te um tmpano.
Em voz alta, Catherine disse:
- Vamos para casa fazer amor. - E havia uma urgncia feroz e desesperada na sua atitude.
As quatro semanas seguintes voaram. Os relgios avanavam num pesadelo kafkiano que transformava os dias em horas e as horas em minutos, e depois, incrivelmente, 
chegou o dia de Larry. Catherine levou-o ao aeroporto. Estava falador, feliz e alegre, e ela estava taciturna, calada e infeliz. Os ltimos minutos foram um caleidoscpio 
de embarque... um beijo de despedida dado  pressa... Larry a entrar no avio que ia afast-lo dela... e um ltimo adeus. Catherine ficou no campo a ver o avio 
reduzir-se a um ponto minsculo no cu at desaparecer. Esteve por l uma hora, e por fim, quando escureceu, regressou ao apartamento vazio.
No ano a seguir ao ataque a Pearl Harbor, combateram-se dez andes batalhas navais e areas contra os japoneses. Os Aliados nereceram apenas trs, mas duas delas 
foram decisivas: Midway e a battalha de Guadalcanal.
Catherine lia palavra por palavra as notcias que osjornais descreviam todas as batalhas e ainda pedia a William Fraser que lhe
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arranjasse mais pormenores. Escrevia a Larry diariamente, mas s oito semanas depois  que recebeu a primeira carta dele. Estava optimista e cheio de entusiasmo. 
A carta fora abundantemente censurada, de forma que Catherine no fazia ideia donde ele estava ou do que fazia. Fosse o que fosse, teve a sensao de que estava 
a gostar, e nas horas longas e solitrias nocturnas Catherine deitava-se na cama a matutar no assunto, tentando descobrir o que levava Larry a reagir ao desafio 
da guerra e da morte. No que desejasse morrer, pois Catherine nunca conhecera pessoa to bem-disposta e cheia de vida; mas talvez fosse simplesmente o reverso da 
medalha: o que aguava o sentido da vida era uma preocupao constante com a morte. Foi almoar com William Fraser. Catherine soube que tentara alistar-se, mas a 
Casa Branca dissera- lhe que seria mais til no seu posto. Fora uma amarga desiluso. Porm, nunca tocara no assunto com Catherine. Agora que estava sentado em frente 
a ela  mesa do almoo perguntou lhe:
- Tiveste notcias de Larry?
- Recebi uma carta na semana passada.
- Que  que ele dizia?
- Bem, segundo a carta, a guerra  uma espcie de jogo de futebol. Perdemos o primeirojogo, mas agora entraram os sniores e estamos a recuperar.
Ele fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Isso  mesmo de Larry.
- Mas a guerra no  isso - disse Catherine num tom calmo. No  uma partida de futebol. Vo morrer milhes de pessoas antes do fim da guerra.
- J que estamos envolvidos, Catherine - disse ele gentilmente -, acho que  mais fcil pensar na guerra como uma partida de futebol.
Catherine decidira recomear a trabalhar. O Exrcito criara
ramo para mulheres denominado WACS, Women Amy Corps Se ce, e ela pensara alistar-se, mas sentira que poderia ser mais tilfazendo outras coisas para alm de conduzir 
viaturas ou atender telefones. Embora tivesse ouvido que o WACS era bastante agradvel. Eram tantas as grvidas, que se dizia que quando as voluntrias iam fazer 
o exame fsico os mdicos lhes punham um carimbo na barriga. As mulheres tentavam ler as palavras, mas no conseguiam. que uma delas se lembrou de usar uma lupa. 
Dizia o seguinte: quem
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conseguir ler isto a olho nu, consulte-me. Durante o almoo com Bill Fraser, disse:
- Quero trabalhar. Quero ser til em alguma coisa. Examinou-a por um momento, depois fez um sinal de concordncia com a cabea.
- A coisa que sei exactamente aquilo de que precisas, Catherine. O Governo est a tentar vender filmes de Guerra. Acho que podias fazer parte da organizao.
Duas semanas depois, Catherine comeou a trabalhar na organizao das vendas de filmes de Guerra ao lado de gente famosa. Parecera um projecto ridiculamente fcil, 
mas a sua concretizao mostrou-se algo bem diferente. Descobriu que as estrelas de cinema eram como crianas, ansiosas e excitadas por ajudar no esforo de guerra, 
mas que era difcil cumprirem uma data. Os horrios eram constantemente alterados. A culpa no era muitas vezes delas, uma vez que os filmes atrasavam-se ou os prazos 
eram alterados. Catherine viue em viagens constantes de Washington para Hollywood e Nova Iorque. Habituou-se a ter de se ausentar com uma hora de aviso, levando 
na mala apenas a roupa necessria para cada deslocao. Conheceu dezenas de celebridades.
- Falou mesmo com Cary Grant? - perguntou-Lhe a secretria no regresso de uma viagem a Hollywood.
- Almomos juntos.
-  to encantador como dizem?
- Se ele pudesse met-lo num saco - declarou Catherine -, seria o homem mais ricco do mundo.
Aconteceu to gradualmente que Catherine quase nem deu conta. Seis meses antes, quando Bill Fraser lhe contou um problema que Wallace rner tinha com um dos contratos 
de publicitrios de que Catherine fora responsvel, ela delineara uma nova campanha recorrendo ao humor, o que deixou o cliente bastante satisfeito. Semanas depois, 
Bill pedira a Catherine que ajudasse na prossecuo de outro contrato, e, antes que se apercebesse, estava a dedicar mais de metade do seu tempo  agncia de publicidade. 
Era responsvel por meia dzia de contratos, todos eles bem encaminhados. Fraser dera-Lhe um ptimo salrio e uma percentagem. Ao mexoiia da vspera de Natal, Fraser 
entrou no gabinete dela. O restante pessoal j havia sado, e Catherine terminava um trabalho de ltima hora.
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- Entretida? - perguntou ele.
- Ganhando a vida - sorriu ela, e acrescentou com afecto: -. e bem. Obrigada, Bill.
- No me agradeas.  mereces todos os tostes e... mais alguns.  desses mais alguns que te quero falar. Estou a oferecer-te sociedade.
Olhou-o surpreendida.
- Sociedade?
- Metade dos novos contratos que fizemos nos ltimos seis meses, devemo-los a ti.
Ficou a olh-la pensativamente, sem dizer mais nada. E ela entendeu o quanto aquilo significava para ele.
- Tens uma scia - disse ela.
O rosto dele iluminou-se.
- No sei como exprimir a minha satisfao. -Desajeitadamen te, estendeu a mo.
Ela abanou a cabea, passou ao lado do brao estendido, abra ou-o e deu-lhe um beijo na face.
- Agora que somos scios - disse ele jocosamente -, posso beijar-te. -Sentiu que a apertou mais, de repente. -Cathy-disse ele -, eu.
Catherine ps-lhe um dedo sobre os lbios.
- No digas nada, Bill. Vamos deixar as coisas como esto.
-  sabes que estou apaixonado por ti.
- E eu amo-te - disse ela com afecto.
HA semntica, pensou. A diferena entre amo-te e estou apaixonada por ti era um abismo intransponvel.
Fraser sorriu.
- No te vou maar, prometo. Respeito os teus sentimentos por Larry.
- Obrigada, Bill. -Ela hesitou. - No sei se serve para alguma coisa, mas, se um dia houvesse outra pessoa, serias tu.
-  umagrande esperana-disse num sorriso largo. -Nom vai deixar dormir esta noite.
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NOELLE
Paris: 1944
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Durante o ano que terminava, Armand Gautier deixara de abordar a questo do casamento. No comeo sentira-se numa posio superior em relao a Noelle. Agora, contudo, 
a posio quase se invertera. Quando davam entrevistas aosjornais, era a Noelle que as perguntas eram dirigidas, e aonde quer que fossemjuntos Noelle era a atraco, 
ele ficava em segundo plano.
Noelle era a amante perfeita. Preocupava-se com o conforto de Gautier, fazia o papel de anfitri e, com efeito, fazia dele um dos homens mais invejados de Frana; 
mas na verdade ele no tinha um momento de descanso, pois sabia que Noelle no lhe pertencia, e estava para chegar o dia em que iria deix-lo" sempre que se lembrava 
do que sofrera quando Noelle o abandonara, Gautier sentia um n no estmago. Contra a sua vontade, a sua experincia e o seu conhecimento das mulheres, estava louca 
e incontrolavelmente apaixonado por Noelle. Ela era a nica coisa que tinha importncia na vida dele. Passava noites em branco a imaginar surpresas complicadas para 
a fazer feliz e, quando resultavam, recebia como recompensa um orriso e um beijo ou uma noite de amor no suplicado. Sempre que Noelle olhava para outro homem, Gautierficava 
cheio de cimes, mas preferia calar-se. Certa vez, numa festa, depois de ela ter passado a noit inteira a falar com um mdico de renome, Gautier enfurecera-se com 
ela. Noelle escutara a diatribe dele e depois respondera calmamente:
- Se o facto de eu falar com outros homens te incomoda, Armand, saio de casa hoje mesmo.
Ele no voltara a tocar no assunto.

No incio de Fevereiro, Noelle inaugurou o dia em que recebia. Comeara por um simples pequenalmoo de domingo bem servido na companhia de alguns dos amigos do teatro, 
mas,  medida que se espalhava, a notcia expandiu-se rapidamente e comeou a incluir polticos, cientistas, escritores - toda a gente que o grupo pensava ser interessante 
ou divertida. Noelle era a anfitri e uma das atraces principais. Todos se sentiam ansiosos por lhe dirigirem a palavra, pois Noelle fazia perguntas incisivas 
e lembrava-se das respostas. Aprendeu poltica com polticos e finana com banqueiros. Um conhecido perito de arte ensinou-Lhe arte, e pouco depois sabia tudo sobre 
os grandes artistas franceses que viviam em Frana. O director das vinhas do Baro ftothschild ensinou-Lhe tudo sobre vinhos, e Corbusier foi o seu mestre em arquitectura. 
Noelle tinha os melhores professores do mundo, e eles, por sua vez, tinham uma bela e fascinante aluna. tinha um esprito gil e curioso e era uma ouvinte inteligente. 
Armand Gautier tinha a sensao de estar a ver uma princesa rodeada pelos seus ministros, e, tivesse ele sabido, esta e a forma mais prxima de poder compreender 
o carcter de Noelle.
Com o passar dos meses; Gautier comeava a sentir-se mais segu-
ro. Pareceu-lhe que Noelle conhecera todas as pessoas que poderia ter importncia e que no mostrara interesse por nenhuma delas
Ela ainda no conhecera Constantin Demiris.
Constantin Demiris era o senhor dum imprio maior e mais perigoso do que muitos pases. No possua ttulo ou posio oficial, regularmente comprava e vendia primeiros-ministros, 
cardeais, embaixadores e reis. Demiris era um dos dois ou trs homens mais do mundo, e o seu poder era lendrio. Possua a maior frota de guerreiros que cruzavam 
os oceanos, uma companhia area, jornais, bancos, siderurgias, minas de ouro - os seus tentculos estavam em toda a parte, inextricavelmente tramado e urdido no 
tecido econmico de dezenas de pases.
Possua uma das maiores coleces de arte do mundo, uma esquadrilha de avies particulares e uma dzia de apartamentos e villas espalhadas pelo globo.
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Constantin Demiris era um homem relativamente alto, de peito e ombros largos. Era moreno e tinha um nariz grego enorme e uns olhos to negros como a cor da azeitona 
que resplandeciam com inteligncia. No se preoocupava muito com o que vestia, mas fazia sempre parte da lista dos homens mais bem vestidos e dizia-se que tinha 
mais de quinhentos fatos. Eram sempre feitos por medida onde quer que se encontrasse. Saam das mos de Hawes e Curtis em Londres, as camisas eram feitas por Brioni 
em Roma, os sapatos por Daliet Grande em Paris e as gravatas vinham de uma dzia de pases.
Demiris tinha uma presena magntica. Quando entrava numa sala, mesmo quem o desconhecia voltava-se para mir-lo. Jornais e revistas de todo o mundo escreviam um 
rio infindvel de histrias sobre Constantin Demiris e as suas actividades, quer comerciais, quer sociais.
A Imprensa atribua-lhe uma cotao alta. Quando umjornalista lhe perguntou se os amigos tinham contribudo para o seu sucesso, respondera:
- Para se ter xito, precisamos de amigos. Para se ter muito xito, precisamos de inimigos.
quando lhe perguntaram quantos empregados tinha, Demiris respondera:
- Nenhum. Apenas aclitos. Quando esto emjogo tanto poder e tanto dinheiro, o negcio transforma-se numa religio e os escritrios em templos.
Crescera no seio da Igreja Ortodoxa Grega, mas referia-se nestes termos  religio organizada:
- Cometeram-se mais de mil crimes em nome do amor do que em nome do dio.
Sabia-se que era casado com a filha oriunda duma velha familia de banqueiros gregos, que era uma mulher atraente e graciosa e que, quando Demiris recebia os amigos 
no seu iate ou na sua ilha particular, raramente o acompanhava. Em vez disso, aparecia na companhia duma bela actriz ou bailarina ou da sua paixo do momento. As 
suas aventuras romnticas eram to lendrias e pitorescas como as financeiras. Dormira com dezenas de actrizes de cinema, com as mulheres dos melhores amigos, com 
uma novelista de 15 anos, com vivas ainda de luto e at corria o boato de que uma vez um grupo de freiras se puseram  sua disposio porque precisavam de um novo 
convento. Havia meia dzia de livros publicados sobre Demiris, mas nunca nenhum tocara na essncia do homem ou conseguira revelar
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a origem do seu sucesso. Sendo uma das figuras mais pblicas do mundo, Constantin Demiris levava uma vida secreta e manipulava a imagem pblica como uma fachada 
que ocultava a sua verdadeira personalidade. tinha dezenas de amigos ntimos em todos os extractos sociais, e, no entanto, ningum realmente o conhecia. Os factos 
eram um assunto do conhecimento pblico. Nascera em Pireu, filho dum estivador, numa famlia de catorze irmos e irms onde a comida nunca chegava e, quando algum 
queria um pouco mais, tinha de lutar por isso. Demiris foi sempre insatisfeito e lutou para obter o que queria.
Mesmo em criana, Demiris convertia tudo em matemtica automaticamente. Sabia quantos degraus havia no Partenon, quantos minutos levava a chegar  escola, o nmero 
de barcos que havia no cais num dado dia. O tempo era um nmero dividido em segmentos, e Demiris aprendeu a no o desperdiar. O resultado foi que, sem qualquer 
esforo, conseguia realizar muito trabalho. O seu sentido de organizao era instintivo, um talento que funcionava automaticamente mesmo nas coisas mais pequenas 
que fazia. cedo se tornou um jogo em que sabia usar a sua esperteza contra a dos outros.
Embora Demiris estivesse consciente de que era mais inteligente que a maior parte dos homens, isso no o deixava demasiado vaidoso. quando uma mulher bonita queria 
dormir com ele, nem por instante se gabava que era pelo seu aspecto ou pela sua personalidade, mas nunca deixava que isso o incomodasse. O mundo era um mercado, 
e as pessoas ou compravam ou vendiam. Algumas mulheres sabia, eram atradas pelo dinheiro dele, umas pelo seu poder e outras - muito poucas - pela sua mente e imaginao. 
Quase todas as pessoas que conhecia queriam algo dele: um donativo para uma obra de caridade, dinheiro para um projecto de negcios ou simplesmente o poder que a 
sua amizade podia conceder. Demiris apreciava o desafio de conjecturar aquilo que as pessoas desejavam, pois raramente era o que parecia ser. O seu esprito poltico 
era cptico quanto  verdade superficial, pelo que no acreditava em nada e no confiava em ningum. Osjornalistas que falavam da vida dele apenas podiam ver a sua 
genialidade e o seu gnero de homem urbano e sofisticado do mundo. No suspeitavam de que, aquela superfcie, Demiris era um assassino, um lutador  cujo instinto 
procurava sempre a veia jugular.
Para os antigos Gregos apalavra thekaeossini, justia, era por vezes sinnimo de ekthekisss, vingana, e Demiris estava obcecado
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por ambas. Nunca esquecia uma desconsiderao, e quem tinha o azar de cair na sua inimizade arrependia-se para sempre. Nemsequer se apercebiam, pois o esprito matemtico 
de Demiris vingava-se com armadilhas complicadas, tecendo teias complexas que acabavam por prender e destruir as suas vtimas. Quando Demiris tinha 16 anos, fizera 
o primeiro negcio com um homem mais velho, de nome Spyros Nicholas. Demiris concebera a ideia de abrir uma pequena banca nas docas para servir comida quente aos 
estivadores do turno da noite. Juntara todos. os tostes para realizar a sua parte, mas, quando o negcio se tornou rendvel, Nicholas correu com ele e ficou sozinho 
 frente do negcio. Demiris aceitou o seu destino sem protestar e dedicou-se a outros negcios.
Nos vinte anos seguintes, Spyros Nicholas enveredara pelo negcio de embalagem de carne e enriquecera com sucesso. Casara, tinha trs filhos e era um dos homens 
mais importantes da Grcia. Durante esse tempo, Demiris esperou pacientemente e deixou Nicholas construir o seu imprio. Quando concluiu que Nicholas estava mais 
realizado e feliz do que nunca, Demiris atacou. Porque o negcio prosperava, Nicholas andava a pensar comprar umas quintas para criar o seu prprio gado e abrir 
uma cadeia de talhos. Precisava de muito dinheiro. Constantin Demiris era proprietrio do banco com que Nicholas trabalhava, e o banco encorajou Nicholas a fazer 
um emprstimo para expanso do negcio ajuros a que Nicholas no podia resistir. Nicholas no olhou para trs, e a meio da expanso o banco pediu o pagamento. Quando 
o homem, desnorteado, protestou que no podia pagar, o banco deu incio imediato a uma aco de falncia. Osjornais que Demiris possua publicaram logo a histria 
na primeira pgina, e outros credores comearam a assediar Nicholas. Dirigiu-se a outros bancos e instituies de crdito, mas, por motivos que no conseguiu descobrir, 
negaram-lhe ajuda. No dia seguinte a ter    abrido falncia, Nicholas suicidou-se. O sentido que Demiris dava a de thekaeossini era uma espada de dois gumes. Tal 
como nuns perdoava uma injria, tambm nunca esquecia um favor. Uma senhora que alimentara e vestira o jovem quando era pobre de mais para lhe pagar viu-se subitamente 
dona dum prdio de apartamentos, sem fazer ideia de quem era o seu beneficirio. Uma rapariga que recolhera o jovem e pobre Demiris na sua casa recebera uma boa 
penso vitalcia anonimamente. As pessoas que tinham lidado com ojovem e ambicioso rapaz grego quarenta anos antes no faziam ideia de como a relao casual com 
ele afectaria as suas vidas. O 
213

jovem e dinmico Demiris precisara de ajuda de banqueiros e advogados, comandantes de navios e de sindicatos, polticos e financeiros. Alguns haviam-no encorajado 
e ajudado, outros haviam-no recebido mal e enganado. Na cabea e no corao, o grego orgulhoso conservara um registo indelvel de todas as transaces. Melina, a 
esposa, acusara-o uma vez de fazer o papel de Deus.
- Todos os homens fazem o papel de Deus - dissera-lhe Demiris. - Uns esto mais capacitados para esse papel do que outros.
- Mas no est certo destruir a vida das pessoas, Costa.
- No  uma questo de estar certo.  justia.
-  Vingana.
- As vezes  a mesma coisa. A maioria dos homens no pagam o mal que fazem. Eu estou numa posio de os fazer pagar. Isso  justia.
Gostava das horas que passava a urdir armadilhas contra os seus adversrios. Estudava as vtimas cuidadosamente, analisando as suas personalidades, avaliando-lhes 
os pontos fortes e os fracos.
quando Demiris tinha trs pequenos cargueiros e precisou de um emprstimo para aumentar a frota, fora falar com um banqueiro suo em Basileia. O banqueiro no s 
no o recebeu como telefonou a outros banqueiros amigos seus prevenindo- os de que no dessem dinheiro nenhum ao jovem grego. Demiris conseguira finalmente arranjar 
o dinheiro na turquia.
Demiris dera tempo ao tempo. Concluiu que a ganncia do banqueiro era o seu calcanhar-de-Aquiles. Demiris estava em negociaes com IhnSaud da Arbia para a concesso 
da explorao dum novo poo de petrleo. As concesses trariam um lucro de vrias centenas de milhes de dlares para a companhia de Demiris.  Deu instrues a um 
agente para que fizesse chegar aos ouvidos
do banqueiro suo o negcio que ia realizar-se. O banqueiro teria uma participao de 25% na nova companhia se participasse com cinco milhes de dlares em dinheiro 
para comprar aces da Bolsa Quando o negcio se conclusse, os cinco milhes de dlares valeriam mais de cinquenta milhes. O banqueiro certificou-se de imediato 
do negcio e confirmou a sua autenticidade. No dispondo daquela quantia na sua conta pessoal, levantou o dinheiro sem informar ningum, pois no tinha desejo de 
partilhar aquele lucro inesperado. A transaco realizar-se-ia na semana seguinte, altura em que poderia repor o dinheiro que levantara. Assim que Demiris teve o 
cheq do banqueiro na mo, anunciou aosjornais que o compromisso com
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Arbia fora cancelado. As aces caram bruscamente. No havia maneira de o banqueiro cobrir o prejuzo, e o peculato que cometera foi
descoberto. Demiris comprou as aces do banqueiro por pouco menos de um dlar cada uma e depois concretizou o negcio do petrleo. O valor das aces subiu em flecha. 
O banqueiro foi acusado de peculato e condenado a vinte anos de priso. Havia algunsjogadores nojogo de Demiris de quem ainda no se desforrara, mas no tinha pressa. 
Gostava da antecipao, da preparao e da execuo. Era como um jogo de xadrez, e Demiris era um mestre em xadrez. Hoje em dia no fazia inimigos, de forma que 
a sua caa se limitava queles que se haviam atravessado no seu caminho no passado.
Era, portanto, este homem que apareceu num domingo  tarde em casa de Noelle Page. Estava a passar uns dias em Paris a caminho do Cairo, e umajovem escultora com 
quem saa sugeriu que parassem em casa de Noelle. Assim que Demiris viu Noelle, sentiu que a desejava.
Tirando a prpria realeza; que estava fora do alcance da filha do pescador de Marselha, Constantin Demiris provavelmente era quem mais se aproximava de um rei. trs 
dias depois de o ter conhecido, Noelle deixou a pea sem aviso prvio, fez as malas e partiu para a Grcia ao encontro de Constantin Demiris.
Por causa da posio de destaque que cada um ocupava, era de esperar que o caso entre Noelle Page e Constantin Demiris se tornasse uma clebre causa internacional. 
Fotgrafos ejornalistas tentavam constantemente entrevistar a mulher de Demiris, mas, se se sentia chocada, disso no deu sinal. O nico comentrio de Melina Demiris 
 Imprensa foi que o marido tinha muitos bons amigos espalhados pelo mundo e que ela no via nada de errado nisso. Em privado, disse aos pais encolerizados que Constantin 
tivera outros casos e que este teria o seu fim como todos os outros. O marido partia em viagens de ngcios prolongadas, e ela via fotografias dele nos jornais com 
Noelle em Constantinopla, Tquio ou Roma. Melina Demiris era uma mulher orgulhosa, mas estava determinada em suportar a humilhao porque amava verdadeiramente o 
marido. Aceitava o ultrge, embora no soubesse a razo por que alguns homens precisam de mais de uma mulher, e que mesmo um homem apaixonado
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pela mulher podia dormir com outra. Preferia morrer a ser tocada por outro homem. Nunca reprovou Constantin, porque sabia que isso s o afastaria dela. Apesar de 
tudo, era um casamento feliz. tinha conscincia de que no era uma mulher ardente, mas deixava que o marido se servisse dela na cama sempre que desejava, e tentava 
dar-lhe o mximo prazer de que era capaz. Se tivesse sabido das formas de amor que Noelle fazia com o marido, teria ficado chocada, e se tivesse sabido como o marido 
apreciava ter-sia sentido infeliz. A maior atraco que Noelle causava em Demiris, para quem as mulheres j no tinham surpresas, era a surpresa constante que ela 
constitua. Para quem tinha uma paixo por enigmas, ela era uma soluo desafiadora. Nunca conhecera ningum assim. Aceitava as coisas belas que ele lhe dava, mas 
ficava igualmente feliz quando no lhe trazia nada. Comprou-lhe uma villa magnfica em Portofino,  beira de uma baa em forma de ferradura, de um azul belssimo, 
mas sabia que no teria sido diferente se lhe tivesse dado um pequeno apartamento no velho bairro de Plaka em Atenas.
Demiris conhecera muitas mulheres na vida que tentaram usaro sexo para o manipular de uma forma ou de outra. Noelle nunca lhe pediu nada. Algumas mulheres aproximaram-se 
dele para se aquecerem no reflexo da sua glria, mas neste caso era ela quem aturava osjornalistas e os fotgrafos. Era uma estrela de pleno direito. Durante um 
tempo, Demiris comprazera-se com a ideia de que talvez e estivesse apaixonada pelo que ele era, mas era honesto de mais manter a iluso.
No comeo foi um desafio tentar chegar ao mago profundo
interior de Noelle, subjug lo e possu-lo. De incio, Demiris tentara faz-lo sexualmente, mas, pela primeira vez na vida, conhecera uma mulher que era mais do 
que uma parceira. Os seus apetites sexuais excediam os dele. tudo o que ele sabia fazer, ela fazia-o melhor mais vezes e com mais saber, at que por fim aprendeu 
a relaxar na cama e a desfrut-la como nunca desfrutara nenhuma outra mulher na vida. Era um fenmeno, em revelao constante de novas faces para ele desfrutar. 
Noelle sabia cozinhar to bem como qualquer cozinheiro a quem ele pagava um resgate real e sabia tanto  como os conservadores de museu que contratava para encontrar 
quadros e esculturas para ele comprar. Gostava de os ouvir falar de arte com Noelle e de os ver admirados com a profundidade dos conhecimentos. Demiris comprara 
recentemente um Rembran. Noelle encontrava se por acaso na ilha de Vero,
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quando o quadro chegou. Estava l um jovem conservador que lhe descobrira o quadro.
-  uma das melhores obras do Mestre - dissera o conservador quando o destapou.
Era uma bela pintura, representando me e filha. Noelle estava sentada numa cadeira, sorvendo um ouvo, a observar calmamente.
-  uma beleza - concordou Demiris. Virou-se para Noelle. Que achas?
-  maravilhoso-disse ela. Virou-se para o conservador. -Onde  que o descobriu?
- Encontrei num negociador particular de Bruxelas-respondeu com orgulho - e convenci-o a vender-mo.
- Quanto pagou por ele? - perguntou Noelle.
- Duzentas e cinquenta mil libras.
-  uma pechincha - declarou Demiris.
Noelle tirou um cigarro, e o homem precipitou-se a acend-lo.
- Obrigada - disse ela. Olhou para Demiris. - Teria sido uma pechincha ainda maior se o tivesse comprado directamente ao dono.
- No entendo - disse Demiris.
O conservador olhava-a com estranheza.
- Se  genuno - explicou Noelle -, provm do patrimnio do duque de Toledo em Espanha. - Voltou-se para o conservador. - No  verdade? - perguntou ela.
O homem empalidecera.
- No... no fao ideia - gaguejou ele. - O negociante no me disse.
- Deixe-se disso - Noelle censurou-o. - No me diga que comprou um quadro por esse dinheiro todo sem se certificar da provenincia do mesmo! ? Custa a crer. O preo 
atribudo ao quadro  de cento e setenta e cinco mil libras. Algum foi lesado em setenta e cinco mil libras.
E veio a provar-se que era verdade. O conservador e o negociante de arte foram julgados por fraude e presos. Demiris devolveu o quadro. Ao pensar no assunto mais 
tarde, concluiu que a honestidade de Noelle o impressionou mais que o seu conhecimento. Se o tivesse desejado, poderia simplesmente ter chamado o conservador  parte, 
ameaado chantage-lo, e dividido o dinheiro com ele. Ao invs, dissera abertamente diante de Demiris sem outro motivo. Comprara-lhe um colar de esmeraldas carssimo 
em ateno, que ela aceitara com a mesma deferncia com que teria aceite um isqueiro. Demiris 
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insistia em levar Noelle para todo o lado. Ele no confiava em ningum nos negcios, e por isso era obrigado a tomar todas as decises sozinho. Achou til debater 
os negcios com Noelle. Estava surpreendentemente bem informada em relao ao mundo dos negcios, e o simples facto de poder falar com outra pessoa de vez em quando 
facilitava as decises de Demiris. Com o tempo, Noelle sabia mais dos seus negcios do que outra pessoa, excepto os seus advogados e contabilistas. Antes de Demiris 
sempre tivera vrias amantes ao mesmo tempo, mas agora Noelle dava-lhe tudo o que desejava, e, uma a uma, deixou- as todas. Aceitaram o desemprego sem rancor, pois 
Demiris era um homem generoso.
tinha um iate com cento e trinta e cinco ps de comprimento e quatro motores a diesel. Estava equipado com um hidroavio, vinte e quatro tripulantes, duas lanchas, 
e tinha uma piscina de gua doce. tinha doze quartos de hspedes ricamente mobilados e um enorme apartamento para ele, cheio de quadros e antiguidades.
Quando Demiris recebia amigos no iate, Noelle era a sua anfitri. Quando Demiris viajava de avio ou de barco para a sua ilha particular, era Noelle que o acompanhava, 
enquanto Melina permanecia em casa. Tomava o cuidado de nunca juntar a mulher e Noelle, mas claro que tinha a certeza de que a mulher sabia da sua existncia.
Noelle era tratada como uma rainha aonde quer que fosse. Mas merecia-o. a menina que olhara para a sua frota de navios atravs da janela da casa degradada de Marselha 
mudara-se para a maior frota do mundo. Noelle no ficou impressionada com a riqueza de Demiris, nem com a sua reputao: ficou impressionada com a sua inteligncia 
e fora. tinha a mente e a vontade dum gigante e, em comparao com os outros homens, tornava-se pusilnime. Pressenti nele a crueldade implacvel, mas, sem saber 
como, isto tornava ainda mais excitante, pois fazia parte dela tambm.
Noelle recebia ofertas constantes para entrar em peas e filmes mas mostrava-se indiferente. Fazia o papel principal da sua prpria vida, e era mais fascinante que 
tudo o que qualquer autor pudesse imaginar. Jantava com reis, primeiros-ministros e embaixadores, todos a procuravam porque sabiam que Demiris a ouvia. Deixavam 
cair insinuaes subtis sobre o que pretendiam e prometiam-lhe mundo se ela os ajudasse.
Mas Noelle j era dona do mundo. Deitava-se na cama  e
  dizia-lhe o que cada homem lhe pedira, e a partir desta informao Demiris avaliava as suas necessidades, os seus pontos fortes
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e os fracos. Depois aplicaria as presses adequadas, e da correria mais dinheiro para os seus cofres j transbordantes.
A ilha particular de Demiris era uma das suas grandes alegrias. Comprara uma ilha inspita, que transformara num paraso. tinha uma villa espectacular no topo da 
colina em que vivia, uma dzia de casas encantadoras para os convidados, uma reserva de caa, um lago artificial de gua doce, umjardim zoolgico, um porto onde 
podia ancorar o iate e um aerdromo para os seus avies. A ilha tinha oito criados e guardas armados para afastar os intrusos. Noelle gostava da solido da ilha, 
e ainda gostava mais quando no havia outros convidados. Constantin Demiris sentia-se lisonjeado, pensando ser ele a razo desta preferncia de Noelle. Teria ficado 
abismado se tivesse eabido o estado de preocupao em que ela se encontrava por um homem com cuja existncia ele nem sonhava.
Larry Douglas estava a meio mundo de distncia de Noelle, combatendo em batalhas secretas em ilhas secretas, e no entanto ela sabia mais acerca dele do que a mulher, 
com quem se correspondia com muita regularidade. Noelle ia a Paris para ver Christian Barbet pelo menos uma vez por ms, e o detectivezinho calvo e mope tinha sempre 
um relatrio actualizado para ela. Da primeira vez que Noelle regressara a Paris para se encontrar com Barbet e tentara depois regressar, houve problemas com o visto 
de sada. Ficara  espera no gabinete da Alfndega durante cinco horas e fora por fim autorizada afazerum telefonema para Constantin Demiris. Dez minutos depois 
deterfalado com Demiris, um oficial alemo entrara apressado para lhe apresentar as maiores desculpas em nome do seu Governo. Noelle recebera um visto especial, 
e nunca mais lhe barraram o caminho. O detective ansiava pelas visitas de Noelle. Cobrava-lhe uma fortuna, mas o seu nariz apurado pressentia que havia muito mais 
dinheiro. Estava satisfeito com a sua ligao a Constantin Demiris. tinha opressentimento de que, de uma forma ou de outra, o facto ia trazer-lhe grandes benefcios 
financeiros. Primeiro tinha de saber que Demiris no estava a par do interesse da sua amante por anrry Douglas, depois tinha de saber o valor que a informao teria 
para Demiris. Ou para Noelle Page, se quisesse mant-lo calado. Estava  beira de um grande golpe, mas tinha dejogar as cartadas com cuidado.
9
A informao que Barbet conseguia recolher sobre Larry era surpreendemtemente substancial, pois Barbet podia remunerar generosamente as suas fontes.
Ao mesmo tempo que a mulher de Larry lia uma carta com um carimbo postal annimo, Christian Barbet informava Noelle.
- Ele est a voar com o Dcimo-Quarto Grupo de Caas, Quadragsima-Oitava Esquadrilha de Caas...
Catherine lia a carta: K... tudo o que teposso dizer que estou algures no Pas. .
E Christian Barbet dizia a Noelle:
- Eles esto em Tarawa. A seguir  Guam.
Tenho muitas saudades de ti, Cathy. As coisas esto a melhorar por aqui. No te posso dar mais pormenores, mas finalmente os nossos avies so melhores que os aeros 
japoneses...
- O seu amigo est a pilotar avies P-Trinta e Oito, Puarenta e P-Quarenta e Um.
Fico satisfeito por saber que ests ocupada em Washington. S
- me fiel, querida. Aqui est tudo bem. Conto-te as novidades quando estivermosjuntos...
- O seu amigo recebeu a Cruz de Distino Area e foi promovido a tenente-coronel.
Ao mesmo tempo que Catherine pensava no marido e pedia a Deus
que regressasse so e salvo, Noelle seguia todos os passos de Larry tambm pedia a Deus que Larry regressasse so e salvo. Aguerra terminaria em breve, e Larry Douglas 
estaria de regresso a casa. Para ambas.
220
CATHERINE
Vashington: 1945-1946
11
Na manh do dia 7 de Maio de 1945, na cidade francesa de Reims, a Alemanha rendeu-se incondicionalmente aos Aliados. O reinado dos mil anos do Terceiro Reich chegara 
ao fim. Quem conhecia por dentro a destruio devastadora de Pearl Harbor, quem observara como faltara pouco para que Dunquerque se tivesse transformado numa nova 
Waterloo, quem comandara a RAF e sabia como teriam sido inteis as defesas de Londres contra um ataque generalizado da Luftwaffe: todas estas pessoas reconheciam 
a srie de milagres que deram a vitria aos Aliados - e sabiam que s por um triz no sucedera o contrrio. Os poderes do mal quase triunfaram, e a ideia era to 
monstruosa, to contrria  tica crist de o Bem triunfar sobre o Mal, que nem quiseram lev-la em conta de to honorizados, agradecendo a Deus e enterrando os 
seus erros aos olhos da posteridade nas montanhas de arquivos assinalados com CONFIDENCIAL.
Aateno do mundo livre voltava-se agora para o Extremo Orient. Os japoneses, essas figurinhas cmicas e de vistas curtas, defendiam sangrentamente cada centmetro 
da terra que possuam, e parecia que ia ser uma guerra longa e dispendiosa. E foi ento que, no dia 6 de Agosto, uma bomba atmica caiu em Hiroxima. A destruio 
foi inacreditvel. Em poucos e breves minutos, a maior parte da populao duma grande cidade jazia morta, vtima de uma pestilncia maior que as duas guerras juntas 
e as pestes da Idade Mdia.
A 9 de Agosto, trs dias depois, caiu uma segunda bomba atmica, desta vez em Nagasqui. Os resultados foram ainda mais devastadores. A civilizao atingira finalmente 
a sua hora maior; fora capaz de causar um genocdio que podia calcular-se numa proporo
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de milhes de habitantes por segundo. Os japoneses no aguentaram, e, no dia 2 de Setembro de 1945, a bordo do couraado Missouri, o general Douglas MacArthur recebeu 
a rendio condicional do Governo japons. A segunda guerra mundial chegava ao fim.
Durante um longo momento, quando a notcia corria veloz, o mundo susteve a respirao e depois emitiu uma ovao de sincero agradecimento. Cidades e aldeias do mundo 
encheram-se de desfiles histricos de pessoas que comemoravam o fim da guerra para nunca mais haver guerras para acabarem com as guerras. No dia seguinte, como por 
uma mgica que nunca explicaria a Catherine, Bill Fraser conseguiu estabelecer uma ligao telefnica com Larry Douglas numa ilha algures no Pacfico Sul. Ia ser 
uma surpresa para Catherine. Fraser pediu-lhe que o aguardasse no escritrio para irem almoar juntos. s duas e meia da tarde, ela perguntou a Bill pelo intercomunicador:
- Quando  que vamos almoar? J so quase horas de jantar.
- Senta-te bem - Fraser respondeu. - Estarei a num minuto. Cinco minutos depois, disse-lhe pelo intercomunicador:
- Tens uma chamada na linha um.
Catherine pegou no telefone.
- Sim? - Ouviu um estalido e sons oscilantes que pareciam ondas dum oceano distante. - Sim? - repetiu ela.
Uma voz de homem perguntou:
- Sr  Douglas?
- Sou, sim - disse Catherine, intrigada. - Quem fala?
- S um momento, por favor.
Atravs do auscultador ouviu um som agudo. Outro estalido depois uma voz que dizia:
- Cathy?
Permaneceu sentada, o corao a bater depressa, incapaz de  uma palavra.
- Lany? Larry?
- Sim, sou eu, querida.
- Oh, Lany! - Ela comeou a chorar, e inesperadamente seu corpo tremia.
- Como ests, amor?
Fincou as unhas no brao, tentando ferir-se o bastante para por termo  histeria que de repente se apossara dela.
- Estou b... bem - disse. - Onde... onde ests?
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- Se te disser, cortam-nos a chamada-disse ele. -Estou algures no Pacfico.
- Isso esclarece bastante! - Comeou a dominar a voz. - Ests bem, querido?
- Estou ptimo.
- Quando regressas?
- A qualquer momento - prometeu ele.
Os olhos de Catherine voltaram a encher-se de lgrimas.
- Ainda bem. Vamos acertar os nossos relgios.
- Ests a chorar?
- Claro que estou a chorar, seu idiota! Ainda bem que no podes ver o rmel a borrar-me a cara. Oh Larry... Larry...
- Tenho tido tantas saudades tuas - disse ele.
Catherine pensou nas noites longas e solitrias que se tornaram semanas e meses e anos sem a sua presena, sem os seus braos aconchegando-a, sem o seu corpo forte 
e maravilhoso a seu lado, sem o seu conforto, a sua proteco e o seu amor. E disse:
- Tambm tive saudades tuas.
Uma voz masculina interrompeu-os.
- Peo desculpa, coronel, mas vamos ter de desligar. Coronel!
- No me disseste que tinhas sido promovido.
- Receei que isso te subisse  cabea.
- Oh, querido, eu...
O som das ondas aumentou, e de repente fez-se silncio e a ligao foi cortada. Catherine recostou-se na cadeira com o olhar fixo no telefone. E em seguida enterrou 
a cabea nos braos e comeou a chorar.
Dez minutos mais tarde, a voz de Fraser surgia no intercomunicador.
- Vamos almoar quando estiveres pronta - disse ele.
- Eu estou pronta para qualquer coisa - disse ela cheia de alegria. -D-me cinco minutos. -Sorriu afectuosamente quando pensou no que Fraser fizera e no muito trabalho 
que isso lhe dera. Era o homem mais querido que conhecera. Depois de Larry, naturalmente.
Catherine imaginara a chegada de Larry tantas vezes que a chegada quase foi um anticlmace: Bill Fraser explicara-lhe que Larry ia possivelmente chegar num avio 
do Comando de transporte Areo
223

Ou num avio dos Servios Militares de Transporte Areo, que no
tinham horrio como os avies das companhias areas comerciais.
Aproveitava-se a boleia no primeiro avio que se arranjava - quase
 sem dar importncia ao destino do avio -, desde que fosse na
direco desejada.
Catherine passou o dia em casa  espera de Larry. Tentou ler, mas
estava nervosa de mais. Sentou-se e ouviu as notcias e pensou no
regresso definitivo de Larry para junto dela. Por volta da meia-noite, ainda no tinha chegado. Concluiu que s estaria de volta no dia
seguinte. s duas horas da manh, quando j no conseguia ter os
Olhos abertos, Catherine foi deitar-se. Foi acordada por uma mo que
lhe tocava o brao, e abriu os olhos e ele ali estava junto dela, o seu
Larry estava ali, a olhar para ela, um sorriso largo no rosto magro e
bronzeado, e num pice Catherine estava nos braos dele e toda a
preocupao, dor e solido dos quatro anos desapareceram num fluxo purificador de alegria que encheu todas as fibras do seu ser. Abraou-o de tal forma que receou 
quebrar-lhe os ossos. Queria ficar
assim para sempre, sem se separar dele. - Calma, querida - disse Larry por fim. Largou-a, com um sorriso no rosto. -Vai ter piada aparecer nosjornais Piloto regressa 
da
guerra a casa ileso e morre no abrao da mulher.
Catherine acendeu todas as luzes, inundando o quarto de forma
a poder v-lo, examin-lo, devor-lo. O seu rosto tinha uma nova maturidade. Havia rugas em redor dos olhos e da boca, que antes no
existiam. No conjunto, estava ainda mais bonito.
- Eu quis ir ter contigo - Catherine balbuciou -, s que no
sabia para onde ir. Telefonei para a Fora Area, mas no me puderam dar nenhuma informao, por isso fiquei aqui  espera...
Larry aproximou-se dela e calou-a com um beijo. Foi um beijo
sentido e urgente. Catherine esperara sentir a mesma ansiedade
fsica, e ficou surpreendida por descobrir que tal no aconteceu. Amava-o muito e, no entanto, teria preferido ficar ali sentada com ele a
conversar, em vez de fazer amor como ele to ansiosamente desejava. Sublimara o desejo sexual durante tanto tempo que o mesmo se
encontrava profundamente enterrado, e levaria tempo antes que pudesse ser estimulado e voltar  superfcie.
Mas Larry no lhe dava tempo. Despia-se  pressa e dizia:
- Meu Deus, Cathy, no sabes como eu sonhei com este momento. Ia dando em maluco. E, vendo-te agora, ainda te acho mais bonita do que antes.
224

Arrancou as cuecas e ficou nu. E de certa maneira era um estranho que a empurrava para a cama, e ela s queria que Larry lhe desse tempo para se habituar  presena 
e  nudez dele novamente. Mas j estava em cima dela sem qualquer preparao, forando a penetrao, e ela sabia que no estava pronta. Estava a rasg-la, a mago-la, 
e ela fincou os dentes na mo para no chorar, enquanto sobre o seu corpo ele a possua como um animal selvagem.
O marido regressara a casa.
Durante o ms seguinte, com o consentimento de Fraser, Catherine esteve ausente do escritrio, passando quase todos os dias com Larry. Fazia-lhe os pratos preferidos, 
e ouviam discos e falavam, tentando preencher todos os espaos vazios dos anos que haviam perdido.  noite iam a festas ou ao cinema e quando regressavam a casa 
faziam amor. O corpo dela j estava pronto para o receber, e achava o excitante amante de sempre. quase. No queria admiti-lo, nem mesmo a si prpria, mas Larry 
j no era o mesmo. Estava mais exigente e menos generoso. Antes do acto de amor, ainda havia o perodo de excitao, mas era tudo mecnico, como se fosse uma obrigao, 
antes de passar ao ataque sexual. E era um ataque, uma posse selvagem e feroz, como se o corpo dele procurasse vingar-se de alguma coisa, impondo um castigo. Quando 
terminavam, Catherine sentia-se dorida e abalada, como se tivesse sido espancada. Talvez, pensava em defesa dele, se devesse ao facto de ter estado muito tempo sem 
uma mulher. Com o passar do tempo, continuava a am-la da mesma forma, o que a levou por fim a procurar outras mudanas produzidas em Larry. Tentou examin-lo desapaixonadamente 
e esquecer que era o marido que adorava. Via um homem bem constitudo, alto e de cabelo negro, olhos muito escuros e rosto avassaladoramente belo. Ou talvez belo 
j no fosse a palavra certa. As rugas em redor da boca acrescentavam uma crueldade aos seus traos. Olhando para este estranho, Catherine teria pensado: Eis um 
homem que podia ser egosta, implacvel e frio. E, no entanto, achou que estava a ser ridcula. Este era o seu Larry, amoroso, amvel e atencioso. Orgulhosamente, 
apresentou-o a todos os seus amigos e s pessoas com quem trabalhava, mas as mesmas no o entusiasmavam. Nas festas divagava pelos cantos e passava a noite a beber. 
Catherine achava que ele no se esforava para ser socivel.
- Porqu? - ripostou-lhe uma noite quando ela tentou falar 
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sobre o assunto. - Onde  que estavam esses financiadores de campanhas polticos quando eu andava l em cima a arriscar a vida?
Por vezes, Catherine abordava o assunto do que ia ser o futuro dele. Pensara que era seu desejo ficar na fora Area, mas uma das primeiras coisas que Larry fez 
quando regressou foi pedir a passagem  reserva.
- A tropa  uma coisa para idiotas. L s se desce - dissera ele. Era quase uma pardia  primeira conversa que tiveram em Hollywood. S que na altura fora uma brincadeira 
de Larry. Catherine tinha de falar com algum para discutir o assunto, e decidiu por fim dirigir-se a Bill Fraser. Disse-lhe o que a perturbava, sem se referir aos 
pormenores de carcter pessoal.
- Se te serve de consolo - disse Fraser solidariamente -, h milhes de mulheres por esse mundo fora na mesma situao.  realmente muito simples, Catherine.  ests 
casada com um estranho.
Catherine olhava para ele, sem dizer uma palavra. Fraser calou-se para encher o cachimbo e acend-lo.
- No estavas  espera de retomar a vida no ponto em que ficou quando Larry partiu, pois no? Esse tempo j no existe. ultrapassaste-o, assim como Larry. Uma das 
bases do casamento so as experincias comuns do casal. Fortalece-os a eles e ao casamento. Vocs tero de encontrar uma plataforma comum outra vez.
- Sinto-me infiel s de falar no assunto, Bill.
Fraser sorriu.
- Eu conheci-te primeiro - recordou-Lhe ele. - Lembras-te?
- Lembro-me.
- Tenho a certeza de que Larry est a procurar um rumo - prosseguiu Fraser. - Conviveu com mil homens durante quatro anos, e agora tem de se habituar  ideia de 
viver com uma mulher.
Ela sorriu.
- Tens  razo em tudo o que disseste. Acho que s precisava de algum que mo dissesse.
- Todos ns temos muitos conselhos teis para lidar com os feridos - observou Fraser -, mas h feridas que no se vem. Por vezes, so muito fundas. - Viu o olhar 
no rosto de Catherine. - No estou a referir-me a nada de especial - acrescentou logo de seguida. -Estou apenas a falar dos horrores de que qualquer soldado em combate 
 testemunha. A no ser que um homem seja um idiota chapado, isso reflecte-se no seu comportamento. Entendes o que quero dizer?
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Catherine fez um sinal afirmativo.
- Entendo. - A pergunta era: que reflexo tivera?
quando Catherine regressou por fim ao trabalho, os homens da agncia regozijaram-se ao v-la. Durante os primeiros trs dias, nada mais fez se no analisar campanhas 
e projectos para novos contratos e pr em dia os atrasados. trabalhava de manh  noite, tentando compensar o tempo perdido, estafando os redactores e os desenhadores 
e acalmando os clientes nervosos. Era uma profissional excelente e adorava o trabalho que fazia. Larry costumava aguardar o regresso de Catherine a casa  noite. 
A princpio, ela perguntava -lhe o que fazia na ausncia dela, mas as suas respostas eram sempre vagas e por fim deixou de lhe perguntar. Ele construra um muro, 
e ela no sabia como quebr-lo. Ele ofendia-se com quase tudo o que Catherine dizia, e discutiam constantemente por tudo e por nada. Ocasionalmente, jantavam com 
Fraser, e ela esforava-se portornar essas noites alegres e agradveis para que Fraser no pensasse que algo corria mal.
Mas Catherine tinha de enfrentar o facto de que algo corria muito mal. Sentia que a culpa era em parte dela. Ainda amava Larry. Gostava da figura, do contacto e 
da recordao dele, mas sabia que a relao, a continuar assim, destruiria os dois.
Ela almoava com William Fraser.
- Como est Larry?
A resposta pavloniana de ptimo ia surgir-lhe nos lbios automaticamente, mas deteve-se.
- Ele precisa de um emprego - disse Catherine bruscamente. Fraser inclinou-se para trs e fez um sinal de compreenso com a cabea.
- Est a ficar impaciente por no fazer nada?
Ela hesitou, no desejando mentir.
- Ele no quer trabalhar apenas por trabalhar - disse ela cuidadosamente. - Teria de ser o trabalho certo.
Fraser examinou-a, tentando avaliar o significado subjacente s palavras dela.
- Ele gostaria de ser piloto?
- No quer voltar para a tropa.
- Eu estava a pensar numa companhia area. Um amigo meu  direetor da PanAm. Ficariam contentes se contratassem algum com a experincia de Larry.
Catherine ps-se a pensar no assunto, tentando colocar-se na mente de Larry. Pilotar era a coisa de que ele mais gostava no mundo. Seria um bom emprego, fazendo 
o que gostava de fazer.
-  uma ptima ideia - disse cautelosamente. - Achas mesmo que conseguias arranjar, Bill?
- Vou tentar - disse ele. - Por que no o sondas primeiro para veres como ele reage?
-  o que vou fazer. - Catherine segurou-lhe a mo agradecida mente. - Muito obrigada.
- Por qu? - perguntou Fraser despreocupadamente.
- Por nunca me faltares quando preciso.
Ele ps a mo sobre a dela.
- So ossos do ofcio.
Quando Catherine lhe falou na sugesto de Bill Fraser nessa noite, Larry disse:
- Foi a melhor coisa que ouvi desde que cheguei. E dois dias depois tinha uma entrevista marcada com Carl Estman na sede da Pan Am em Manhattan. Catherine passou-lhe 
o fato, escolheu a camisa e a gravata e engraxou-lhe os sapatos at se ver reflectida neles.
- Telefono-te assim que puder a contar como  que tudo correu.
- Beijou-a e, com seu sorriso de adolescente, saiu.
Em muitas coisas Larry era um menino, pensou Catherine. Podia ser petulante, irritadio e malcriado, mas tambm era amoroso e generoso.
eSorte minha, suspirou Catherine. Tenho de ser a nica pessoa perfeita de todo o universo.
tinha muito que fazer, mas s conseguia pensar em Larry e na entrevista que ele ia ter. Era mais do que um emprego. tinha a sensao de que o seu casamento dependia 
inteiramente do que ia acontecer.
Ia ser o dia mais longo da sua vida.
A sede da Pan Am era um edifcio moderno situado numa esquina da 5.  Avenida com a 53.  Rua. O gabinete de Carl Eastman era grande e confortavelmente mobilado, 
sendo bvio que ocupava um posto importante.
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- Entre e sente-se - saudou quando Larry entrou na sala.
Eastman era um homem de 35 anos, elegante e de queixo saliente, com uns olhos cor de avel e penetrantes aos quais nada escapava. Indicou um sof a Larry, sentando-se 
depois na cadeira que havia em frente.
- Caf?
- No, obrigado - disse Larry.
- Soube que gostaria de trabalhar para ns.
- Se houver uma vaga.
- Existe uma vaga - disse Eastman -, s que so mais de cem ces a um osso. -Abanou a cabea com tristeza. - incrvel. A Fora Area ensina milhares dejovens brilhantes 
a pilotar as mquinas mais complicadas do mundo. Depois, quando as dominam com perfeio, manda-os dar uma volta. No tm nada para lhes oferecer. Suspirou. - Voc 
no iria acreditar nas pessoas que estiveram c hoje. Pilotos de primeira, ases como voc. H apenas uma vaga para todos os milhares de candidatos... e todas as 
outras companhias areas esto exactamente na mesma posio.
Uma sensao de desapontamento invadiu Larry.
- Por que me recebeu? - perguntou ele tensamente.
- Por duas razes. Primeiro, porque o chefe me disse que o fizesse. Larry sentiu crescer uma raiva dentro de si.
- Eu no quero...
E inclinou-se para a frente.
- A segunda, porque a sua folha de servios  um espanto.
- Obrigado - disse Larry secamente.
Eastman examinou-o.
- Teria de sujeitar-se a um estgio aqui, sabe. Seria como voltar  escola.
Larry hesitou, sem saber o rumo que a conversa tomava.
- Quanto a isso, no h problema - disse ele, cautelosamente.
- Ter de estagiar no aeroporto La Guardia em Nova Iorque.
Larry abanou a cabea,  espera.
- So quatro semanas de teoria e um ms de voo.
- Os vossos avies so DC-4? - perguntou Larry.
- Exacto. quando terminar o estgio, comear como navegador. O ordenado-base de estagirio ser de cento e cinquenta dlares por ms.
Conseguira o emprego! O sacana torturara com aquela conversa de que havia milhares de pilotos  porta. Mas o emprego era dele!
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Por que se preocupara? Na Fora Area, ningum tinha uma folha de servios igual  dele.
Larry deu um sorriso largo.
- No me importo de comear como navegador, Eastman, mas eu sou um piloto. Quando  que isso vai acontecer?
Eastman suspirou.
- As companhias areas tm sindicatos. A promoo passa exclusivamente pela antiguidade. H muita gente  sua frente. Quer arriscar?
Larry abanou a cabea.
- Que tenho eu a perder?
- Muito bem - disse Eastman. - Tratarei de todas as formali dades. Ter de fazer um exame mdico, claro. Algum problema?
Larry deu um sorriso largo.
- Osjaponeses no viram nada de errado em mim.
- Quando  que pode comear a trabalhar?
- Hoje  tarde  cedo de mais?
- Segunda feira. - Eastman rabiscou um nome num carto e entregou a Larry. -Tome. Estaro  sua espera segunda-feira de manh.
Quando Larry telefonou a Catherine para lhe dar a novidade, exprimiu-se com uma excitao que Catherinejulgara perdida. Sentiu ento que tudo ia correr pelo melhor.
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NOELLE
Atenas: 1946
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Constantin Demiris possua uma frota de avies para uso pessoal, mas o seu orgulho era um Hai. ver Siddeley convertido que transportava dezasseis passageiros em 
luxuoso conforto, atingia uma velocidade de trezentas milhas por hora e levava uma tripulao de quatro elementos. Era um alcio voador. O interior fora decorado 
por Frederick Sawrin, e Chagall pintura os murais das paredes. Em vez de assentos normais, a cabina possua poltronas e sofs. O compartimento da cauda fora convertido 
num luxuoso quarto de cama. Junto  cabina de pilotagem havia uma cozinha moderna. Sempre que Demiris ou Noelle viajavam no avio, havia um chefe de cozinha a bordo.
Demiris contratara como seus pilotos particulares um aviador grego de nome Paul Metaxas e um ex-piloto de caas da R. A. F. chamado Ian Whitestone. Metaxas era um 
homem forte e simptico, sempre com um sorriso nos lbios e uma gargalhada sincera e contagiosa. Fora mecnico, aprendera a pilotar sozinho e servira na R. A F. 
durante a Batalha de Inglaterra, onde conhecera Ian Whitestone. Whitestone era um homem alto, ruivo e dolorosamente magro, com o modo desconfiado dum mestre-escola 
no primeiro dia de aulas numa escola dos subrbios frequentada por rapazes incorrigveis. No ar, Whitestone era porm uma coisa diferente. tinha a percia rara e 
natural dum piloto nato, um sentimento que no se pode aprender ou ensinar. Whitestone e Metaxas voaramjuntos durante trs anos contra a Luftwaffe, e ambos tinham 
uma grande considerao um pelo outro.
Noelle viajava frequentemente no avio grande, s vezes em negcios
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 com Demiris, outras em passeio. Acabara por conhecer os pilotos,
mas no lhes prestava uma ateno especial. Mas um dia ouviu-os recordarem-se de uma experincia que tiveram na R. A. F.
A partir desse momento, Noelle passava parte do voo na cabina em
conversa com os homens ou convidava um deles a fazer-lhe companhia na sala. Encorajava-os a falarem das suas experincias e, sem
nunca lhes fazer uma pergunta directa, acabou por saber que Whitestone fora oficial de ligao da esquadrilha de Larry Douglas antes da
5ada de Larry da R. A. F. e que Metaxasj no conheceu Larry quando entrou para a esquadrilha. Noelle comeou a concentrar a sua
" ateno no piloto ingls. Encorajado e lisonjeado pelo interesse da
amante do patro, Whitestone falava  vontade da sua vida passada
e das suas ambies futuras. Disse a Noelle que sempre se interessara por electrnica. tinha um cunhado na Austrlia que abrira uma
pequena firma de electrnica e queria dar-lhe sociedade, mas Whitestone no tinha capital.
- Com o meu modo de vida - disse ele a Noelle, rindo-se -, nunca conseguirei.
Noelle continuou a ir a Paris mensalmente para ver Christian
Barbet. Barbet estabelecera ligao com uma agncia privada de detectives em Washington, e os relatrios sobre Larry Douglas chegavam a toda a hora. Pondo Noelle 
cautelosamente  prova, o pequeno
detective oferecera-se para enviar os relatrios para Atenas, mas ela
disse-lhe que preferia levant-los pessoalmente. Barbet abanou
cheio de manha e disse em tom de conspirao:
- Entendo, Miss Page.
Afinal ela no queria que Constantin Demiris soubesse do seu interesse por Larry Douglas. As possibilidades de chantagem assaltaram o esprito de Barbet.
- O senhor tem sido muito til - disse Noelle - e muito discreto.
Ele sorriu untuosamente.
- Obrigado, Miss Page. O meu negcio depende da discreo.
- Exactamente - respondeu Noelle -, sei que  discreto porque
Constantin Demiris nunca me falou de si. No dia em que o fizer, pedir-lhe-ei que o destrua. - Falou num tom agradvel e natural, mas
funcionou como uma bomba:
Barbet olhou-a fixamente, chocado, lambendo os lbios. Coou a
virilha nervosamente e gaguejou:
- G... garanto-lhe, mademoiselle, que eu nunca...
- Tenho a certeza de que no - disse Noelle e partiu.
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No avio comercial que a trazia de volta  Grcia, Noelle lia o relatrio confidencial que se encontrava no sobrescrito amarelo selado.
AGNCIA DE SEGURANA ACME fla D, 1402 Washington
2 de Fevereiro, 1946  
Caro Sr. Barbet:
Um dos nossos agentes falou com um contacto da Diviso de Pessoal da Pan Am a pessoa em causa  tida como um piloto de combate competente, mas ignoram se  sufcientemente 
disciplinado para se integrar numa grande organizao estruturada. O estilo de vida da pessoa em causa segue o padro dos nossos relatrios anteriores. Seguimo-lo 
at aos apartamentos de vrias mulheres que convidara, onde permaneceu por perodos de uma at cinco horas, e presumimos que esteja a ter uma srie de relaes sexuais 
com estas mulheres. (Os nomes e as moradas esto em arquivo, caso os deseje.)
Em vista do novo emprego da pessoa em causa,  possvel que este padro se altere. Continuaremos as investigaes a seu pedido.
Junto remetemos a nossa factura.
Muito atentamente,
R. Ruttenberg Director
Noelle voltou a meter o relatrio no sobrescrito, recostou-se no assento e fechou os olhos. Via Larry, inquieto e atormentado, casado com uma mulher que no amava, 
preso numa armadilha em que cara por causa da sua fraqueza.
O novo emprego na companhia area poderia atrasar um pouco,
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mas ela tinha pacincia. Com o tempo, traria Larry parajunto de si. Entretanto, havia vrias medidas que tinha de tomar para o processo avanar.
Ian Whitestone estava encantado por ter sido convidado para almoar com Noelle Page. No incio, gabara-se de que ela se sentia
atrada por ele, mas todos os encontros entre eles decorriam numa
base agradvel masformal, que lhe recordou o seu estatuto de empregado e o facto de que ela era intocvel. Sempre se sentira intrigado sobre o que Noelle desejava 
dele, pois Whitestone era um homem inteligente e teve a sensao estranha de que as suas conversas espordicas lhe interessavam mais a ela do que a ele. Neste dia 
particular, Whitestone e Noelle foram almoar a uma pequena cidade do litoral perto de cabo Sunion. Noelle trazia um vestido branco de Vero e sandlias, e o seu 
cabelo louro e macio esvoaava ao vento, e nunca esteve to bela. Ian Whitestone estava noivo dum modelo que vivia em Londres apesar de ser uma mulher bonita, no 
se comparava a Noelle. Whitestone nunca conhecera ningum que pudesse, e teria invejado Constantin Demiris, s que Noelle lhe parecia mais desejvel na ausncia. 
Quando Whitestone estava de facto na companhia dela, sentia-se ligeiramente intimidado. Noelle comeara a falar dos planos que ele tinha para o futuro, e passou-lhe 
pela cabea, novamente, se ela estaria a querer sondar por ordem de Demiris se ele era leal ao patro.
- Eu adoro o meu trabalho - assegurou a Noelle com sinceridade. - Gostava de o conservar enquanto os meus olhos puderem ver o caminho.
Noelle examinou-o por um momento, apercebendo-se das suas suspeitas.
- Estou desapontada-disse ela com pesar. -Esperava que fosse mais ambicioso.
Whitestone fitou-a.
- No estou a perceber.
- No me disse que gostava de ter uma firma de electrnica um dia?
Lembrou-se de lhe ter falado no assunto certa vez, e surpreendeu o facto de no se ter esquecido.
- Isso era um sonho impossvel -respondeu ele. - Precisaria de muito dinheiro.
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- Um homem com as suas capacidades - disse Noelle - no deveria desistir por falta de dinheiro.
Whitestone ficou pouco  vontade, sem saber o que noelle Page esperava que dissesse. Gostava sem dvida do emprego que tinha. Nunca ganhara to bem na vida, tinha 
um bom horrio de trabalho e o trabalho era interessante. Por outro lado, estava s ordens dum bilionrio excntrico que contava com a sua disponibilidade a todas 
as horas do dia e da noite. transformara-lhe a vida num inferno, e a noiva no estava nada satisfeita com o que ele fazia, ganhasse ele o que ganhasse.
- Tenho falado com um amigo a seu respeito - disse Noelle. Ele gosta de investir em companhias novas. A sua voz tinha um domnio controlado, como se estivesse excitada 
com o que dizia, e, no entanto, era muito cautelosa para no o entusiasmar de mais. Os olhos de Whitestone ergueram-se e cruzaram-se com os dela.
- Ele ficou muito interessado por si - disse ela.
Whitestone engoliu em seco.
- No sei o que diga, Miss Page.
- No estou  espera de que diga nada agora - assegurou-lhe Noelle. - S quero que pense no assunto.
Ele ficou a pensar em tudo aquilo.
- O Sr. Demiris est a par disto? - perguntou ele por fim. Noelle sorriu em tom de conspirao.
- Receio que o Sr. Demiris no consentiria. Ele no gosta de perder os empregados, especialmente os bons. Porm... - deteve-se por um segundo -, acho que voc tem 
direito a tirar o melhor proveito da vida. A no ser,  claro - acrescentou ela -, que queira continuar a trabalhar para os outros o resto da vida.
- No quero - disse Whitestone de imediato, e subitamente deu conta de que dava a sua palavra. Examinou o rosto de Noelle para encontrar um indcio de que se tratava 
de uma armadilha, mas apenas encontrou a compreenso de quem entendia. - Todo aquele que se preza merece ter um negcio prprio - disse ele em tom de defesa.
- Claro - concordou Noelle. - Pense no assunto e depois falamos. - E disse como quem advertia: - Isto deve ficar entre ns.
- Est certo - disse Whitestone -... e obrigado. Se tudo correr bem, ficarei muito feliz.
Noelle concordou.
- Tenho um pressentimento de que tudo vai correr bem.
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CATHERINE
Washington-Paris: 1946
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Eram nove horas da manh de segunda-feira quando Lany Douglas se apresentou ao piloto-chefe, comandante Hal Sakowitz, nos
escritrios da Pan American no aeroporto LaGuardia, em Nova Iorque. Assim que Lany entrou, Sakowitz pegou na cpia da folha de servio de Larry que estivera a examinar 
e guardou-a numa gaveta da
secretria. 
O comandante Sakowitz era um homem entroncado e agreste, 
tinha um rosto cheio de cicatrizes e marcado e as maiores mos que
Larry j vira. Sakowitz era um verdadeiro veterano da aviao.
Comeara nos tempos dos circuitos areos itinerantes, voara nos monomotores do Estado para transporte de conelo e era piloto areo havia vinte anos, cinco dos quais 
como piloto-chefe da Pan American. - Muito gosto em t-lo na companhia, Douglas - disse ele.
- Igualmente - respondeu Lany.
- Desejoso de voltar a ter um avio?
- quem precisa de um avio? - sorriu Lany. - Basta indicar-me um rumo, que eu levanto voo.
Sakowitz indicou-lhe uma cadeira.
- Sente-se. Gosto de travar conhecimento com os rapazes que
vm tomar o meu lugar.
Larry riu-se.
- Voc deu por isso.
- Oh, no os censuro. So todos pilotos importantes, com uma excelente folha de servio, entram aqui e pensam: Se um idiota como
Sakowitz pode ser pilotchefe, eu ainda chego a presidente da Admnistrao. Nenhum quer ser navegador por muito tempo.  apenas
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um degrau para o posto de piloto. Pronto, est certo.  assim que deve ser.
- Ainda bem que pensa assim - disse Lany.
- Mas h uma coisa que voc tem de saber desdej. Todos ns pertencemos a um sindicato, Douglas, e as promoes baseiam-se exclusivamente na antiguidade.
- Entendo.
- A nica coisa que voc pode no entender  que estes empregos so muito bons e h mais pessoas a entrar do que a sair. Isso atrasa o ritmo de promoo.
- Arriscarei - respondeu Larry.
A secretria de Sakowitz trouxe caf e bolos, e os dois homens passaram a hora seguinte a conversar e a conhecer-se. Sakowitz era simptico e agradvel, e muitas 
das perguntas que fez eram aparentemente irrelevantes e triviais, mas, quando Larry saiu para comparecer na primeira aula, Sakowitz sabia bastante a respeito de 
Larry Douglas. Minutos depois de Larry sair, Carl Eastman entrou no escritrio.
- Como  que correu? - perguntou Eastman.
- Foi tudo bem.
Eastman lanou-lhe um olhar duro.
- que  que achas, Sak?
- Vamos p-lo  prova.
- Eu pedi a tua opinio.
Sakowitz encolheu os ombros.
- Est bem. Vou dizer o que penso. Tenho para mim que  um excelente piloto. Pela folha de combate, tem de ser. Mete-o num avio por entre uma carrada de caas inimigos 
a quererem atingi-lo. e nenhum o abate. - Hesitou.
- Continua - disse Eastman.
- A questo  que no h muitos caas em Manhattan. Tenho conhecido tipos como Douglas. Por razes que nunca entendi, as suas vidas so orientadas para o perigo. 
Fazem coisas incrveis: escalam montanhas impossveis, mergulham no fundo do mar ou lembram-se de outras loucuras perigosas. Quando rebenta uma guerra, sobem como 
a nata numa chvena de caf a escaldar. -Girou a cadeira e olhou para a rua.
Eastman deixou-se estar, em silncio,  espera.
- Sinto no sei o qu em relao a Douglas, Carl. H qualquer coisa de errado com ele. Se fosse comandante dum dos nossos aparelhos
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e o pilotasse, talvez conseguisse faz-lo. Mas no julgo que esteja psicologicamente preparado para receber ordens de um mecnico, de um primeiroficial e de um piloto, 
especialmente quando acha que  melhor que eles. - Girou de novo para olhar para Eastman. - E o engraado  que deve s-lo.
- Ests a deixar-me nervoso - disse Eastman.
- Tambm a mim - confessou Sakowitz. - No acho que ele seja... - parou,  procura da palavra certa - estvel. Quando se fala com ele, fica-se com a sensao de 
que tem uma carga de dinamite dentro do corpo, pronta a explodir.
- Que tencionas fazer?
- J tommos medidas. Far o curso, e vamos t-lo debaixo de olho.
 - Talvez reprove - disse Eastman.
- No sabes com quem ests a lidar. Vai ser o melhor da aula.
Sakowitz acertou em cheio.
 O estgio constava de quatro semanas de teoria, seguidas de mais um ms de treino de voo. Como os estagirios j eram pilotos experientes com muitos anos de voo 
atrs de si, o curso destinava-se a
atingir dois objectivos: o primeiro era rever matrias como navegao, rdio, comunicaes, leitura de mapas e pilotagem de instrumentos, a fim de refrescar a memria 
dos homens e apontar com preciso as suas fraquezas potenciais, e a segunda era familiariz-los
com o novo equipamento que iriam utilizar. A pilotagem de instrumentos era feita numa cabina simulada assente numa base mvel,
possibilitando qualquer manobra ao piloto que se encontrava no interior da cabina, incluindo paragens, loops, parafusos e rolamentos.
Havia um pano preto sobre o topo da cabina para que o piloto voasse s escuras, utilizando apenas os instrumentos que tinha  sua frente. O instrutor, que se encontrava 
no exterior, enviava ordens ao piloto, dando-lhe instrues para as descolagens e aterragens em face
de forte velocidade de vento, tempestades, cadeias de montanhas e
todas as outras ocorrncias possveis. Os pilotos mais experientes
entravam no simulador confiantes, mas em breve aprendiam que a
O perao dos pequenos simuladores era muito mais difcil do que parecia. Era uma sensao estranha estar-se sozinho na cabina minscula, sem qualquer ligao ao 
exterior. Larry era um aluno dotado.
Prestava ateno s aulas e absorvia tudo o que lhe ensinavam. Cumpria as tarefas extra-aula correcta e cuidadosamente. No mostrava
sinais de impacincia, nervosismo ou enfado. Pelo contrrio, era o
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aluno mais interessado do curso e certamente o mais destacado. A nica rea que constitua novidade para Larry era o equipamento, os DC-4. Os avies de Douglas eram 
naves compridas e silenciosas, parcialmente apetrechadas com equipamento inexistente no incio da guerra. Larry passava horas a estudar cada milmetro do aparelho, 
examinando a forma como fora montado e como funcionava.  noite, mergulhava nas dezenas de manuais de manuteno do avio. Certa noite, a altas horas, j os outros 
alunos tinham abandonado o hangar, Sakowitz fora encontrar Larry num dos DC, deitado de costas sob a cabina, a examinar a parte elctrica do avio.
- Podes acreditar: o gajo est a fazer-se ao meu lugar - disse Sakowitz a Carl Eastman na manh seguinte.
- Agindo dessa maneira, talvez o consiga - disse Eastman com um sorriso largo.
Ao fim das oito semanas, houve uma pequena cerimnia para a entrega dos diplomas. Catherine deslocou-se cheia de orgulhos a Nova Iorque, para estar presente na entrega 
das asas de navegador a Larry.
Tentava no dar importncia  ocasio.
- Cathy,  apenas um bocado de tecido que nos do para nos lembrarmos da nossa funo quando entramos numa cabina.
- Oh, no , no, senhor - disse ela. - Falei com o comandante Sakowitz, que referiu as tuas qualidades.
- Que sabe um polaco estpido? - disse Larry. - Vamos comemorar.
Nessa noite, Catherine e Larry e quatro colegas de curso de Larry e as suas mulheres foram jantar ao Clube Twentyne, na 52.  Rua, na parte oriental de Nova Iorque. 
O salo estava repleto, e o maitre d'hotel disse-lhes que s tinha mesa quem tivesse feito reserva.
- Este lugar no interessa a ningum - disse Larry. - Vamos ao Toots Shor, aqui mesmo ao lado.
- Espera um minuto - disse Catherine.
Dirigiu-se ao chefe de mesa e disse que queria falar com Jerry Berns. Alguns momentos depois, um homem baixo e magro com uns olhos cinzentos curiosos apareceu.
- Sou Jerry Berns - disse ele. - Em que posso servi-la?
- O meu marido e eu estamos com alguns amigos - explicou Catherine. - Ao todo, somos dez.
Comeou a abanar a cabea.
- Se no tiverem reserva...
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- Sou scia de William Fraser - disse Catherine. 
Jerry Berns olhou para Catherine com um ar de censura. - Por que no me disse logo? Pode dar-me um quarto de hora? - Obrigada - disse Catherine agradecidamente. 
Juntou-se ao
grupo. - Surpresa! - disse Catherine. - Arranjmos mesa. - Como  que conseguiste? - perguntou Larry. - Foi fcil - disse Catherine. - Falei no nome de Bill Fraser. 
Apercebeu-se da expresso no olhar de Lany. - Ele vem c muitas
vezes-acrescentoulogo Catherine. -E disse-me que falasse no nome dele se por acaso viesse c e no houvesse mesa. 
Larry voltou se para os outros.
- Vamos mas  embora daqui. Isto  para idiotas.  o grupo comeou a dirigir-se para a porta. Larry voltou-se para
Catherine.
- Vens?
- Claro - disse Catherine com hesitao -, eu s queria dizer-lhes que ns no vamos...
- Estes gajos que se lixem - disse Larry em voz alta. - Ficas ou
vens?
As pessoas viravam-se, cm olhares reprovadores. Catherine
sentiu o rosto enrubescer.
- Vou - disse ela. Virou-se e seguiu atrs de Larry at  porta.
Foram a um restaurante italiano da Sexta Avenida, onde jantaram muito mal. Por fora, Catherine agia como se nada tivesse acontecido, mas por dentro estava cheia 
de raiva. Estava furiosa com
Larry pelo seu comportamento infantil e pela sua humilhao em pblico. 
Quando chegaram a casa, foi para a casa de banho sem dizer uma
palavra, despiu-se, apagou a luz e meteu-se na cama. Ouviu Larry
na sala, a misturar uma bebida.
Dez minutos depois entrou no quarto, acendeu a luz e aproximou-se da cama.
- Ests a armar-te em vtima? - perguntou ele.
Ela sentou-se, furiosa.
- No tentespr-me  defesa-disseela. -O teu comportamento desta noite foi indesculpvel. Que  que te deu?
- O mesmo que te deu a ti.
Ela fitou-o.
- Oqu. 
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- Estou a falar do Sr. Perfeio. Bill Fraser. 
Olhou, sem perceber. - Bill nunca fez outra coisa que no ajudar-nos.
- Podes crer - disse ele. - deves-lhe a firma. Eu devo-lhe o emprego. Agora nem nos podemos sentar num restaurante sem a autorizao de Fraser. Bem, estou farto 
de o ver  minha volta todo o santo dia. - O tom de Larry abalou Catherine ainda mais do que as palavras que proferia.
Sentia-se to frustrado e impotente que ela compreendeu pela primeira vez o tormento em que devia estar. E por que no? Regressara de quatro anos de combate para 
descobrir a mulher associada ao antigo namorado. E, para piorar o caso, ele prprio no fora capaz de arranjar um emprego sem a ajuda de Fraser.
Enquanto olhava para Larry, Catherine deu conta de que o casamento deles havia chegado a um ponto de viragem. Se ficasse com ele, ele teria de vir em primeiro lugar. 
Antes do trabalho dela, antes de tudo. Pela primeira vez, Catherine sentiu que realmente entendia Larry.
Como se lhe lesse o pensamento, Larry disse em tom de penitncia:
- Desculpa ter-me comportado como um boal esta noite. Mas, quando conseguimos arranjar mesa s atravs do nome mgico de Fraser, subitamente fiquei at aqui.
- Desculpa, Larry-disse Catherine-, no voltarei afazer o que fiz.
E caram nos braos um do outro, e Larry disse:
- Por favor, nunca me abandones, Cathy.
E Catherine pensou que estivera  beira de o fazer, e abraou mais e disse:
- Nunca te abandonarei, meu amor, nunca.
A primeira misso de Larry como navegador foi no voo 147 de Washington para Paris. Ficava em Paris durante quarenta e oito horas depois de cada voo, depois regressava 
a casa durante trs dias antes de voltar a voar.
Uma manh, Larry telefonou a Catherine para o escritrio, excitado.
- Descobri um ptimo restaurante. Podes sair para almoar?
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Catherine olhou para a quantidade de projectos que tinham de ser concludos e aprovados antes do meiodia.
- Claro - disse ela, num tom imprudente.
- Vou buscar-te dentro de quinze minutos.
- No me vai abandonar! - queixou-se Lucia, a assistente. Stuyvesant vai dar uivos se no Lhe aprontarmos a campanha hoje.
- Isso fica para depois - disse Catherine. - Vou almoar com o meu marido.
Lucia encolheu os ombros.
- No a censuro. Quando se cansar dele, diga-me, est bem? Catherine sorriu.
- Nessa altura voc ser velha de mais.
Larry parou em frente ao escritrio, e Catherine entrou no carro.
- Estraguei-te o dia? - perguntou ele maliciosamente.
- Claro que no.
Ele riu-se.
- Os executivos vo ter todos um ataque.
Larry tomou o caminho do aeroporto.
- O restaurante fica muito longe? - perguntou Catherine.
tinha cinco entrevistas  tarde, sendo a primeira s duas horas.
- No  muito longe... Tens muito que fazer  tarde?
- No - mentiu ela. - Nada de especial.
- ptimo.
quando chegaram  rotunda do aeroporto, Larry virou em direco  entrada.
- O restaurante fica dentro do aeroporto?
- No outro lado - respondeu Larry.
Estacionou o carro, deu o brao a Catherine e levou-a para a sala da Pan Am. A rapariga atraente que se encontrava ao balco cumprimentou-o pelo nome.
-  a minha esposa - disse Larry orgulhosamente. - Amy Winston.
Cumprimentaram-se com um ol.
- Anda. - Larry pegou no brao de Catherine e levou-a at  plataforma de embarque.
- Larry... - comeou Catherine a dizer. - Para onde... ?
- Bolas, s a mulher mais faladora com quem j almocei. Chegaram  porta 37. Dois homens ao balco processavam os embarques. No quadro de informaes lia-se KVoo 
147 com destino a Paris - Partida 13: 00 HRS.
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Larry foi ter com um dos homens que estava ao balco.
- C est ela, Tony. -Entregou-lhe uma passagem area. -Cathy, Tony Lombardi. Catherine.
- J ouvi falar muito de si - sorriu o homem. - O seu bilhete est em ordem. - Entregou a passagem a Catherine.
Catherine ficou o olhar no papel, atnita.
- Para que  isto?
- Eu menti-te - sorriu Larry. - No te vou levar a almoar. Vou levar-te a Paris, ao Maxim.
A voz de Catherine falhou.
- M... Maxim? Em Paris? Agora?
-  verdade.
- No posso - lamentou-se Catherine. - No posso ir para Paris agora.
- Claro que podes - disse ele num sorriso largo. - Tenho o teu passaporte no bolso.
- Larry - disse ela -, ests doido! No tenho roupa. Tenho um milho de compromissos. Eu...
- Eu compro-te algumas roupas em Paris. Anula os teus compromissos. Fraser pode muito bem passar sem ti durante alguns dias.
Catherine fitou-o, sem saber o que dizer. Lembrou-se das decises que tomara. Larry era o marido. tinha de vir em primeiro lugar. Catherine percebeu que para Larry 
no era s lev-la a Paris que estava em causa. Ele estava a exibir-se diante dela, pedindo-lhe que viajasse no avio de que ia ser navegador. E ela quase deitara 
tudo a perder. Agarrou-lhe na mo e sorriu-lhe.
- Estamos  espera de qu? - perguntou Catherine. - Estou morta de fome.
Paris era um turbilho de divertimento. Larry conseguira arranjar uma semana de folga, e Catherine achava que todas as horas do dia e da noite transbordavam de coisas 
para fazer. Hospedaram-se num encantador hotelzinho na Margem Esquerda. Na primeira manh que passaram em Paris, Larry levou Catherine a uma loja nos Campos Elseos, 
onde quis comprar-lhe a loja inteira. Ela comprou apenas o que precisava e ficou chocada com os preos.
- Sabes qual  o teu problema? - disse Larry. - Preocupas-te demasiado com o dinheiro. Tu ests em lua-de-mel.
- Est bem, meu amo - disse ela.
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Mas recusou-se a comprar um vestido de noite desnecessrio. Quando tentou perguntar a Larry a origem de todo aquele dinheiro, no quis falar no assunto, mas ela 
insistiu.
- Adiantaram-me sobre o ordenado - disse-lhe Larry. - Qual  o problema?
E Catherine no teve coragem de lhe dizer. Parecia uma criana quando tem dinheiro, generoso e descuidado, e isso era parte do seu encanto.
Tal como fora parte do encanto do pai.
Larry deu a volta turstica por Paris: o Louvre, as joalherias e os Invlidos para ver o smulo de Napoleo. Levou-a a um restaurantezinho tpicojunto  Sorbonne. 
Visitaram as Halles, o lendrio mercado de Paris, e viram a fruta, as hortalias e a carne do dia produzidas nas quintas de Frana e passaram a ltima tarde de domingo 
que lhes restava em Versalhes, e depoisjantaram nojardim lindssimo do Coq Hardi nos arredores de Paris. Foi uma segunda lua-de-mel perfeita.
Hal Sakowitz estava no escritrio, examinando os relatrios semanais do pessoal. Diante de si tinha o relatrio sobre Larry Douglas.
sakowitz estava recostado na cadeira, analisando, puxando pensativamente pelo lbio inferior. Por fim, inclinou-se para a frente e premiu o boto do intercomunicador. 
- Mande-o entrar - disse ele. 
Um momento depois, Larry entrou, vestido com o uniforme da Pan
Am e o seu saco de voo na mo. Lanou um sorriso rpido a Sakowitz.
- Bom dia, chefe - disse ele.
- Sente-se.
Larry afundou-se numa cadeira que se encontrava diante da secretria e acendeu um cigarro.
Sakowitz disse:
" - Tenho aqui a informao de que na passada segunda-feira em
Paris voc chegou  reunio de voo com quarenta e cinco minutos de
atraso.
A expresso de Larry alterou-se.
- Fui retido por uma parada nos Campos Elseos. O avio levantou voo  hora certa. No sabia que isto aqui era um campo de escuteiros.
244

- Isto  uma companhia area-disse Sakowitz, calmamente. E cumprimos todas as regras.
- tudo bem - disse Larry num tom irado. - No me aproximarei dos Campos Elseos. Mais alguma coisa?
- Sim. O comandante Swif acha que voc bebeu uns copos antes da descolagem dos ltimos voos.
- Ele  um grande mentiroso! - ripostou Larry.
- Por que mentiria ele?
- Porque est com medo de que eu fique com o lugar dele. - Havia uma raiva aguda na voz de Larry. - O sacana  uma carcaa que j se devia ter reformado h anos.
- Voc voou com quatro comandantes diferentes - disse Sakowitz. - De qual gostou mais?
- De nenhum deles - retorquiu Larry. Deu pela armadilha tarde de mais. Apressadamente, acrescentou: - Quer dizer... so todos competentes. No tenho nada contra 
eles.
- Eles tambm no gostam de voar consigo - disse Sakowitz tranquilamente. - Voc enerva-os.
-que diabo significa isso?
- Significa que se houver uma emergncia eles querem saber quem  o homem que est ao lado deles. No sabem ao certo o que pensam a seu respeito.
- Pelo amor de Deus! - explodiu Larry. - Vivi quatro anos de emergncias na Alemanha e no Pacfico Sul, pondo a vida em risco todos os dias, enquanto eles estavam 
aqui todos refastelados, a ganhar bons ordenados, e agora no confiam em mim ? Voc deve estar a brincar!
- Ningum duvida das suas qualidades num avio de combate -  respondeu Sakowitz calmamente. - Mas ns transportamos passageiros. Isto  um jogo muito diferente.
Larry deixou-se ficar, de punhos cerrados, tentando dominar a raiva.
- Muito bem - disse ele com maus modos. - Entendi a mensagem. Se j terminou, tenho um voo daqui a alguns minutos.
- Vai outra pessoa no seu lugar - disse Sakowitz. - Voc est ipedido.
Larry fitou-o incredulamente.
- Estou qu ?
- De certo modo, acho quea culpa  minha, Larry. Eu nunca o deveria ter contratado.
245

 arry psse de p, os olhos ardendo de fria.
- Ento por que diabo o fez? - perguntou ele.
- Porque a sua mulher tem um amigo chamado Bill Fraser...
justificou-se Sakowiz.
 larry contornou a secretria, esmagando o punho na cara de Sakowitz. O muno atirou Sakowitz contra a parede. No ressalto deu dois socos em Larry, depois recuou, 
tentando dominar-se.
- Ponha-se daqui para fora - disse ele. - J!
Larry fitou-o com o rosto distorcido de dio.
- Seu filho da puta -disse ele. -Eu no punha os ps nesta companhia area outra vez nem que voc me implorasse! - Voltou-se e saiu do escritrio furioso.
Sakowitz permaneceu onde estava, vendo sair. A secretria entrou a correr. Viu a cadeira derrubada e o lbio ensanguentado de Sakowitz.
- O senhor est bem? - perguntou ela.
- ptimo - disse ele. - Pergunte ao Sr. Eastman se pode vir aqui.
Dez minutos depois, Sakowitz dera por terminado o relato do incidentc a Carl Eastman.
- Que achas que h de errado com Douglas? - perguntou Eas man.
- Sinceramente? Acho que  um psicopata.
-  Eastman fitou com os seus olhos penetrantes cor de avel.
- Isso  muito forte, Sak. Ele no estava durante o voo. Ningum
pode sequer provar que tinha tomado uma bebida em terra. E toda a
gente pode atrasar se de vez em quando.
- Se fosse s isso, no o teria despedido, Carl. Douglas ferve em
 pouca gua. Para te dizer a verdade, eu hoje estava a tentar provoc-lo, e no foi difcil. Se ele tivesse aguentado a presso, eu poderia ter
corrido o risco de o ter deixado ficar. Sabes o que me preocupa? - O qu?
Sakowitz disse: - Aqui h uns dias encontrei-me com um velho amigo que voa
va com Douglas na R. A F. Contou-me uma histria incrvel. Parece que quando Douglas estava na Esquadrilha guia se apaixonou
por uma rapariga inglesa que era noiva dum rapaz chamado Clark,
que fazia parte da Esquadrilha de Larry. Douglas no a deixava em
paz, mas a rapariga no lhe ligava nenhuma. Uma semana antes do
casamento, a Esquadrilha descolou para apoiar uns B-17num rali 
246

sobre Diepe. Douglas voava na retaguarda da Esquadrilha. As fortalezas lanaram as bombas e todos regressaram  base. Quando sobrevoavam a Mancha, foram atingidos 
por alguns Messerschmidt, e Clark foi abatido. - Fez uma pausa, perdido nalgum pensamento. Eastman aguardou que continuasse, at que por fim Sakowitz olhou para 
ele. -Segundo o meu amigo, no havia nenhum Messerschmidt perto de Clark quando foi atingido.
Eastman fitava, incrdulo.
- Santo Deus! Tu ests a dizer que Larry Douglas... ?
- No estou a dizer nada. Estou a apenas a contar-te uma histria interessante que ouvi. - Levou o leno de novo ao lbio. O sangue estancara. -  difcil saber 
o que est a acontecer durante uma luta de ces. Talvez a Clark tivesse apenas faltado gasolina. Uma coisa  certa: faltou-lhe foi sorte.
- Que aconteceu  rapariga?
- Demiris andou com ela at regressar aos Estados Unidos e depois deu-lhe com os ps. - Olhou para Eastman pensativamente. S te digo esta certeza. Sinto pena da 
mulher de Douglas.
Catherine estava na sala de conferncias numa reunio de pessoal quando a porta se abriu e Larry entrou.
Tinha o olho negro e inchado, um golpe na face. Ela foi logo ao seu encontro.
- Larry, que aconteceu?
- Despedi-me - murmurou ele.
Catherine levou-o para o gabinete dela, longe dos olhares de pasmo dos outros, e ps-lhe um pano molhado no olho e na face.
- Conta-me o que se passou - disse ela, dominando a ira perante o que lhe haviam feito.
- H muito tempo que andavam a embirrar comigo, Cathy. Acho que me invejavam porque eu estive na guerra e eles no. Mas hoje passou dos limites. Sakowitz chamou-me 
e disse-me que s me contrataram foi porque tu eras a queridinha de Bill Fraser.
Catherine olhou para ele, sem saber o que dizer.
- Eu bati-lhe - disse Larry. -no pude evitar.
- Oh, querido! - disse Catherine. - lamento tanto.
- Sakowitz lamenta ainda mais - respondeu Larry. - Ia dando cabo dele. Com ou sem emprego, no ia permitir que ningum falasse daquele modo a teu respeito.
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ela abraou-o, animadoramente.
- No te preocupes.  podes trabalhar em qualquer companhia
area do pas.
Catherine revelou-se uma m profetiza. Larry apresentou a sua candidatura em todas as linhas areas, sendo entrevistado por vrias, mas nenhuma voltou a contact-lo. 
Bill Fraser almoou com Catherine, e ela contou-lhe o sucedido. Fraser no disse nada, mas esteve pensativo durante todo o almoo. Vrias vezes sentiu que ele ia 
dizer-lhe alguma coisa, mas parava sempre. Por fim disse:
- Conheo muitas pessoas, Cathy. queres que lhe arranje qualquer coisa noutro lugar?
- Obrigada - disse Catherine agradecidamente. - Mas penso que no. Havemos de nos arranjar.
Fraser olhou-a por um momento, depois anuiu.
- Se mudares de ideia, diz-me.
- Est descansado - disse ela reconhecidamente. - Ando sempre a aborrecer-te com os meus problemas.
AGNCIA DE SEGURANA ACME Rua D, 1402 Washington
Rel 2-179-2101 de Abril, 1945
Ex. m" Sr. Barbet:
Agradeo a sua carta do passado dia 15 de Maro, bem como a ordem de pagamento.
Desde o meu ltimo relatrio, a pessoa em causa empregou-se como piloto na Flying Wheels, uma pequena companhia independente de avies de aluguer com sede em Long 
Island. Aps uma pequena investigao junto do Banco Dun e Bradstreet, sabemos que dispe de um capital de 750 000 dlares. Est equipada com um 26 e um DC transformados. 
Contraiu emprstimos bancrios num valor superior a 400000 dlares. O vice-presidente do Banco de Paris em Nova Iorque, onde tem os seus maiores depsitos, assegurou-me 
que a companhia tem um potencial de crescimento e futuro excelentes. O Banco est a estudar a hiptese de emprestar o dinheiro sufi-
248
ciente para a aquisio de mais avies com base nas receitas actuais de 80000 dlares anuais, com aumentos previstos de 30% ao ano, nos prximos cinco anos.
Se desejar mais pormenores sobre os aspectos financeiros da companhia, queira solicitar-mos.
A pessoa em causa comeou a trabalhar a 19 de Maro. O chefe do pessoal (que  tambm um dos proprietrios) informou o meu agente de que se sentia feliz por a pessoa 
em causa estar ao seu servio. Seguiro mais pormenores.
Atentamente,
R. Ruttenberg Director
Bunco de Paris Nova Iorque
Philippe Chardon
Presidente da Administrao
Cara  Noelle:
s mesmo m! No sei que te fez esse, mas, fosse o que fosse, pagou bem. Foi despedido da Flying Wheels, e o meu amigo disse-me que teve um ataque de fria.
Penso ir a Atenas, e estou a contar ver-te. As minhas lembranas a Costa - e no estejas preocupada, porque o meu pequeno favuor ser o nosso segredo.
Teu amigo dedicado,
Philippe
249

AGNCIA DE SEGURANA ACME Rua D, 1402 Washington
Reli n" 2-179-210 22 de Maio, 1946
Ex. m" Sr. Barbet:
O presente relatrio reporta-se ao por mim enviado a de Maio, p. p.
No dia 14 de Maio, p. p. a pessoa em causa foi despedida da companhia Flying Wheels. Tenho tentado fazer investigaes discretas das razes do sucedido, mas deparei 
sempre com um muro cerrado. Nenhum dos trabalhadores quis fazer comentrios, o que me leva a concluir que a pessoa em causa cometeu um acto grave e ningum quer 
falar no assunto.
A pessoa em causa anda  procura de outro emprego na aviao, mas aparentemente no tem perspectivas imediatas. Continuarei a tentar obter mais informaes sobre 
os motivos que esto na base do seu despedimento.
Atentamente,
R. Ruttenberg Director
TELEGRAMA 29 de Maio, 1946
Christian Barbert Telegramas Chrisbar Paris, Frana
TELEGRAMA RECEBIDO SObre o proCESSO DE IMEDIATO INVESTIGAO SOBRE CAUSA DO DESPEDIMENTO DA PESSOA EM CAUSA STOP EXECUTAREI O RESTO COMO AT AQUI
CUMPRIMENTOS
R. UTTENBERG AGNCIA SEGURAN'A ACME

AGNCIA DE SEGURANA ACME
Rua D, 1402 Washington
Reli " 2-179-210, 16 de Junho, 1946
Ex. m" Sr. Barbet:
Agradeo a sua carta de 10 de Junho, bem como a ordem de pagamento.
No dia 15 de Junho, a pessoa em causa empregou-se como co-piloto da Global Airways, uma linha area regional subsidiria que opera entre Washington, Bston e Filadlfia.
A Global Airways  uma nova companhia com uma frota de trs avies de guerra convertidos, e, tanto quanto pude apurar, encontra se subcapitalizada e endividada. 
Um vice-presidente da firma informou-me de que o rst National Bank de Dalas lhes prometeu um emprstimo dentro dos prximos sessenta dias, o qual lhes permitir 
consolidar as dvidas e a expanso.
A pessoa em causa  muito estimada na empresa, onde parece ter um bom futuro. queira informar-me se deseja outras informaes sobre a Global Airways.
Atentamente,
R. ftuttenberg Managing Supervisor
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AGNCIA DE SEGURANA ACME Rua D, 1402 Washington
Ref n." 2-17-210, 20 de Julho, 1946
Ex. m" Sr. Barbet:
A Global Airways abriu falncia inesperadamente e vai deixar de operar. Pelo que pude apurar, esta aco coube a dever-se  recusa do First National Bank de Dalas 
na concesso do emprstimo prometido. A pessoa em causa est novamente desempregada e regressou aos antigos padres de comportamento, como descrevi em relatrios 
anteriores.
No procederei a nenhuma investigao sobre a razo da recusa do emprstimo por parte do banco  Global Airways, nem sobre as difculdades financeiras da companhia, 
a no ser que me recomende expressamente que o faa.
Atentamente,
R. Ruttenberg, Director
Noelle guardava todos os relatrios e recortes numa pasta de cabedal para o efeito, de que s ela tinha a chave. A pasta estava guardada numa mala trancada e arrumada 
no fundo do roupeiro do quarto, no porque pensasse que Demiris fosse mexer nas suas coisas, mas apenas porque sabia o quanto ele gostava de intriga. Isto era uma 
vingana pessoal de Noelle, e queria ter a certeza de que Demiris se mantivesse longe da mesma. Constantin Demiris desempenharia um papel no seu plano de vingana, 
do qual, no entanto, nunca teria conhecimento. Noelle olhou uma vez mais para o memorando e trancou, satisfeita.
Estava pronta para comear.
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tudo comeou com um telefonema.
Catherine e Larry jantavam em casa num ambiente que o silncio tornava incmodo. Larry ultimamente quase no parava em casa, mostrando-se grosseiro e malcriado quando 
estava. Catherine entendia a sua infelicidade.
- Parece que o azar no me larga -dissera-lhe quando a Global Airways abrira falncia.
E era verdade. tivera uma mar de azar incrvel. Catherine tentava incutir-Lhe confiana, lembrava-o constantemente do excelente piloto que era e como se sentiriam 
afortunadas as empresas que trabalhariam com ele. Mas era como se vivesse com um leo ferido. Catherine no sabia quando se atiraria a ela; e, porque tinha medo 
de o abandonar, tentava entender as suas raivas enfurecidas e ignorlas. O telefone tocou no momento em que ela lhe servia a sobremesa. Levantou o auscultador.
- Estou?
Era a voz dum ingls no outro lado da linha que perguntava:
- Posso falar com Larry Dougias, por favor? Aqui fala Ian Whitestone.
-  s um momento. -Deu-lhe o telefone. - para ti. Ian Whitestone.
Ele franziu o sobrolho, intrigado.
- quem? - Depois o rosto iluminou-se. - No me digas! - Levantou-se e tirou-lhe o telefone da mo. - Ian? - Deu uma gargalhada breve. -Meu Deus, j l vo quase 
sete anos. Como  que conseguiste dar comigo?
Catherine via-o abanar a cabea e sorrir enquanto escutava. Ao fim de cinco minutos, disse:
- Bem, issoparece interessante, meu amigo. Claro que posso. Onde? - Prestou ateno. - Certo. Meia hora. Ento at j. - Pensativamente, voltou a colocar o auscultador.
- Era um amigo teu? - perguntou Catherine.
Larry voltou-se para ela.
- No, realmente no. Por isso  que  to esquisito. Voei com ele na R. A. F. Nunca fomos muito chegados. Mas diz que tem uma proposta a fazer me.
- Que tipo de proposta? - perguntou Catherine.
Larry encolheu os ombros.
- Ficars a saber quando eu voltar.
253

Eram quase trs da manh quando Larry chegou a casa. Catherine estava sentada na cama, a ler. Larry apareceu na porta do
quarto.
- Viva.
Alguma coisa Lhe acontecera. Irradiava uma excitao que Catherine no vira nele havia muito tempo. Aproximou-se da cama.
- Como  que correu o encontro?
- Acho que correu muito bem - disse Larry, cautelosamente. De facto, correu to bem que ainda nem acredito. Parece-me que vou
arranjar emprego.
- A trabalhares para Ian Whitestone?
- No. Ian  piloto... como eu. J te disse que vomos juntos.
-  verdade.
- Bem... depois da guerra, por intermdio de um amigo grego arranjou emprego como piloto particular de Demiris.
- O magnata dos barcos?
- Barcos, petrleo, ouro... Demiris  dono de metade do mundo.
Whitestone tinha uma boa situao l.
- Que aconteceu? 
Larry olhou para ela e deu um sorriso largo. - Whitestone deixou o emprego. Vai viver para a Austrlia, onde, atravs de algum, conseguiu estabelecer-se por conta 
prpria. - Ainda no consigo compreender-disse Catherine. -Que tem
tudo isso a ver contigo - Whitestone falou a Demiris na possibilidade de eu ficar com o
ugar dele. Despediu-se de repente, e Demiris no teve ocasio para
arranjar um substituto. Whitestone acha que sou a pessoa certa. - Hesitou. - No imaginas o que isto pode significar, Cathy.
Catherine pensou nas outras vezes, nos outros empregos, e lembrou-se do pai e dos seus sonhos vazios, e manteve uma voz neutra,
no desejando encorajar nenhuma falsa esperana em Larry, e no entanto no querendo abater o entusiasmo dele.
- No disseste que tu e Whitestone no eram l grandes amigos?
Hesitou.
- Pois disse.
Uma pequena ruga surgiu-lhe na testa. De facto, Ian Whitestone e ele nunca morreram de amores um pelo outro. A chamada telefnica desta noite fora uma grande surpresa. 
No encontro, Whitestone parecera estranhamente pouco  vontade. Quando explicou
A situao, Larry disse:
254

- Surpreende-me que te tenhas lembrado de mim. Houve um momento de embarao, tendo Whitestone dito depois:
- Demiris quer um bom piloto, e isso tu s.
Whitestone parecia estar a impingir-lhe o emprego, e Larry estar a fazer-lhe um favor. Deu sinais de alvio quando Larry se mostrou interessado e em seguida pareceu 
ansioso por ir-se embora. Vistas bem as coisas, fora um encontro estranho.
- Uma oportunidade como esta s acontece uma vez na vidadisse Larry a Catherine. -Demiris pagava quinze mil dracmas mensais a Whitestone. So quinhentos dlares, 
pelo que vivia como um rei.
- Mas no terias de viver na Grcia?
- Ns teramos viver na Grcia - corrigiu-a Larry. - Com esse dinheiro todo, podamos poupar o suficiente para termos a nossa independncia dentro de um ano. Tenho 
de arriscar.
Catherine estava hesitante, escolhendo cuidadosamente as palavras.
- Larry,  to longe, e tu nem sequer conheces Constantin Demiris. Deve haver por c um emprego de piloto que...
- No! - O seu tom foi agressivo. - Aqui todos se marimbam para as qualidades dum bom piloto. S lhes interessam os anos que temos de sindicato. L, serei independente. 
Tem sido o meu sonho, Cathy. Demiris tem uma frota de avies inacreditvel, e, querida, vou ser novamente piloto. S teria de agradar a Demiris, e Whitestone diz 
que vou cair nas boas graas dele.
Pensou de novo no emprego que Larry teve na Pan Am e nas esperanas que tivera l e nos desaires nas companhias pequenas. Meu Deusm, pensou ela. Em que me vou eu 
meter? Significaria abandonar o negcio que empreendera, ir viver num lugar estranho com gente estranha, com um marido quase estranho.
Ele olhava para ela.
- Apoias-me?
Olhou o seu rosto ansioso. Era o marido dela e se no queria destruir o casamento teria de viver onde ele vivesse. E como seria maravilhoso se tudo acabasse bem! 
Voltaria a ser o Larry de outros tempos. O homem maravilhoso, encantador e divertido. tinha de arriscar.
- Claro que te apoio - disse Catherine. - Por que no vais falar com Demiris? Se ficares com o emprego, depois irei ao teu encontro:
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Deu aquele sorriso largo e encantador de adolescente.
- Eu sabia que podia contar contigo, amor. - Abraou-a e apertou-a. -  melhor tirares a camisa de noite - disse ele -, ou ento vou ench-la de buracos.
Mas, enquanto ele a despia, Catherine pensava como iria comunicar a Bill Fraser.
Logo na manh seguinte, Larry apanhou um avio com destino a Atenas para se encontrar com Constantin Demiris. Durante os dias que se seguiram, Catherine no teve 
notcias do marido. Com o arrastar da semana, deu por si a desejar que as coisas no tivessem resultado na Grcia e que Larry estivesse de volta a casa. Mesmo que 
fosse trabalhar para Demiris, a durao era por todos desconhecida. Certamente conseguira arranjar um emprego nos Estados Unidos.
Seis dias depois da partida de Larry, Catherine recebeu uma chamada internacional.
- Catherine?
- Ol, querido.
- Faz as malas. Ests a falar com o novo piloto pessoal de Constantin Demiris.
Dez dias depois, Catherine estava a caminho da Grcia.
256
LIVRO DOIS
 NOELLE E CATHERINE
Atenas: 1946
14
O homem molda cidades, e h cidades que moldam o homem. Atenas  uma bigorna que resistiu ao martelo dos sculos. Foi capturada e despojada por Sarracenos, Anglos, 
e Turcos, mas conseguiu sempre sobreviver pacientemente. Fica situada no extremo sul da grande plancie central de tica, que se estende num declive tranquilo at 
o golfo Sarnico a sudoeste, sendo dominada a leste pelo majestoso monte Himeto. Sob a brilhante patina da cidade, ainda era possvel encontrar-se uma vila cheia 
de vlhos fantasmas e enraizada na rica tradio de glrias intemporais, onde os cidados viviam tanto no passado como no presente, uma cidade de surpresas constantes, 
cheia de revelaes e impossvel de conhecer.
Larry estava no aeroporto de Hellenikon  espera do avio de Gatherine. Viu avanar em passo rpido para a plataforma, de rostro ansioso e excitado quando corria 
ao seu encontro. Estava mais bronzeado e mais magro do que quando o vira pela ltima vez, e parecia tranquilo.
- tive saudades tuas, Cathy - disse quando a elevou nos braos.
- Tambm eu. -E, ao diz-lo, apercebeu-se da sinceridade das  palavras.
Esquecia-se sempre do forte impacte fsico que Larry exercia sobre ela sempre que se reviam aps uma separao, o que aconteceu desta vez tambm.
- Como  que Bill Fraser aceitou a notcia? - perguntou Larry quando a desembaraava na Alfndega.
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- reagiu muito bem.
- No teve outro remdio, pois no? - disse Larry, sardonicamente.
Catherine lembrou-se do encontro com Bill Fraser. Fitara-a, chocado.
-  vais-te embora para viver na Grcia? Por que carga de gua?
- Est em letra mida no meu contrato de casamento - respondera ela com ar de brincadeira.
- Mas como  que Larry no consegue arranjarum emprego aqui?
- No fao ideia, Bill. H sempre qualquer coisa que corre mal.
Masj tem um emprego na Grcia e acha que agora as coisas endireitaram.
Aps o impulso do primeiro protesto, Fraser fora maravilhoso.
Facilitara-lhe a vida e pedira-lhe que no cortasse de vez com a firma. No te vais afastar para sempre, passava a vida a dizer.
Catherine pensava agora nestas palavras enquanto observava
Larry, que arranjava um bagageiro para lhe levar as malas at
limusina.
Falou com o bagageiro em grego, e Catherine maravilhou-se com
a facilidade que Larry tinha para as lnguas.
- Espera at conheceres Constantin Demiris - disse Larry. O homem parece um rei. Todos os mandachuvas da Europa parecem
passar o tempo a pensar no que podero fazer para lhe agradar.
- Ainda bem que gostas dele.
- E ele gosta de mim.
Nunca o vira to feliz e entusiasmado. Era um bom pressgio.
A caminho do hotel, Larry descreveu o seu primeiro encontro
Demiris. Um motorista fardado aguardava-o no aeroporto. La
quis ver uma frota de avies, e o motorista levara a um hangare
e, no lado extremo do aerdromo. Havia trs avies, e Larry inspecionou um a um criticamente. O Hacuker Siddeley era uma bele
ele s desejava sentar-se aos comandos e pilot-lo. Ao lado estava
Piper de seis lugares em perfeito estado. Calculou que facilmente
atingiria trezentas milhas por hora. O terceiro avio era um
dois lugares transformado, com motor Lycoming, um avio malhoso para voos mais curtos. Era uma frota particular importante. Depois de terminar a inspeco, Larry 
voltou para junto
do atento motorista.
- Nada mau - disse Larry. - Vamos.
260

O motorista levara-o para uma vivenda em Varkiza, o aristocrtico subrbio situado a vinte e cinco quilmetros de Atenas.
- No vais acreditar no lugar onde Demiris mora - disse Larry a Catherine.
- Como ? - perguntou Catherine, ansiosamente.
- No se pode descrever. So cerca de dez ares com portes elctricos, guardas, ces-de-guarda, tudo. O exterior da vivenda  um palcio, o interior um museu. Tem 
piscina interior, um teatro e um cinema. Hs-de v-la um dia.
- Ele foi simptico? - perguntou Catherine.
- Se foi... - Larry sorriu. -Estenderam-me o tapete vermelho. Deviam estar a par da minha reputao.
Na verdade, Larry ficara numa pequena antessala durante trs horas  espera de ser recebido por Constantin Demiris. Em circunstncias normais, teria ficado furioso 
com a desconsiderao, mas sabia o que estava em jogo neste encontro e sentia-se nervoso de mais para se exaltar. Dissera a Catherine da importncia que o emprego 
tinha para ele. Mas no lhe dissera da urgncia. Voar era o que ele sabia fazer e, sem isso, sentia-se perdido. Era como se a sua vida se tivesse afundado num mar 
de emoes inexploradas, e as presses que sentia eram grandes de mais para as suportar. Tudo dependia deste emprego.
Ao fim de trs horas, um mordomo veio anunciar que o Sr. Demirs i poder receb-lo. Conduziu Larry por uma sala de recepes enorme que parecia pertencer ao palcio 
de Versalhes. As paredes eram de tons delicados de ouro, verde e azul, e nas paredes pendiam tapearias de Beauvais, encaixilhadas em molduras de pau-rosa. No cho 
via-se um magnfico tapete oval da Savonnerie, iluminado por um enorme lustre de cristal de rocha e bronze dourado.
 entrada da biblioteca havia duas colunas em nix verde com capitis de bronze dourado. A biblioteca em si era de grande beleza, projectada por um notvel artista, 
e as paredes eram revestidas com painis de madeiras preciosas. A meio duma parede estava um fogo de sala de mrmore branco com ornamentaes douradas, sobre o 
qual havia dois belos Chnets de bronze de Philippe Caffieri.
Do topo da lareira at ao tecto havia um trem de espelho densamente gravado com uma pintura de Jean Honor Fragonard. Por entre a abertura duma janela panormica, 
Larry viu uma nesga dum ptio enorme que dava acesso a um parque particular cheio de esttuas e fontes.
261
Ao fundo da biblioteca havia uma enorme escrivaninha da Bureau Plat, e atrs dela uma magnfica cadeira de espaldar alto revestida por tapearia Aubusson. Em frente 
da escrivaninha havia duas poltronas com estofos gobelinos.
Demiris encontrava-se junto  escrivaninha, examinando um mapa Mercator enorme pendurado na parede, cheia de alfinetes coloridos. Voltou-se assim que Larry entrou 
e estendeu a mo.
- Constantin Demiris - disse ele, com um sotaque muito tnue. Larry tinha visto fotografias dele em revistas nestes ltimos anos, mas nada o preparara para a fora 
vital deste homem.
- Eu sei - disse Larry, ao apertar-lhe a mo. - Sou Larry Douglas.
Demiris viu que Larry fucou os olhos no mapa de parede.
- O meu imprio - disse ele. - Sente-se. Larry ocupou uma cadeira em frente  escrivaninha.
- Ao que parece, voc e Ian Whitestone foram companheiros de voo na R. A. F.
-  verdade.
Demiris recostou-se na cadeira e examinou Larry.
- Ian tem-no em muito boa conta. Larry sorriu.
- Tambm o tenho em boa conta.  um piloto fantstico.
- Foi o que ele disse a seu respeito, s que usou a palavra ptimo.
Larry teve de novo a sensao de surpresa que sentira quando Whitestone lhe falara pela primeira vez na proposta. Obviamente dera uma imagem pormenorizada de si, 
desproporcionada para " relao que ele e Whitestone haviam tido.
- Eu sou competente - disse Larry. -  a minha profisso. Demiris fez um sinal afirmativo com a cabea. - Gosto de pessoas competentes na sua profisso. Sabia que 
amaioria das pessoas do mundo no o so?
- Nunca dei muita importncia a essas questes  confessou  Larry.
- Eu dou. - Deu a Larry um sorriso gelado. - As pessoas da minha profisso. A maioria delas detesta o que faz, Sr. Douglas. Em vez de procurarem formas de ocupao 
de que gostem, ficam paradas avida inteira, como insectos acfalos.  raro ver-se um homem que gosta do que faz. Quando se encontra algum,  quase certo  bem sucedido.
262

- Suponho que tem razo - disse Larry modestamente.
- Voc no  bem sucedido.
Larry ergueu os olhos para Demiris, subitamente desconfiado.
- Depende do que entende por bem sucedido, Sr. Demiris - disse ele cuidadosamente.
- Sei, por exemplo - disse Demiris de chofre -, que voc foi brilhante na guerra, mas que no est a sair-se muito bem na paz.
Larry sentiu uma contraco nos msculos do maxilar. Percebeu que estava a ser posto  prova e tentou conter a sua ira. A sua mente galopava freneticamente, tentando 
imaginar o que podia dizer para salvar este emprego de que precisava to desesperadamente. Demiris observava, os seus olhos negros cor de azeitona examinando-o calmamente, 
sem nada perderem.
- Que aconteceu ao emprego que tinha na Pan Am, Sr. Douglas? Larry deu um sorriso forado.
- No me agradava a ideia de ficar quinze anos  espera para ser co-piloto.
- Por isso agrediu o homem com quem trabalhava. Larry mostrou a surpresa que sentiu.
- Quem lhe contou isso?
- Oh, v l, Sr. Douglas - disse Demiris com impacincia -, se voc vier a trabalhar para mim, vou pr a minha vida nas suas mos sempre que voar consigo. Acontece 
que prezo muito a minha vida. Chegou a pensar que eu ia contrat-lo sem saber tudo a seu respeito?
- Acho que no - disse Larry.
- Voc foi despedido de dois empregos depois da Pan Am -prosseguiu Demiris. -  m currculo pobre.
- No teve nada a ver com as minhas capacidades - retorquiu Larry, num momento em que a ira se apossava dele novamente. Uma companhia tinha pouco servio, e a outra 
no conseguiu obter um emprstimo bancrio e abriu falncia. Eu sou um ptimo piloto.
Demiris examinou-o por um momento, depois sorriu.
- Eu sei que  -disse ele. -Mas no reage bem  disciplina, pois no?
- No gosto de receber ordens de idiotas que sabem menos do que eu.
- Espero no vir a pertencer a essa categoria - disse Demiris secamente.
- S se estiver nos seus planos dizer-me como pilotar os seus avies, Sr. Demiris.
263
- No, isso seria tarefa sua. Tambm seria tarefa sua levar-me
ao meu destino com eficincia, conforto e segurana.
Larry fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Daria o meu melhor, Sr. Demiris.
- Acredito que sim - disse Demiris. - Esteve a ver os meus
avies.
Larry tentou no manifestar surpresa.
-  verdade.
- que tal os achou?
Larry no podia esconder o seu entusiasmo.
- So uma beleza.
Demiris reagiu  expresso do olhar de Larry.
- J alguma vez pilotou um Haruher Siddeley?
Larry hesitou um momento, tentado a mentir. - Ainda no. 
Demiris abanou a cabea.
- Seria capaz de aprender?
Larry deu um sorriso largo.
- Se tem algum que possa despender dez minutos...
Demiris inclinou-se para a frente e apertou os seus longos dedos
magros.
- Eu devia decidir-me por um piloto que conhecesse todos os
meus avies.
- Mas no o far - disse Larry -, porque um dia ter de comprar avies novos, e vai querer algum que saiba adaptar-se a tudo
quanto comprar.
Demiris abanou a cabea.
- Tem razo - disse ele. - Eu ando  procura  de um piloto.
um piloto a srio... um homem que se sinta totalmente feliz quando
estiver nos cus.
Foi nesse momento que Larry soube que o emprego era seu.
Larry nunca deu conta de que por um triz no fora contratado.  Muito do xito de Constantin Demiris era devido a um instinto almente apurado de adivinhar problemas, 
o qual lhe servira vezes demais para no ser levado em conta. Quando Ian Whitestone o informara da sua partida, Demiris teve um sobressalto silencioso,  devido ao 
modo como Whitestone o fez. Agiu de uma forma natural e pareceu no estar  vontade. No era uma questo
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de dinheiro, garantiu ele a Demiris. Surgira-lhe uma oportunidade de montar o seu prprio negcio com o cunhado em Sydney, e queria arriscar. Depois recomendara 
outro piloto.
-  americano, mas vomosjuntos na R. A. F. No  apenas bom,  ptimo, Sr. Demiris. No conheo melhor aviador.
Demiris escutava calmamente enquanto Ian Whitestone continuava a exaltar as virtudes do amigo, tentando encontrar a nota falsa que o levasse a desafinar. Reconheceu-a 
por fim. Whitestone exagerava nos elogios, mas possivelmente isso devia-se ao embarao que sentia por se demitir to abruptamente. Porque Demiris no era homem que 
deixasse ao acaso nem o mnimo pormenor, fez vrios telefonemas para vrios pases depois de Whitestone sair. Antes do fim da tarde, Demiris tinha apurado que algum 
decidira financiar Whitestone numa pequena firma de electrnica na Austrlia com o cunhado. Falara com um amigo do Ministrio do Ar ingls, e duas horas depois recebera 
um relatrio verbal sobre Larry Douglas. No se deu muito bem em terra", dissera o amigo, nmas era um piloto espantoso. Demiris fizera depois vrios telefonemas 
para Washington e Nova Iorque e ficara rapidamente informado em relao  situao presente de Larry Douglas.
 superfcie tudo parecia isento de outras leituras. E, no entanto, Constantin Demiris tinha aquela vaga sensao de inquietao, um pressentimento de que vinham 
a problemas. Falara no assunto a Noelle, sugerindo que talvez pudesse oferecer mais dinheiro a Ian Whitestone para ficar. Noelle escutara com ateno e dissera:
- No. Deixa-o ir, Costa. E j que recomenda tanto esse piloto americano... devamos experiment-lo.
E isso levara-o a decidir-se.
A partir do momento em que soube que Larry Douglas vinha para Atenas, Noelle no conseguia pensar noutra coisa. Pensou nos anos que demorara, na organizao cuidadosa 
e paciente dos planos, no apertar lento e inexorvel da teia, e estava certa de que Constantin Demiris se teria orgulhado dela se tivesse sabido. Era irnico, reflectia 
Noelle. Se nunca tivesse conhecido Larry, poderia ter sido feliz com Demiris. Completavam-se um ao outro perfeitamente. Ambos amavam o poder e sabiam us-lo. Estavam 
acima das pessoas vulgares. Eram deuses, destinados a mandar. No fim, nunca podiam sair
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vencidos, porque tinham uma pacincia profunda quase mtica. Podiam esperar eternamente. E agora, para Noelle, a espera acabara.
Noelle passou o dia no jardim deitada numa rede, revendo o plano; e, quando o Sol comeou a descer a ocidente, sentia-se satisfeita. De certo modo, pensou ela; era 
uma pena ter ocupado grande parte destes seis ltimos anos com planos de vingana. tinha motivado quase todos os momentos em que estivera acordada, dado  sua vida 
uma vitalidade, um impulso e uma excitao, e agora dentro de poucas semanas a perseguio teria chegado ao fim.
Nesse momento, deitada sob o sol grego que morria com as brisas do fim de tarde que comeavam a arrefecer o jardim verde e calmo, Noelle no fazia ideia de que tudo 
estava apenas no incio.
Na noite anterior  chegada de Larry, Noelle no pregara olho. Ficou acordada a noite inteira, lembrando-se de Paris e do homem que lhe dera o dom da alegria e lho 
tirara de novo... sentindo o filho de Larry no ventre, possuindo o corpo dela como o pai lhe possura o pensamento. Lembrou-se daquela tarde em Paris no lgubre 
apartamento de Paris e na agonia que sentiu quando o cabide metlico e pontiagudo lhe rompia a carne cada vez mais fundo, rasgando o beb com a dor deliciosa e insuportvel 
que a levou a um ataque de histeria, e o rio interminvel de sangue que saa de dentro de si. Lembrou-se de todas estas coisas e reviveu-as novamente... a dor, a 
agonia e o dio... As cinco da manh, Noelle estava a p e vestida, sentada no quarto a olhar para a bola de fogo enorme que nascia do Egeu. Fez-lhe lembrar uma 
outra manh em Paris quando se levantara cedo e se vestira e ficara  espera de Larry - s que desta vez ele ia chegar. Por' que ela tratara disso. Tal como antes 
Noelle precisou dele, tambm
agora Larry precisava dela, mesmo que ainda no o soubesse. Demiris mandou dizer que gostaria de tomar o pequeno-almoo
com ela, mas Noelle estava excitada de mais e receava que a sua disposio pudesse levantar suspeitas. Aprendera h muito que Demiris tinha a sensibilidade dum gato: 
nada lhe escapava. Mais umavez, Noelle lembrou-se que devia agir com cautela. Queria encarregar-se de Larry sozinha e  sua maneira. Pensara demoradamente no facto 
de estar a usar Constantin Demiris como instrumento involuntrio. Se um dia viesse a saber, ele no iria gostar.
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Noelle bebeu meia chvena de espesso caf grego e comeu um pozinho fresco com manteiga. Estava sem apetite. O esprito estava febrilmente concentrado no encontro 
que se efectuaria dali a umas horas. Tomara um cuidado invulgar na maquilhagem e na escolha do vestido, e sabia que estava bonita.
Pouco depois das onze horas, Noelle ouviu a limusina parar  frente da casa. Respirou fundo para dominar os nervos, aproximando-se depois lentamente da janela. Larry 
Douglas estava a sair do carro. Noelle viu-o caminhar at  porta da frente, e foi como se os anos voltassem atrs e os dois estivessem de novo em Paris. Larry estava 
um pouco mais velho, e a guerra e a vida haviam-lhe acrescentado mais rugas ao rosto, mas as mesmas ainda o tornavam mais bonito. Olhando atravs dajanela a uma 
distncia de dez metros, Noelle sentiu ainda o magnetismo selvagem, sentiu ainda o antigo desejo apossar -se dela, misturado de dio, at que se viu assaltada por 
uma sensao de felicidade quase idntica a um clmace. Viu-se ao espelho uma ltima vez e desceu as escadas para se encontrar com o homem que se preparava para 
destruir.
Enquanto descia as escadas, Noelle pensava na reaco que Larry teria quando a visse. Ter-se-ia gabado aos amigos e talvez mesmo  mulher que Noelle Page se apaixonara 
por ele em tempos? Interrogou-se, como o fizera vezes sem conta, se alguma vez reviveu a magia das noites e dos dias que passaram juntos em Paris e se estava arrependido 
do que lhe fizera. Como devia ter-Lhe rodo a alma saber que Noelle se tornara mundialmente famosa ao passo que a vida dele no passava de uma srie de pequenos 
desaires. Noelle queria ver um pouco disso nos olhos de Larry quando se enfrentassem pela primeira vez em quase sete anos. Noelle j estava no trio quando a porta 
da frente se abriu e o mordomo o fez entrar. Larry contemplava a sala enorme quando se voltou e viu Noelle. Olhou-a demoradamente, o seu rosto iluminando-se de admirao 
 vista duma mulher bela.
- Viva - disse ele num tom educado. - Chamo-me Larry Douglas. Tenho uma entrevista marcada com o Sr. Demiris.
E no rosto dele no havia sinal de que a reconhecera. Nem o mnimo.
Ao percorrer de automvel as ruas de Atenas em direco ao hotel, Catherine estava atnita com a sucesso de runas e monumentos que surgiam  sua volta.
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Em frente viu o espectculo impressionante do Parteno em mrmore branco que se ergue no cimo da Acrpole. Havia hotis e prdios de escritrios por toda a parte, 
e no entanto Catherine teve a sensao esquisita de que os edifcios mais recentes pareciam temporrios e impermanentes, ao passo que o Parteno se agigantava, imortal 
e intemporal na claridade cinzelada do ar.
- Impressionante, no ? - disse Larry com um sorriso largo. A cidade  toda assim. Uma runa enorme e bela.
Passaram por um parque enorme situado no centro da cidade com fontes danantes no meio. Centenas de mesas com mastros de cor verde e laranja enchiam o parque, protegidas 
por toldos azuis.
-  a Praa da Constipao - disse Larry.
- O qu?
- O nome verdadeiro  Praa da Constituio. As pessoas sentam-se quelas mesas durante todo o dia a beberem caf grego e a verem o mundo passar.
Em quase todos os quarteires havia esplanadas, e nas esquinas havia homens a vender esponjas de recolha recente. Por toda a parte havia flores  venda, e as bancas 
das floristas eram uma onda de flores violentamente coloridas.
- A cidade  to branca - disse Catherine. -  ofuscante. A suite do hotel era ampla e encantadora, com vista sobre a Praa Syntagma, a grande praa do centro da 
cidade. No quarto havia flores lindssimas e uma fruteira enorme cheia de peas frescas.
-  linda, querido - disse Catherine, circulando pela suite.
O paquete pousara as malas, e Larry deu-lhe uma gorjeta.
- Parapolee - disse o rapaz.
- Parapolee - respondeu Larry.
O rapaz saiu, fechando a porta atrs de si. Larry aproximou-se de Catherine e abraou-a.
- Bem-vinda  Grcia.
Beijou-a sofregamente, e sentiu o corpo rijo de Larry contra a fragilidade do seu, e Catherine viu a falta que lhe fizera e ficou satisfeita. Levou-a para o quarto. 
No toucador estava um pequeno embrulho.
- Abre - disse-lhe Larry.
Os dedos dela rasgaram o papel e numa caixinha que estava l dentro encontrava-se um pssaro minsculo dejade. Apesar de estar to ocupado, Larry lembrara-se, o 
que comoveu Catherine. De certa forma, o pssaro era um talism, um pressgio de que as coisas iam correr bem, que os problemas do passado haviam ficado para trs.
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Quando faziam amor, Catherine disse uma pequena orao de gratido, agradecida por estar nos braos do marido a quem tanto amava, numa das mais excitantes cidades 
do mundo, comeando uma vida nova. O Larry de sempre voltara, e todos os problemas por que haviam passado apenas fortaleceram o seu casamento. Agora nada poderia 
prejudic-los.
Na manh seguinte, Larry falou com um agente imobilirio para mostrar alguns apartamentos a Catherine. O agente era um homem baixo, moreno e de bigode forte, chamado 
Dimitropolous, que se exprimia to rapidamente que ela acreditava sinceramente ser um inglsperfeito, mas mais no eram do que palavras gregas interligadas por uma 
expresso ocasional num ingls indecifrvel. Ao entregar-se  sua merc - um truque que viria a usar nos meses seguintes -, Catherine persuadiu-o a falar muito lentamente 
para poder descobrir algumas das palavras inglesas e tentar adivinhar o que dizia.
A quarta casa que lhe mostrou era um apartamento cheio de luz e ensolarado, com quatro divises, situado naquele que, como mais tarde veio a saber, era o bairro 
Kolonaki, a periferia elegante de Atenas, cheio de belos edifcios residenciais e lojas requintadas.
Quando Larry voltou ao hotel nessa noite, Catherine falou-lhe do apartamento, e dois dias depois mudaram-se.
Larry passava o dia fora, mas tentava estar em casa para almoar com Catherine. O almoo em Atenas tomava-se a qualquer hora entre as nove e o meiodia. Entre as 
duas e as cinco da tarde, todos dormiam a sesta, e as lojas reabriam ficando abertas at tarde. Catherine ficou completamente absorvida pela cidade. Na sua terceira 
noite em Atenas, Larry trouxe um amigo para casa, o conde George Pappas, um grego atraente de 45 anos, alto e esbelto, de cabelo escuro com um ligeiro toque grisalho 
nas tmporas. Havia nele uma curiosa e antiquada dignidade de que Catherine gostava. Levous a jantar numa tasca na Plaka, a parte antiga da cidade. A Plaka compreendia 
gumas ruas ngremes amontoadas a esmo no centro da Baixa de Atenas, com becos sinuosos e em runas, escadas gastas que desembocavam em casinhas construdas durante 
o domnio turco, quando Atenas era uma simples aldeia. A Plaka era um lugar de estruturas caiadas e desconexas, frutafresca e flores, caf torrado que inundava
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o ar com um aroma maravilhoso, mios de gatos e brigas de rua barulhentas. O efeito era encantador. Em qualquer outra cidade, pensou
Catherine, semelhante rea pertenceria aos bairros de lata. Aqui era
um monumento.
A tasca aonde o conde Pappas os levou ficava num terrao ao ar
livre que dava para a cidade; os criados vestiam fardas coloridas.
- que gostaria de comer? - perguntou o conde a Catherine.
Sem saber o que dizer, examinou a ementa estrangeira.
- Importava-se de escolher por mim? No v eu mandar vir o
dono.
O conde Pappas encomendou um sumptuoso banquete, escolhendo uma variedade de pratos para que Catherine tivesse a oportunidade de provar tudo. Comeram dolmades, almndegas 
embrulhadas
em parras; mousaha, uma suculenta empada de carne e beringela;
stifado, lebre guisada com cebola - Catherine s soube o que era
depois de ter comido metade, e no conseguiu dar outra dentada - e
taramosalata, a salada grega de caviar com azeite e limo. O conde
mandou vir uma garrafa de retsina. 
-  o nosso vinho nacional - explicou ele. 
Observava Catherine com divertimento enquanto ela o provava.
tinha um sabor acre e a resina, e Catherine engoliu com dificuldade.
- tivesse eu o que tivesse - disse ela com a voz entrecortada -, acho isto horrivel. 
Quando comiam, trs msicos comearam a tocar msica Bozouia. Era viva, alegre e contagiante e, enquanto o grupo observava,
alguns clientes comearam a dirigir-se para a pista de dana para
danar ao som da msica. O que surpreendeu Catherine foi ver que
os danarinos eram todos homens, e eram magnficos. Estava a divertir-se tremendamente. 
Quando saram da esplanada j passava das trs da manh. O'
conde levou-os de carro at ao apartamento. - J visitou alguma coisa? - perguntou ele a Catherine. - Nem por isso - confessou ela. - Estou  espera de que Larry
tenha uns dias de folga.
O conde virou-se para Larry.
- Talvez eu pudesse mostrar a Catherine algumas vistas enquanto o aguardamos.
- Seria ptimo - disse Larry. - Se acha que no  muita maada. 
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Ser um prazer - respondeu o conde. Virou-se para Catherine. - Importa-se que eu seja seu cicerone?
Olhou para ele e pensou em Dimitropolous, o homenzinho da agncia de propriedades que falava um palavreado fluente.
- Adorava - respondeu ela sinceramente.
As semanas seguintes foram fascinantes. Catherine passava as manhs a arrumar o apartamento, e  tarde, se Larry no estava em casa, o conde vinha busc-la para 
a levar a passear. Foram at Olmpia.
- Este  o estdio dos primeiros Jogos Olmpicos - disse-lhe o conde. - Realizaram-se aqui anualmente durante mil anos a despeito das guerras, das pestes e das fomes.
Catherine contemplava atnita as runas da grande arena, pensando na grandiosidade das provas que ali se haviam realizado durante os sculos, nos triunfos, nas derrotas.
- E ainda falam nos campos dejogos de Eton - disse Catherine.
- Aqui foi onde o esprito do desporto de facto comeou, no foi? o conde riu-se.
- Receio que no - disse ele. - A verdade  um tanto embaraante.
Catherine ergueu o olhar, interessada.
- Porqu?
- A primeira corrida de quadrigas que se realizou foi viciada.
- Viciada?
- Receio bem que sim - confessou o conde Pappas. -Sabe, havia um prncipe rico chamado Pelops que tinha uma contenda com um rival. Decidiram fazer uma corrida de 
quadrigas aqui para ver quem seria o melhor homem. Na noite anterior  corrida, Pelops destruiu a roda da quadriga do rival. Quando a prva comeou, todos os camponeses 
vieram incentivar o seu favorito. A primeira curva, a roda da quadriga do rival saltou, e a quadriga capotou. O rival de Pelops ficou emaranhado nas rdeas e foi 
arrastado at morrer. Pelops prosseguiu a marcha at  vitria.
- que coisa terrvel - disse Catherine. - Que lhe fizeram?
- Essa  que  a parte desagradvel da histria - respondeu o conde. -Nesta alturaj a populaa sabia o que Pelops tinha feito. Fizeram dele um heri to grande 
que mandaram erigir um fronto enorme em sua honra no Templo de Zeus em Olmpia. Ainda l est.
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- Sorriu com desagrado. - Creio que o nosso vilo prosperou e viveu feliz para sempre. De facto - acrescentou -, toda a regio a sul de Corinto lhe deve o nome de 
Peloponeso.
- Quem disse que o crime no compensa? - admirou-se Catherine.
Sempre que Larry estava de folga, os dois iam explorar a cidade sozinhos. Descobriram lojas maravilhosas onde passavam horas a regatear preos, e pequenos restaurantes 
afastados a que se habituaram. Larry era um companheiro alegre e encantador, e Catherine estava grata por ter deixado o emprego nos Estados Unidos para estarjunto 
do marido.
Larry Douglas nunca fora to feliz na vida. O emprego que Demiris lhe dera era o sonho duma vida.
O ordenado era bom, mas Larry no estava interessado em dinheiro. Interessavam-no apenas as mquinas magnficas que pilotava. Precisou apenas de uma hora para aprender 
a pilotar o Hawker Siddeley e mais cinco para domin-lo. Voava quase sempre com Paul Metaxas, o pequeno co-piloto grego sempre bemdisposto de Demiris. Metaxas ficara 
surpreendido pela partida repentina de Ian Whitestone e apreensivo com a sua substituio. Ouvira histrias a respeito de Larry Douglas e no sabia se gostou do 
que ouviu. Douglas, contudo, parecia genuinamente entusiasmado com o novo emprego, e, da primeira vez que Metaxas voou com ele, soube que Douglas era um piloto soberbo.
Aos poucos, Metaxas foi perdendo a desconfiana, e os dois homens tornaram-se amigos.
Sempre que estava em terra, Larry passava o tempo a inteirar- se de toda a idiossincrasia da frota area de Demiris. Antes de terminar, sabia pilotar todos como 
ningum. Larry estava fascinado com a variedade do seu emprego. transportava membros do pessoal de Demiris em viagens de negcios para Brindisi, Corfu e Roma, ou 
ia buscar convidados e lev-los para a ilha de Demiris para uma festa, ou para o chal que tinha na Sua, para esquiarem. Acostumou-se a transportar pessoas cujas 
fotografias via constantemente nas primeiras pginas dos jornais e nas capas das revistas, e regalava Catherine com histrias sobre elas. transportou um presidente 
dum pas balc, um primeirministro britnico, um magnata do petrleo rabe todo o seu harm. transportou cantores de pera, uma companhia de
bailado e o elenco duma pea da Broadway que fora a Londres dar um nico espectculo no aniversrio de Demiris. transportou magistrados de Supremos Tribunais, um 
congressista e um antigo presidente dos Estados Unidos. Durante os voos, Larry passava a maior parte do tempo na cabina, mas de vez em quando vinha at  cabina 
dos passageiros para se certificar do conforto deles. s vezes ouvia partes de conversas entre os magnates sobre fuses iminentes ou negociao de aces. Larry 
poderia terfeito uma fortuna com as informaes que recolhia, mas simplesmente no estava interessado. O que o preocupava era o avio que pilotava, poderoso e vivo 
sob o seu controlo. S passados dois meses  que Larry transportou o prprio Demiris.
Ia no Piper levar o patro de Atenas para Dubrovnik. O dia estava nebuloso, e a previso indicava vento forte e chuva ao longo da rota. Larry havia escolhido cuidadosamente 
a rota menos tempestuosa, mas o ar estava to turbulento que foi impossvel evit-la.
Uma hora depois de sarem de Atenas, acendeu o sinal de apertar o cinto e disse a Metaxas:
- Aguenta-te, Paul. Isto pode custar-nos o emprego. Para surpresa de Larry, Demiris apareceu na cabina.
- Posso fazer-lhes companhia? - disse ele.
-  vontade - disse Larry. - A coisa vai ficar feia. Metaxas ofereceu o seu lugar a Demiris, que se sentou e apertou o cinto. Larry teria preferido ter o co-piloto 
sentado a seu lado, pronto a agir se algo corresse mal, mas o avio pertencia a Demiris.
A tempestade durou quase duas horas. Larry sobrevoou as grandes montanhas de nuvens que se acumulavam  frente deles, maravilhosas, brancas e mortais.
- Lindo - comentou Demiris.
- So assassinas - disse Larry. - Cmulos. O vento que transportam  que as torna belas e fofas. O interior daquela nuvem pode desfazer um avio em dez segundos. 
 possvel subir e cair trinta mil ps em menos de um minuto sem qualquer controlo do avio.
- Estou certo de que voc no permitir que isso acontea-disse Demiris calmamente.
Os ventos batiam no avio e tentavam tir-lo da rota, mas Larry esforou-se para mant-lo sob controlo. Esqueceu-se de que Demiris estava ali, centrando toda a sua 
ateno no avio que pilotava, usando toda a percia que aprendera. Por fim, viram-se livres da tempestade. Larry voltou-se, exausto, e viu que Demiris abandonara 
a cabina. Metaxas ocupava o seu lugar.
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- Como primeira viagem, proporcionei lhe um pssimo voo, Paul
- disse Larry. - Posso ter arranjado um sarilho.
Estava a fazer-se  pequena pista rodeada de montanhas do aeroporto de Dubrovnik quando Demiris apareceu na ombreira da porta da cabina.
- Voc tinha razo - disse Demiris a Larry. -  um profissional muito bom. Estou satisfeito.
E Demiris retirou-se.
Certa manh, quando Larry se preparava para ir a Marrocos, o conde Pappas telefonou a sugerir que gostava de levar Catherine num passeio de carro pelo campo. Larry 
insistiu que ela fosse.
- No tens cimes? - perguntou ela.
- Do conde? - Larry riu-se.
E Catherine de repente entendeu. Durante o tempo que passara com o conde, nunca lhe fizera uma atitude imprpria, nem mesmo lhe dirigira um olhar sugestivo.
-  homossexual? - perguntou ela.
Larry concordou.
- Por isso  que te entreguei aos seus ternos cuidados. O conde veio buscar Catherine de manh cedo, e partiram para Sul em direco  vasta plancie da Tesslia. 
Camponesas vestidas de preto caminhavam ao longo da estrada curvadas sob pesadas cargas  de lenha atadas s costas.
- Por que  que os homens no fazem o trabalho pesado? - perguntou Catherine.
O conde atirou-lhe um olhar divertido, de relance.
- As mulheres no os deixam fazer - respondeu ele. - Quer
os homens frescos  noite para outras coisas.
Eis uma lio para todas ns, pensou Catherine com uma
careta.
Ao fim da tarde aproximaram-se dos montes Pindus, de asp
ameaador, os seus picos rochosos erguendo-se como torres em direco ao cu. A estrada estava bloqueada por um rebanho de carneiros conduzidos por um pastor e um 
co de pastor magricela; conde Pappas parou o carro enquanto esperavam que os carneiros desocupassem a via. Catherine contemplava maravilhada o co mordiscava as 
patas dos carneiros afastados, mantendo-os em forma e obrigandos a seguir na direco que ele desejava.
- Aquele co  quase humano - exclamou Catherine com a rao.
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O conde deu-lhe um olhar breve. Houve nisso qualquer coisa que ela no entendeu.
- Qual  o problema? - perguntou ela.
O conde hesitou.
-  uma histria muito desagradvel.
- J sou crescida.
Disse o conde:
- Isto  uma regio selvagem. A terra  rochosa e inspita. Mesmo nos melhores anos, as colheitas so magras, e quando o tempo  mau nem essas h, apenas muita fome. 
- A sua voz diminuiu de intensidade.
- Continue - interessou-se Catherine.
- Aqui h uns anos houve uma grande tempestade por estas bandas e as colheitas perderam-se. Havia pouca comida para as pessoas. Todos os ces de pastor da regio 
se revoltaram. Abandonaram as quintas onde trabalhavam e agruparam-se numa grande matilha. Enquanto contava, tentava afastar o horror da voz. - Comearam a atacar 
as quintas.
- E mataram os carneiros! - disse Catherine. Seguiu-se um silncio antes que respondesse.
- No. Mataram os donos e comeram-nos.
Catherine fitou, chocada.
- tiveram de mandar tropas federais de Atenas para restabelecer o domnio humano aqui. Levou quase um ms.
- Que coisa horrvel.
- A fome provoca coisas terrveis - disse o conde Pappas calmamente.
Os carneiros haviam j atravessado a estrada. Catherine olhou para o co de pastor e arrepiou-se.
 medida que as semanas passavam, Catherine comeou a familiarizar-se com tudo aquilo que Lhe parecera estrangeiro e estranho. olhava as pessoas abertas e amistosas. 
Aprendeu onde fazer as compras e onde comprar a roupa na Rua Voukourestiou. A Grcia era uma maravilha de ineficincia organizada, e uma pessoa tinha de descontrair 
e desfrut-la. Ningum tinha pressa, e, quando se perguntar a um transeunte onde ficava qualquer lugar, ele era bem capaz de levar a pessoa at ao destino. Ou ento, 
quando se perguntava a distncia, respondia E nos cigarou dromos, o que, como Catherine
aprendeu, significava fica a um cigarro daqui. Caminhava pelas ruas, explorava a cidade e bebia o vinho escuro e quente do Vero grego.
Catherine e Larry visitaram Mykonos com os seus moinhos pitorescos, e belos, onde a Vnus de Milo foi descoberta. Mas o lugar preferido de Catherine era Paros, uma 
ilha graciosa e verdejante dominada por uma montanha coberta de flores. Quando o barco deles acostou, estava um guia no cais. Perguntou-lhes se queriam que os guiasse 
at ao cume da montanha, de mula, e eles empoleiraram-se em cima de duas mulas esquelticas.
Catherine trazia um chapu de palha de aba larga para se proteger do sol quente. Durante a escalada pelo caminho ngreme que ia dar ao cimo da montanha, mulheres 
vestidas de negro diziam nKe-let meh-raw e davam a Catherine ofertas de ervas frescas, orgos e manjerico para pr na fita do chapu. Depois de uma viagem de horas, 
chegaram a um planalto, uma bela extenso plana repleta de rvores com milhes de flores em boto espectaculares. O guia parou as mulas, e eles ficaram estupefactos 
pela profuso incrvel de cores.
-  o vale das Borboletas - disse o guia num ingls imperfeito. Catherine olhou em volta  procura de uma borboleta, mas no viu nenhuma.
- Por que lhe deram esse nome? - perguntou ela. O guia deu um sorriso largo, j  espera daquela pergunta.
- Eu mostro-lhe - disse ele.
Desceu da mula e apanhou um galho cado. Aproximou-se de
rvore e bateu com o galho contra a rvore com toda a sua fora. segundo, as flores das centenas de rvores desprenderam-se imediatamente num arco-ris de voo turbulento, 
deixando as rvores despidas. O ar encheu-se de centenas de milhares de borboletas  coloridas que danavam ao sol.
Catherine e Larry no acreditavam no que viam. O guia observou-as, o rosto transbordando de profundo orgulho, como se sentisse responsvel pelo belo milagre que 
testemunhavam. Era um dias maravilhosos da vida de Catherine, e pensou que, se pud escolher um dia para reviver, seria o dia que passou com Larry em Paros.
- Eia, temos uma pessoa importante esta manh - sorriu Metaxas prazenteiramente. - Espera at veres quem .
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- De quem se trata?
- De Noelle Page, a amante do patro. Podes olhar, mas no podes tocar.
Larry Douglas lembrou-se do breve instante que tivera da mulher na casa de Demiris na manh em que chegara a Atenas. Era bela e pareceu lhe familiar, mas isso obviamente 
foi porque a vira no ecr, num fzlme francs que Catherine o levara a ver fora. Larry no precisava de que lhe dissessem as regras da autoconservao. Mesmo que 
no mundo no abundassem as mulheres vidas, nunca se teria aproximado da namorada de Constantin Demiris. Larry gostava demasiado do seu emprego para o pr em perigo 
ao fazer uma coisa to estpida. Bem, talvez lhe pedisse um autgrafo para Catherine.
A limusina que transportava Noelle para o aeroporto afrouxou a marcha vrias vezes por causa de trabalhos na estrada, mas Noelle aceitou os atrasos com agrado. Ia 
ver Larry Douglas pela primeira vez desde o encontro em casa de Demiris. Noelle ficara profundamente abalada pelo que acontecera. Ou, mais rigorosamente, pelo que 
no acontecera.
Durante os ltimos seis anos Noelle imaginara o encontro entre eles de mil e uma maneiras diferentes. Representara em esprito a cena vezes sem conta. A nica coisa 
que nunca lhe ocorrera foi que lanrry no a reconheceria. O acontecimento mais importante da vida dela nada mais significara para Larry do que uma aventura banal, 
uma entre muitas. Bem, antes de o destruir, ele iria lembrar-se.
Larry atravessava o campo de aviao, com o plano de voo na mo, quando uma limusina parou  frente do enorme avio, e Noelle Page iu. Larry caminhou at ao carro 
e disse num tom agradvel:
- Bom dia, Miss Page, o meu nome  Larry Douglas. Sou eu que vou levar a si e aos seus convidados a Cannes.
Noelle voltou-se e passou por ele como se no tivesse falado, como se no existisse. Larry ficou imvel, a olhar para ela, atnito.
trinta minutos depois, os outros passageiros, num total de doze, se encontravam a bordo, e Larry e Paul Metaxas descolaram. Iam
levar o grupo para a Cte d'Azur, donde seguiriam para o iate de miris. Foi um voo tranquilo,  excepo da turbulncia normal ao da costa sul de Frana no Vero, 
e Larry aterrou o avio suave-
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mente e conduziu-o at ao local onde umas limusinas aguardavam os passageiros. Quando Larry saa do avio com o seu co- piloto baixo e atarracado, Noelle dirigiu-se 
a Metaxas, ignorando Larry, e disse num tom cheio de desdm:
- O novo piloto  um amador. Tem de ensin-lo a voar. - E Noelle meteu-se no cano, que se afastou, deixando Larry especado, invadido por uma raiva atordoada e impotente.
Disse para consigo que se tratava de uma gaja tramada e que provavelmente a tinha apanhado num mau dia. Mas o episdio seguinte, uma semana depois, convenceu-o de 
que enfrentava um problema  srio.
Por ordem de Demiris, Larry foi a Oslo buscar Noelle e levou-a para Londres. Por causa do que acontecera, Larry executara o plano de voo com especial cuidado. Havia 
uma zona de altas presses a norte e possibilidade de trovoadas a leste. Larry elaborou uma rota que contornasse estas zonas, e o voo veio a revelar-se tranquilo. 
Fez aterragem impecvel, e ele e Paul Metaxas foram at  cabina passageiros. Noelle Page estava a pintar os lbios.
- Espero que tenha gostado do voo, Miss Page - disse ele
em tom educado.
Noelle olhou de relance, com um rosto inexpressivo, voltando- se depois para Paul Metaxas.
- Fico sempre nervosa quando viajo com um incompetente.
Larry sentiu que corava. Ia comear a falar, mas Noelle virou
para Metaxas:
- Por favor, diga-lhe que s volte a falar comigo quando eu lhe
dirigir a palavra.
Metaxas engoliu em seco e balbuciou:
- Pois no.
Larry fitava Noelle com os olhos cheios de fria, quando ela
levantou e saiu do avio. O seu impulso fora esbofete-la, mas sabia  que isso o teria arruinado. Nunca fizera nada com tanto gosto como neste emprego, e no fazia 
tenes de permitir que nada o prejudicasse. Sabia que, se fosse despedido, este poderia ser o ltimo emprego que arranjaria como piloto. No, teria de ser muito 
cuidadoso dali diante.
Quando Larry chegou a casa, contou o sucedido a Catherine.
- Ela embirrou comigo - disse Larry.
- Isso no  bom sinal - respondeu Catherine. - Ser que
faltaste ao respeito de alguma forma, Larry ?
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- Quase nem falei com ela.
Catherine segurou na mo dele.
- No te preocupes - disse ela, consolando-o. - Sem dares por isso, irs encant-la. Vais ver.
No dia seguinte, quando Larry transportava Constantin Demiris numa breve viagem de negcios  turquia, Demiris entrou na cabina e sentou-se no lugar de Metaxas. 
Mandou sair o co-piloto com um aceno da mo, e Lanrry e Demiris ficaram sozinhos. Permaneceram em silncio, a contemplar os pequenos estratos de nuvens que se desfaziam 
em figuras geomtricas quando o avio as atravessava.
- Miss Page tomou-o de ponta - disse Demiris por fim. Lanrry sentiu as mos apertarem os comandos, e deliberadamente esforou-se para as descontrair. Fez um esforo 
para manter a voz calma.
- Ela... disse porqu?
- Disse que voc Lhe faltou ao respeito.
Larry abriu a boca para protestar, depois pensou no que ia fazer. Teria de resolver o assunto  sua maneira.
- Peo desculpa. Tentarei ter mais cuidado, Sr. Demiris - disse ele serenamente.
Demiris ps-se de p. Faa isso. E sugiro-Lhe que nunca mais volte a faltar ao respeito a Miss Page. - Saiu da cabina.
Nunca mais! Larry deu voltas  cabea, tentando pensar no que poderia ter feito que a ofendesse. Talvez ela simplesmente no gostasse do tipo dele. Ou talvez pudesse 
ter cimes pelo facto de Demiris gostar dele e nele confiar, mas isso no fazia sentido. Nada do que Larry pudesse pensarfazia sentido. E, no entanto, Noelle Page 
estava a fazer tudo para que ele fosse despedido.
Larry pensou no que significaria estar desempregado, na indignidade de preencher formulrios de candidatura como se fosse um menino da escola, nas entrevistas, nas 
esperas, nas horas infindveis a tentar passar o tempo em botequins e com prostitutas amadoras. lembrou-se da pacincia e tolerncia de Catherine e de como a odiara 
por causa disso. No, no podia voltar a passar por tudo isso outra vez. No seria capaz de enfrentar outro fracasso.
Durante uma pernoitada em Beirute, alguns dias depois, Larry passou por um cinema e reparou que o filme em exibio era com Noelle
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Page. Num impulso, foi v-lo, preparado para detestar o filme e a actriz principal, mas Noelle teve um desempenho to brilhante que o deixou completamente arrebatado. 
Mais uma vez teve a sensao estranha de que a conhecia. Na segunda feira seguinte, Larry levou Noelle Page e alguns scios de Demiris a Zurique. Esperou que Noelle 
Page estivesse sozinha, aproximando-se ento dela. Hesitara falar-lhe, lembrando-se da sua ltima advertncia, mas conclura que a nica maneira de pr termo ao 
seu antagonismo era esforarse para ser simptico com ela. Todas as actrizes eram egostas e gostavam de ouvir elogios, e por isso acercou-se dela dizendo com cuidadosa 
cortesia:
- Desculpe-me, Miss Page, s lhe queria dizer que h dias a vi no filme O Terceiro Rosto. Acho que  uma das maiores actrizes que conheo.
Noelle fitou-o por um momento, respondendo em seguida:
- Eu gostava de sab-lo melhor crtico do que piloto, mas duvido muito de que tenha a inteligncia ou o gosto. - E afastou-se.
Larry ficou especado no lugar onde se encontrava, como se tivesse sido fulminado por um raio. A cabrona de merda! Por um instante, tentou-se a segui-la e dizer lhe 
o que pensava dela, mas sabia isso seria dar-Lhe trunfos. No. De agora em diante, limitar-se-ia fazer o seu servio e a manter-se o mais possvel longe dela.
Durante as semanas seguintes, Noelle foi sua passageira em vrios voos. Larry no lhe dizia rigorosamente nada, e tudo fazia a evitar. No ia  cabina e encarregava 
Metaxas da comunicao com os passageiros. Noelle Page no fez mais observaes, e Larry congratulou-se por ter dado uma soluo ao problema que o afligira.
Como veio a verificar-se, congratulou-se cedo de mais. de
manh, Demiris solicitou a presena de Larry na vivenda.
- Miss Page vai a Paris para me representar num negcio confidencial. quero que a acompanhe.
- Pois no, Sr. Demiris.
Demiris examinou-o por um momento, ia acrescentar alguma
coisa, mas depois mudou de ideia.
-  tudo.
Noelle era a nica passageira do voo para Paris, e Larry decidiu
levar o Piper. Deu a Metaxas a incumbncia do conforto de Noelle ficou na cabina, sem aparecer durante todo o voo. Quando aterrou, Larry foi at ao lugar dela e 
disse:
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- Desculpe-me, Miss Page. O Sr. Demiris pediu-me que a acompanhasse durante a sua estada em Paris.
Ela ergueu o olhar com desdm e disse:
- Muito bem. Mas no me faa sentir a sua presena. Ele acenou com a cabea, num silncio de gelo. Saram de Orly para a cidade numa limusina particular. Larry sentou-se 
ao lado do motorista, enquanto Noelle ocupou o banco traseiro. No lhe falou durante o trajecto para a cidade. Aprimeira paragem foi em Paribas, o Banco de Paris 
e dos Pases Baixos. Larry entrou no trio ao lado de Noelle; aguardou-a enquanto foi conduzida ao gabinete do presidente e depois desceu at  cave onde se guardavam 
os cofres-fortes. Noelle demorou-se cerca de trinta minutos, e quando regressou passou de rompante por Larry sem lhe dirigir uma palavra. Ficou a olh-la um momento, 
depois voltou-se e seguiu-a.
A prxima paragem foi na Rua Faubourg de St. -Honor. Noelle dispensou o carro. Larry entrou com ela nuns armazns e manteve-se por perto enquanto ela escolhia os 
artigos que desejava, dando-lhe depois os embrulhos para levar. Parou em meia dzia de lojas: Herms, carteiras e cintos, Guerlain, perfumes, Cline, sapatos, at 
que Larry ficou sobrecarregado de embrulhos. Se Noelle se deu conta do desconforto dele, no deu sinal. Larry parecia um animal de estimao que ela levava por onde 
andava. Quando saam da sapataria Cline, comeou a chover. Os transeuntes precipitavam-se em busca de abrigo.
- Espere-me aqui - ordenou Noelle.
Larry deixou-se ficar e viu-a entrar num restaurante situado no outro lado da rua. Esperou debaixo de uma chuva impetuosa durant duas horas, com os braos cheios 
de embrulhos, amaldioando-a a ela e a ele tambm por tolerar o comportamento dela. Cara numa armadilha e no sabia como livrar-se. E teve um pressentimento terrvel 
de que a situao ia piorar.
Aprimeira vez que Catherine se encontrou com Constantin Demiris foi na vivenda dele. Larry fora l entregar uma encomenda que trouxera de Copenhaga, e Catherine 
acompanhara-o. Estava  espera no trio, admirando uma pintura, quando a porta se abriu e Demiris surgiu. Observou-a por um momento e disse depois:
- Gosta de Manet, Sr.  Douglas?
Catherine voltou-se e deu de caras com a lenda de que tanto ou-
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vira falar. Teve de imediato duas impresses: Constantin Demiris era mais alto do que imaginara, e havia nele uma energia irresistvel quase assustadora. Catherine 
ficou espantada por ele saber o nome dela e quem era. Parecia esforar-se para p-la  vontade. Perguntou a Catherine se gostava da Grcia, se o apartamento era 
confortvel, e disse-lhe que o informasse no caso de ele poder tornar a estada dela mais agradvel. At sabia - embora s Deus soubesse como! - que ela coleccionava 
pssaros em miniatura.
- Vi um maravilhoso -disse-lhe ele. -F-la-ei chegar s suas mos.
Larry apareceu, saindo acompanhado de Catherine.
- Gostaste de Demiris? - perguntou Larry.
-  encantador - disse ela. - No admira que gostes de trabalhar para ele.
- E vou continuar a trabalharpara ele. - Houve uma crueldade na sua voz de que Catherine no deu conta.
No dia seguinte, um belo pssaro de porcelana foi entregue a Catherine.
Catherine viu Constantin Demiris duas vezes depois disso: a primeiravez quando foi s corridas de cavalos com Larry e a segunda numa festa de Natal que Demiris ofereceu 
na sua residncia. De ambas as vezes, tudo fez para ser encantador com ela. No conjunto, pensou Catherine, Constantin Demiris era um homem notvel.
Em Agosto, teve incio o Festival de Atenas. Durante dois meses a cidade viu peas, bailados, peras, concertos - tudo realizado Herodes tticus, o antigo teatro 
ao ar livre situa-se na base da Acpole. Catherine viuvrias peas com Larry, e quando o marido no estava ia com o conde Pappas. Era fascinante ver as peas antigas 
representadas no palco nos cenrios originais pelo povo que as criara.
Uma noite, depois de Catherine e o conde Pappas terem ido, uma produo de Medec, falavam sobre Larry.
-  um homem interessante - disse o conde Pappas. - Polyn chanos.
- Que significa isso?
- No  fcil traduzir. - O conde pensou durante um momento
 Significa frtil em expedientes.
- O senhor quer dizer Hcheio de recursos?

- Sim, mas mais do que isso. Algum que tem sempre uma ideia nova, um plano novo.
- Polym. echanos - disse Catherine. -  isso mesmo que ele . Acima deles havia um quarto crescente belo e enorme. A noite estava quente e perfumada. Atravessaram 
a Plaka em direco  Praa Omonia. quando se preparavam para atravessar a estrada, um carro virou a esquina em alta velocidade, avanou direito a eles e o conde 
puxou Catherine para o passeio.
- Idiota! - gritou ele atrs do condutor que desaparecia.
- Parece que todas as pessoas guiam assim nesta terra - disse Catherine.
O conde Pappas sorriu com tristeza.
- Os Gregos no fizeram a transio para o automvel. No ntimo, ainda conduzem burros.
- O senhor est a fazer troa.
- Infelizmente, no. Se quer conhecer os Gregos, Catherine, no leia os guias; leia as velhas tragdias gregas. A verdade  que ainda pertencemos a outros sculos. 
Emocionalmente, somos muito primitivos. Estamos repletos de paixes grandiosas, alegrias profundas e grandes mgoas, e no aprendemos a disfar-las com um verniz 
de civilizao.
- No sei se isso  to mau assim - respondeu Catherine.
- Talvez no. Mas distorce a realidade. Quando os forasteiros nos olham, no esto a ver o que vem.  como quem olha para uma estrela longnqua. No estamos realmente 
a ver a estrela, estamos apenas a olhar para um reflexo de luz que esteve l h um milho de anos atrs. O mesmo se passa connosco. Em ns, voc v um reflexo do 
passado.
tinham alcanado a praa. Passaram por uma fila de pequenas lojas, onde havia letreiros nas montras que diziam: CaRrnaivrE.
- H muitos cartomantes por aqui, no h? - perguntou Catherine.
- Somos um povo supersticioso.
Catherine abanou a cabea.
- Desculpe, mas no acredito nisso.
Haviam chegado a uma pequena taberna. Na montra havia um letreiro manuscrito que dizia: MADAME PIttIS, CARTOMNCIA
- Acredita em bruxas? - perguntou o conde Pappas. Catherine olhou-o para ver se estava a provoc-la. O rosto dele
estava srio.
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- S no Dia das Bruxas.
- Por bruxa no me refiro a cabos de vassoura, gatos pretos e caldeires em ebulio.
- A que se refere ento?
Abanou a cabea na direco do letreiro.
- Madame Piris  uma bruxa. Sabe ler o passado e o futuro.
Viu o cepticismo no rosto de Catherine.
- Vou contar-lhe uma histria - disse o conde Pappas. - Aqui h muitos anos, o comandante da Polcia de Atenas era um homem chamado Sfocles Vasilly. Era meu amigo, 
e eu usei a minha influncia para o ajudar a conseguir um lugar na instituio. Vasilly era um homem muito honesto. Havia pessoas que desejavam corromp-lo e, como 
no se deixava corromper, concluram que teria de ser eliminado. -Pegou no brao de Catherine e atravessaram a rua na direco do parque.
-Um dia, Vasilly veio dizer-me que o tinham ameaado de morte. Era um homem valente, mas a ameaa perturbou-o porque veio de um chantagista poderoso e implacvel. 
Incumbiram-se detectives para vigiar o chantagista e proteger Vasilly, que continuava a ter a sensao desconfortvel de que no tinha muito tempo de vida. Foi ento 
que me procurou.
Catherine escutava, fascinada.
- Que  que o senhor fez? - perguntou ela.
- Aconselhei-o a consultar Madame Piris: - Ficou em silncio, com o pensamento rondando inquietantemente em alguma zona escura do passado.
- E ele foi? - perguntou ela por fim.
- O qu? Oh, sim. Ela disse a Vasilly que a morte iria ao encontro dele inesperada e rapidamente e advertiu-o a estar atento a leo ao meio-dia. No h lees na 
Grcia, tirando alguns velhos e sarnosos do jardim zoolgico e os de pedra que viu em Delfos.
Catherine sentia a tenso na voz de Pappa enquanto ele prosseguia.
- Vasilly foi at aojardim zoolgico pessoalmente para inspeccionar asjaulas, de modo a certificar-se de que os animais estavam presos, e fez investigaes para 
saber da entrada recente em Atenas de algum animal selvagem. No havia nenhum.
Passou-se uma semana sem que nada acontecesse, e Vasilly concluiu que a bruxa velha se enganara e que fora um tanto supersticioso por lhe prestar ateno. Num sbado 
de manh passei pela pol-
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para ir busc-lo. O filho dele fazia quatro anos, e ns amos apanhar um barco com destino a Kyron para irmos  festa.
Parei o carro em frente  esquadra exactamente no momento em que o relgio da Cmara batia as doze badaladas. Quando cheguei  entrada, houve uma tremenda exploso 
que veio do interior do edifcio. Corri para o gabinete de Vasilly. - A voz saa-lhe abafada e estranha. -No sobrou nada do gabinete... nem de Vasilly.
- Que coisa horrvel - murmurou Catherine. Prosseguiram por um momento em silncio. - Mas a bruxa tinha-se enganado, no tinha? - perguntou Catherine. - No foi 
um leo que o matou.
- Ah, mas foi, sabe. A polcia reconstruiu o sucedido. Como Lhe disse, era o aniversrio do filho dele. A secretria de Vasilly estava amontoada de prendas que ia 
levar ao filho. Algum lhe trouxera uma prenda, um brinquedo, e colocara-a sobre a mesa de Vasilly.
Catherine sentiu o rosto ficar sem pinga de sangue.
- Um leo de brincadeira.
O conde Pappas fez um sinal afirmativo com a cabea.
-  verdade. Cuidado com um leo ao meio-dia. Catherine estremeceu.
- Essa histria causa-me arrepios.
Ele olhou-a com compreenso.
- Madame Piris no  cartomante com quem se brinque. Tinham atravessado o parque e chegado  Rua Piraios. Um txi vazio passava por ali. O conde mandou parar, e 
dez minutos depois Catherine estava de volta ao apartamento.
Enquanto se preparava para se deitar, contou a histria a Larry, e, durante a narrativa, a pele voltou a arrepiar-se. Larry abraou-a com fora e fez amor com ela, 
mas s muito tempo depois  que Catherine conseguiu adormecer.
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Atenas 1946
15
Se no fosse Noelle Page, Larry Douglas no teria preocupaes. Estava onde queria estar, fazia o que queria fazer. Gostava do trabalho, das pessoas que conhecia 
e do homem para quem trabalhava. Em terra tinha uma vida igualmente satisfatria. Quando no voava, passava boa parte do tempo com Catherine; mas, porque se deslocava 
com frequncia, Catherine nem sempre sabia do seu paradeiro, e Larry tinha inmeras oportunidades de sair sozinho. Ia a festas com o conde Pappas e Paul Metaxas, 
o seu co-piloto, e muitas delas acabavam em orgias. As mulheres gregas ardiam de fogo e paixo.  Conhecera uma nova, Helena, uma hospedeira que trabalhava para Demiris, 
e quando faziam uma escala longe de Atenas ela e Larry partilhavam um quarto de hotel. Helena era uma rapariga de olhos negros, bela, esbelta e insacivel. Sim, 
pensando bem, Larry Douglas concluiu que tinha uma vida perfeita.
A excepo da cabrona da amante loira de Demiris. Larry fazia a mnima ideia da razo por que Noelle Page o detestava, fosse qual fosse, a mesma ameaava-lhe a vida. 
Larry tentara educado, distante e amistoso, e de todas as vezes Noelle Page conseguiu ridiculariz-lo. Larry sabia que poderia ir falar com Demi mas no tinha iluses 
quanto ao seu destino se a escolha fosse entre ele e Noelle. Por duas vezes, encarregara Paul Metaxas de piloto de voo de Noelle, mas pouco antes das viagens a secretria 
de Demi telefonara a dizer-lhe que o Sr. Demiris gostaria que o piloto fosse o prprio Larry. Numa manhzinha em finais de Novembro, Larry recebeu a informao telefnica 
de que teria de levar Noelle a Amsterdo nessa tarde. Larry contactou o aeroporto, donde lhe
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forneceram uma informao negativa sobre o tempo que fazia em Amsterdo. Caa nevoeiro e  tarde esperavam que a visibilidade fosse nula. Larry telefonou  secretria 
de Demiris para lhe dizer que seria impossvel voar para Amsterdo nesse dia. A secretria disse que voltaria a contact-lo. Quinze minutos depois, telefonou a dizer 
que Miss Page estaria no aeroporto s duas horas, pronta para a viagem. Larry contactou o aeroporto, pensando que houvera uma aberta no tempo, mas a informao foi 
a mesma.
- Meu Deus - exclamou Paul Metaxas. - Deve estar com uma pressa dos diabos para ir a Amsterdo.
Mas Larry pressentiu que Amsterdo no era a verdadeira questo. Era uma luta de vontades entre os dois. Pouco se importava que Noelle Page se esmagasse no alto 
duma montanha e bons ventos a levassem, mas raios o partissem se ia arriscar a pele por causa daquela cabrona de merda. Tentou telefonar a Demiris para lhe falar 
no assunto, mas estava numa reunio e no podia atender ningum. Larry desligou o telefone, furioso, a ferver. S lhe restava agora ir ao aeroporto e tentar dissuadir 
a passageira de fazer a viagem. Chegou ao aeroporto  1. 30. As trs horas Noelle Page no tinha aparecido.
- Deve ter mudado de ideia - disse Metaxas.
Mas I, arry no se deixou enganar. A medida que o tempo passava, ficou cada vez mais furioso, at que entendeu ser essa a inteno dela. Estava a tentar descontrol-lo, 
o que lhe custaria o emprego. Larry estava no terminal do aeroporto a falar com o director quando o conhecido Rolls Royce cinzento de Demiris parou e Noelle Page 
saiu. Larry foi ao seu encontro.
- Sinto muito, mas o voo foi cancelado, Miss Page - disse ele, numa voz sem expresso. - O aeroporto de Amsterdo est coberto de nevoeiro.
Noelle ignorou a presena de Larry e disse a Paul Metaxas:
- O avio possui equipamento de aterragem automtica, no possui?
- Possui, sim - disse Metaxas, embaraado.
- Muito me espanta - respondeu ela - que o Sr. Demiris tenha contratado um piloto cobarde. Irei ter uma conversa com ele sobre o
assunto.
Noelle voltou-se e caminhou na direco do avio. Metaxas seguiu-a com o olhar e disse:
- Caramba! No sei o que lhe deu. Nunca se comportou assim. Sinto muito, Larry.

Larry fitava Noelle, que atravessava o campo e cujo cabelo louro esvoaava ao vento. Nunca odiara ningum assim na vida.
Metaxas observava-o.
- Vamos? - perguntou ele.
- Vamos.
O co-piloto deu um suspiro profundo e expressivo, e os dois homens encaminharam-se lentamente para o avio. Noelle Page estava sentada na cabina dos passageiros, 
folheando uma revista de modas descontraidamente quando entraram no avio. Larry fitou-a momentaneamente, to cheio de raiva que teve medo de falar. Entrou para 
a cabina e iniciou a verificao de incio de voo.
Dez minutos depois, recebeu autorizao da torre, e o avio transportou-os para Amsterdo.
A primeira metade do voo decorreu sem incidentes. A Sua era um manto de neve. Quando sobrevoavam a Alemanha, estava escuro. Larry contactou Amsterdo pelo rdio 
a pedir um boletim do tempo. Foi informado de que o nevoeiro vinha do mar do Norte e era cada vez mais cerrado. Amaldioou a sua m sorte. Se os ventos tivessem 
mudado e o nevoeiro tivesse levantado, o problema dele estaria resolvido, mas agora tinha de decidir se arriscaria uma aterragem automtica em Amsterdo ou aterraria 
num aeroporto alternativo. Sentiu-se tentado a ir l atrs falar com a passageira, mas podia imaginar o olhar desdenhoso no rosto dela.
- Voo especial umero-nove, comunique o seu plano de voo, por favor. - Era a torre de Munique.
Larry tinha de tomar uma deciso rapidamente. Poderia ainda
aterrar em Bruxelas, Colnia ou no Luxemburgo.
Ou em Amsterdo.
A voz ouviu-se outra vez no altifalante.
- Voo especial umero-nove, comunique o seu plano de voo, por favor.
Larry ligou o emissor.
- Voo especial umero-nove para torre de Munique. Destino Amsterdo. - Desligou o interruptor e deu conta de que Metaxas observava.
- Ena, o meu seguro de vida devia ter sido duas vezes maior
disse Metaxas. - Achas que vamos conseguir?
- Queres saber a verdade? - disse Larry, amargamente. -Estou-me nas tintas.

- Bestial!   num avio com dois tarados dos diabos! - lamentou-se Metaxas.
Durante a hora seguinte Larry ficou totalmente absorvido pela pilotagem do avio, atento, sem um comentrio, s previses metereolgicas frequentes. Ainda esperava 
uma mudana do vento, mas a trinta minutos de Amsterdo a previso era a mesma. Nevoeiro cerrado. O aeroporto estava fechado a todo o trfego areo  excepo de 
emergncias. Larry entrou em contacto com a torre de controlo de Amsterdo.
- Voo especial umero-nove para torre de Amsterdo. Aproximao ao aeroporto a 75 milhas a leste de Colnia, hora prevista para a chegada dezanove horas.
Quase instantaneamente, uma voz respondeu:
- Torre de Amsterdo para voo especial um-zero-nove. O nosso aeroporto est encerrado. Sugerimos que volte para Colnia ou aterre em Bruxelas.
Larry falou pelo microfone de mo.
- Voo especial um-zero-nove para torre de Amsterdo. Negativo. Temos uma emergncia.
Metaxas virou-se para fit-lo, surpreendido. Uma nova voz surgiu no altifalante.
- Voo especial um-zero-nove, fala o chefe de operaes do aeroporto de Amsterdo. Estamos completamente mergulhados no nevoeiro. Visibilidade zero. Repito: visibilidade 
zero. Qual  a natureza da emergncia?
- Estarnos a ficar sem combustvel - disse Larry. - Mal d para chegarmos a.
Os olhos de Metaxas caram sobre os indicadores de combustvel, os quais acusavam depsito a meio.
- Caramba! - explodiu Metaxas. - Dava para ir at  China! o rdio calou-se. De repente, explodiu de vida novamente. - Torre de Amsterdo para voo Especial um-zero-nove. 
Concedida autoao de emergncia. Daremos instrues de aterragem.
- Roger. - Larry desligou o interruptor e voltou-se para Metars.  Ali ja o combustvel - ordenou ele.
 Metaxas engoliu em seco e disse com uma voz engasgada: - A... ali ja o combustvel? - Ouviste o que eu disse, Paul. Deixa apenas o bastante para Aterrarmos.
- Mas, Larry.
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- Porra, no discutas. Se aterrarmos com um depsito cheio de gasolina, ficamos sem os brevets em trs tempos.
Metaxas concordou contrariado e alcanou o manpulo de ejeco de combustvel. Comeou a bombear, com os olhos no indicador. Cinco minutos depois, penetravam no 
nevoeiro, ficando envoltos num algodo branco e macio que tudo invadia excepto a cabina vagamente iluminada onde se sentavam. Era uma sensao estranha estarem separados 
do tempo e do espao e do resto do mundo. A ltima vez que Larry passara por isto foi no simulador. Mas nesse jogo no havia riscos. Aqui o que estava emjogo eram 
a vida e a morte. Gostava de saber o efeito de tudo isto sobre a passageira. Esperava que lhe causasse um ataque cardaco. A torre de controlo de Amsterdo entrou 
de novo em contacto.
- Torre de Amsterdo para voo Especial um-zernove. Como a visibilidade  zero, vou desc-lo no A. L. S. Por favor, siga as minhas instrues rigorosamente. J o 
temos no nosso radar. Gire trs grau para oeste e mantenha a altitude actual at novas instrues. mantiver a actual velocidade aerodinmica, deve aterrar dentro 
dezoito minutos.
A voz do rdio parecia tensa. E tinha boas razes para isso, pensou Larry sinistramente. Um pequeno erro e o avio cairia.  Larry executou a correco e afastou 
tudo da ideia, excepto a voz e corpo que era o seu nico elo com a sobrevivncia. Pilotou o avio como  se fizesse parte de si prprio, pilotando- com o corao, 
a alma e o pensamento. Mal se apercebia de Paul Metaxas, que suava a seu lado, numa verificao constante de instrumentos em voz baixa e tentando, mas, se sassem 
disto vivos, seria obra de Larry Douglas. Larry nuncavira um nevoeiro assim. Era um inimigo fantasmagrico, que o atacava de todos os lados, cegando, atraindo, procurando 
lev-lo a  cometer um erro fatal. Deslizava atravs do cu a duzentos e cinquenta milhas por hora, incapaz de ver para alm do pra-brisas da cabina. Os pilotos 
odiavam o nevoeiro, e a primeira regra era: sobvo-lo ou subvo-lo, mas sair dele! Agora no havia hiptese, porquestava fechado num destino impossvel por causa 
de um capricho duma leviana. Estava indefeso,  merc de instrumentos que podiam falhar e de homens em terra que podiam errar. A voz desencar surgiu novamente no 
altifalante, e Larry achou que a mesma um outro nervosismo.
- Torre de Amsterdo para Voo especial umero-nove. E
chegar ao primeiro ponto do seu esquema de aterragem: baixe o
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aerodinmico e inicie a descida. Desa para dois mil ps... mil e quinhentos... mil ps...
Ainda no havia qualquer sinal do aeroporto. Poderiam ter estado no meio de parte nenhuma. Podia sentir a terra vir ao encontro do avio.
- Reduza a velocidade para cento e vinte... desa as rodas... est a seiscentos ps... velocidade a cem... est a cem ps...
E ainda assim no havia sinal do maldito aeroporto! A camada de algodo asfixiante parecia mais espessa agora. A testa de Metaxas brilhava com suor.
- Onde raio  que est? - sussurrou ele.
Larry deu um olhar rpido para o altmetro. O ponteiro estava a descer para os trezentos ps. Depois ficou abaixo dos trezentos ps. A terra precipitava-se ao seu 
encontro a cem milhas por hora. O altmetro indicava apenas cento e cinquenta ps. Passava-se algo de errado. J deveria ter avistado a iluminao do aeroporto. 
Esforou-se para ver algo  frente do avio, mas s via o nevoeiro ofuscante e traioeiro que fustigava o vidro.
Larry ouviu a voz de Metaxas, tensa e rouca.
- Descemos aos sessenta ps.
- E ainda nada.
- Quarenta ps.
E o cho precipitando-se ao seu encontro na escurido.
- Vinte ps.
No adiantava. Mais dois segundos e a margem de segurana teria desaparecido e colidiriam no solo. tinha de tomar uma deciso instantnea.
- Vou subir outra vez - disse Larry.
A mo dele apertou o comando e comeou a puxar, e nesse instante uma fila de setas elctricas brilhou no solo  sua frente, iluminando a pista em baixo. Dez segundos 
depois, estavam no solo, em direco ao terminal de Schiphol.
Quando o avio ficou imobilizado, Larry desligou os motores com os dedos dormentes e no se mexeu durante muito tempo. Por fim,
Pos-se de p e ficou surpreendido ao ver que os seusjoelhos tremiam. otou um cheiro estranho no ar e virou-se para Metaxas, que sorria
- Desculpa, Larry - disse ele -, mas caguei-me. Larry olhou para ele e abanou a cabea.
- Cagaste-te pelos dois - disse ele.
29!
Voltou-se e foi at  cabina dos passageiros. L estava a cabrona, folheando calmamente uma revista. Larry ficou a observ-la, desejando insult-la, desejando desesperadamente 
saber o que a fazia vibrar. Noelle Page devia ter-se apercebido da proximidade que estivera da morte nos minutos recentes, e mesmo assim permanecia impvida e serena, 
sem um cabelo fora do lugar.
- Amsterdo - anunciou Larry.
Viajaram para Amsterdo num silncio pesado, com Noelle no banco traseiro do Mercedes 300 e Larry  frente com o motorista. Metaxas ficara no aeroporto por causa 
da manuteno do avio. O nevoeiro era ainda cerrado, de forma que se deslocavam lentamente, at que subitamente, quando chegaram Lindenplatz, comeou a levantar.
Atravessaram a Praa da Cidade, transpuseram a Ponte Eider sobre o rio Amstel e pararam  frente do Hotel Amstel. Quando entraram no salo, Noelle disse a Larry:
- Venha buscar-me s dez em ponto.
Voltou-se depois para o elevador,  frente do gerente do hotel que a seguia cheio de salamaleques. Um paquete levou Larry a um quartinho desconfortvel nas traseiras 
do hotel no primeiro andar. O quarto ficava ao lado da cozinha, e atravs da parede Larry ouvia o barulho dos pratos e cheirava os aromas das panelas fumegantes.
Larry olhou para o quartinho e disse irado:
- Eu no punha o meu co aqui.
- Lamento - disse o paquete em tom de desculpa. - Miss Page pediu o quarto mais barato para o senhor.
eMuito beme, pensou Larry, hei-de arranjar maneira de a vencer. Constantin Demiris no  o nico homem do mundo que tem piloto particular. Amanh comeo a arranjar 
emprego. Conheci todos dos amigos ricos dele. H meia dzia deles que ficariam mui satisfeitos se me contratassem. Mas depois pensou: Mas Demi no me pode despedir. 
Se o fizer, nenhum dos outros olhar para mim. Tenho de me aguentar. A casa de banho ficava no trio, e Larry ab a mala e tirou um roupo para ir tomar banho, depois 
pensou: que se lixe, no preciso de tomar banho por causa dela. S queria era  cheirar a porco. Foi at ao bar do hotel tomar uma bebida muitssimo desejada. Estava 
no terceiro martini quando olhou para o relgio bar e viu que eram 10. 15. s dez em pontoH, dissera ela. Um
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pnico repentino invadiu-o. Precipitadamente, atirou umas notas para cima do balco e dirigiu-se para o elevador. Noelle estava na Suite Imperador no quinto andar. 
Deu por si a correr pelo longo corredor e a amaldioar-se por permitir que ela o fizesse passar por isto. Bateu  porta da suite, imaginando desculpas para o atraso. 
Ningum respondeu, e quando Larry girou o puxador reparou que a porta no estava trancada. Entrou na sala enorme, luxuosamente mobilada, e deixou-se ficar um momento, 
sem saber o que fazer, chamando depois em voz alta:
- Miss Page.
No houve resposta. Ento era esse o plano dela.
Desculpa, Costa, mas eu avisei-te de que ele no era de confiana, querido. Disse-lhe que me viesse buscar s dez horas, mas ficou no bar a embebedar-se. Vi-me na 
obrigao de sair sozinha.
Larry ouviu um barulho na casa de banho e foi ver o que era. A porta da casa de banho estava aberta. Entrou no momento em que Noelle Page saa da banheira. S trazia 
uma toalha turca enrolada na cabea.
Noelle virou-se e deparou com ele. Aos lbios de Larry veio logo uma desculpa, tentando afastar a indignao dela, mas antes que pudesse falar Noelle disse com indiferena:
- Passe-me aquela toalha.
Como se ele fosse uma criada. Ou um eunuco. Larry podia ter tolerado a indignao ou a raiva dela, mas a sua indiferena arrogante fez que algo explodisse dentro 
de si. Dirigiu-se a ela e agarrou-a, com a conscincia de que, enquanto o fazia, estava a deitar fora tudo quanto desejava pela satisfao primria de uma vingana 
mesquinha, mas nada o impediu de o ter feito. A raiva vinha aumentando dentro de si nosltimos meses, alimentada pelas desconsideraes que recebera daparte dela, 
pelos insultos gratuitos, pela humilhao, pelo arriscar da vida. tudo isto ardia dentro dele quando agarrou o seu corpo nu. Se Noelle tivesse gritado, Larry t-la-ia 
agredido at a deixar sem sentidos. Mas ela viu a ira da expresso dele e manteve-se muda quando a agarrou e a levou para o quarto.
Algures no pensamento de Larry uma voz gritava-Lhe que parasse, que pedisse desculpa, que dissesse que estava bbado, que sasse antes que fosse tarde de mais, mas 
ele sabia quej era tarde de mais. No podia voltar atrs. Atirou-a violentamente para cima da cama aproximou-se dela.
Concentrou-se no corpo dela, recusando que o pensamento o lem-
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brasse do castigo que ia sofrer por este seu acto. No tinha iluses quanto ao que Demiris lhe faria por isto, pois a honra do grego no se daria por satisfeita 
apenas com o despedimento. Larry conhecia o suficiente do magnate para saber que a sua vingana seria muito mais terrvel, e apesar disso Larry no conseguiu deter-se. 
Ela estava deitada a olh-lo, com os olhos em chama. Ele ps-se em cima dela e penetrou-a, sem se aperceber at quele instante de quanto desejara fazer isto desde 
sempre, e de alguma forma a necessidade confundia-se com o dio, e sentiu os braos dela a afagarem-Lhe o pescoo, a abra-lo, como se no quisesse larg-lo nunca 
mais, e ela disse:
- Bom regresso.
E Larry num relance pensou que era louca ou estava a confundi -lo com algum, mas no se importou porque o corpo dela se torcia e contorcia debaixo dele, e esqueceu 
o resto na sensao do que estava a acontecer-lhe e na tomada de conhecimento sbita, ofuscante e maravilhosa de que agora tudo ia ficar bem.
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NOELLE E CATHERINE
Atenas: 1946
16
Inexplicavelmente o tempo tornara-se o maior inimigo de Catherine. No se deu conta disso a princpio, e em retrospectiva no poderia ter sido capaz de precisar 
o momento em que o tempo comeara a agir contra ela. No se deu conta de quando o amor de Larry desaparecera, porqu ou como, mas um dia desaparecera simplesmente 
algures no decurso infindvel do tempo e tudo o que sobrou foi um eco frio e vazio. Ficava sozinha no apartamento dias seguidos, tentando perceber o que acontecera, 
o que correra mal. No havia nada de especfico em que Catherine pudesse pensar, nenhum momento de revelao para que pudesse apontar e dizer: Foi isso, foi nessa 
altura que Larry deixou de me amar. Possivelmente, comeara quando Larry regressou depois de trs semanas em frica, para onde fora com Constantin Demiris num safari. 
Ele est sempre fora, pensou ela.  como durante a guerra, s que desta vez no h inimigo.
Mas estava enganada. Havia um inimigo.
- Ainda no te contei a boa nova - disse Larry. - Fui aumentado. Setecentos dlares por ms. que tal?
- Que bom - respondeu ela. - Assim poderemos voltar para casa muito mais cedo.
Viu que o rosto dele se contraiu.
- que se passa?
- A nossa casa  aqui - disse Larry com brevidade. Fitou-o incompreensivelmente.
- Bem, por enquanto - concordou ela, num tom pouco convincente -, mas no me parece que queiras viver aqui para sempre.
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- Nunca viveste to bem - retorquiu Larry. - Parece que vivemos numa estncia de frias.
- Mas no  o mesmo que vivermos na Amrica, pois no?
- A Amrica que se lixe - disse Larry. -Arrisquei a vida por ela durante quatro anos e que paga tive? Uma mo-cheia de medalhas que no valem nada. Nem sequer me 
arranjaram um emprego depois da guerra.
- Isso no  verdade - disse ela. -
- Eu qu?
Catherine no queria causar uma discusso, especialmente na primeira noite aps o regresso dele.
- Nada, querido -disse ela. -Ests cansado. Vamos deitar-nos cedo.
- No vamos nada. - Foi at ao bar e arranjou uma bebida. Vai estrear-se um novo espectculo na Boite Argentina. Eu disse a Paul Metaxas que iriamos ter com ele 
e com alguns amigos.
Catherine olhou para ele.
- Larry... - Teve de se esforar para manter a voz firme. - La- rry, ns no nos vemos h quase um ms. Nunca temos ocasio para... sentar e conversar.
- No tenho culpa que o meu trabalho me afaste de casa - respondeu ele. - No achas que eu gostava de estar perto de ti?
Abanou a cabea e disse:
- No sei. Vou ter de consultar as tbuas de Ouija. Abraou-a e deu aquele seu sorriso de adolescente pleno de inocncia.
- Metaxas e os outros que vo para o diabo. Esta noite  s para
ns dois. Est bem?
Catherine olhou para ele e viu que no estava a ser razovel.  que no tinha culpa pelo facto de o trabalho dele o manter afastado  dela. E quando chegava a casa 
era natural que quisesse ver outras  pessoas.
- Se te apetecer podemos sair - decidiu ela.
- Hum hum. - Puxou-a para junto de si. - S ns dois. No saram do apartamento durante todo o fim de semana. Catherine cozinhou, amaram-se, sentaram-se  frente 
da lareira conversaram, jogaram s cartas e leram, e Catherine no poderia ter pedido mais nada.
No domingo  noite, aps um delicioso jantar preparado por Catherine, foram deitar-se e voltaram a amar-se. Ela estava dei-tada
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a observar Larry que se dirigia para a casa de banho, nu, e ela pensou no homem belo que era e como ela tinha sorte por lhe pertencer, e soma ainda quando Larry 
apareceu  porta da casa de banho e disse casualmente
- Arranja que fazer para a semana, para no ficarmos colados um ao outro assim outra vez sem nada que fazer. - E voltou para a casa de banho, deixando Catherine 
com o sorriso ainda pregado no rosto.
Ou talvez o problema tivesse comeado com Helena, a bela hospedeira grega. Numa tarde quente de Vero, Catherine sara para fazer compras. Larry no estava na cidade. 
Esperava o regresso dele no dia seguinte e decidira surpreend-lo com os seus pratos preferidos. Quando Catherine ia a sair do mercado com os braos cheios de mercearia, 
passou um txi por ela. No banco traseiro ia Larry, com o brao sobre uma rapariga fardada de hospedeira. Catherine teve um breve lampejo das duas faces juntas rindo-se, 
e depois o txi vrou uma esquina e desapareceu. Catherine ficou entorpecida, e s quando uns midos se aproximaram dela a correr  que se deu conta de que os embrulhos 
da mercearia lhe haviam escorregado dos dedos nervosos. Ajudaram Catherine a apanhar tudo e foi para casa aos tropees, incapaz de pensar. Tentara convencer-se 
de que no fora Larry quem vira no txi, mas algum parecido com ele. Mas a verdade  que no mundo no havia ningum parecido com Larry. Era nico, uma obra original 
de Deus, uma criao de valor incalculvel da natureza. E era todo seu. Seu e da morena do txi, e de quantas mais? Catherine ficou a p toda a noite  espera de 
que Larry entrasse, e, como no chegou, sabia que nenhuma desculpa dele poderia salvar o casamento, nem nenhuma desculpa que ela pudesse dar a si prpria. Era um 
mentiroso e um embusteiro, e no podia continuar casada com ele por mais tempo.
Larry s voltou a casa ao fim da tarde do dia seguinte.
- Viva-disse elejovialmente, quando entrou no apartamento. Ps o saco no cho e reparou no rosto dela. - Que se passa?
- Quando  que voltaste? - perguntou-lhe Catherine formalmente.
Larry olhou para ela, intrigado. - H cerca de uma hora. Porqu?
- Vi-te ontem num txi com uma mulher.
Foi to simples quanto isso, pensou Catherine. Foram essas as
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palavras que puseram termo ao meu casamento. Vai negar, e eu vou chamar-lhe mentiroso e no voltarei a v-lo.
Larry deixou-se estar, com o olhar fixo.
- Anda - disse ela. - Diz-me que no eras tu.
Larry olhava para ela, abanando a cabea.
- Claro que era eu.
A dor repentina e aguda que Catherine sentiu na boca do estmago f-la compreender o quanto desejava que ele negasse.
- Bolas - disse ele -, que andas tu a magicar?
Ela ia falar, mas a voz tremeu-lhe de raiva.
- Eu...
Larry levantou uma mo.
No digas nada de que te venhas a arrepender.
Catherine olhou para ele incredulamente.
- De que me venha a arrepender?
- Regressei ontem a Atenas durante quinze minutos para vir  buscar Helena Merelis e lev-la para Creta, a pedido de Demiris. Helena trabalha para ele como hospedeira.
- Mas...
Era possvel. Larry podia ter dito a verdade; ou erapolymechan frtil em recursos?
- Por que  que no me telefonaste? - perguntou Catherine.
- Mas eu telefonei-disse Larry. -Ningum respondeu. Saste no saste?
Catherine engoliu em seco.
- Eu... tinha ido comprar-te ojantar.
- Estou sem fome - ripostou Larry. - As brigas tiram-me sempre a vontade de comer. -Voltou-se e saiu a porta, deixando Katherine, com a mo direita ainda no ar, 
como se lhe fizesse um sinal silencioso para que regressasse.
Foi pouco depois disso que Catherine comeou a beber. Comia sem importncia e de uma forma inofensiva. Ficava  espera de que Larry chegasse a casa para jantar s 
sete horas, e quando eram oito horas e ainda no tinha chegado Catherine tomava um brande ajudar a matar o tempo. As dez horas, j tinha tomado vrios quando ele 
chegava a casa, quando chegava, o jantar j teria 
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arrefecido, e ela estava um pouco tocada. Era mais fcil enfrentar o que estava a passar-se na sua vida. Catherine no poderia continuar a ocultar de si prpria 
o facto de que Larry a enganava e a enganara desde o dia em que se casaram. Ao verificar as calas do uniforme um dia antes de as mandar para a lavandaria, encontrou 
um leno de seda manchado com smen seco. Havia baton nas cuecas dele.
Imaginou Larry nos braos duma outra mulher. E teve vontade de o matar.
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Atenas: 1946
17
Assim como o tempo se tornara inimigo de Catherine, de igual maneira  se tornara amigo de Larry. A noite de Amsterdo no fora seno  um milagre. Larry arriscara-se 
a um desastre, e ao faz-lo tinha incrivelmente, achado a soluo para todos os seus problemas. sorte dos Douglas, pensou com satisfao. Mas ele sabia que era mais 
do que sorte. Havia nele um instinto obscuro e perverso que o levava a enfrentar o Destino, ir de encontro aos parmetros da morte e destruio, uma prova, uma autocomiserao 
contra o Destino pelos desafios da vida ou morte.
Larry lembrou-se de uma manh, quando sobrevoava as ilhas uk, em que uma esquadrilha de Zeros - surgira por detrs de uma nuvem. Ele ia  frente, de forma que concentraram 
o ataque sobre Trs Zeros haviam-no afastado do resto da esquadrilha e abrira fogo sobre ele. Numa espcie de clarividncia que se apossava dele em momentos de perigo, 
viu, no meio da ofuscao, a ilha no solo, as dezenas  de navios que balanavam nos mares ondulantes, dos avies rasantes que se digladiavam num cu azul e brilhante. 
Foi um dos momentos mais felizes na vida de Larry: realizar a Vida e troar da  Morte.
Colocara o avio em parafuso e aproximara-se da cauda dum ti Zeros. Vira-o explodir quando abriu fogo. Os outros dois avies haviam-se aproximado de ambos os lados. 
Larry viu-os largar contra si, e no ltimo instante inverteu o rumo e os dois avies japoneses chocaram em pleno cu. Era um momento que Larry saboreava mentalmente 
com frequncia.
Por alguma razo voltara a senti-lo na noite de Amsterdo.
300

tratara Noelle de uma forma arrebatada e violenta, e depois ela ficara nos braos dele, falando dos doisjuntos em Paris antes da guerra, e ele de repente lembrou-se 
vagamente de uma jovem ansiosa, mas; santo Deus, foram centenas asjovens ansiosas desde ento, e Noelle no era seno uma breve lembrana, quase esquecida do seu 
passado.
Que sorte, pensou Larry, que os seus caminhos se haviam cruzado de novo sem querer, aps todos estes anos.
-  pertences-me - disse Noelle. - Agora s meu. Algo no tom dela fez que Larry se sentisse embaraado. E no entanto, disse a si prprio, que tenho eu a perder? Com 
Noelle sob controlo, podia continuar a trabalhar com Demiris para sempre, se fosse essa a sua vontade.
Examinava-o como se estivesse a ler-lhe o pensamento, e havia uma expresso esquisita nos olhos dela que Larry no entendeu.
Ainda bem que foi assim.
Numa viagem de regresso de Marrocos Larry levou Helena ajantar fora e passou a noite no apartamento dela.
De manh foi para o aeroporto a fim de inspeccionar o avio. Almoou com Paul Metaxas.
- Parece que te saiu a sorte grande - disse Metaxas. - Podes dar-me um bocado?
- Meu rapaz - disse Larry, com um sorriso largo -, no sabias que fazer.  preciso um mestre.
tiveram um almoo agradvel e depois Larry voltou para a cidade para ir buscar Helena, que devia seguir no voo dele. Bateu  porta do apartamento dela e, aps uma 
longa espera, Helena abriu-a lentamente. Estava nua. Larry olhou-a fixamente, sem a reconhecer. O corpo e o rosto dela eram uma massa de ndoas feias e hematomas. 
Os seus olhos eram fendas de dor. Fora espancada por um profissional.
- Santo Deus! - exclamou Larry. - Que aconteceu? Helena abriu a boca e Larry viu que lhe haviam partido trs dentes superiores frontais.
- D... dois homens-balbuciou ela. -Entraram assim que tu s... saiste.
- No chamaste a polcia? - perguntou Larry, horrorizado.
- Eles d... disseram que me matavam se eu abrisse a boca. E fa-
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lavam a srio, L... Larry. -Estava em estado de choque, agarrada  porta para no cair.
- Roubaram-te alguma coisa?
- N... no. Foraram a entrada e violaram-me... e depois bateram-me.
- Veste qualquer coisa - ordenou ele. - Vou levar-te ao hospital.
- No p... posso sair com a cara neste estado - disse ela. Claro que tinha razo. Larry telefonou a um mdico amigo, com quem combinou a vinda dele ao apartamento.
- Desculpa, mas no posso ficar - disse Larry a Helena. Tenho de levar Demiris dentro de meia hora. Virei ver-te assim que voltar.
Mas nunca mais a viu. Quando Larry regressou, dois dias depois, o apartamento estava vazio, e a senhoria disslhe que ajovem se mudara e no deixara morada. Mesmo 
nessa altura Larry no desconfiou de nada. S algumas horas depois, quando fazia amor com Noelle,  que teve uma aluso ao que acontecera.
- s fantstica - disse ele. - Nunca conheci ningum como tu.
- Dou-te tudo o que tu queres? - perguntou ela.
- Sim - gemeu ele. - Oh, se ds.
Noelle interrompeu o que fazia.
- Ento no voltes a ir para a cama com outra mulher - disse ela com ternura. - Da prxima vez, mato-a.
Larry lembrou-se das palavras dela: tupertences-me. E de repente assumiram um significado novo e lominoso. Pela primeira vez teve a premonio de que este no era 
um caso passageiro a que pudesse pr termo quando lhe apetecesse. Sentiu o ncleo frio, mortal e intocvel que havia em Noelle Page, teve um arrepio e ficou cheio 
de medo. Vrias vezes ao longo da noite comeou a puxar o assunto de Helena, e de todas as vezes parou porque tinha medo de saber, medo de exprimir por palavras, 
como se as palavras tivessem mais poder que o prprio feito. Se Noelle foi capaz disso...
Ao pequeno-almoo, na manh seguinte, Larry reparava e Noelle sem que se apercebesse,  procura de sinais de crueldade, sadismo, mas tudo o que via era uma mulher 
bela e apaixonante, lhe contava histrias divertidas, que se antecipava s necessidades dele e delas cuidava. Tenho que estar enganado a respeito dela - pensou ele. 
Mas depois disso tratou de no andar com outras mulheres, e em poucas semanas perdera todo o desejo de o fazer, porque
302

se sentia totalmente obcecado por Noelle. Desde logo Noelle avisou Larry de que era fundamental manterem o caso longe de Constantin Demiris.
- Nunca dever haver o mais leve murmrio de suspeita sobre ns - avisou Noelle.
- Por que no alugamos um apartamento? - sugeriu Larry. Um stio onde ns...
Noelle abanou a cabea.
- Mas no em Atenas. Algum poderia reconhecer-me. Dois dias depois, Demiris mandou chamar Larry. A princpio Larry ficou apreensivo, julgando que o magnata grego 
pudesse ter sabido de alguma coisa sobre eles, mas Demiris cumprimentou-o agradavelmente e teve com ele uma conversa sobre um novo avio que tencionava comprar.
-  um bombardeiro Mitchell transformado - disse-lhe Demiris. - Gostava que o visse.
O rosto de Larry iluminou-se.
-  um ptimo avio - disse ele. -Pelo peso e tamanho, no encontrar melhor.
- Quantos passageiros pode transportar?
Larry pensou um momento.
- Nove no maior conforto, mais o piloto, o navegador e o engenheiro de voo. Atinge quatrocentas milhas por hora.
- Parece interessante. Veja-me isso e traga-me um relatrio.
-  para j - sorriu Larry.
Demiris ps-se de p.
- A propsito, Douglas, Miss Page vai a Berlim de manh. quero que a leve l.
- Certamente - disse Larry. E depois acrescentou, inocentemente. - Miss Page disse-lhe que j nos damos melhor?
Demiris ergueu o olhar.
- No - disse ele intrigado. - De facto, ainda esta manh ela se queixou da sua insolncia.
Larry fitou-o surpreendido, e depois, assim que deu conta, tentou  pressa disfarar a mancada que dera.
- Eu fao por isso, Sr. Demiris - disse com veemncia. -Vou esforar-me ainda mais.
Demiris fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Faa isso. Voc  o melhor piloto quej tive, Douglas. Seria muito
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 desagradvel se... -Deixou a voz diminuir de intensidade e a mensagem foi clara.
A caminho de casa, Larry amaldioou o disparate que cometera.
No podia esquecer-se de que agora ojogo era alto. Noelle fora suficientemente inteligente para perceber que qualquer alterao repentina na sua atitude poderia 
levantar as suspeitas de Demiris. A
relao anterior entre eles era uma cobertura perfeita para o que
faziam. Demiris estava a tentar aproxim-los. A ideia provocou em
Larry uma gargalhada.
No voo para Berlim, Larry entregou o leme a Paul Metaxas e disse que ia l atrs falar com Noelle Page.
- No tens medo que te corte a cabea  dentada? - Metaxas perguntou.
Larry hesitou, tentado que se sentiu a gabar-se. Mas dominou o impulso.
-  uma cabra assanhada - Larry encolheu os ombros -, mas se eu no conseguir amans-la ainda vou parar ao olho da rua.
- Boa sorte - disse Metaxas com ponderao. - Obrigado.
Larry fechou a  porta da cabina cuidadosamente e foi para o salo onde Noelle se encontrava. As duas hospedeiras estavam na retaguarda do avio. Larry fez meno 
de sentar-se em frente a Noelle.
- Tem cuidado - avisou ela em voz baixa. - Constantin recebe relatrios de todas as pessoas que trabalham para ele. Larry olhou de relance na direco das hospedeiras 
e pensou em Helena.
- Encontrei um stio para ns - disse Noelle. Havia prazer e excitao na voz dela.
- Um apartamento?
- Uma casa. Sabes onde fica Rafina?
Larry abanou a cabea.
- No.
-  uma aldeiazinha  beira-mar, a cem quilmetros de Atenas. Temos l uma vivenda retirada.
Ele anuiu.
- Em nome de quem a alugaste?
- Comprei-a - disse Noelle - em nome de outra pessoa. Larry gostava de saber que sensao causava poder-se comprar uma vivenda s para ir para a cama com algum 
uma vez por outra.
- ptimo - disse ele. - Quem me dera ir v-la j.
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Ela examinou-o por um momento.
- Tens dificuldades em afastar-te de Catherine?
Larry olhou para Noelle surpreso. Era a primeira vez que se referira  mulher dele. Ele no fizera obviamente segredo do casamento, mas foi uma sensao estranha 
ouvir Noelle usar o nome de Catherine. Obviamente Noelle fizera as suas investigaes, e conhecendo-a como comeava a conhec-la as mesmas deveriam ser muito completas. 
Ela ficou  espera de uma resposta.
- No - respondeu Larry. - Posso entrar e sair quando me apetecer.
Noelle anuiu, satisfeita.
- ptimo. Constantin vai num cruzeiro de negcios a Dubrovnik. J lhe disse que no o posso acompanhar. Vamos passar dez dias maravilhosos juntos.  melhor ires 
agora.
Larry virou-se e regressou  cabina.
- Como  que foi? - perguntou Metaxas. - Conseguiste acalm-la?
- Nem porisso-respondeu Larry, cuidadosamente. -Vailevar o seu tempo.
Larry tinha um carro, um - Citroen descapotvel, mas, por insistncia de Noelle, foi a uma pequena agncia de aluguer de automveis em Atenas e alugou uma viatura. 
Noelle fora para Rafina sozinha e Larry ficou de ir ter com ela. Foi uma viagem agradvel por uma estrada sinuosa e poeirenta muito acima do nvel do mar. Duas horas 
e meia depois de ter sado de Atenas, Larry chegou a uma aldeiazinha encantadora anichada na costa. Noelle dera-lhe instrues precisas de forma a no ter de parar 
e perguntar na vila. Quando alcanou os arredores da aldeia, virou  esquerda e desceu uma estrada suja que ia dar ao mar. Havia vrias vivendas, todas retiradas 
atrs de muros altos de pedra. No fim da estrada, construda num alto  rochedo sobre um promontrio que se projectava pelo mar adentro, estava uma vivenda enorme 
de aspecto luxuoso.
Larry subiu at ao porto e tocou  campainha. Um momento depois o porto elctrico abriu-se. Entrou e o porto fechou-se atrs de si. Deu por si num ptio enorme 
com uma fonte ao centro. Os flancos do ptio eram uma profuso de flores. A casa em si era uma vivenda tipicamente mediterrnica, to inexpugnvel como uma fortaleza. 
A porta frontal abriu-se e Noelle surgiu, num vestido branco de algodo. Ficaram a olhar um para o outro, sorridentes, para, pouco depois, ela cair nos seus braos.
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- Vem ver a tua nova casa - disse ela, ansiosamente, e levou para dentro.
O interior da casa parecia cavernoso, com salas grandes e espaosas de tectos altos abobadados. Havia uma sala de estar enorme no rs-docho, uma biblioteca, uma 
sala de jantar formal e uma cozinha antiga com um fogo a lenha circular, colocado no centro. Os quartos ficavam em cima.
- No h criados? - perguntou Larry.
- Ests a olhar para eles.
Larry olhou-a surpreendido.
- Tu  que vais cozinhar e limpar?
Elaconcordou.
- quando no estivermos c, vem um casal de criados fazer a limpeza, mas nunca nos vero. tratei do assunto numa agncia.
Larry sorriu sardonicamente.
Havia um tom de advertncia na voz de Noelle.
- Nunca cometas o erro de subestimar Constantin Demiris. Se descobrir o que se passa entre ns, mata-nos aos dois.
Larry sorriu.
- Ests a exagerar -disse ele. -O velho pode no gostar, mas... Os olhos cor de violeta de Noelle fixaram-se nos dele.
- Ele mata-nos aos dois. - Algo na voz dela lhe causou uma sensao de apreenso.
- Ests a falar a srio, no ests?
- Nunca falei to a srio na vida. Ele  implacvel.
- Mas quando dizes que nos vai matar - protestou Larry - ele no...
- No usar balas - disse Noelle peremptoriamente. - Arranjar uma maneira complicada e engenhosa de o fazer, e nunca ser castigado por isso. - O tom dela aligeirou-se. 
- Mas no h-de descobrir, querido. Anda, deixa-me mostrar-te o nosso quarto. -Pegou na mo dele e subiram a escada ngreme. - Temos quatro quartos d hspedes -disse, 
acrescentando com um sorriso -, e podemos experimentar todos. - Levou para o quarto principal, uma suite enor me que fazia esquina sobre o mar. Dajanela Larry avistou 
um terrao enorme e o caminho breve que serpenteava at  gua. Havia uma doca com um enorme veleiro e um barco a motor atracados.
- De quem so aqueles barcos?
- Teus - disse ela. -  o teu presente de boas-vindas.
30

Voltou-se para ela e viu que tirara o vestido de algodo. Estava nua. Passaram o resto da tarde na cama.
Os dez dias que se seguiram voaram. Noelle era azougada, uma ninfa, um gnio, doze belas criadas que satisfaziam todos os desejos de Larry antes mesmo de saber o 
que queria. Encontrou a biblioteca da vivenda repleta com os seus livros e discos preferidos. Noelle esmerou-se na confeco de todos os seus pratos predilectos, 
navegou com ele, nadou na gua do mar morna com ele, amou-o, massajava-o  noite at adormecer. De certa maneira eram prisioneiros, pois no ousavam ver ningum. 
Todos os dias Larry descobria novas facetas em Noelle. Entretinha-o com histrias fascinantes sobre pessoas famosas que ela conhecia. Tentou falar de negcios e 
poltica com ele, at que descobriu que isso no lhe interessava.
Jogaram pquer e  outros jogos, e Larry ficou furioso porque nunca conseguia ganhar. Noelle ensinou-lhe xadrez e gamo, mas nem a conseguiu bat-la. No primeiro 
domingo que passaram na vivenda preparou um saboroso almoo-piquenique, e sentaram-se na praia ao sol e deliciaram-se. Enquanto comiam, Noelle ergueu o olhar e viu 
dois homens ao longe. Caminhavam na sua direco ao longo da praia.
- Vamos para dentro - disse Noelle. Larry ergueu o olhar e viu os homens.
- Bolas, no sejas to assustadia. So apenas dois aldees a passear na praia.
- J - ordenou ela.
- Est bem - disse ele de m vontade, irritado pelo incidente e pelo tom dela.
- Ajuda-me a arrumar as coisas.
- Por que no deixamos tudo aqui? - perguntou ele.
- Porque ia levantar suspeitas.
Rapidamente meteram tudo no cesto do piquenique e puseram-se a caminho da casa. Larry esteve calado o resto da tarde. Sentou-se na biblioteca, preocupado, enquanto 
Noelle trabalhava na cozinha.
Ao fim da tarde entrou na biblioteca e sentou-se aos ps dele. Com o dom misterioso que tinha de ler o pensamento, disse:
- No penses mais neles.
- Eram apenas uns pobres aldees - ripostou Larry.  Detes-
307
to ter de me esconder como se fosse um criminoso. - Olhou-a, e o tom de voz mudou. - No preciso de esconder-me de ningum. Amo-te.
E Noelle sabia que desta vez era verdade. Pensou nos anos em que planeara destruir Larry e no prazer feroz que tivera quando imaginava a destruio dele: e no entanto, 
ao rev-lo, soube naquele instante que havia algo mais profundo do que o dio que a consumia. Quando quase o matara, forando a arriscar a vida de ambos naquele 
terrivel voo para Amsterdo, foi como se estivesse a pr  prova o amor que tinha por ela num desafio selvagem do destino. Esteve com Larry na cabina, partilhando 
a pilotagem e o sofrimento de Larry, sabendo que se ele morresse morreriam juntos, e que ele salvara a vida de ambos. E quando fora ter com ela ao quarto de Amsterdo 
e a amara, o dio e o amor interpenetraram-se nos seus dois corpos, e de alguma forma o tempo dilatara-se e contrara-se e estavam de volta ao quartinho do hotel 
em Paris, e Larry dizia-lhe: Vamos casar; falamos com o presidente duma cmara de provncia, e o presente e o passado explodiram estonteantemente num s e Noelle 
soube ento que eram intemporais, sempre o foram, que nada realmente mudara e que as razes do seu dio por Larry nasceram da grandiosidade do seu amor. Se o destrusse 
estaria a destruir-se a si prpria, pois entregara-se totalmente a ele havia muito tempo, e isso nada jamais poderia alterar.
Noelle achava que tudo o que alcanara na vida fora atravs do dio. A traio do pai moldara-a e dera-lhe forma, fortalecera-a e enrigecera-a, enchendo-a de fome 
porvingana que apenas poderia ser saciada com um reino de que seria dona e senhora, no qual no pudesse voltar a ser trada, nem ferida. Havia finalmente alcanado 
isso. E agora estava pronta a sacrific-lo por este homem. Porque sabia agora que o que sempre quisera fora o amor e a vida de Larry. O que, por fim, obteve. E esse, 
afinal de contas, era o seu verdadeiro reino.
308

Atenas 1946
18
Para Larry e Noelle, os trs meses que se seguiram foram um daqueles raros perodos idlicos em que tudo correu bem, um tempo mgico de deslizar de um dia maravilhoso 
para outro, sem a mais tnue nuvem no horizonte. Larry passava as horas de trabalho a fazer aquilo que adorava fazer: voar; e, sempre que tinha um tempo livre, ia 
at  casa de Rafina e passava um dia ou um fim-de-semana com Noelle. No incio, Larry receara que o compromisso se tornasse um fardo que o arrastaria para o tipo 
de vida domstica que detestava; mas, de cada vez que via Noelle, ficava mais encantado e comeava a desejar ansiosamente pelas horas que iria passar com ela. Quando 
ela teve de cancelar um fime-semana por ter de acompanhar Demiris numa viagem inesperada, Larry ficou sozinho na casa, e deu por si irado e ciumento, pensando em 
Noelle e Demiris juntos. Quando viu Noelle na semana seguinte, ela ficou surpreendida e satisfeita com ansiedade dele.
- tiveste saudades minhas - disse ela.
Ele abanou a cabea.
- Muitas.
- que bom.
- Como  que est Demiris?
Ela hesitou um momento.
- Est bem.
Larry reparou na hesitao dela.
- que se passa?
- Estava a pensar numa coisa que disseste.
- Em qu?
309

- Disseste que detestavas a sensao de andares escondido como um criminoso. Eu tambm. Todos os momentos que passei com Constantin, queria pass-los contigo. Disse-te 
uma vez, Larry, que te quero s para mim. E disse a srio. No te quero dividir com ningum. Quero que cases comigo.
Ele fitou-a surpreso, apanhado desprevenido. Noelle observava.
- Queres casar comigo?
- Sabes bem que sim. Mas como? Passas a vida a dizer-me o que Demiris far se descobrir que andamos juntos.
Ela abanou a cabea.
- Ele no ir saber. Temos de ser espertos e planear tudo como deve ser. Ele no manda em mim. Eu deixo-o. Ter de se conformar.  demasiado orgulhoso para tentar 
impedir me. Um ou dois meses depois, tu despedias-te. Iremos para um stio qualquer, separadamente, talvez para os Estados Unidos. Podemos casar-nos l. O dinheiro 
que tenho chega e sobra. Compro- te uma companhia de cherters, ou uma escola de pilotos ou o que tu quiseres.
Ele s ouvia o que ela dizia, sopesando as perdas contra os ganhos. E que iria ele perder? Um reles emprego de piloto. A ideia de ser dono dos seus avies emocionou-o. 
Seria dono de um Mitchell transformado. Ou talvez do novo DC-6 que acabara de sair. Quatro motores radiais, oitenta e cinco passageiros. E Noelle, sim, ele desejava 
Noelle. Deus, por que hesitava ele?
- E a minha mulher? - perguntou ele.
- Diz-lhe que te queres divorciar.
- No sei se ir aceitar.
- No lhe peas - respondeu Noelle. - Diz-Lhe. - Havia um tom decisivo e implacvel na voz dela.
Larry concordou com a cabea.
- Est bem.
- No te arrependers, querido. Prometo - disse Noelle.
Para Catherine, o tempo perdera o seu ritmo normal; ela cai numa confuso das horas, e o dia e a noite eram um s. Larry quase  no estava em casa, e ela deixara 
de visitar os amigos, porque j notinha coragem para dar mais desculpas ou enfrentar as pessoas.
310

conde Pappas fizera meia dzia de tentativas para v-la e acabara por desistir. S conseguia lidar com as pessoas de forma indirecta: por telefone, carta ou telegrama. 
Mas quando as enfrentava no reagia, e as conversas descambavam em futilidades. O tempo causava dor, assim como as pessoas, e o nico consolo que Catherine achou 
foi o maravilhoso esquecimento do lcool. Oh, como aliviava o sofrimento, suavizava as arestas agudas das repulsas e diminua a luz impiedosa da realidade que abatia 
todas as pessoas.
Quando Catherine chegara a Atenas, ela e William Fraser escreviam-se com frequncia, trocando notcias e mantendo-se ambos actualizados com as actividades dos amigos 
e inimigos mtuos. Desde que os problemas de Catherine com Larry comearam, todavia, no tinha tido coragem de escrever a Fraser. As ltimas trs cartas dele no 
receberam resposta, e a ltima nem sequer fora aberta. Simplesmente, nem foras tinha para se ocupar com nada para alm do microcosmos de autocomiserao em que 
ficara presa.
Um dia chegou um telegrama para Catherine, o qual, uma semana depois, ainda estava por abrir em cima da mesa, quando a campainha da porta tocou e William Fraser 
surgiu. Catherine fitou-o, incrdula.
- Bill! - disse ela, com uma voz grossa. - Bill Fraser! Ele ia comear a falar e ela viu a expresso excitada no olhar dele que se transformava em espanto e choque.
- Bill, querido - disse ela. - que fazes tu aqui?
- tive de vir a Atenas em negcios - explicou Fraser. - No recebeste o meu telegrama?
Catherine olhou para ele, tentando lembrar-se.
- No sei - disse ela por fim. Conduziu-o at  sala de estar, cheia de jornais velhos, cinzeiros e pratos com restos de comida. Desculpa a casa estar neste desarranjo 
- disse ela, acenando uma mo vaga. - Tenho tido que fazer.
Fraser analisava-a preocupadamente.
-  ests bem, Catherine?
- Eu? Fantstica. Que tal uma bebida?
- So apenas onze horas da manh.
Ela fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Tens razo. Tens toda a razo, Bill. Ainda no so horas de beber, e, para te dizer a verdade, eu s ia beber para comemorar a tua vinda. s a nica pessoa do 
mundo que me faria tomar uma bebida s onze horas da manh.
311

Fraser observava-a com tristeza enquanto se arrastava at ao bar, e encheu um copo grande para ela e um mais pequeno para ele.
- Gostas de aguardente grega? - perguntou ela quando lhe trazia a bebida. - Eu detestava, mas uma pessoa habitua-se.
Fraser aceitou a bebida e pousou-a.
- Onde est Larry? - perguntou ele calmamente.
- Larry? Oh, o nosso amigo Larry anda por a a voar. trabalha para o homem mais rico do mundo, sabes. Demiris  dono de tudo, at de Larry.
Ele examinou-a por um momento.
- Larry sabe que tu bebes?
Catherine pousou o copo com fora e ficou a balanar  frente dele.
- Que queres dizer com isso de Larry saber que eu bebo? - perguntou ela indignada. - quem  que disse que eu bebo? L porque quero comemorar a visita dum velho amigo, 
no comeces a atacar-me!
- Catherine - comeou ele -, eu...
- Pensas que podes chegar aqui e chamar-me de bbeda?
- Desculpa, Catherine - disse Fraser condodo -, acho que ests a precisar de ajuda.
- Pois ests muito enganado - retorquiu ela. - No preciso de ajuda nenhuma. Sabes porqu? Porque eu consigo... consigo... consi: go... - procurou a palavra, acabando 
por desistir. - Eu no preciso  de ajuda nenhuma.
Fraser observou-a por um momento.
- Tenho de ir para uma reunio agora - disse ele. - Janta comigo esta noite.
- Est bem. - Concordou ela.
- ptimo. Venho buscar-te s oito.
Catherine seguiu Bill Fraser com o olhar. Depois, a trocar o passo, foi para o quarto e lentamente abriu a porta do roupeiro, fixando o olhar no espelho que estava 
pendurado atrs da porta. Ficou gelada, incapaz de acreditar no que via, certa de que o espelho estava pregar-Lhe uma partida pavorosa. No interior era ainda a menina 
bonita adorada pelo pai, ainda ajovem colegial no quarto dum amo com Ron Peterson, a ouvi-lo dizer: Meu Deus, Cathy, tu s a coisa  mais bonita que euj vi, e Bill 
Fraser que a abraava e lhe dizia: to bonita, Catherine, e Larry dizendo-lhe: Fica sempre assim  Cathy, tu s um sonho, e ela olhava para a figura reflectida no 
espelho e disse em voz alta e rouca:
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- quem s tu?
E a mulher triste e disforme do espelho comeou a chorar, desesperanada, lgrimas vazias que escorreram pelo rosto inchado e obsceno. Horas depois a campainha da 
porta tocou. Ouviu a voz de Bill Fraser chamar.
- Catherine! Catherine, ests a? - E depois a campainha tocou um pouco mais, e por fim a voz calou-se e a campainha deixou de tocar, e Catherine ficou sozinha com 
a estranha que estava no espelho.
s nove horas da manh seguinte, Catherine apanhou um txi at  Rua Patission. O mdico chamava-se Nikodes, e era um homem entroncado e corpulento, com umajuba 
branca desgrenhada, um rosto sensato com olhos meigos, e modos fceis e informais. Uma enfermeira conduziu Catherine ao consultrio e o Dr. Nikodes indicou-lhe uma 
cadeira.
- Sente-se, Sr  Douglas.
Catherine sentou-se, nervosa e tensa, tentando impedir que o corpo tremesse.
- Qual  o seu problema?
Comeou a responder e depois parou, impotente.
Oh, Deus, pensou ela, Hpor onde poderei comear?
- Preciso de ajuda - disse ela por fim. tinha a voz seca e spera, e ansiava por uma bebida.
O mdico estava recostado na cadeira a observ-la.
- Que idade tem?
- Vinte e oito.
Observou o rosto dele quando respondeu. Tentou ocultar a expresso de choque, mas ela apanhou-a, e de uma forma perversa a mesma a satisfez.
-  americana?
- Sou.
- Vive em Atenas?
Ela fez um sinal de concordncia.
- H quanto tempo vive c?
- H mil anos. Mudmo-nos para c antes da Guerra do Peloponeso.
O mdico sorriu.
- Por vezes tambm sinto isso.
Ofereceu Lhe um cigarro. Ela estendeu a mo. querendo controlar
313

os dedos trementes. Se o Dr. Nikodes reparou, nada disse. Acendeu-lho.
- De que tipo de ajuda precisa, Sr. Douglas?
Catherine olhou-o desamparada.
- No sei - sussurrou ela. - No sei.
- Sent-se doente?
- Estou doente. Sinto que devo estar muito doente. Fiquei to feia. - Sabia que no estava a chorar e no entanto as lgrimas corriam-lhe pelas faces abaixo.
- A senhora bebe? - perguntou o mdico mansamente. Catherine fitou em pnico, sentindo-se encurralada, atacada.
- As vezes.
- Quanto?
Respirou fundo.
- No muito. Depende.
- Hoje j bebeu? - perguntou ele.
- No.
Ps-se a examin-la.
- A senhora no  nadafeia, sabe-disse elegentilmente. -Est com peso a mais, o seu corpo est inchado e no tem cuidado da pele nem do cabelo. Sob essa fachada, 
h uma mulher muito atraente.
Caiu num pranto, e ele ficou a v-la chorar. Vagamente acima do som dos seus soluos angustiados, Catherine ouviu a campainha da secretria dele tocar vrias vezes, 
mas o mdico ignorou-a. O ataque de choro por fim passou. Catherine tirou um leno e assoou o nariz.
- Desculpe-me - disse ela. - Pode ajudar-me?
- Isso depende inteiramente de si - respondeu o Dr. Nikodes. Ainda no sabemos exactamente qual  o seu problema.
- Olhe para mim - respondeu Catherine.
Ele abanou a cabea.
- Isso no  um problema, Sr.  Douglas, mas um sintoma. Perdoe-me a brusquido, mas se quer a minha ajuda devemos ser total- mente honestos um com o outro. quando 
uma mulher nova e atraente se desleixa assim,  porque deve haver uma razo muito forte. O seu marido  vivo?
- Aos feriados e fins-de-semana.
Ele examinou-a.
- Vive com ele?
- Quando est em casa.
- bqual  a profisso dele?
314

-  o piloto pessoal de Constantin Demiris. - Viu a reaco no rosto dele, mas, se reagia ao nome de Demiris ou se sabia algo sobre o assunto, no percebeu. - J 
ouviu falar do meu marido? - perguntou ela.
- No. - Mas podia estar a mentir. - Ama o seu marido, Sr. Douglas?
Catherine abriu a boca para responder, mas deteve-se. Sabia que o que ia dizer era muito importante, no apenas para o mdico mas para si prpria. Sim, amava o marido, 
mas s vezes tinha-lhe tanta raiva que seria capaz de o matar, e sim, s vezes, rendia-se de tal forma  ternura que sentia por ele que seria capaz de morrer de 
boa vontade por ele; e que palavra resumiria tudo isso? Talvez fosse amor.
- Sim, amo-o - disse ela.
- E ele ama-a?
Catherine pensou nas outras mulheres da vida de Larry e na infidelidade dele e pensou na desconhecida horrvel que vira no espelho a noite passada, e no podia culpar 
Larry por no a desejar. Mas quem sabia o que acontecera primeiro? A mulher do espelho foi criada pela infidelidade dele ou a infidelidade dele criou a mulher do 
espelho? Deu-se conta de que as suas faces ficaram novamente humedecidas pelas lgrimas.
Catherine abanou a cabea sem saber o que dizer.
- Eu... no sei.
- J alguma vez teve um esgotamento nervoso?
Observou-o agora com um olhar cauteloso.
- No. Acha que preciso de um?
Ele no sorriu. Falava lentamente, escolhendo as palavras com cuidado.
- O esprito humano  uma coisa delicada, Sr.  Douglas. Tem uma capacidade de dor limitada, por isso a dor, quando se torna insuportvel, procura refgio em lugares 
recnditos do esprito que s agora estamos exactamente a comear a explorar. As suas emoes chegaram a um extremo. - Olhou para ela por um momento. - Fez muito 
bem em ter procurado ajuda.
- Sei que estou um pouco nervosa - disse Catherine na defensiva. - Por isso  que eu bebo. Para descontrair.
- No - disse ele bruscamente. - A senhora bebe para no enfrentar. - Nikodes ergueu-se e aproximou-se dela. - Acho que existem muitas coisas que ns podemos fazer 
por si. Por ns incluo-me a mim e a si. No ser muito simples.
315
- Diga-me o que preciso de fazer.
- Para comear, vou mand-la a uma clnicafazer um exame mdico completo. Tenho a sensao de que no encontraro basicamente nada de errado consigo. A seguir, vai 
parar de beber. Depois vai fazer uma dieta. tudo bem at agora?
Catherine hesitou, depois fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Vai inscrever-se num ginsio, onde far exerccios regularmente para que o seu corpo volte a ser o que era. Conheo um excelente fisioterapeuta que lhe far as 
massagens. Ir a um salo de beleza uma vez por semana. tudo isto levar o seu tempo, Sr.  Douglas. No chegou a este ponto da noite para o dia, e no o mudar 
da noite para o dia. - Sorriu-lhe para lhe inspirar confiana. - Mas posso prometer-lhe que dentro de algums meses, at de semanas, comear a parecer e a sentir-se 
uma outra mulher. Quando se olhar no espelho, sentir orgulho; e, quando o seu marido olhar para si, ir ach-la atraente.
Catherine fitou-o, sentindo um alvio no corao. Foi como se lhe tivessem tirado um peso insuportvel de dentro de si, como se de repente tivesse ganho uma nova 
oportunidade de viver.
-  preciso que tenha perfeita conscincia de que eu s lhe posso sugerir este programa - dizia o mdico. - S a senhora o poder cumprir.
- Irei cumpri-lo - disse Catherine com fervor. - Prometo.
- O mais difcil vai ser deixar de beber.
- No vai, no - disse Catherine. E ao diz-lo sabia que era verdade. O mdico acertara: andava a beber s para no enfrentar. Agora tinha um objectivo, um caminho. 
Ia reconquistar Larry. - No tocarei noutra gota - disse ela com firmeza.
O mdico viu a expresso do seu rosto e abanou a cabea, satisfeito.
- Acredito em si, Sr.  Douglas.
Catherine ps-se de p. Admirou-se com o corpo sem graa e deselegante que tinha, mas tudo isso iria mudar agora. -Acho melhor
ir- me embora j e comear a comprar roupas estreitas - sorriu e O mdico escreveu algo num carto.
-  a morada da clnica. Estaro  sua espera. Voltarei a v-la
quando os seus exames ficarem prontos.
Na rua, Catherine procurou um txi, depois pensou: Nem pensar. Vouj comear a fazer exerccios para me ir habituando. Comeou a andar. Passou por uma montra e parou 
para ver a sua imagem.
316

Fora to precipitada em culpar Larry pela desintegrao do casamento sem nunca questionar que parte da culpa era sua. Por que quereria ele vir para casa e encontrar 
uma pessoa com o aspecto dela? Lenta e subtilmente, esta estranha instalara-se dentro de si sem que se tivesse apercebido. Gostava de saber quantos casamentos no 
tiveram fim semelhante, no com uma exploso, mas com uma lamria, como dissera o grande T. S. Elliot. Bem, isso eram guas passadas. A partir de agora no olharia 
para trs, apenas olharia para a frente em busca do futuro maravilhoso.
Catherine chegara ao bairro chique de Salonika. Passava por um salo de beleza e num impulso repentino virou-se e entrou. A recepo era em mrmore branco, grande 
e elegante. Uma recepcionista insolente olhou-a com um ar reprovador e disse:
- Pois no, em que posso servi-la?
- Quero fazer uma reserva para amanh de manh - disse Catherine. - Quero fazer tudo. Servio completo. - O nome do me lhor cabeleireiro salo veio-lhe de repente 
 ideia. - Quero que seja Aleko a pentear-me.
A mulher abanou a cabea.
- Posso fazer-lhe a reserva, mas ter de ser outra pessoa a pente-la.
- Oua - disse Catherine num tom firme -, diga a Aleko que me faa o trabalho, ou espalho por toda a cidade de Atenas que sou cliente regular dele.
Os olhos da mulher arregalaram-se, surpreeendida e chocada.
- Vou... vou ver o que posso fazer - disse ela precipitadamente.
- Esteja c s dez da manh.
- Obrigada - disse Catherine com um sorriso largo. - C estarei. - E saiu.
 sua frente viu a pequena taberna com um letreiro na montra que dizia HMADAME PIRIS - CARTOMANTEH. Pareceu-lhe vagamente familiar e subitamente lembrou-se do dia 
em que o conde Pappas Lhe contara uma histria sobre Madame Piris. tinha a ver com um polcia e um leo - mas no conseguia recordar-se dos pormenores. Catherine 
no acreditava em cartomantes e, no entanto, o impulso de entrar foi irresistvel. Precisava de confiana, algum que lhe confirmasse a sensao sobre o futuro novo 
e maravilhoso que tinha pela frente, que lhe dissesse que a vida ia ser novamente bela, que ia valer a pena voltar a viver. Abriu a porta e entrou.
Por causa do sol brilhante, Catherine precisou de alguns momentos
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 para se habituar  escurido cavernosa da sala. distinguiu um bar no canto e uma dzia de mesas e cadeiras. Um criado com ar cansado aproximou-se dela e dirigiu-se-lhe 
em grego.
- No desejo beber nada, obrigada - disse Catherine. Gostou de ouvir a sua voz dizer as palavras e repetiu-as. -No vou beber nada. Quero falar com madame Piris. 
Ela est? O criado apontou para uma mesa vazia ao fundo da sala, e Catherine foi at l e sentou-se. Uns minutos depois, sentiu algum a seu lado e olhou para cima.
A mulher era incrivelmente velha e magra, vestida de negro, com um rosto que o tempo marcara com ngulos e planos.
- Pediu para falar comigo? - O seu ingls era imperfeito.
- Pedi, sim - disse Catherine. - Queria uma consulta, por favor.
A mulher sentou-se e ergueu uma mo, e o empregado abeirou-se da mesa trazendo uma chvena de caf puro e espesso numa pequena bandeja. Pousou-a  frente de Catherine.
- Eu no quero - disse Catherine. - Eu...
- Beba - disse Madame Piris.
Catherine olhou-a surpreendida, depois pegou na chvena e sorveu um pouco de caf. Era forte e amargo. Pousou a chvena.
- Mais - disse a mulher.
Catherine ia protestar, mas pensou: O que perdem com a cartomncia, recuperam no caf. Bebeu mais um gole. Era horrvel.
- Mais um bocado - disse Madame Piris.
Catherine encolheu os ombros e deu um ltimo golo. No fundo da chvenahavia qualquer coisa espessa eviscosa. Madame Piris fezunm sinal afirmativo com a cabea, estendeu 
a mo e tirou a chvena Catherine. Olhou para o interior longamente, sem dizer nada. Cathrine sentiu-se uma idiota. eQue faz uma rapariga simptica e inteligente 
como eu num lugar destes, a ver uma velha grega maluca olhar para dentro de uma chvena de caf vazia?
- A senhora vem de um lugar distante - disse a mulher repentinamente.
- Em cheio - disse Catherine com petulncia.
Madame Piris olhou-a bem de frente, e havia algo no olhar da velha que arrepiou Catherine.
- Volte para casa.
Catherine engoliu em seco.
- Eu... eu... estou em casa.
- Volte para o stio donde veio.
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- Refere-se  Amrica?
- Seja onde for. V-se embora daqui... depressa!
- Porqu? - disse Catherine, invadida lentamente por uma sensao de medo. - Que se passa?
A velha abanou a cabea. A sua voz era rspida, e tinha dificuldades em expressar se.
- Cerca-a por toda a parte.
- O qu?
- Saia! - Havia uma urgncia na voz da mulher, um som alto, agudo e penetrante como se fosse um animal em sofrimento. Catherine sentia o couro cabeludo arrepiar-se.
- A senhora est a meter-me medo - gemeu ela. - Por favor diga-me o que h de errado.
A mulher abanava a cabea de um lado para o outro, como se estivesse fora de si.
- V-se embora antes que isso a apanhe.
Catherine sentiu um pnico crescer dentro de si. Respirava com dificuldade.
- Antes que o qu me apanhe?
O rosto da velha contorcia-se de dor e terror.
- A morte. Anda atrs de si. - E a mulher levantou-se e desapareceu no quarto dos fundos.
Catherine deixou-se ali estar, com o corao a bater com fora, as mos a tremer, e ela apertou-as para que parassem. Cruzou o olhar com o do empregado e ia mandarvir 
uma bebida, mas deteve-se. No ia permitir que uma mulher maluca estragasse o seu futuro brilhante. Respirou profundamente at se dominar, e aps um longo tempo 
levantou-se, pegou na carteira e nas luvas e saiu da taberna.
C fora, sob a luz de um sol ofuscantemente brilhante, Catherine sentiu-se novamente melhor. Fora idiota ao deixar-se amedrontar por uma velha. Um horror daqueles 
devia estar preso em vez de andar  solta a amedrontar as pessoas. A partir de hoje, disse Catherine a si prpria, contentas-te com os bolinhos da sorte.
Entrou no apartamento e olhou para a sala de estar, e foi como se estivesse a v-la pela primeira vez. Era um espectculo desolador. O p estava por toda a parte, 
e havia peas de roupa espalhadas por toda a sala. Catherine no queria acreditar que na tontura causada pelo lcool nem disso dera conta. Bem, a primeira tarefa 
que ia ter era pr a casa num brinco. Ia para a cozinha quando ouviu uma gaveta
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fechar-se no quarto. O corao deu um salto de apreenso repentina, e dirigiu-se cautelosamente para a porta do quarto.
Larry estava no quarto. Havia uma mala fechada sobre a cama, e acabava de embalar uma segunda. Catherine ficou ali um momento, a observ-lo.
- Se  para a Cruz Vermelha - disse ela -, eu j dei. Larry olhou para cima de relance.
- Estou de sada.
- Mais uma viagem para Demiris?
- No - disse ele sem parar -, esta  para mim. Vou-me embora desta casa.
- Larry.
- No temos nada a dizer.
Ela entrou no quarto, esforando-se para se dominar.
- H, sim. Temos muito que conversar. Hoje fui ao mdico, e ele disse-me que eu vou ficar boa. - As palavras saam numa torrente.
- Vou deixar de beber e...
- Cathy, acabou-se. Quero o divrcio.
As palavras atingiram-na como se lhe tivessem dado uma srie de murros no estmago. Deixou-se estar, cerrando os dentes para no baterem, tentando vencer o vmito 
que sentia na garganta.
- Larry - disse ela, falando lentamente para que a voz no tremesse -, no te censuro pelo que sentes. Eu tenho muitas culpas... talvez a maior parte... mas vai 
ser diferente. Euvou mudar... mas vou mudar mesmo. -Estendeu a mo, como se suplicasse. - S peo uma oportunidade.
Larry virou o rosto, e os seus olhos escuros estavam frios e cheios de desprezo.
- Estou apaixonado por outra mulher. S quero que me ds o divrcio.
Catherine deixou-se ali estar um longo momento, depois voltou -se, regressou  sala de estar e sentou-se no sof, a passar os olhos por uma revista de moda grega 
enquanto ele acabava de fazer as malas. Ouviu a voz de Larry dizer:
- O meu advogado entrar em contacto contigo -, ao que a seguiu uma pancada forte da porta.
Catherine permaneceu sentada a virar cuidadosamente as
pginas da revista, e, quando acabou, arrumou-a no centro da mesa, para a casa de banho, abriu o armrio dos medicamentos, tirou a lmina e cortou os pulsos.
320

Atenas: 1946
19
Fantasmas de branco flutuavam em redor de Catherine e depois afastavam-se no espao com leves murmrios numa linguagem que no conseguia compreender, mas sabia que 
aquilo era o Inferno e que tinha de pagar pelos seus pecados. tinham-na presa  cama, supondo ela que aquilo fazia parte do castigo, mas ainda bem que estava presa 
porque sentia a terra girar no espao e tinha medo de poder cair do planeta. O mais diablico que lhe fizeram foi exporem-lhe os nervos  superfcie do corpo, o 
que lhe aumentou enormemente o sofrimento, duma forma insuportvel. O corpo estava vivo e dele vinham barulhos aterradores e desconhecidos. Ouvia o sangue correr-lhe 
nas veias, e era como um rio vermelho e ruidoso movimentando-se dentro dela. Ouvia o bater do corao, cujas pancadas pareciam dadas por gigantes em tambores. No 
tinha plpebras e a luz branca entrava-lhe ajorros no crebro, encandeando-a com o seu brilho. Todos os msculos do corpo estavam vivos, em movimento constante e 
incansvel, como se fossem um ninho de vboras sob a pele, prontas a atacar. Cinco dias depois de Catherine ter entrado no Hospital Evangelismos, abriu os olhos 
e deu por si num pequeno quarto branco de hospital. Uma enfermeira num uniforme impecavelmente branco compunha-lhe a roupa da cama, e o Dr: Nikodes trazia o estetoscpio 
ao peito.
- Ai, isso  frio - protestou ela, debilmente.
Olhou para ela e disse:
- Ora, ora, vejam quem acordou.
Catherine percorreu o quarto com um olhar lento. A luz parecia
 -  321

normal e j no ouvia o correr barulhento do sangue, nem o bater do corao ou a morte do corpo.
- Pensei que estava no Inferno. - A sua voz era um sussurro.
- E esteve.
Olhou para os pulsos. Sem saber porqu, estavam ligados.
- H quanto tempo estou aqui?
- H cinco dias.
De repente lembrou-se da razo das ligaduras.
- Parece que fiz um disparate - disse ela.
 verdade.
Fechou os olhos com fora e disse:
- Perdo.
E abriu-os, eraj noite, e Bill Fraser estava sentado numa cadeira perto da cama dela, observando-a. Havia flores e uma caixa de chocolates sobre a mesinha-de-cabeceira.
- Ol - disse ele num tom alegre. - Ests com muito melhor as- pecto.
- Melhor em que sentido? -perguntou ela lentamente. Colocou a sua mo sobre a dela. - Pregaste-me um susto to grande, Catherine.
- Lamento muito, Bill. -Engasgou-se, receando que ia comear
a chorar.
- trouxe-te umas flores e uma caixa de chocolates. Quando te sentires mais forte, trago-te uns livros.
Olhou para ele, para o rosto forte e meigo, e pensou: Por que razo no o amo? Por que estou apaixonada pelo homem que odeio? Por que  que Deus tem de ser como 
Groucho Marx?
- Como  que vim aqui parar? - perguntou Catherine.
- De ambulncia.
- Sim... mas quem  que me encontrou?
Fraser fez uma pausa.
- Fui eu. Tentei telefonar-te vrias vezes e como no respondias fiquei preocupado e arrombei a porta.
- Suponho que  minha obrigao agradecer-te - disse ela. mas, para te ser franca, ainda no tenho a certeza. - Queres falar sobre o assunto? 
Catherine abanou a cabea, o que lhe causou um latejo. - No - disse ela muito baixinho. 
Fraser deu um sinal de compreenso.
- Parto de manh para a Amrica. Estarei em contacto.
322

Sentiu um beijo na testa e fechou os olhos para se retirar do mundo e, quando voltou a abri-los, estava sozinha e era noite cerrada.
Logo pela manh seguinte Larry veio visit-la. Catherine observou-o quando entrou no quarto e se sentou numa cadeira junto  cama. Esperara encontr-lo abatido e 
infeliz, mas a verdade  que estava maravilhoso, elegante, bronzeado e descontrado. Catherine desejou desesperadamente ter podido pentear-se e pr um pouco de bton.
- Como te sentes, Cathy? - perguntou ele.
- ptima. O suicdio estimula sempre.
- No esperavam que sobrevivesses.
- Lamento ter-te desapontado.
- Isso no  coisa que se diga.
- Mas  verdade, no , Larry? Ter-te-ias visto livre de mim.
- Pelo amor de Deus, no me quero ver livre de ti dessa maneira, Catherine. S quero o divrcio.
Olhou para ele, para o homem bonito e bronzeado com quem se casara, o rosto agora um pouco agastado, a boca um pouco mais desgraciosa, o encantojuvenil um pouco 
diminudo. A que se prendia ela? A sete anos de sonhos? Entregara-se-lhe com um amor e uma esperana de que no podia separar-se, no queria admitir ter cometido 
um erro que fizera da sua vida um campo estril. Lembrou-se de Bill Fraser e dos amigos de Washington e dos bons tempos que passaram juntos. No conseguia recordar-se 
do ltima vez em que dera uma gargalhada, ou mesmo sorrido. Mas nada disso tinha importncia. Afinal, o que a impedia de deixar Larry partir era o amor que tinha 
por ele. Ele veio  procura de uma resposta.
- No - disse Catherine. - Nunca te darei o divrcio.
Larry encontrou-se com Noelle nessa noite no mosteiro abandonado de Kaissariani situado nas montanhas e contou-lhe a conversa que teve com Catherine.
Noelle escutou com ateno e disse:
- Achas que mudar de ideias?
Larry abanou a cabea.
- Catherine consegue ser mais teimosa que uma mula.
- Tens de voltar a falar com ela.
323
E Larry f-lo. Nas trs semanas que se seguiram esgotou todos os argumentos em que pde pensar. Imploro, lisonjeou, nfureceu-se, ofereceu-lhe dinheiro, mas nada 
moveu Catherine. Ainda o amava e tinha a certeza de que se ele quisesse podria voltar a am-la.
-  s meu marido - disse ela teimosamente. - Vais ser meu marido at eu morrer.
Ele repetiu a Noelle as palavras de Catherine. Noelle anuiu.
- Est bem - disse ela.
Larry olhou para ela, intrigado.
- Est bem o q?
Estavam deitados na praia da casa, sobre toalhas macias, que lhes protegia os corpos da areia quente. O cu era de um azul-profundo e ofuscante, com farrapos brancos 
de cirros que o manchavam.
- Tens de te ver livre dela. - Ps-se de p e caminhou em passo largo e firme par casa, com as pernas longas e esbeltas movendo-se graciosamente na areia.
Larry deixou-se ficar, espantado, julgando t-la entendido mal. Por certo no lhe dissera que ele matasse Catherine.
Foi ento que se lembrou de Helena.
Jantavam no terrao.
- No entendes? Ela no merece viver - disse Noelle. - S no te deixa porque  vingativa. Est a tentar dar cabo da tua vida, da nossa vida, querido.
Estavam na cama a fumar, as cinzas brilhantes do que restava dos cigarros reflectiam-se na infinidade dos espelhos que cobriam o quarto.
- Era um favor que lhe fazias. J se tentou matar. Ela quer morrer.
- Eu nunca seria capaz de fazer uma coisa dessas, Noelle.
- No serias?
Ela acariciou-Lhe a perna nua, subindo suavemente at ao vestido, fazendo pequenos crculos com as pontas dos dedos.
- Eu ajudo-te.
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Ele ia abrir a boca para protestar, mas as duas mos de Noelle j se haviam apossado dele, movendo-se em direces opostas, uma suave e lentamente, a outra firme 
e rapidamente. E Larry gemeu e abraou-a, afastando Catherine do pensamento.
Acertahora da noite Larry acordou com suoresfrios. Sonhara que Noelle fugira, abandonando-o. Mas ela dormia a seu lado, e ele, depois de a tomar nos braos, apertou-a 
contra si. Ficou acordado o resto da noite, pensando no que seria dele se a perdesse. No deu conta de que tomara uma deciso, mas de manh, enquanto Noelle se preparava 
para tomar o pequeno- almoo, Larry disse repentinamente:
- E se formos apanhados?
- Se formos inteligentes, ningum nos apanha. - Se ficou satisfeita com a capitulao dele, no o deu a entender.
- Noelle - disse ele com veemncia -, no h coscuvilheiro em Atenas que no saiba que eu e Catherine no nos damos bem. Se lhe acontecesse alguma coisa, a polcia 
ficaria mais que desconfiada.
- Claro que ficaria-concordou Noelle calmamente. - por isso que teremos de planear tudo com muito cuidado. Ela serviu a refeio de ambos e sentou-se para comear 
a comer. Larry afastou o prato para o lado, sem ter tocado na comida.
- No est bom? - perguntou Noelle, preocupada. Fitava-a, tentando saber que gnero de pessoa seria ela, capaz de saborear uma refeio enquanto planeava a morte 
duma outra mulher.
Maistarde, enquantovelejavam, voltaramafalarsobreoassunto, e quanto mais falavam mais verdadeiro se afigurava, e o que comeara como uma ideia sem importncia tornara-se 
um facto consumado.
- Tem de parecer um acidente - disse Noelle -, para que no haja investigaes. A polcia de Atenas  muito esperta.
- E se houver investigaes?
- No vai haver. O acidente no ir dar-se aqui.
- Ento onde?
- Jnina.
Debruou-se e comeou a falar. Escutou-a enquanto ela entrava em pormenores sobre o plano, rebatendo todas as objeces que ele levantava, improvisando com brilho. 
No fim, quando Noelle termi
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nou, Larry teve de admitir que o plano era perfeito. Sairiam perfeitamente ilibados.
Paul Metaxas estava nervoso. O rosto geralmente alegre do piloto grego estava contrado e tenso, e ele sentia um tique nervoso repuxar-lhe o canto da boca. No marcara 
entrevista com Constantin Demiris, e ningum entrava sem avisar para falar com o patro, mas Metaxas dissera ao mordomo que era urgente, e pouco depois Paul Metaxas 
deu por si no trio enorme da vivenda de Demiris, fitando-o e gaguejando atrapalhado:
- Peo imensas desculpas por estar a incomod-lo, Sr. Demiris.
- Metaxas sub-repticiamente enxugou a palma da mo nas calas da farda de voo.
- Aconteceu alguma coisa com um dos meus avies?
- Oh, no. Eu... ...  um assunto pessoal.
Demiris examinou-o sen interesse. tinha como regra nunca envolver-se nos assuntos dos seus subalternos. tinha secretrias para se ocuparem desses assuntos. Esperou 
que Metaxas prosseguisse.
A cada segundo, Paul Metaxas ia ficando mais nervoso. Passara muitas noites sem dormir antes de tomar a deciso que o trouxera aqui. O que fazia agora era contra 
a sua maneira de ser e, portanto, repugnante, mas era um homem de grande lealdade, e o seu primeiro compromisso de fidelidade era para com Constantin Demiris.
- E sobre Miss Page - disse ele, por fim.
Seguiu-se um momento de silncio.
- Entre para aqui -disse Demiris. Conduziu o piloto at  biblioteca almofadada e fechou as portas. Demiris tirou um cigarro egpcio achatado de uma cigarreira de 
platina e acendeu-o. Ergueu o olhar para Metaxas, que transpirava. - que se passa com Miss Page? perguntou, quase distraidamente.
Metaxas engoliu em seco, duvidando se cometera um erro. Se avaliara correctamente a situao, a sua informao seria apreciada, mas se errara...
Amaldioou-se pela imprudncia de ter vindo aqui, mas agora s lhe restava atirar-se de cabea.
- ...  sobre ela e Larry Douglas. - Observou a face de Demiris, tentando ler a expresso dele. No havia sequer o mnimo  de interesse. Caramba! Metaxas esforou-se 
para prosseguir, gaguejando.
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esto a viver juntos numa casa de praia em Rafina.
Demiris deitou a cinza do cigarro num cinzeiro de ouro em forma de cpula. Metaxas teve a sensao de que ia ser despedido, de que cometera um erro crasso e que 
isso ia custar-lhe o emprego. tinha de convencer Demiris de que estava a dizer a verdade. Comeou a deixar escapar as palavras.
- A minha... a minha irm  governanta numa das vivendas ao lado. V-os semprejuntos na praia. Reconheceu Miss Page pelas fotografias dosjornais, mas s aqui h 
duas semanas  que deu importncia ao caso quando foi at ao aeroporto parajantar comigo. Apresentei-a a Larry Douglas e... bem, ela disse-me que era o homem com 
quem Miss Page vive.
Os olhos cor de azeitonafitaram-no, completamente vazios de expresso.
- Apenas julguei que o senhor quisesse saber - terminou Metaxas de uma forma pouco convincente.
Quando Demiris falou, a sua voz era aptica.
- O que Miss Page faz com a sua vida privada s a ela diz respeito. Tenho a certeza de que no gostaria de ser espiada por ningum.
A testa de Metaxas estava coalhada de suor. Meu Deus, ele interpretara tudo ao contrrio. E quisera apenas ser leal.
- Creia-me, Sr. Demiris, eu apenas quis...
- Estou certo de que pensou estar a servir os meus melhores interesses. Enganou-se. Mais alguma coisa?
- No, no. - Metaxas voltou-se e desapareceu.
Constantin Demiris recostou-se na cadeira, com os olhos fixos no tecto, a olhar a para o vazio.
s nove horas da manh seguinte, Paul Metaxas recebeu ordens para se apresentar na companhia mineira de Demiris no Congo, onde Metaxas devia passar dez dias a transportar 
equipamento de Brazzaville para a mina. Numa quarta-feira de manh, durante o terceiro voo, o avio despenhou-se na selva verde e densa. Nunca se encontraram vestgios 
do corpo de Metaxas ou do avio sinistrado.
Duas semanas depois de Catherine ter tido alta, Larry foi visitla. Era um sbado  tarde, e Catherine estava na cozinha a fazer
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uma omelete. O barulho do leo impediu-a de ouvir a porta da frente abrir, e s se deu conta da presena de Larry quando se virou e o viu na ombreira da porta. Assustou-se 
sem querer, e ele disse:
- Desculpa se te assustei. Passei por aqui s para ver como  que estavas.
Catherine sentiu o corao a bater mais depressa e sentiu raiva de si prpria por ainda se deixar afectar por ele daquela maneira.
- Estou ptima - disse ela. Virou-se e tirou a omelete da frigideira.
- Cheira bem - disse Larry. - No tive tempo para jantar. Se no for muita maada, fazes-me uma para mim assim?
Olhou-o durante um longo momento, encolhendo depois os ombros.
Fez-lhe o jantar, mas estava to enervada com a presena dele que no conseguia tocar em nada. Larry conversava com ela, falando-lhe da viagem que acabava de fazer 
e de um episdio engraado que se passara com um amigo de Demiris. Era o Larry de sempre, carinhoso, encantador e irresistvel como se nada tivesse corrido mal entre 
eles, como se no tivesse escaqueirado a vida dos dois.
Depois do jantar, Larry ajudou Catherine a lavar e a limpar a loua. Ficou ao lado dela no lava-loia, e a sua proximidade perturbava-a fisicamente. Havia quanto 
tempo? Era insuportvel pensar no assunto.
- Gostei muito - disse Larry, com aquele seu sorriso de rapaz sempre nos lbios. - Obrigado, Cathy.
E as coisas, pensou Catherine, iam ficar por a.
trs dias depois, o telefone tocou e era Larry que falava de Mai a dizer que ia regressar a Atenas e a convid-la parajantar fora com ele nessa noite. Catherine 
fincou a mo no telefone, escutando a voz simptica e afvel, determinada a no ir.
- Posso jantar fora esta noite - disse ela.
Jantaram no Tourkolimano no porto de Pireu. Catherine mal conseguiu tocar na comida. Estar na companhia de Larry era uma herana demasiado dolorosa de outros restaurantes 
onde haviam estado, das muitas noites excitantes que estiveram juntos no passado longnquo, do amor que com eles viveria uma vida inteira.
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- No ests a comer, Cathy. queres que pea outra coisa para ti?
- perguntou ele, preocupado.
- Almocei tarde - mentiu ela.
No deve convidar-me outra vez para jantar fora, pensou Catherine, Hmas se o fizer digo que no.
Passados uns dias, Larry telefonou e almoaram num restaurante encantador situado num labirinto escondido perto da Praa Syntagma. Chamava-se Gerofinikas, a Palmeira 
Velha, e s se chegava l por um caminho frio onde ao fundo havia uma palmeira. Tomaram uma excelente refeio, com Hymettus, o vinho grego leve e seco. Larry estava 
muito divertido.
No domingo seguinte pediu a Catherine que fosse a Viena com ele. Jantaram no Hotel Sacher e regressaram nesse mesmo dia. Fora uma noite maravilhosa, cheia de vinho, 
msica, velas, mas Catherine teve a sensao esquisita de que nada daquilo lhe pertencia a ela. Pertencia  outra Catherine Douglas, h muito morta e enterrada. 
uando regressaram ao apartamento, ela disse:
- Obrigada, Larry, foi um dia maravilhoso.
Aproximou-se dela, abraou-a e ia para beij-la. Catherine recuou, tensa, a mente invadida por um pnico repentino e inesperado.
- No - disse ela.
- Cathy.
- No!
Ele abanou a cabea.
- Est bem. Eu entendo.
O corpo dela tremia.
- Entendes? - perguntou ela.
- Sei que me comportei muito mal - disse Larry suavemente. Se me deres uma oportunidade, mostrarei o meu arrependimento, Cathy.
Santo Deus, pensou ela. Apertou os lbios, esforando-se para no chorar e sacudiu a cabea, os olhos brilhantes com lgrimas contidas.
-  tarde de mais - murmurou. E ficou a v-lo sair a porta. Catherine voltou a ter notcias de Larry naquela semana. Mandava-lhe flores com bilhetinhos e, depois 
disso, pssaros em miniatura de vrios pases aonde ia. Era bvio que no se poupara a esforos, pois havia uma variedade espantosa, um de porcelana, outro de madeira 
de teca, e elaficou sensiblizada pelo facto de ele se ter lembrado.
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Quando um dia o telefone  tocou e Catherine ouviu a voz de Larry no outro lado a dizer Sabes, descobri um restaurante grego maravilhoso que serve a melhor comida 
chinesa neste lado de Pequim, ela riu-se e disse:
- Vamos l j.
E foi a que tudo realmente recomeou. Devagar, por tentativas e com hesitaes, mas foi um comeo. Larry no tentou beij-la novamente, nem ela o teria deixado, 
porque Catherine sabia que se se deixasse levar pelas emoes, se se entregasse totalmente a este homem que amava e ele a trasse, isso a deixaria destruda. Definitivamente 
e para sempre. E assimjantava e divertia-se com ele, mas em todo o tempo o seu ntimo secreto e pessoal manteve-se reservado, caute losamente distante, intocado 
e intocvel.
Estavam juntos quase todas as noites. s vezes Catherine cozinhava em casa, outras Larry levava-a a comer fora. Certa vez ela referiu-se  mulher por quem ele dissera 
estar apaixonado, e ele respondeu peremptoriamente:
- Acabou. - E Catherine no voltou a falar do assunto. Esteve atenta a sinais que lhe dissessem se Larry andava com outras mulheres, mas no encontrou nenhum. S 
tinha ateno para ela, sem presses ou exigncias. Era como se cumprisse penitncia pelo que fizera no passado. E no entanto Catherine admitia que ha mais alguma 
coisa. Parecia realmente interessado nela como mulher:  noite costumava pr-se frente do espelho, nua, a examinar a imagem reflectida e a tentar entender porqu. 
O rosto estava assim assim, pois era a face duma rapariga outrora bonita que sofrera a dor manifestada na tristeza dos olhos cinzentos que a fitavam. A pele estava 
um pouco inchada e o queixo estava mais pesado do que dantes. mas o que havia de errado com o resto do corpo seria facilmente dado com uma dieta e uma massagem. 
Lembrou-se da ltima vez e que pensara fazer isso e acabara com os pulsos cortados. Sentiu arrepio. Larry que fosse para o Inferno, pensou ela desafiadoramente. 
Se realmente me deseja, ter de me aceitar como sou."
Foram a uma festa e Larry trouxera-a para casa s quatro da manh. A noite tinha sido maravilhosa, e Catherine esteve mu atraente no seu novo vestido e divertira 
as pessoas, e Larry sente- se orgulhoso dela. Quando entraram no apartamento, Catherine ia acender a luz e Larry ps a mo sobre a dela e disse:
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- Espera. O que eu tenho para dizer, custa-me menos diz-lo s escuras. -O corpo dele estavajunto ao dela, sem a tocar, mas Catherine sentia as ondas fsicas que 
a atingiam. - Amo-te, Cathy - disse ele. - Nunca amei mais ningum. Quero outra oportunidade.
Acendeu a luz ento para olh-la. Ali estava, tensa e assustada,  beira do pnico.
- Sei que podes ainda no estar preparada, mas podamos comear aos poucos. - Ele sorriu. Aquele sorriso querido de menino. Podamos comear por dar as mos. Tomou 
a mo dela. E ela abraou-o, e estavam a beijar-se e os lbios dele eram meigos, ternos e delicados, e os dela eram vorazes e furiosos com toda a ansiedade que estivera 
presa no seu corpo durante estes longos e solitrios meses. E estavam juntos na cama, amando-se como se o tempo no tivesse passado e estivessem em lua de-mel. Mas 
era mais do que isso. A paixo ainda ardia, renovada e maravilhosa, mas tambm reforada pelo que tinham passado juntos, a certeza de que agora tudo correria bem, 
de que no fariam mal um ao outro.
- Gostavas de ter uma segunda lua-de-mel? - perguntou-lhe Larry.
- Oh, sim, meu amor. Podemos?
- Claro, vou ter umas frias. Partiremos no sbado. Conheo um stio maravilhoso para onde podemos ir. Chama-se Jnina.
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Atenas: 1946
20
A viagem at Jnina demorou nove horas. Para Catherine, a paisagem parecia quase bblica, qualquer coisa de outra era. Viajaram ao longo do mar Egeu, por casas de 
campo caiadas com cruzes nos telhados e campos a perder de vista cheios de rvores de fruto: limoeiros, cerejeiras, macieiras e laranjeiras. Cada centmetro de terra 
estava tratado e cultivado, e as janelas e os telhados das casas das quintas estavam pintados de um azul-alegre como se desafiassem a vida dura que era arrancada 
ao solo de pedra. Plantaes de ciprestes altos e graciosos cresciam em profuso nas encostas ngremes das serras.
- Olha, Larry - exclamou Catherine -, no so belos?
- Para os Gregos, no - disse Larry.
Catherine olhou para ele.
- que queres dizer com isso?
- Para eles so de mau agouro. Usam-nos na decorao de cemitrios.
Passaram por campos sucessivos onde se viam espantalhos primitivos, com um trapo atado  vedao.
- Por certo deve haver corvos ingnuos por aqui - disse Catherine na brincadeira.
Atravessaram uma srie de aldeiazitas com nomes impossveis: Mesologian e Agelkastron, Etolikon e Amfilhoia. Ao fIm da tarde chegaram  vilade Rion, que descia suavemente 
at ao rio, onde apanhariam o barco para Jnina. Cinco minutos depois navegavam em direco  ilha de piro, onde se situava Jnina.
Catherine e Larry sentaram-se num banco c fora, no convs
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superior do barco, donde avistavam uma ilha enorme que se avultava
 na nvoa vespertina  distncia. Catherine achou-a selvagem e de
certa forma um tanto lominosa. tinha um aspecto primitivo como se 
fora obra dos deuses gregos, e os meros mortais no mais do que intrusos indesejveis. A medida que o barco se aproximava, Catherine
viu que um anel de rochas separava a base da ilha do mar. No ponto onde o homem escavara uma estrada o monte mostrava-se ameaador. Vinte e cinco minutos mais tarde 
o barco atracava no pequeno 
cais de piro, e uns momentos depois Catherine e Larry subiam a
montanha rumo a Jnina.
Catherine lia o guia a Larry.
- Aninhada no alto dos montes Pindos, numa concavidade escarpada rodeada pelos Alpes altaneiros, Jnina assume de longe a
forma duma guia bicfala, tendo nas garras o lago Pamvotis sem
fundo, donde os barcos de excurso levam os passageiros para as
guas verdescuras da ilha situada no centro do lago e depois para
as praias distantes do outro lado do lago.
- Parece perfeita - disse Larry.
Chegaram ao fim da tarde e seguiram directamente para o hotel,
um edifcio de um piso muito bem conservado, situado no alto duma
colina que dominava a cidade e onde os hspedes se alojavam em
apartamentos trreos espalhados pelos jardins. Um homem idoso
veio receb-los, no seu uniforme. Olhou para os rostos felizes.
- Esto em lua-de-mel - disse ele.
Catherine olhou de relance para Larry e sorriu.
- Como  que adivinhou?
- V-se logo - declarou o velho.
Conduzius ao trio onde procederam ao registo, levando-os em
seguida para o apartamento. tinha sala, quarto, casa de banho, cozinha e um terrao enorme. Sobre as copas dos ciprestes tinham uma
vista magnfica da aldeia e do lago, ao fundo, escuro e com ar de quem
medita. Tinha a beleza irreal da beleza dum carto postal.
- No  nada de especial - disse Larry -, mas  nosso.
- Fico com ele - exclamou Catherine.
- Feliz?
Concordou com a cabea.
- No me lembro de ter sido to feliz. - Aproximou-se dele e
abraou com fora. - Nunca me abandones - sussurrou ela.
Os seus braos fortes envolveram-na, apertando-a.
- Nunca - prometeu ele.
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Enquanto Catherine desfazia as malas, Larry voltou ao salo para falar com o empregado de quartos.
- Que se pode fazer por estas bandas? - perguntou Larry.
- tudo - disse o empregado com orgulho. -No hotel temos uma estao termal. Nos arredores da vila pode-se passear, pescar, nadar e andar de barco.
- Qual  a profundidade do lago? -perguntou Larry num tom informal.
O empregado encolheu os ombros.
- Ningum sabe.  um lago vulcnico. No tem fundo. Larry abanou a cabea pensativamente.
- E as grutas perto daqui? - perguntou ele.
- Ah! As grutas de Perama. Ficam apenas a alguns quilmetros daqui.
- J foram exploradas?
- Algumas j. As outras ainda esto fechadas.
- Entendo - disse Larry. O empregado prosseguiu.
- Se gosta de escalar montanhas sugiro o monte Tzoumerka.  se a Sr.  Douglas no tm medo de alturas.
- No tem, no - sorriu Larry. -  uma alpinista de primeira
- Ento ir gostar. O tempo est do vosso lado. Estvamos  espera do meltemi, mas no chegou. Agora j no deve vir.
- que  o meltemi? - perguntou Larry.
- E um vento medonho que sopra do norte. Parece um furacoQuando aparece, toda a gente se mete dentro de casa. Em Atenas, os transatlnticos ficam proibidos de deixar 
o porto.
- Ainda bem que no o apanhmos - disse Larry.
Quando Larry regressou ao apartamento, sugeriu a Cathi que fossemjantar  vila. Tomaram o caminho ngreme e rochoso ia dar  entrada da vila. Jnina tinha uma rua 
principal, a Aver do ftei Jorge, e umas trs ruas menos importantes de cada lado.  nessas ruas, havia uma quantidade de pequenas estradas   que davam acesso a casas 
e prdios. Os edifcios eram velhos e gastos pelo tempo, feitos de pedra transportada dos montes em caas.
O meio da Avenida do Rei Jorge era dividido por cordas, para
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que os carros usassem o lado esquerdo da rua e os pees tivessem espao para caminhar no lado direito.
- Deviam experimentar isto na Avenida da Pensilvnia - disse Catherine.
Na praa da cidade havia um parquezinho encantador com uma torre alta que tinha um enorme relgio iluminado. Uma rua ladeada de pltanos desembocava no lago. Pareceu 
a Catherine que todas as ruas acabavam na gua. Sentiu que o lago tinha um ar assustador. Parecia estranho e pensativo. Ao longo das praias cresciam tufos de juncos 
altos que se estendiam como dedos vorazes, como se estivessem  espera de algum.
Catherine e Larry percorreram o pequeno e colorido centro de comrcio, com as lojas de ambos os lados cheias de gente. Havia uma joalharia, uma taberna, uma sapataria. 
Havia crianas no exterior duma barbearia, que observavam em silncio um cliente que fazia a barba. Catherine achou que nunca vira crianas to belas.
Antes, Catherine falara a Larry em ter um filho, mas ele afastara sempre a ideia, alegando no estar ainda preparado para assentar. Agora, contudo, talvez pensasse 
de maneira diferente. Catherine olhou de relance enquanto caminhava a seu lado, mais alto do que os outros homens, parecendo um deus grego, e decidiu que voltaria 
ao assunto antes de partirem. Afinal de contas, estavam em lua-de-mel.
Passaram por um cinema, o Paldio. Estavam em exibio dois velhssimos filmes americanos. Pararam para ver os cartazes.
- Estamos com sorte - gracejou Catherine. -A Sul do Panam, com Roger Pryor e Virginia Vale, e O Senhor Procurador-Geral e o Caso Carter.
- Nunca ouvi falar - troou Larry. - Este cinema deve ser mais antigo do que parece.
Comeram  ousinha na praa, ao ar livre e sob uma enorme lua cheia, incrvel, e depois regressaram ao hotel e amaram-se. Fora um dia perfeito.
De manh Catherine e Larry passearam de carro pelo campo, explorando a estrada estreita que serpenteava ao longo do lago, percorrendo a costa rochosa por alguns 
quilmetros e tecendo um regresso brio at s colinas. Havia casas de pedra empoleiradas  beira das encostas ngremes. Muito acima da costa, metido entre os bosques, 
deparou-se-lhes num relance um edifcio enorme caiado que parecia um castelo antigo.
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- Que  aquilo? - perguntou Catherine.
- No fao ideia - disse Larry.
- Vamos ver o que .
- Est bem.
Larry meteu o carro na estrada de terra que ia dar ao edifcio, atravs de um prado, passando por umas cabras que pastavam e um pastor que os fitou quando passaram 
por ele. Pararam defronte da entrada abandonada do edifcio. De perto parecia uma velha fortaleza em runas.
- Deve ser o que sobrou do castelo dum ogre - disse Catherine.
- Talvez dos Irmos Grimm.
- Queres realmente saber? - perguntou Larry.
- Claro. Podemos estar mesmo a tempo de salvar uma donzela
emtengo.
Larry deu a Catherine um olhar rpido e estranho. Saram do carro e caminharam at  porta de madeira macia com uma aldraba enorme de ferro ao centro. Larry bateu-a 
vrias vezes e aguardaram. S se ouviam os zunidos de insectos de Vero no prado e o sussurro
da brisa na erva.
- Parece que no est ningum em casa - disse Larry.
- Devem estar a desembaraar-se dos corpos - murmurou Catherine.
De repente, a porta enorme comeou a ranger e abrir-se lentamente. Uma freira toda vestida de preto apareceu-Lhes pela frente.
Catherine foi apanhada desprevenida.
- D... Desculpe - disse ela. - No sabamos que lugar era este No h qualquer tabuleta nem nada.
A freira olhou os dois por um momento, fazendo depois um ges para que entrassem. Atravessaram a ombreira da porta e viramnum ptio grande que era o centro dum complexo. 
Havia uma atmosfera estranhamente calma, e Catherine de repente sentiu o que escutava: o som de vozes humanas.
Virou-se para a Irm e disse:
- Que lugar  este?
A Irm abanou a cabea em silncio e fez-lhes sinal para que esperassem ali. Viram-na dirigir-se para um velho edifcio de pedra ao fundo do complexo.
- Foi buscar Bela Lugosi - sussurrou Catherine. Para l do edifcio, na direco de um promontrio que se erguia
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acima do nvel do mar, podiam avistar um cemitrio enquadrado por filas de altos ciprestes.
- Este lugar d-me arrepios - disse Larry.
-  como se tivssemos entrado noutro pas - respondeu Catherine.
Sem darem conta disso, falavam em voz baixa, como se tivessem receio de perturbar o silncio pesado. Atravs da janela do edifcio principal viam rostos curiosos 
que os fitavam do interior, todos vestidos de negro.
- Deve ser um manicmio religioso - concluiu Larry. Uma mulher alta e magra surgiu do edifcio e ps-se a caminhar animadamente em direcoa eles. Usava um hbito 
de freira e tinha um rosto agradvel e amigo.
- Sou a Irm Teresa - disse ela. - Posso ajud-los?
- Estvamos apenas de passagem -disse Catherine -, e este lugar despertou a nossa curiosidade. - Olhou para os rostos furtivos das janelas. - No era nossa inteno 
perturb-las.
- No so muitas as pessoas que nos do a honra da sua visitadisse a Irm Teresa. - Quase no temos contacto com o mundo exterior. Pertencemos  Ordem das Irms 
Carmelitas. Fizemos voto de silncio.
- Por quanto tempo? - perguntou Larry.
- Giapanta. para o resto da vida. Aqui s eu poderei falar e apenas quando  necessrio.
Catherine contemplou o ptio grande e silencioso e reprimiu um arrepio.
- Nunca ningum sai daqui?
A Irm Teresa sorriu.
- No. No h razo para isso. A nossa vida  dentro destas paredes.
- Perdoe-nos o incmodo - disse Catherine. A Irm fez um sinal afirmativo com a cabea.
- No tm de qu. Que Deus vos acompanhe.
Assim que Catherine e Larry saram, o enorme porto fechou-se lentamente atrs deles. Catherine virou-se para olhar. Parecia uma priso, mas, de certa forma, pior 
que as outras. Talvez porque fosse uma penitncia voluntria, um desperdcio, e Catherine pensou nas raparigas que vira  janela, enclausuradas, isoladas do mundo 
para o resto da vida, vivendo no silncio permanente e profundo da sepultura. Sabia que nunca se esqueceria deste lugar.
 337

Atenas: 1946
21
" Logo pela manh do dia seguinte Larry desceu  vila. Pediu a
Catherine que o acompanhasse, mas ela recusou, dizendo-lhe que
- queria ficar a dormir at tarde. Assim que ele saiu, Catherine levantou-se, vestiu-se  pressa e foi at ao ginsio do hotel que descobrira na vspera. A instrutora, 
uma amazona grega, mandou-a despir" -se, examinando depois o corpo dela criticamente.

- Tem sido muito, muito dsleixada - ralhou ela com Catherine. -J teve um belo corpo. Se est disposta a trabalhar seriamente, Theo thellondos, se Deus quiser, 
poder reav-lo.
 -  Estou disposta - disse Catherine.
- Vamos ver como  que Deus o faz.
Sob a tutela da amazona, Catherine fazia ginstica todos os dias, 
passando pela agonia das massagens em todo o corpo, uma dieta espartana e exerccios estafantes. Escondeu tudo isto de Larry, mas ao
fim do quarto  dia a transformao que nela se operara era bastante notvel para ele fazer um comentrio.
- Este lugar realmente diz contigo - disse ele. - pareces outra mulher. - Sou uma mulher diferente - respondeu Catherine, subitamente acanhada.
No domingo de manh Catherine foi  igreja. Nunca assistira a
uma missa ortodoxa grega. Numa vila to pequena como Jnina, esperara encontrar uma pequena igreja de campo, mas para sua surpresa entrou numa igreja enorme e ricamente 
decorada, com belas e
complicadas gravuras no tecto e nas paredes e um cho de mrmore.
Frente ao altar havia uma dzia de enormes candelabros de prata, e
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por todo o templo havia frescos de cenas bblicas. O padre era magro e moreno, com barba negra. Usava uma batina primorosa dourada e vermelha e um chapu alto e 
preto, e sentava-se naquilo que pareceu a Catherine ser uma cadeirinha, sobre um estrado alado.
Ao longo da parede havia bancos de madeira individuais e ao lado uma fila de cadeiras de madeira. Os homens sentavam-se  frente e as mulheres na retaguarda. Parece 
que os homens chegam primeiro ao Paraso, pensou Catherine.
Ouviu-se o entoar dum cntico em grego, e o padre desceu do estrado e dirigiu-se para o altar. Uma cortina vermelha abriu-se, surgindo um patriarca de barba branca, 
ricamente vestido. Numa mesa  sua frente encontrava-se um chapu simblico coberto de jias e uma cruz de ouro. O homem idoso acendeu trs velas, que representavam, 
sups Catherine, a Santssima trindade, e entregou-as ao padre.
Amissa durou umahora, e Catherine deixou-se estar, desfrutando o que via e ouvia, pensando na sorte que tinha, e fez uma vnia, orando depois em gratido.
Na manh seguinte Catherine e Larry tomavam o pequeno-almoo no terrao do apartamento que dava para o lago. Estava um dia perfeito. O sol brilhava, e uma brisa 
indolente soprava da gua. A comida fora trazida por um criado jovem e simptico. Catherine estava de combinao, e, quando o criado entrou, Larry abraara Catherine 
e beijara-a no pescoo.
- Que noite - murmurara Larry.
O criado abafara um sorriso e retirara-se discretamente. Catherine ficara um tanto embaraada. Larry no era muito dado a intimidades diante de estranhos. Estava 
mesmo mudado, pensou Catherine. Parecia que, quando uma criada ou um paquete entravam no quarto, Larry abraava Catherine e Lhe mostrava o seu carinho, como se quisesse 
que o mundo inteiro soubesse o quanto a amava. Catherine achou isso muito comovente.
- Tenho excelentes planos para esta manh-disse Larry. Apontou para este, onde se podia ver um pico gigantesco que se elevava em direco ao cu. - Vamos escalar 
o monte Tzoumerka.
- Tenho uma regra - declarou Catherine. - Nunca escalar um stio cujo nome no sei soletrar.
- Anda l, dizem que l de cima se tem uma vista fantstica. Catherine viu que Larry falava a srio. Olhou de novo para o monte. Parecia subir sempre a direito.
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- Escalar no  das melhores coisas que eu fao, querido - disse ela.
-  um passeio fcil. H caminhos at l cima. - Ele hesitou. Se no queres ir comigo, posso ir sozinho. - Havia um desapontamento profundo na sua voz.
Seria to simples dizer no, to simples ficar ali e desfrutar o dia. A tentao foi quase irresistvel. Mas Larry queria que ela o acompanhasse. Para Catherine 
isso bastava.
- Est bem. Vou ver se arranjo um chapu de alpinista - disse
ela.
Larry sentiu um alvio to grande que Catherine ficou feliz por ter decidido ir. Alm disso, poderia ser interessante. Nunca antes escalara um monte.
Foram at um prado no extremo da vila, onde comeava o caminho para o monte, e arrumaram o carro. Havia uma barraca de comida junto  estrada, e Larry comprou umas 
sanduches, fruta, barras de chocolate e um termo enorme de caf.
- Se l em cima estiver agradvel - disse ele ao dono -, eu e a minha noiva talvez queiramos passar a noite. - Deu um abrao a Catherine, e o proprietrio sorriu.
Catherine e Larry caminharam at ao incio do caminho. Na realidade, havia dois caminhos, que bifurcavam em direces opostas. Catherine reconheceu que a escalada 
seria fcil. Os carreiros pareciam largos e no muito ngremes. quando virou a cabea para contemplar o cimo da montanha, o mesmo pareceu-lhe sinistro e ameaador, 
mas eles tambm no iriam at ao topo. Subiriam um pouco e fariam um piquenique.
- Por aqui - disse Larry, e conduziu Catherine na direco do carreiro do lado esquerdo. Quando comearam a subir, o proprietrio grego observous com preocupao. 
Correria atrs deles e dizer-lhes que se tinham enganado no caminho? Aquele por onde seguiam era perigoso, destinado apenas a montanhistas experimentados. Nesse 
momento, chegaram uns clientes e o dono da venda esqueceu os dois americanos.
O Sol estava quente, mas,  medida que subiam, a brisa era cada  vez mais fresca, e Catherine pensou que as duas sensaes eram um
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combinao deliciosa. O dia estava lindo, e ela seguia na companhia do homem que amava. De vez em quando, Catherine olhava de relance para baixo e surpreendia-se 
com a altura a quej se encontravam. O ar parecia cada vez mais rarefeito, e estava a tornar-se mais difcil respirar. Seguia atrs de Larry, pois o carreiro era 
estreito de mais para os deixar caminhar lado a lado. Queria saber quando iriam parar e fazer o piquenique.
Larry apercebeu-se de que Catherine caminhava com dificuldade atrs e parou para esperar por ela.
- Desculpa - arfou Catherine. - A altitude est a afectar-me.
- Olhou para baixo. - Vamos demorar a descer.
- No, no vamos - respondeu Larry.
Virou-se e retomou a escalada pelo caminho estreito. Catherine olhou, suspirou e tenazmente prosseguiu a marcha.
- Devia ter-me casado com um jogador de xadrez - disse-lhe  ela.
Larry no respondeu.
Chegaram a uma curva apertada que surgiu subitamente, e  frente viram uma pequena ponte de madeira com uma nica corda a servir de corrimo que fora construda 
sobre um precipcio fundo. A ponte oscilava com o vento e no parecia suficientemente segura para aguentar o peso duma pessoa. Larry ps um p numa das travessas 
apodrecidas, que comeou a dar de si com o peso dele, e depois parou. O precipcio tinha cerca de trezentos metros. Larry comeou a atravessar, estudando cuidadosamente 
cada passo, e ouviu a voz de Catherine
- Larry!
Virou-se. Ela chegara ao imcio da ponte.
- No vamos atravessar isto, vamos? -perguntou Catherine. Isto nem com um gato aguenta!
- Temos de atravessar, a no ser que consigas voar.
- Mas no parece segura.
- H a quem a transponha todos os dias.
Larry virou-se e comeou a atravess-la outra vez, deixando Catherine no incio da ponte.
Catherine ps um p na ponte, que comeou a vibrar. Olhou para o precipcio, e o medo comeou a invadi-la. A aventura deixou de ter graa; era perigosa. Catherine 
olhou em frente e viu que Larry j estava quase na outra ponta. Cerrou os dentes, agarrou a corda e comeou a atravessar, com a ponte a oscilar a cada passo seu. 
No outro lado
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 Larry virara-se para a observar. Catherine avanava lentamente, mantendo uma mo agarrada  corda, tentando no olhar para o abismo l em baixo. Larry podia ver 
o medo estampado no seu rosto. Quando Catherine chegou ao lado de Larry, tremia por causa do medo, ou por causa do vento frio que comeava a assolar os cumes dos 
montes cobertos de neve. Catherine disse:
- Acho que no nasci para alpinista. Podemos descer agora, querido?
Larry olhou para ela surpreso.
- Ainda nem vimos o panorama, Cathy.
- J vi que chegue para o resto da vida.
Abraou-a.
- Vou dizer-te uma coisa - sorgiu: - o stio l em cima agradvel e sossegado para fazermos o piquenique. Paramos l. Que tal?
Catherine consentiu com relutncia.
- Est bem.
- Bonita menina.
Larry deu-Lhe um sorriso breve, depois voltou-se e retomou a marcha. Catherine seguia atrs dele. Catherine teve de admitir que o panorama da vila e do vale l ao 
fundo era impressionante, uma cena idlica e pacfica tirada de um bilhete postal. Sentiu-se realmente contente por ter vindo. Havia tanto tempo que Larry no se 
mostrava to exuberante... Parecia possudo de uma excitao que crescia  medida que subiam. tinha o rosto afogueado e dizia banalidades como se tivesse de falar 
para libertar um pouco da sua energia nervosa. tudo parecia excit-lo: a escalada, o panorama, as flores ao longo do caminho. Cada coisa parecia assumir uma importncia 
extraordinria, como se os sentidos dele tivessem sido estimulados
para alm do normal. Subia sem esforo, sem perder o flego, ao passo que o ar cada vez mais rarefeito fazia Catherine arfar.
As pernas comeavam a pesar-lhe como chumbo. Respirava com extrema dificuldade. No sabia h quanto tempo subiam, mas quando baixava o olhar a aldeia era uma miniatura. 
Parecia a Catherine que o caminho se tornava cada vez mais ngreme e estreito. Serpenteava ao longo da berma dum precipcio, e por isso Catherine encostava-se o 
mais possvel ao lado da montanha. Larry dissera que e uma escalada fcil. Para uma cabra montanhesa, pensou Catherine. O caminho quase desaparecera, e no havia 
sinais de que tivesse sido pisado por mais algum. As flores escasseavam, e a nica vegetao era musgo e uma erva acastanhada de aspecto estranho que
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parecia crescer das pedras. Catherine no sabia quanto tempo mais poderia continuar a subir. Quando contornaram uma curva apertada, o caminho de repente foi subitamente 
interrompido e um abismo vertiginoso surgiu sob os seus ps.
- Larry! - Era um grito.
Ele apareceu logo ao lado de Catherine. Agarrou-a por um brao e puxou-a para trs, guiando-a sobre as rochas at ao local onde o caminho recomeava. O corao de 
Catherine batia turbulentamente. e Devo estar louca, pensou ela. J no estou em idade para andar em safaris. A altitude e o esforo deixavam-na tonta, e a cabea 
dela andava  roda. Virou-se para falar com Larry, e sobre ele, a seguir  curva seguinte, ela viu o cume do monte. Haviam chegado.
Catherine deitou-se no cho plano para recuperar foras, sentindo a brisa fresca que lhe agitava o cabelo. O terror passara. Agora acabaram-se os receios. Larry 
dissera que a descida era fcil. Larry sentou-se a seu lado.
- Sentes-te melhor? - perguntou ele.
Assentiu.
- Sinto-me.
O corao deixara de bater com fora, e comeava a respirar normalmente outra vez. Respirou fundo e sorriu-Lhe.
- O pior j passou, no foi? - perguntou Catherine. Catherine apoiou-se num cotovelo. Para servir de miradouro haviam colocado um estrado de madeira no pequeno planalto. 
Existia gradeamento velho na berma, donde se tinha uma vista especta cular do panorama vertiginoso l em baixo. A uns cinco metros dali Catherine pde ver o caminho 
que descia do outro lado da montanha.
- Oh, Larry,  lindo - disse Catherine. - Pareo Ferno de Magalhes.
Sorriu lhe, mas Larry estava a olhar para outro lado e Catherine apercebeu-se de que no a escutava. Parecia preocupado - tenso, como se estivesse apoquentado com 
alguma coisa. Catherine olhou para cima de relance e disse:
- Olha! -Uma nuvem branca e fofa deslizava ao encontro deles, empurrada pela brisa forte da montanha. - Vem para este lado. Nunca estive nas nuvens. Deve ser como 
estar no Cu.
Larry olhava para Catherine quando ela se ps de p e se aproximou da beira do precipcio, encostando-se ao gradeamento sem segu-
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rana. Larry debruou-se sobre os cotovelos, subitamente pensativo,
observando a nuvem  medida que se movimentava na direco de
Catherine. Mal a alcanara, comeou a envolv-la.
- Vou ficar aqui dentro -gritou ela- e deix-la atravessar-me.
Um instante depois, Catherine estava perdida na nvoa cinzenta
que girava em turbilho. 
Calmamente, Larry ps-se de p. Ficou parado um momento, completamente imvel, depois comeou a avanar em silncio na direeo
dela. Em segundos ficou imerso no nevoeiro. Parou, sem saber exactamente onde ela estava. Depois,  frente, ouviu a voz dela a gritar: - Oh, Larry, isto  maravilhoso! 
Vem para o p de mim. 
Comeou a andar lentamente em frente, na direco donde vinha
a voz, abafada pela nuvem. Parece uma chuva mida - gritou ela. - Sentes?
A voz dela estava agora mais prxima, apenas a alguns metros 
frente dele. Deu outro passo em frente, de mos estendidas  procura
dela.
- Larry! Onde ests?
Conseguia distinguir o vulto dela, esfumado na nvoa, exactamente  frente dele, mesmo  beira do precipcio. Alcanou-a e nesse momento a nuvem desapareceu, e ela 
voltou-se e estavam frente
- a frente, a menos de um metro um do outro.
Ela recuou um passo surpreendida e o p direito ficou mesmo na
ponta do declive.
- Oh! Assustaste-me - exclamou ela.
Larry deu mais um passo na direco dela, sorrindo confiante, e
estendeu as duas mos para segur-la, e nesse momento uma voz disse em alto som:
- Caramba, em Denver temos montes mais altos do que este!
Larry virou-se, assustado, com o rosto lvido. Um grupo de turistas conduzidos por um guia grego surgiu do caminho mais afastado
do outro lado da montanha. O guia parou assim que viu Catherine e
Larry.
- Bom dia - disse ele admirado. - Devem ter subido pela outra
nascente.
-  verdade - disse Larry num tom firme.
O guia abanou a cabea.
- So malucos. Deviam ter-lhes dito que esse caminho  perigoso. A outra vertente  muito mais fcil.
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- Para a prxima no me esqueo - disse Larry. tinha a voz rouca.
A excitao antes testemunhada por Catherine parecia ter desaparecido dele, como se um interruptor tivesse repentinamente sido desligado.
- Vamos embora j daqui - disse Larry.
- Mas... acabmos de chegar. Passa-se alguma coisa?
- No - ripostou ele. - S que detesto ajuntamentos. Desceram pelo caminho mais fcil, e durante o trajecto Larry no abriu a boca. Parecia que uma raiva glacial 
tomara conta dele, e Catherine no conseguia imaginar porqu. tinha a certeza de que nada dissera ou fizera que o ofendesse. Foi quando as outras pessoas apareceram 
que os seus modos se alteraram to abruptamente. De repente, Catherine pensou que adivinhara a razo para o comportamento dele e sorriu. Quisera am-la dentro da 
nuvem! Foi por isso que comeara a avanar para ela de braos estendidos. E os planos haviam sado gorados pelo grupo de turistas. Quase riu em voz alta de alegria. 
Via Larry descer o caminhar em passo largo, e sentiu-se invadida por uma sensao de excitao. Vou compens-lo quando chegarmos ao hotel, prometeu a si prpria.
Mas, quando regressaram ao apartamento e Catherine o abraou e quis beij-lo, Larry disse-lhe que estava cansado. As trs horas da manh Catherine estava deitada 
na cama, excitada de mais para dormir. O dia fora longo e assustador. Pensou no caminho da montanha, na ponte oscilante e na escalada da rocha. E acabou por adormecer.
Na manh seguinte Larry foi falar com o recepcionista.
- Aquelas grutas de que falou no outro dia - comeou Larry.
- Ah, sim - respondeu o empregado. - As grutas de Perama. Muito pitorescas. Muito interessantes. No deixe de as ver.
- Acho que terei mesmo de as ver - disse Larry num tom despreocupado. - No sou grande apreciador de grutas, mas a minha mulher soube delas e no me larga para eu 
a levar l. Adora esse gnero de coisas.
- Estou certo de que ambos gostaro de ver, Sr. Douglas. Mas no se esqueam de levar um guia.
-  mesmo preciso? - perguntou Larry.
O empregado assentiu.
-  aconselhvel. Tem havido vrias tragdias l, pessoas que se perderam. - Baixou a voz. - H umjovem casal que at hoje ainda no foi encontrado.
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- Se  assim to perigoso - perguntou Larry -, por que permi tem a entrada?
-  apenas a nova seco que  perigosa - explicou o recepcionista. - Ainda no foi explorada e no h luz. Mas com um guia no ter de se preocupar.
-  A que horas fecham as caves?
- As seis.
Larry encontrou Catherine c fora, reclinada sob uma oxya, o velho carvalho grego, a ler.
- que tal o livro? - perguntou ele.
- De pr em cima da mesa.
Agachou-se a seu lado.
- O empregado do hotel falou-me de umas grutas que h aqui perto.
Catherine ergueu o olhar, vagamente apreensiva.
- Grutas?
- Disse que ningum as deve perder. Todos os noivos vo l. Pensa-se num desejo, e acontece. - A voz tinha um tom adolescente de ansiedade. - Que tal?
Catherine hesitou um momento, pensando que Larry parecia realmente um rapazinho.
- Se te apetecer - disse ela. Sorriu.
- ptimo. Vamos depois do almoo. Continua com as tuas leituras. Vou at  cidade de carro comprar umas coisas.
- Queres que eu v contigo?
- No - disse ele  vontade - volto j. No te preocupes. Elaconcordou.
- Est bem.
Voltou-se e partiu.
Na vila Larry descobriu uma pequena loja onde comprou uma lanterna, pilhas novas e um novelo de fio.
- O senhor est hospedado no hotel? - perguntou o lojista que contava o troco de Larry.
- No - disse Larry. -Estou s de passagem a caminho de nas.
- Eu se fosse a si tinha cuidado - aconselhou o homem. Larry olhou para ele de maneira penetrante.
- Com qu?
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- vem a uma tempestade. As ovelhas j esto a dar sinal. Larry regressou ao hotel s trs horas. s quatro, Larry e Catherine partiram para as grutas. Levantara-se 
um vento agitado, e a norte comeavam a formar-se enormes cmulos de trovoada, apagando o sol do cu.
As grutas de Perama situam-se a trinta quilmetros a leste de jnina. Com o decurso dos sculos, formaram-se estalactites e estalagmites com formas de animais, palcios 
e jias, e as grutas tornaram-se uma atraco turstica importante. Quando Catherine e Larry chegaram s grutas, eram cinco horas, faltando umahora para fechar. 
Larry comprou dois bilhetes e um panfleto na bilheteira. Um guia pobremente vestido apareceu e ofereceu os seus servios.
- Por apenas cinquenta dracmas - entoou ele -, e tero a melhor visitaguiada.
- No precisamos de guia - disse Larry, bruscamente. Catherine olhou para ele, surpreendida com o seu tom rspido. Pegou no brao de Catherine.
- Anda.
- Tens a certeza de que no precisamos de levar um guia?
- Para qu?  uma vigarice. S vamos entrar e ver a gruta. O panfleto diz-nos o que temos a fazer.
- Est bem - disse Catherine num tom agradvel. A entrada para a gruta era maior do que Catherine estava  espera, brilhantemente iluminada com projectores e cheia 
de turistas que se movimentavam lentamente. As paredes e o tecto da gruta pareciam estar cheios de figuras hericas esculpidas nas rochas: pssaros, gigantes, flores 
e coroas.
-  fantstico - exclamou Catherine. Estava a ler o panfleto. Ningum sabe quantos anos isto tem.
A voz dela parecia vazia, ecoando no tecto de rocha. Por cima da cabea deles havia estalactites. Um tnel escavado na rocha ia dar a um compartimento mais pequeno, 
iluminado por lmpadas simples presas junto ao tecto da gruta. Havia mais figuras fantsticas, numa exposio irregular de arte natural. Ao fundo da gruta havia 
uma tabuleta que dizia: Perigo. Mantenha-se afastado.
A seguir  tabuleta flcava a entrada para uma gruta negra e escancarada. Como se o fizesse por acaso, Larry foi at l e olhou em
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- Se  assim to perigoso - perguntou Larry -, por que permitem a entrada?
-  apenas a nova seco que  perigosa - explicou o recepcionista. - Ainda no foi explorada e no h luz. Mas com um guia no ter de se preocupar.
- A que horas fecham as caves?
- As seis.
Larry encontrou Catherine c fora, reclinada sob uma oxya, o velho carvalho grego, a ler.
- Que tal o livro? - perguntou ele.
- De pr em cima da mesa.
Agachou-se a seu lado.
- O empregado do hotel falou-me de umas grutas que h aqui perto.
Catherine ergueu o olhar, vagamente apreensiva.
- Grutas?
- Disse que ningum as deve perder. Todos os noivos vo l. Pensa-se num desejo, e acontece. - A voz tinha um tom adolescente de ansiedade. - Que tal?
Catherine hesitou um momento, pensando que Larry parecia realmente um rapazinho.
- Se te apetecer - disse ela. Sorriu.
- ptimo. Vamos depois do almoo. Continua com as tuas leituras. Vou at  cidade de carro comprar umas coisas.
- Queres que eu v contigo?
- No - disse ele  vontade - volto j. No te preocupes. Elaconcordou.
- Est bem.
Voltou-se e partiu.
Na vila Larry descobriu uma pequena loja onde comprou uma lanterna, pilhas novas e um novelo de fo.
- O senhor est hospedado no hotel? - perguntou o lojista quando contava o troco de Larry.
- No - disse Larry. - Estou s de passagem a caminho de Atenas.
- Eu se fosse a si tinha cuidado - aconselhou o homem. Larry olhou para ele de maneira penetrante.
- Com qu?
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redor. Catherine examinava um relevo junto  entrada. Larry tirou
a tabuleta e atirou-a para o lado. Voltou para o p de Catherine.
- Est hmido aqui - disse ela. - Vamos embora?
- No. - O tom de Larry foi firme. 
Ela olhou surpreendida. - H mais para ver - explicou Larry. - O empregado do hotel
disse-me que a parte mais interessante  a nova seco. Disse que no
podamos perder.
- Onde  que ? - perguntou Catherine.
-Acol. - Larry pegou-a pelo brao e dirigiram-se para a retaguarda da gruta e pararam  frente da enorme abertura negra.
- No podemos entrar ali - disse Catherine. - Est escuro.
Larry bateu-lhe levemente sobre o ombro.
- No te preocupes. Ele disse-me que trouxesse uma lanterna. -
 tirou-a do bolso. - Aqui est, vs? 
Acendeu-a, e o pequeno foco de luz iluminou um corredor escuro
e comprido da velha rocha. Catherine deixou-se ficar, fitando o tnel.
- Parece to grande - disse ela, pouco segura. - Tens a certeza de que no oferece perigo?
- Claro - respondeu Larry. - Isto  visitado por crianas da escola.
Catherine ainda hesitou, desejando acompanhar os outros turistas. Sentia que isto era perigoso.
- Est bem - disse ela.
Entraram no corredor. tinham percorrido apenas uns metros
quando o crculo de luz da gruta central que deixaram atrs foi engolido pela escurido. O corredor curvava abruptamente para a esquer-
da e depois para a direita. Estavam sozinhos num mundo frio, intemporal e primitivo. No foco de luz da lanterna de Larry, Catherine viu
o rosto dele no reflexo da luz e viu de novo aquele olhar animado. Era
igual ao olhar que mostrara no monte. Catherine apertou-lhe o brao.
frente, o tnel bifurcava. Catherine conseguia ver a pedra spera no tecto baixo no ponto que dava origem a direces diferentes.
Imaginou Teseu e o Minotauro na gruta e perguntou a si prpria se
iria encontrar-se com eles. Abriu a boca para sugerir que regressassem, mas antes que pudesse falar Larry disse:
- Vamos para o lado esquerdo.
Olhou para ele e esforou-se por dizer num tom natural:
- Querido, no achas que devamos pensar em regressar? Est a
fazer-se tarde. As grutas devem estar a fechar.
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- Esto abertas at s nove - respondeu Larry. - H uma gruta em particular que gostava de ver. Foi recentemente descoberta. Dizem que  um espanto. - Comeou a 
andar para a frente.
Catherine hesitou,  procura de uma desculpa para no continuar. Afinal de contas por que deviam explorar? Larry estava a divertir-se. Se era necessrio isso para 
o fazer feliz, tornar-se-ia na maior
- qual era a palavra? - espeleloga do mundo. Larry estava parado  espera dela.
- Vens? - perguntou com impacincia.
Tentou mostrar entusiasmo.
- Sim. Mas no me percas - disse ela.
Larry no respondeu. Tomaram o tnel da esquerda e comearam a andar, cautelosos por causa das pedrinhas que escorregavam sob os seus ps. Larry meteu a mo no bolso, 
e pouco depois Catherine ouviu algo a cair no cho. Larry continuava a andar.
- Deixaste cair alguma coisa? - perguntou Catherine. - Pareceu-me ouvir.
- Dei um pontap numa pedra - disse ele. -Vamos andar mais depressa. - E avanaram, sem que Catherine se apercebesse de que atrs deles se desenrolava um novelo 
de fio. O tecto da gruta parecia ser mais baixo neste lugar e as paredes mais hmidas e - Catherine riu de si prpria por o pensamento Lhe ter ocorrido - ominoso. 
Era como se o tnel estivesse a fechar-se sobre eles, ameaador e malvolo.
- No me parece que este lugar goste de ns - disse Catherine.
- No sejas ridcula, Cathy;  apenas uma gruta.
- Por que julgas que somos as nicas pessoas aqui? Larry hesitou.
- Nem todos sabem da existncia desta seco.
Continuaram a andar at que Catherine comeou a perder a noo do tempo e do espao.
O caminho estreitava-se novamente, e as rochas laterais repuxavam-nos com pontas aguadas que surgiam quando menos conta vam.
- Ainda falta muito? - perguntou Catherine. - Devemos estar a chegar  China.
- Estamos quase.
Quando falavam, as vozes pareciam abafadas e ocas, como uma srie de ecos contnuos e moribundos.
Comeava a arrefecer, mas era um frio hmido e pegajoso. Cathe-
349. 
rine tremia. frente, o claro da lanterna iluminou mais uma bifurcao. Chegaram l e pararam. O tnel da direita parecia mais pequeno que o da esquerda.
- Deviam pr sinais de trnsito luminosos - disse Catherine. Devemos ter ido longe de mais.
- No - disse Larry. - Tenho a certeza de que  o da direita.
- Estou a ficar com muito frio, amor - disse ela. - Vamos vol tar agora.
Voltou-se para olhar para ela.
- Estamos a chegar, Cathy. -Apertou-lhe o brao. - Eu aqueo-te quando chegarmos ao apartamento. -Viu a relutncia no rosto dela. - Vou dizer-te uma coisa: se no 
tivermos encontrado o lugar dentro de dois minutos, voltamos e vamos para casa. Est bem?
Catherine sentiu o corao iluminar-se.
- Est bem - disse ela num tom de agradecimento. - Anda. 
Viraram para o tnel da direita, com o claro da lanterna forman; do uma figura dinmica e medonha sobre a rocha cinzenta em frente. Catherine olhou de relance sobre 
o ombro e atrs de si s havia completa escurido. Parecia que a pequena lanterna retirava luz das
trevas tenebrosas, atirando-a para a frente uns poucos de metros de cada vez, que depois os encapsulava no seu minsculo ventre de luz. Larry parou de repente.
- Bolas! - disse ele. - que  que foi?
- Parece que nos enganmos no caminho. 
" Catherine assentiu. - No h problema. Voltamos para trs.
- Deixa-me ter a certeza. Fica aqui.
Olhou para ele surpreendida.
- Aonde  que vais?
- So s alguns metros. Vou at  entrada. - A voz dele parecia tensa e pouco natural.
- Vou contigo.
- Sozinho  mais rpido, Catherine. S quero ver a bifurcao on- de curvmos da ltima vez. -Parecia impaciente. -Volto dentro de segundos.
- Est bem - disse ela constrangidamente.
Catherine ficou a ver Larry afastar-se e desaparecer na escurido donde tinham vindo, envolto num halo de luz como se fosse um anjo
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em movimento nas entranhas da terra. Um momento depois, a luz desapareceu, e ela ficou mergulhada na escurido mais profunda quej conhecera. Ficou ali, a tremer, 
contando os segundos mentalmente. E depois os minutos.
Larry no voltava.
Catherine esperou, sentindo a escurido envolv-la como ondas invisveis e malvolas. Gritou:
- Larry? - E a voz era rouca e incerta, e ela aclarou a voz e voltou a tentar, desta vez mais alto. - Larry?
Ouviu o som morrer a alguns metros de distncia, na escurido. Era como se nada pudesse viver neste stio, e Catherine comeou a sentir os primeiros indcios de 
temor. Claro que Larry vai voltar daqui a pouco, disse a si prpria.  S tenho de ficar onde estou e manter a calma. Os minutos de escurido arrastavam-se, e ela 
comeou a enfrentar o facto de que algo correra muito mal. Larry podia ter tido um acidente, podia ter escorregado nas pedras soltas e batido com a cabea nas paredes 
aguadas da gruta. Talvez neste momento estivesse prostrado a apenas uns metros dela, cheio de sangue. Ou talvez estivesse perdido. As pilhas da lanterna podiam 
ter-se gasto, e talvez ele estivesse algures nas entranhas desta gruta perdido, tal como ela estava perdida.
Catherine comeou a ter uma sensao de asfixia, engasgando-a, enchendo-a de pnico irracional. Virou-se e comeou a andar lentamente no sentido donde viera. O tnel 
era estreito, e se Larry estivesse cado, impotente e ferido, ela tinha uma boa oportunidade de o encontrar. Em breve chegaria ao local onde o caminho se dividia. 
Avanou com cautela, sentindo as pedras soltas rolarem-lhe sob os ps. Pensou ter ouvido um som distante e parou para ouvir. Larry? Desapareceu, e ela recomeou 
a andar, ouvindo depois novamente. Era um zumbido, como se algum estivesse a ouvir um gravador. Ha algum aqui.
Catherine gritou alto e ps-se  escuta enquanto o som da sua voz se afogava no silncio. L estava ele outra vez! O zumbido. Vinha daqui. Aumentou de volume, aproximando-se 
rapidamente dela numa enorme lufada de vento. Estava cada vez mais perto. De repente, atacou-a na escurido uma pele fria e pegajosa roou as suas faces e beijou-lhe 
os lbios e sentiu algo rastejando-lhe na cabea, e umas garras afiadas no cabelo, e o rosto dela erafustigado pelo bater desen-
351

freado  de asas que pertenciam ao horror sem nome que a atacava na escurido. Desmaiou.
Estava deitada sobre uma rocha aguada, e o desconforto da posio devolveu-lhe a conscincia. tinha a face quente e pegajosa, e s um minuto depois  que Catherine 
se apercebeu de que era sangue. Lembrou-se das asas e das garras que a atacaram na escurido e comeou a tremer.
Havia morcegos na gruta.
Tentou lembrar-se do que sabia sobre morcegos. Lera algures que eram ratos voadores e que se agrupavam aos milhares. A outra coisa que conseguiu retirar da memria 
era que havia morcegos-vampiros, e rapidamente ps de parte semelhante pensamento. Com relutncia, Catherine sentou-se, com as palmas das mos doridas por terem 
sido arranhadas nas pedras afiadas. No podes ficar sentada, disse a si prpria. Tens de te levantar e fazer alguma coisa. Cheia de dores, l se ps de p. Perdera 
um sapato e o vestido estava rasgado, mas Larry comprar-lhe-ia um novo amanh. Imaginou os dois a entrarem na lojinha da vila, sorridentes e felizes, para com- prarem 
um vestido branco de Vero para ela, mas, sem saber como, o vestido tornou-se uma mortalha, e o pensamento foi invadido por nova sensao de pnico. Devia continuar 
a pensar no dia de amanh, no no pesadelo que a devorava agora. Devia continuar a andar. Mas para onde? Estava confusa. Se seguisse pelo caminho errado, iria descer 
mais para o fundo da gruta, e no entanto sabia que no podia ficar aqui. Catherine tentou calcular o tempo que passara desde que
haviam entrado na gruta. Devia ter sido uma hora, possivelmente duas. No havia maneira de saber quanto tempo estivera inconsciente. Certamente estariam  procura 
dela e de Larry. E se ningum desse pela falta deles? No havia registo das pessoas que entravam e saam das grutas. Podia ficar aqui para sempre.
Descalou o outro sapato e comeou a andar, dando passos lentos e cuidadosos, estendendo as mos em brasa para evitar esbarrar com os flancos speros do tnel. aA 
viagem mais longa precisa apenas de um passo para comear, disse Catherine a si prpria. Foram os Chineses que o disseram, e vejam como eles so espertos. Inventaram 
o fogo de artifcio e o chop suey, e foram espertos de mais para se deixar apanhar num buraco escuro na terra onde ningum os poderia e contrar. Se continuar a andar, 
vou chocar com Larry ou alguns turi-
352

tas, e vamos regressar ao hotel, beber e rir por causa disto. No posso parar. Parou repentinamente. Ao longe ouviu o zumbido outra vez, que vinha na direco dela 
como um comboio fantasma, e o corpo dela comeou a tremer incontrolavelmente, e ela comeou a gritar. Um instante depois, atacavam-na, centenas deles, cobrindo-a, 
batendo-lhe com as suas asas frias e pegajosas e roando com os seus corpos peludos de roedores num pesadelo de horror indescritvel.
A ltima coisa de que se lembrou antes de perder a conscincia foi de chamar o nome de Larry.
Estava cada  no cho frio e hmido da gruta. tinha os olhos fechados, mas a sua mente despertara repentinamente, e pensava: Larry quer matar-me. Foi como se o seu 
subconsciente tivesse posto essa ideia l intacta. Numa srie de lampejos caleidoscpicos, ouvia Larry dizer: Estou apaixonado por outra pessoa... Quero divorciar 
-me... e Larry avanar para ela atravs da nuvem no cume da montanha, com as mos estendidas para a agarrar... Lembrava-se de olhar para baixo para a montanha ngreme 
e dizer: Vamos levar muito tempo a descer, e Larry responder: No, no vamos... , e Larry dizer: No precisamos de guia... Parece que nos enganmos no caminho. Espera 
aqui... Volto dentro de dez segundos... E depois a escurido aterradora.
Larry nunca tencionara voltar para ela. A reconciliao, a lua demel... foi tudo fingimento, parte de um plano para a matar. Durante o tempo que passou pretensiosamente 
a agradecer a Deus por lhe dar uma segunda oportunidade, Larry estava a tramar mat-la. E conseguira, pois Catherine sabia que nunca sairia daqui. Estava enterrada 
viva numa sepultura de horror. Os morcegos haviam desaparecido, mas ela ainda sentia e cheirava o muco viscoso e nojento que lhe deixaram no rosto e no corpo, e 
ela sabia que acabariam por voltar. No sabia se seria capaz de manter a sanidade se fosse de novo atacada. S de pensar nisso tremeu de novo e esforou-se por inspirar 
lenta e profundamente. E foi ento que Catherine ouviu de novo e sabia que no seria capaz de passar novamente por aquilo. Comeou por um zumbido passando depois 
para uma vaga de som mais
353
 
alto, avanando na direco dela. Seguiu-se um grito repentino e angustiado, que ecoou na escurido, e o outro som aproximava-se cada vez mais intenso, e do tnel 
negro surgiu uma luz, e ouviu vozes que chamavam por algum e mos que comearam a tocar-Lhe e a ergueram, e ela queria avis-los da presena dos morcegos, mas no 
conseguia parar de gritar.
354

Atenas: 1946
22
Manteve-se quieta e hirta para que os morcegos no a encontrassem e ps-se  escuta para ver se ouvia o zunido das suas asas, com os olhos bem fechados.
Uma voz de homem disse:
- Foi um milagre termo-la encontrado.
- Ela vai ficar bem. Era a voz de Larry.
O terror reapossou-se dela subitamente. Parecia que todos os nervos do seu corpo a aconselhavam aos gritos a fugir. O seu assassino voltara. Gemeu:
- No... - E abriu os olhos.
Estava deitada na cama do apartamento. Larry encontrava-se aos ps da cama, e a seu lado estava um homem que ela nunca vira antes. Larry aproximou-se dela.
- Catherine...
retraiu-se quando ele se chegou.
- No me toques! - tinha a voz fraca e rouca.
- Catherine! - No rosto de Larry havia a marca do sofrimento.
- Afasta-te de mim - implorou Catherine.
- Ainda est em estado de choque - disse o estranho. - Talvez fosse melhor esperar no outro quarto.
Larry examinou Catherine por um momento, com um rosto inexpressivo.
- Claro. S quero o melhor para ela. - Voltou-se e saiu. O estranho fechou a porta. Era um homem baixo e gordo com um
355
rosto agradvel e um sorriso simptico. Falava ingls com bastante
sotaque.
- Sou o Dr. Kazomides. A senhora passou por uma experincia
extremamente desagradvel, mas garanto-lhe que vai pr-se boa.
Uma ligeira concusso e um choque muito forte, mas dentro de alguns
dias ficar como nova. - Suspirou. - Deviam encerrar aquelas malditas grutas.  o terceiro acidente este ano.
Catherine comeou a abanar a cabea, depois parou por ter comeado a latejar violentamente. - No foi acidente - disse ela com uma voz grossa. - Ele tentou 
matar-me.
" Olhou para ela.
- quem  que tentou mat-la?
tinha a boca seca e a lngua inchada. tinha dificuldade em falar.
- O meu... o meu marido.
- No - disse ele.
No acreditava nela. Catherine engoliu e tentou outra vez.
- Abandonou-me na gruta para eu morrer.
Ele abanou a cabea.
- Foi um acidente. Vou dar-lhe um sedativo e quando acordar 
ir sentir-se melhor. 
Uma vaga de medo invadiu- a. 
- No! - implorou. - No entende? Nunca mais vou acordar
tire-me daqui. Por favor! O mdico sorria para inspirar confiana
 Eu disse-lhe que vai pr-se boa, Sr.  Douglas. S precisa  de
um bom sono. - Meteu a mo na maleta preta e comeou a procura de
uma seringa. 
Catherine tentou sentar-se, mas uma dor dilacerante atacou-lhe 
a cabea e ficou instantaneamente banhada de suor. Deixou-se
para trs, com uma dor de cabea insuportvel.
- Ainda no deve tentar mexer-se - avisou o Dr. Kazomides.
Passou por um momento muito difcil. - tirou a seringa, enfiou a
agulha numa ampola com um lquido mbar e disse-lhe: - Viva
por favor. quando acordar, vai sentir-se uma nova pessoa. -p. - Eu no vou acordar - sussurrou Catherine. - Ele vai matar-me enquanto eu estiver a dormir. 
O rosto do mdico mostrava preocupao. Aaproximou-se 
- Por favor, vire- se, Sr. Douglas. 
Ela fitou-o, os olhos teimosos.
356

Gentilmente, virou Catherine para o outro lado, puxou-lhe a camisa de noite para cima, e ela sentiu uma picada aguda na coxa.
- Pronto, j est.
Voltou-se de costas e murmurou:
- O senhor acaba de me matar. - tinha os olhos cheios de lgrimas como uma pessoa sem amparo.
- Sr.  Douglas - disse o mdico calmamente -, sabe como a encontrmos?
Comeou a abanar a cabea, depois lembrou-se da dor. A voz dele era meiga.
- Foi o seu marido que nos levou at si.
Ela fitou-o, sem compreender o que dizia.
- Ele enganou-se na curva e perdeu-se na gruta - explicou. Quando viu que no conseguia encontr-la, ficou desvairado. Chamou a polcia e organizmos imediatamente 
uma equipa de busca.
Ela olhou-o, ainda sem perceber.
- Larry... pediu por socorro?
- Ele estava num estado horrivel. Disse que a culpa era s dele. Ela ficou impvida, tentando compreender, tentando ajustar-se  nova informao. Se Larry tivesse 
tentado mat-la, no teria organizado uma equipa de busca para a encontrar, no teria ficado desvairado por causa da segurana dela. Estava muitssimo confusa. O 
mdico observava-a com ar de compreenso.
- Agora vai dormir - disse-lhe ele. - Virei v-la de manh. Acreditara que o homem amado era um assassino. Sabia que tinha de contar a Larry e pedir-lhe perdo, 
mas sentiu a cabea pesada e os olhos estavam sempre a fechar. Depois conto-lhe, pensou ela, quando acordar. Ir entender e perdoar-me. E tudo ser maravilhoso outra 
vez, tal como era...
Foi acordada por um estampido, agudo e repentino, e os seus olhos abriram-se num pice, o pulso descontrolado. Uma torrente de chuva batia violentamente na janela 
do quarto, e um relmpago azulplido iluminou o quarto, transformando numa fotografia com excesso de luz. O vento arranhava a casa, tentando entrar  fora, e a 
chuva que caa no telhado e nas janelas soava como mil tambores minsculos. De poucos em poucos segundos ouvia-se uma trovoada ominosa seguida por um relmpago.
Foi o som da trovoada que acordara Catherine. Sentou-se com di-
357

ficuldade e olhou para o despertador que estava sobre a mesa-de-cabeceira. O sedativo que o mdico Lhe aplicara deixou-a tonta e teve de semicerrar os olhos para 
ler os nmeros do mostrador. Eram trs da manh. Estava sozinha. Larry devia estar no outro quarto em viglia, preocupado com ela. tinha de v-lo, pedir-Lhe desculpa. 
Cuidadosamente, Catherine ps os ps no cho e tentou levantar-se. Teve uma tontura. Perdeu o equilbrio e agarrou-se aos ps da cama at se recompor. Foi a cambalear 
at a porta, sentindo os msculos emperrados por falta de uso, e a cabea num latejar doloroso. Parou por um instante, agarrada ao puxador da porta para se apoiar, 
depois abriu a porta e dirigiu-se para a sala de estar.
Larry no estava l. Havia uma luz acesa na cozinha, e foi para l aos tropees. Larry estava na cozinha, de costas, e ela chamou:
- Larry! - Mas a voz dela foi levada pela trovoada medonha. Antes que pudesse cham-lo de novo, viu uma mulher.
Larry dizia:
-  perigoso que tu... - O vento uivante abafou as outras palavras.
tinha de vir. Queria ter a certeza...
ver-nosjuntos. Ningum ir...
eu disse-te. Eu tratava de tudo...
correu mal. No h nada que eles possam...
agora, enquanto ela est a dormir. 
Catherine ficou paralisada, incapaz de se mexer. Ouvia sons intermitentes, expresses breves e vibrantes. O resto das frases perdeu-se no vento uivante e nos troves 
que explodiam.
- ... temos de nos despachar antes que ela...
Todos os antigos medos voltaram, arrepiando-a, devorando-a 
num pnico indescritvel e de causar nuseas. O seu pesadelo foi
verdadeiro. Larry queria mat-la. tinha de sair daqui antes que
encontrassem, antes que a matassem. Lentamente, com o corpo 
tremente, comeou a recuar. Roou num candeeiro, que tombou, 
apanhou antes que batesse no cho. O bater do seu corao era
forte que receou que o ouvissem, apesar do barulho da trovoada e
chuva. Chegou  porta da rua e abriu-a, e o vento quase lha arr
arrancou das mos.
Catherine entrou na noite escura, fechando a porta logo atrs
De si. Ficou logo encharcada pela chuva fria e impetuosa, e foi ento q
deu conta de que no trazia seno uma camisa de noite transparente. No tinha importncia. tinha de fugir. Por entre a torrente de 
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chuva, via as luzes do salo do hotel ao longe. Podia ir l pedir ajuda. Mas acreditariam nela? Lembrou-se da cara que o mdico fez quando lhe contou que Larry queria 
mat-la. No, iriam pensar que estava histrica e entreg-la a Larry. tinha de fugir daqui. Foi ter ao caminho ngreme e rochoso que dava para a aldeia.
A torrente tempestuosa tornara o caminho numa poa lamacenta e escorregadia que lhe prendia os ps descalos e Lhe atrasava o passo de tal forma que pensava que 
corria num pesadelo, tentando em vo escapar em movimento lento dos perseguidores que corriam atrs de si. Estava sempre a escorregar e a cair ao cho, e tinha os 
ps a sangrar por causa das pedras afiadas do caminho, mas nem se apercebia disso. Estava em estado de choque, movimentando-se como um autmato, caindo quando uma 
rabanada de vento a derrubava, levantando-se para retomar a marcha at  vila, alheia ao cho que pisava. J nem sabia que chovia.
O caminho subitamente desembocou numa rua escura e deserta  beira da vila. Cambaleava em frente como um animal acossado, colocando, indiferente a tudo, um p  
frente do outro, aterrorizada pelos sons horriveis que se apoderaram da noite e pelos clares dos relmpagos que tornavam o cu num inferno. Chegou ao lago e contemplou-o, 
com o vento a fustigar-lhe a camisa de noite transparente, enrolando-a no corpo. As guas tranquilas haviam-se transformado num oceano revolto e agitado impelido 
por ventos demonacos que formavam ondas enormes que se esmagavam brutalmente umas nas outras.
Catherine manteve-se imvel, tentando lembrar-se do que fazia naquele lugar. E de repente lembrou-se. Ia encontrar-se com Bill Fraser. Estava  espera dela na sua 
bela manso para se casarem. Do outro lado do lago, viu uma luz amarela por entre a chuva impetuosa. Bill estava l,  espera. Mas como poderia encontrar-se com 
ele? Olhou para o cho e viu os barcos a remos presos ao ancoradouro, girando nas guas turbulentas, prestes a soltarem-se.
Viu ento o que tinha de fazer. Arrastou-se at l e saltou para dentro de um barco. Lutando para manter o equilbrio, desamarrou a corda que o prendia  doca. Nesse 
instante, o barco saltou da doca, inchando na sua liberdade repentina. Catherine caiu. Levantou-se, sentou-se e apanhou os remos, tentando lembrar-se da maneira 
como Larry os usava. Mas Larry no existia. Devia ter sido Bill. Sim, lembrou-se de Bill a remar na companhia dela. Iam ver os pais dele. Tentava usar os remos, 
mas as ondas gigantescas sacudiam constan
359
temente o barco de um lado para o outro, fazendo-o girar, e a gua arrancou-lhe os remos e sugous. Viu-os desaparecerem da vista. O barco avanava violentamente 
em direco ao centro do lago. Catherine comeou a bater o dente por causa do frio e a tremer num espasmo incontrolvel. Sentiu qualquer coisa bater-lhe nos ps 
e, ao olhar para baixo, viu que o barco estava a meter gua. Ps-se a chorar, porque o vestido de noiva ia molhar-se todo. Fora Bill Fraser quem lho comprara, e 
agora ia zangar-se com ela.
Usava um vestido de noiva porque ela e Bill estavam numa igreja, e o padre, que se parecia com o pai de Bill, dizia: Se algum se ope a este casamento que fale 
agora ou... ", e ento uma voz de mulher disse: agora, enquanto ela est a dormir", e as luzes apagaram-se e Catherine estava de volta  gruta e Larry empurrava-lhe 
a cabea para baixo e a mulher atirava-lhe gua, afogando-a. Olhou em volta  procura da luz amarela na casa de Bill, mas a mesma desaparecera. J no queria casar-se 
com ela, e ela agora estava sozinha, sem ningum.
A margem estava agora muito longe, escondida algures alm da chuva impetuosa que caa, e Catherine estava sozinha na noite tempestuosa, com o meltemi, o vento que 
lhe gritava aos ouvidos e anunciava a sua morte. O barco comeou a balanar traioeiramente quando as ondas enormes rebentavam violentamente contra ele. Mas Catherine 
j perdera o medo. Uma calidez deliciosa invadiu-lhe lentamente o corpo, e a chuva parecia veludo macio sobre a sua pele. Apertou as mos sobre osjoelhos como uma 
criana e comeou a dizer a orao que aprendera quando era menina.
- Agora vou dormir... Peo a Deus que olhe pela minha alma... Se eu morrer antes de acordar... Peo a Deus que leve a minha alma. E ficou maravilhosamente feliz 
porque sabia que finalmente estava tudo bem. Ia para casa.
Nesse momento, uma onda enorme apanhou a popa do barco, dei xando-o de quilha voltada para o ar no lago negro sem fundo.
360
LIVRO TRES
O JULGAMENTO
Atenas: 1947
23
Cinco horas antes do incio do julgamento de homicdio de Noelle Page e Larry Douglas, j a sala 33 do tribunal Arsakion de Atenas transbordava de espectadores. 
O tribunal  um edifcio cinzento enorme que ocupa toda a extenso dum quarteiro da Rua da Universidade. Das trinta salas de audincia do edifcio apenas trs esto 
reservadas ajulgamentos de homicdio: salas 21, 30 e 33. A sala nmero 33 fora a escolhida para estejulgamento por ser a maior. Os corredores no exterior da sala 
33 abarrotavam de gente, e os agentes da polcia fardados de cinzento colocaram-se em ambas as entradas para controlar a multido. O bar do corredor esgotou os produtos 
nos primeiros cinco minutos e havia uma bicha enorme  porta da cabina telefnica.
Georgios Skouri, o chefe da Polcia, supervisionava pessoalmente as operaes de segurana. Havia fotgrafos por toda a parte e Skouri sentia-se satisfeito por ser 
fotografado com frequncia. Os passes para entrar na sala de audincias valiam umafortuna. Durante semanas, os funcionrios da Justia grega foram assediados com 
pedidos de amigos e parentes. Pessoas bem colocadas no interior do aparelho que conseguiram obt-los negociaram-nos em troca de outros favores ou venderam-nos a 
especuladores que os vendiam pela quantia exorbitante de quinhentos dracmas cada um.
O cenrio dojulgamento era comum. A sala de audincias 33, situada no segundo piso do tribunal, era hmida e velha, palco de milhares de batalhas legais que se travavam 
havia anos. A sala tinha cerca de doze metros de largura por noventa de comprimento. Os assentos dividiam-se por trs filas, distanciados dois metros entre si,

com nove bancos de madeira em cada fila. Na parte da frente da sala de audincias havia um estrado alto atrs de uma divisria de mogno polido, com dois metros de 
comprido, completada por poltronas de
couro de costas altas para os trsjuzes que presidiam. A poltrona do
meio destinava-se ao presidente do tribunal e por cima estava pendurado um espelho quadrado e sujo que reflectia uma parte da sala.
Em frente ao estrado estava o banco das testemunhas, um pequeno estrado alado no qual se fixava uma pequena estante de leitura
com um suporte de madeira para pr papis. Sobre a estante em folha de ouro estava o crucifixo, Jesus na cruz com dois dos seus discpulos de cada lado.
Encostada  parede do outro lado estava a banca dos jurados, j
ocupada pelos seus dez membros. No canto esquerdo estava o banco
onde os acusados se sentavam.  frente do banco dos rus estava a
mesa dos advogados. As paredes da sala eram de estuque e o cho de
linleo, o que contrastava com os soalhos gastos das salas do primeiro
andar. Do tecto pendiam uma dzia de lmpadas, cobertas porglobos
de vidro. Num canto da sala, a conduta de ar dum aquecedor antiquado estendia-se at ao tecto. Uma parte da sala tinha sido reservada
para a imprensa, e havia representantes da Reuter, United Press, International News Service, Shsin Hau Agency, Freneh Press Agency
e Tass, entre outros.

S as circunstncias do julgamento de homicdio teriam sido bastante sensacionais, mas os protagonistas eram to famosos que o pblico excitado no sabia para onde 
olhar primeiro. Era como um circo de trs pistas. Na primeira fila estava Philippe Sorel, o actor, que,
a fazer f no boato que corria, era ex-amante de Noelle Page. Sorel
partira uma mquina fotogrfica a caminho da sala de audincias e
escusara-se terminantemente a falar  imprensa. Sentou-se no seu
 lugar, reservado e silencioso, com um muro invisvel  sua volta. - Atrs de Skouri sentava-se Armand Gautier. O realizador alto e som-
brio perscrutava constantemente a sala de audincias como se estivesse a tomar notas mentais para o prximo filme. Junto de Gautier
estava Israel Katz, o famoso cirurgio francs e heri da Resistncia
Dois lugares depois encontrava-se William Fraser, assistente especial do presidente dos Estados Unidos. Ao lado de Fraser estava um
lugar reservado, e na sala espalhou-se como uma bomba o boato de
que Constantin Demiris ia estar presente. Para onde os espectadores
olhassem viam uma cara conhecida: um poltico, um cantor, um es
cultor clebre, um escritor de renome mundial. Embora o circoludi-
360 

social estivesse repleto de celebridades, o principal foe o de ateno recaa na pista do meio. 
Num extremo do banco dos rus estava Noelle Page, extremamente bela, a sua pele cor de mel um pouco mais plida do que o costume e vestida como se tivesse sado 
da boutique de Madame Chanel. Noelle tinha um atributo rgio, uma presena nobre que elevava o drama do que estava a suceder. Aguava a excitao dos espectadores 
e estimulava o seu desejo ardente de sangue. Como disse um semanrio americano: emoo que aflua na direco de Noelle Page vinda da multido que viera assistir 
ao seujulgamento era to forte que se tornou uma presena quase fsica na sala. No era um sentimento de compaixo ou de dio, era simplesmente um sentimento de 
expectativa. A mulher que o tribunal iajulgar por homicdio era uma supermulher, uma deusa num pedestal de ouro, muito acima deles, e eles estavam ali para ver o 
dolo cair ao nvel deles e ser destrudo. O sentimento que enchia a sala de audincias deve ter sido idntico ao que existira no corao dos camponeses que viram 
Maria Antonieta na carroa a caminho da guilhotina.
Noelle Page no era a nica atraco daquele circo. Na outra ponta do banco dos rus sentava-se Larry Douglas, dominado por uma ira latente. trazia plido o seu 
rosto belo e emagrecera, mas isso s servia para acentuar as suas feies perfeitas, e muitas das mulheres presentes na sala de audincias tinham vontade de o abraar 
e consolar desta ou daquela maneira. Desde que fora preso, Larry recebera centenas de cartas de mulheres de todo o mundo, dezenas de presentes e propostas de casamento. 
A terceira estrela do circo era Napoleon Chotas, um homem to conhecido na Grcia quanto Noelle Page. Napoleon Chotas era reconhecido como um dos maiores advogados 
criminais do mundo. Defendera clientes que iam de chefes de Governo apanhados a abotoarem-se com os dinheiros pblicos at assassinos apanhados em flagrante pela 
Polcia, sem nunca ter perdido um caso importante. Chotas era magro e macilento e observava do seu lugar o pblico, com os seus olhos grandes e tristes de co de 
caa num rosto velho. quando Chotas se dirigia ao jri, o seu discurso era lento e hesitante, e tinha grande dificuldade em exprimir-se. As vezes era tal o seu embarao 
que um jurado deixava escapar a palavra que procurava, e quando isto acontecia o rosto do causdico mostrava um alvio to grande e uma gratido to inexprimvel 
que todo o painel dejurados sentia uma onda de afeio pelo homem. Fora da sala de audincias Chotas era um orador incisivo e animado com um
365
domnio perfeito da palavra e da sintaxe. Falava sete lnguasfluentemente, e quando a sua agenda o permitia dava palestras parajuristas em todo o mundo. Sentado 
no banco dos advogados, a alguns metros de Chotas, estava Frederick Stavros, o advogado de defesa de Larry Douglas. Diziam os entendidos que, embora Stavros fosse 
bastante competente em casos de rotina, no tinha qualquerhiptese neste caso em particular.
Noelle Page e Larry Douglas haviam sido j julgados nosjornais e nas mentes do povo e considerados culpados. Ningum duvidou da sua culpa por um momento. Jogadores 
profissionais apostavam de trinta para um em como os rus seriam condenados. Ojulgamento ganhou assim mais interesse porque nele participaria o maior advogado criminal 
da Europa, que iria usar todo o seu saber numa situao muitssimo adversa.
Quando se soube que Chotas ia defender Noelle Page, a mulher que traiu Constantin Demiris e o expusera ao ridculo pblico, a notcia causou furor. Embora Chotas 
fosse poderoso, Constantin Demiris era-o cem vezes, e no passava pela cabea de ningum por que Chotas enfrentaria Constantin Demiris. A verdade era ainda mais 
interessante do que os boatos bizarros que corriam cleres.
O advogado aceitara a defesa de Noelle Page a pedido pessoal de Demiris.
Trs meses antes da marcao do julgamento, o prprio director 
da priso foi  cela de Noelle na Priso da Rua de So Nicodmus para lhe dizer que Constantin Demiris queria v-la. Noellej se interrogara quando teria notcias 
de Demiris. No tivera notcias dele desde que fora presa, apenas um silncio profundo.

Noelle viveu com Demiris o tempo suficiente para saber a profundidade do seu amor-prprio e o trabalho a que se dava para se vingar di
at da mais pequena ofensa. Noelle humilhara-o como nunca ninguem
qum o fizera antes, e era suficientemente poderoso para reclamar 
uma retribuio terrvel.
A nica questo era: que faria ele? Noelle tinha a certeza de que 
Demiris desdenharia qualquer coisa to simples como subornar um 
jri ou os juzes. S uma trama complexa e maquiavlica o deixaria 
satisfeito, e Noelle ficara acordada no catre da cela noites a fio, pondo-se na pele de Demiris, eliminando estratgias consecutivas, tal como ele devia ter feito, 
em busca do plano perfeito. Era comojogar uma 
366

partida de xadrez mental com Demiris, s que ela e Larry eram os pees, e as apostas eram a vida e a morte.
Era provvel que Demiris quisesse destruir os dois, mas Noelle conhecia como ningum a mente subtil de Demiris, pelo que era igualmente possvel que planeasse destruir 
apenas um deles e deixar o outro viver em sofrimento. Se Demiris se decidisse pela execuo de ambos, atingiria a sua vingana, mas tratar-se-ia de um final rpido 
de mais - no sobraria nada para saborear. Noelle examinara cuidadosamente todas as possibilidades, todas as variaes possveis do jogo, e pareceu-lhe que Constantin 
Demiris deixaria que Larry morresse e ela vivesse, ou na priso ou sob o controlo de Demiris, porque seria a melhor maneira de prolongar a sua vingana indefinidamente. 
Primeiro Noelle sofreria a dor de perder o homem que amava, e depois teria de suportar todas as torturas refinadas que Demiris planeara para o futuro dela. Parte 
do prazer que Demiris tiraria da sua vingana era contar a Noelle de antemo, para que ela sentisse o desespero em toda a sua extenso.
Da que Noelle no se sentira surpresa quando o director da priso foi  cela dizer-lhe que Constantin Demiris desejava v-la.
Noelle chegara primeiro. Fora levada para o gabinete particular do director, onde discretamente a deixaram sozinha com um estojo de maquilhagem trazido pela criada, 
com o fim de se preparar para a visita de Demiris.
Noelle ignorou os cosmticos, os pentes e as escovas que estavam sobre a mesa, foi at janela e olhou para fora. Era a primeira vista da rua que tinha em trs meses, 
tirando os relances da altura em que foi da Priso da Rua de So Nicodmus at ao Arsakion, o tribunal, no dia do seujulgamento. Fora para o tribunal num carro celular 
gradeado e sob escolta at  cave, donde um elevador estreito a levara a ela e aos guardas at ao corredor do segundo piso. Prestara declaraes, fora enviada para 
julgamento e regressara  priso.
Noelle olhava pela janela e observava o trnsito na Rua da Universidade: homens, mulheres e crianas a caminho de casa para se reunirem s familias. Pela primeira 
vez na vida, Noelle teve medo. Perdera as iluses de ser absolvida. Lera osjornais e sabia que ia ser mais do que um julgamento. Ia ser um banho de sangue em que 
ela e Larry iam servir de vtimas para satisfazer a conscincia duma sociedade ultrajada. Os gregos odiavam-na porque troara da santi
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dade do matrimnio, invejavam-na porque era nova, bonita e rica e desprezavam-na porque sentiam que era indiferente aos sentimentos deles.
Dantes Noelle dava pouca importncia  vida, esbanjando o tempo sem qualquer preocupao, como se o mesmo fosse eterno: mas agora estava diferente. A perspectiva 
de morte iminente fizera que Noelle se apercebesse pela primeira vez do quanto desejava viver. Era como um receio dntico a um cancro em evoluo, e, se pudesse, 
estava disposta a tudo para viver, mesmo que soubesse que Demiris encontraria maneiras de lhe fazer a vida negra. Enfrentaria isso quando acontecesse. Na altura 
prpria, encontraria uma maneira de ser mais esperta do que ele. Entretanto, precisava da ajuda dele para viver. tinha uma vantagem. Sempre aceitara despreocupadamente 
a ideia de morrer, de forma que Demiris no fazia ideia do quanto a vida significava para ela. Se fizesse, por certo a deixaria morrer. Noelle de novo se interrogou 
sobre as teias que tecera em seu redor nos ltimos meses, e, no momento exacto em que pensava nisso, ouviu a porta do gabinete abrir, voltou-se e viu Constantin 
Demiris na ombreira da porta e, depois do olhar chocado, Noelle viu que nada mais tinha a recear.
Constantin Demiris envelhecera dez anos nos poucos meses desde que o vira pela ltima vez. Estava plido e abatido, e as roupas caam-lhe largas sobre o corpo. Mas 
foram os olhos que prenderam a ateno de Noelle. Eram os olhos duma alma que passara por um grande sofrimento. A essncia do poder de Demiris, o ncleo de vitalidade 
dinmica e esmagadora desaparecera. Foi como se um interruptor tivesse sido desligado, e o que restava era o reflexo plido do esplendor de outrora. Deixou-se estar, 
fitando-a, com os olhos cheios de mgoa.
Numa fraco de segundo, Noelle pensou se se tratava de alguma brincadeira, parte de um plano, mas no havia ningum no mundo que pudesse ser to bom actor. Foi 
Noelle que quebrou o longo silncio.
- Desculpa, Costa - disse ela.
Demiris anuiu num aceno lento, como se o movimento lhe custasse um esforo.
- Desejei matar-te - disse ele agastado, e era a voz dum velho.
- Eu tinha tudo preparado.
- Por que no o fizeste? Respondeu calmamente:
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- Porque tu me mataste primeiro. Nunca precisei de ningum. Chego mesmo a pensar que nunca sofri no passado.
- Costa...
- No. Deixa-me terminar. No sou um clemente. Se pudesse viver sem ti, acredita que era isso que eu faria. Mas no posso. J no posso sofrer mais. Quero-te de 
volta, Noelle. Esforou-se para no mostrar o que sentia dentro de si.
- Mas isso no depende de mim, pois no?
- Se eu te pudesse libertar, voltavas para mim? De vez? De vez. Mil imagens passaram velozes pela mente de Noelle. Nunca mais veria Larry, no voltaria a tocar-lhe, 
a abra-lo. Noelle no tinha sada, mas, mesmo que tivesse, a vida valia mais. E enquanto fosse viva havia sempre uma oportunidade. Olhou para Demiris.
- Voltava, Costa.
Demiris fitou-a, emocionado. Quando falou, tinha a voz rouca.
- Obrigado - disse ele. - Vamos esquecer o passado. O que l vai l vai. - A voz ganhou vida. - O futuru  que me interessa. Vou contratar um advogado para te defender.
- quem?
- Napoleon Chotas.
E nesse momento Noelle soube de facto que vencera a partida de xadrez. Xeque. Xeque-mate.
Napoleon Chotas estava sentado no banco dos advogados a pensar na batalha que ia realizar-se. Chotas teria preferido que ojulgamento acontecesse em Jnina em vez 
de Atenas, mas isso era impossvel, dado que, conforme a lei grega, nenhum julgamento podia realizar-se no distrito onde o crime fora cometido. Chotas no tinha 
a menor dvida em relao  culpa de Noelle Page, mas para ele isso era irrelevante, pois, como qualquer advogado criminal, sentia que a culpa ou a inocncia dum 
cliente era insignificante. Todas as pessoas tinham direito a um julgamento justo.
Ojulgamento que estava prestes a comear era um pouco diferente, porm. Pela primeira vez na vida profissional, Napoleon Chotas deixara-se envolver emocionalmente 
por uma cliente: estava apaixonado por Noelle Page. Fora v-la a pedido de Constantin Demiris e, embora Chotas no desconhecesse a imagem pblica de Noelle Page, 
no estava nada preparado para a realidade. Ela recebera-o como se ele estivesse afazer uma visita de carcter social. Noelle no mostrara
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nervosismo, nem medo, e a princpio Chotas atribura isso  falta de conhecimento que ela tinha da gravidade da situao. O inverso tambm aconteceu. Noelle era 
a mulher mais inteligente e fascinante que jamais conhecera, e certamente a mais bela. Chotas, embora desmentido pela aparncia, era grande conhecedor de mulheres, 
e reconheceu os atributos especiais que Noelle possua. S poder sentar-se junto dela e falar-lhe era uma alegria para Chotas. Falaram de Direito, Arte, Criminalidade 
e Histria, e ela revelou-se uma surpresa constante. Conseguiu compreender perfeitamente a ligao de Noelle aum homem como Constantin Demiris, mas o seu envolvimento 
com Larry Douglas intrigava-o. Sentia que ela estava muito acima de Douglas, e no entanto Chotas supunha que havia uma qumica inexplicvel que fazia as pessoas 
apaixonarem-se pelos parceiros mais improvveis. Cientistas brilhantes casavam com louras estouvadas, grandes escritores casavam com actrizes estpidas, estadistas 
ilustres casavam com simplrias.
Chotas lembrava-se do encontro com Demiris. Conheceram-se socialmente durante anos, mas a firma de advogados de Chotas nunca trabalhara para ele. Demiris pedira 
a Chotas que fosse  sua casa de Varkiza. Demiris abordara o assunto sem rodeios:
- Como deve saber - dissera ele -, tenho em relao a este julgamento um profundo interesse. Noelle Page  a nica mulhr a quem verdadeiramente amei.
Os dois homens falaram durante seis horas, abordando todos aspectos do caso, todas as estratgias possveis. Ficou decidido que sentena de Noelle seria inocente". 
Quando Chotas se levantou para se retirar, haviam chegado a um acordo. Para aceitar a defesa de Noelle, Napoleon Chotas receberia o dobro dos honorrios, e a sua 
fama seria o principal consultorjurdico do vasto imprio de Constatin Demiris, um negcio no valor incalculvel.
- Pouco me importa como ir faz-lo - conclura Demiris, nu tom feroz. - Garanta apenas que tudo corra bem.
Chotas aceitara o contrato. E depois, ironicamente, apaixonara-se por Noelle Page. Chotas era solteiro, embora mantivesse diversas amantes, e agora que encontrara 
a mulher com quem desejava estar ela era inacessvel. Olhoupara Noelle, sentada no banco dos rus, bela e serena. Trazia um fato de seda preta simples e uma blusa 
gola alta branca sem enfeites, e parecia uma princesa dum conto de fadas.
Noelle virou-se e viu que Chotas a fitava, e deu-lhe um sorriso-
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simptico. Devolveu-lhe o sorriso, mas o seu pensamento concentrava-sej na tarefa difcil que se apresentava pela frente. O oficial de diligncias abria a sesso.
O pblico ergueu-se quando dois juzes entraram e tomaram os seus lugares na tribuna. Seguiu-se o terceirojuiz, o presidente do tribunal, que tomou o lugar do meio. 
Disse:
- synethriassis archetai.
O julgamento comeara.
Peter Demonides, o promotor especial da Repblica, ergueu-se nervosamente para fazer o discurso de abertura ao jri. Demonides era um procurador hbil e com prtica, 
mas confrontara-se j com Napoleon Chotas - muitas vezes, de facto -, e os resultados foram invariavelmente os mesmos. O diabo do velho era invencvel. Quase todos 
os advogados tratavam com arrogncia as testemunhas de acusao, mas Chotas acarinhava-as. tratava-as bem e, antes de ele dar por findo o seu interrogatrio, entravam 
em contradio em relao a tudo, tentando ajud-lo. tinha um jeito especial para tornar as provas irrefutveis em especulaes e as especulaes em fantasia. Chotas 
tinha o raciocnio legal mais brilhante que Demonidesjamais conhecera e o maior conhecimento de jurisprudncia, mas esse no era o seu prato-forte. O melhor nele 
era o conhecimento que tinha das pessoas. Umjornalista perguntara uma vez a Chotas como aprendera ele tanto sobre a natureza humana.
- No entendo absolutamente nada sobre a natureza humana respondera Chotas. -Apenas entendo depessoas. -E a observao fora amplamente citada.
Para alm de tudo o mais, era um julgamento  medida para Chotas levar  presena de um jri, repleto que estava de fascnio, paixo e morte. De uma coisa Demonides 
estava certo: Napoleon Chotas no olharia a meios para ganhar esta causa. Mas Demonides tambm no. Sabia que havia fortes provas contra os rus, e, embora Chotas 
pudesse ser capaz de convencer o jri a menosprezar as provas, no seria capaz de manipular os trsjuzes que se sentavam na tribuna. Por isso, foi com um sentimento 
misto de determinao e apreenso que o promotor especial da fonte pblica deu incio ao seu discurso de abertura.
Em traos largos e hbeis, Demonides delineou o caso que o Estado apresentava contra os dis rus. Segundo o preceito legal, o pr-
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sidente dos dez jurados era um advogado, de forma que a ele Demonides dirigiu a argumentao legal e aos restantes membros a argumentao geral.
- Antes do fim do julgamento - disse Demonides -, o Estado provar que estas duas pessoas conspiraram em conjunto para matar Catherine Douglas a sangue-frio porque 
era um obstculo aos seus planos. O seu crime foi amar o marido, e por isso mataram-na. Os dois rus estavam no local do crime. S eles tiveram o o motivo e a oportunidade. 
Provaremos sem margem para qualquer dvida...
Demonides fez um discurso breve e sem rodeios, e depois coube a vez ao advogado de Defesa.
Os espectadores olhavam para Chotas enquanto reunia desajeitadamente os papis e se preparava para fazer o discurso de abertura. Lentamente aproximou-se da banca 
dojri, de uma forma difcil e hesitante como se se sentisse apavorado pelo ambiente que o rodeava.
Ao v-lo, William Fraser no pde deixar de se maravilhar com a sua habilidade. Se no tivesse certa noite conversado com Chotas numa festa na Embaixada britnica, 
tambm Fraser se teria deixado iludir pela atitude do homem. Via osjurados esticando-se com esforo para a frente para ouvirem as palavras que caam suavemente dos 
lbios de Napoleon Chotas.
- Esta mulher que est na barra do tribunal - dizia Chotas aos jurados - no est a serjulgada por homicdio. No houve homicdio. Se tivesse havido homicdio, tenho 
a certeza de que o meu brilhante colega em representao do Estado teria sido capaz de mostrar-nos o corpo da vtima. No o fez, porm, pelo que devemos assumir 
que no h corpo. E, por conseguinte, nem homicdio. - Deteve-se para coar a coroa da cabea e olhou para o cho como se estivesse a tentar lembrar-se onde parara. 
Abanou a cabea, depois olhou para o jri.
- No, meus senhores, no  disso que trata este julgamento. A minha cliente est a serjulgada porque infringiu outra lei, uma lei tradicional que diz que no se 
deve fornicar com o marido de outra mulher. Osjornaisj a culparam dessa acusao, e o pblico culpou-a, e agora exigem que ela seja castigada.
Chotas parou para tirar um enorme leno branco, fitou-o um momento como se se interrogasse como viera ali parar, assoou o nariz e voltou a guardar o leno no bolso.
- Muito bem. Se infringiu uma lei, castiguemo-la. Mas no por homicdio, meus senhores. No por um homicdio que nunca foi cometido. Noelle Page foi culpada de ser 
a amante de... -fez uma pausa
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delicadamente -... um homem importantssimo. O seu nome  segredo, mas, se querem saber de quem se trata, podem encontr- lo na primeira pgina de qualquerjornal.
Seguiu-se uma gargalhada divertida da parte do pblico. Auguste Lanchon girou sobre o lugar onde se sentava e lanou um olhar feroz para os espectadores, com os 
seus olhinhos de suno a arder de raiva. Como ousavam rir-se da sua Noelle! Demiris no significava nada para ela, nada.
Era o homem a quem uma mulher oferecia a sua virgindade que ela lembrava sempre com prazer. O comerciante baixo e gordo de Marselha no conseguira comunicar com 
Noelle at ao momento, mas pagara quatrocentos preciosos dracmas por um passe para entrar na sala de audincias, e podia ver a sua amada Noelle todos os dias. Se 
fosse absolvida, Lanchon oferecer-se- ia para tomar conta dela. Concentrou-se no advogado.
- Foi dito pela acusao que os dois rus, Noelle Page e Larry Duglas, mataram a mulher do Sr. Douglas parapoderem casar-se. Olhem para eles.
Chotas virou o olhar para Noelle Page e Larry Douglas, no que foi seguido por todos os olhos da sala de audincias.
- Esto apaixonados um pelo outro? Talvez. Mas isso torna-os conspiradores, maquinadores e assassinos? No. Se h vtimas neste julgamento; esto a v-las neste 
momento. Examinei com cuidado todas as provas e fiquei convencido, tal como os senhores ficaro, de que estes dois seres humanos esto inocentes. Gostaria de deixar 
bem claro aojri que no represento Larry Douglas. Ele tem o seu prprio advogado, que, diga-se a propsito, se trata de um colega competente. Mas alegou a acusao 
de que as duas pessoas ali sentadas conspiraram e mataram juntas. Pelo que, se um  culpado, ambos o so. Afirmo-lhes que ambos so inocentes. E s o corpo do delito 
me far mudar de ideia. E no h nenhum.
A voz de Chotas estava cada vez mais inflamada.
-  uma inveno. Aminha cliente sabe tanto como vs se Catherine Douglas est a morta ou est viva. Como saberia ela? Nunca a conheceu, quanto mais prejudic-la. 
Imaginem a enormidade que  uma pessoa ser acusada de matar algum que nunca viu mais gordo. H muitas teorias quanto ao fim que a Sr  Douglas poderia ter levado. 
Que poderia ter sido morta  um deles. Mas apenas um. A teoria mais provvel  ter descoberto de alguma forma que o marido e Noelle Page estavam apaixonados, e ofendida... 
no com medo, cavalheiros.
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ofendida, tenha fugido.  to simples quanto isso, e por causa disso
no se executa uma mulher inocente e um homem inocente. Frederick Stavros, o advogado de Larry Douglas, deu um suspiro
sulrreptcio de alvio. Era seu pesadelo constante que Noelle Page pudesse ser absolvida, enquanto o seu cliente seria condenado. Se isso acontecesse, seria o bombo 
da festa dos outros advogados. Stavros andara  procura de uma maneira para se pendurar  estrela de Napoleon Chotas, e agora Chotas dera- lhe o ensejo. Ao estabelecer 
a ligao entre os dois rus da forma como fizera, a defesa de Noelle tornara-se a defesa do seu prprio cliente. Avitria destejulgamento ia alterar todo o futuro 
de Frederick Stavros, dar-Lhe tudo o que sempre desejara. Invadia-o uma sensao de sentida gratido pelo velho mestre.
Stavros notou com satisfao que o jri seguia atentamente cada palavra de Chotas. - Esta mulher no  das que se interessam por coisas materiais
- dizia Chotas com admirao. - Estava disposta a desistir de tudo, sem hesitar, pelo homem que amava. Todos sabemos, caros amigos, que esse no  o carcter duma 
homicida maquinadora e conivente.
A medida que Chotas prosseguia, as emoes dosjurados mudavam de forma visvel, alcanando em relao a Noelle Page uma empatia e compreenso crescentes. Lenta e 
habilmente, o causdico construiu o retrato duma bela mulher, amante dum dos mais ricos e poderosos homens do mundo, que possua todos os luxos e privilgios,
mas que no fim sucumbira ao amor por um jovem piloto sem vintm que conhecera havia apenas pouco tempo. Chotas brincava com as emoes dos jurados como um maestro, 
fazendos rir, chorar e mantendo sempre presa a sua ateno. Quando acabou o discurso de abertura, Chotas caminhou desajeitadamente para a mesa comprida e, com embarao, 
sentou-se, e isso impediu que o pblico aplaudisse em unssono.
Larry Douglas estava sentado no banco das testemunhas ouvindo a defesa de Chotas e ficou furioso. No precisava de ningum que o defendesse. No cometera nenhum 
crime, sendo este julgamento um erro estpido; se havia alguma culpa, a mesma recaa sobre Noelle. Fora tudo ideia dela. Larry olhava para ela agora, bela e
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serena. Mas no sentiu nenhuma emoo de desejo, apenas a lembrana de uma paixo, um laivo distante e emocional, e admirou-se por ter feito perigar a vida por esta 
mulher. Os olhos de Larry voltaram-se na direco da bancada da imprensa. Uma reprter atraente de vinte e poucos anos fitava-a. Deu-lhe um sorriso breve e viu o 
rosto dela iluminar-se.
Peter Demonides interrogava uma testemunha.
- Queira identificar-se perante o tribunal.
- Alexis Minos.
- Ocupao?
- Advogado.
- Importa-se de olhar para os dois rus sentados no banco dos rus, Sr. Minos, e dizer ao tribunal se j alguma vez os viu?
- J, sim. Um deles.
- Quem?
- O homem.
- O Sr. Larry Douglas?
- Correcto.
- Dizia-nos, por favor, em que circunstncias viu o Sr. Douglas?
- Esteve no meu escritrio h seis meses.
- Foi consult-lo na sua qualidade profissional?
- Foi, sim.
- Por outras palavras, consultou-o como advogado?
- Sim.
- E importava-se de dizer-nos que desejava ele de sua parte?
- Pediu-me que lhe tratasse do divrcio.
- E contratou-o para esse fim?
- No. quando me explicou as circunstncias, disse-lhe que lhe seria impossvel obter o divrcio na Grcia.
- E quais eram as circunstncias?
- Primeiro disse que o assunto no podia vir a pblico, e depois que a mulher no lhe queria dar o divrcio.
- Por outras palavras, tinha pedido o divrcio  mulher, que lho negou?
- Foi o que me disse.
- E explicou-lhe que no o podia ajudar? Que sem o consentimento da mulher lhe seria difcil ou impossvel consegui- lo e que o caso poderia muito bem vir a pblico?
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- Exactamente.
- Portanto, a no ser que tomasse medidas drsticas, nada havia que o ru pudesse...
- Protesto!
- Deferido.
- A testemunha  sua.
Napoleon Chotas levantou-se da cadeira com um suspiro e caminhou lentamente at  testemunha. Peter Demonides no estava preocupado.
Minos era um advogado experiente de mais para ser enganado pelas artimanhas forenses de Chotas.
- O senhor  advogado, Sr. Minos.
- Sou, sim.
- E um advogado excelente, estou certo. Surpreende-me o facto de os nossos caminhos profissionais no se terem cruzado mais cedo. A firma em que me encontro lida 
com muitos ramos da lei. Ser que o senhorj se confrontou com um dos meus scios em algum litgio corporativo?
- No. No fao trabalho corporativo.
- Peo desculpa. Talvez num caso fiscal, ento?
- No sou advogado de assuntos fiscais.
- Oh. - Chotas comeava a ficar intrigado e pouco  vontade, como se estivesse a fazer figura de parvo. - Seguros?
- No. -Minos comeava a desfrutar a humilhao do advogado. O seu rosto assumiu uma expresso presunosa, e Peter Demonides comeou a preocupar-se. Quantas vezes 
vira aquele olhar nos rostos das testemunhas que Napoleon Chotas preparava para o abate?
Chotas coava a cabea com perplexidade.
- Desisto. -  disse habilmente. - Em que ramo da lei  especialista?
- Casos de divrcio. - A resposta foi uma flecha mordaz, em cheio no alvo.
Chotas assumiu uma expresso pesarosa e sacudiu a cabea.
- Eu devia ter calculado que o meu amigo Sr. Demonides mandaria um especialista para aqui.
- Obrigado. -Alexis Minos no tentou disfarar a sua presuno desta vez.
Nem todas as testemunhas tinham oportunidade de humilhar
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Chotas, e Minos estavaj a compor a histria que ia contar no clube nessa noite.
- Nunca me ocupei de um caso de divrcio - confiava Chotas com uma voz embaraada -, de forma que terei de submeter- me aos seus conhecimentos.
O velho advogado estava a desmoronar por completo. A histria seria ainda melhor do que Minos previra.
- Aposto que tem sempre muito que fazer.
- No tenho mos a medir.
- No tem mos a medir! -Houve uma admirao sincera na voz de Napoleon Chotas.
- As vezes  de mais.
Peter Demonides olhou para o cho, incapaz de ver o que se passava.
A voz de Chotas assumiu um tom de respeito.
- No  meu desejo imiscuir-me na sua vida profissional, Sr. Minos, mas, como curiosidade profissional, quantos clientes diria que entram no seu escritrio por ano?
- Bem, no me  fcil responder.
- Vamos l, Sr. Minos. No seja modesto. Faa um clculo.
- Oh, acho que uns duzentos.  s uma aproximao, sabe.
- Duzentos divrcios por ano! S a burocracia deve meter medo.
- Bem, na realidade, no h duzentos divrcios. Chotas coou o queixo, perplexo.
- Que disse?
- Nem todos so divrcios.
Um olhar intrigado surgiu no rosto de Chotas.
- Mas no disse que s tratava de casos de divrcio?
- Sim, mas... - A voz de Minos vacilou.
- Mas o qu? - perguntou Chotas espantado.
- Bem, o que eu quis dizer  que nem todos acabam em divrcio.
- Mas no  por isso que as pessoas o consultam?
- Sim, mas algumas. bem. acabam por mudar de ideias por diferentes razes.
Chotas assentiu num entendimento repentino.
- Ah! Quer dizer que h uma reconciliao ou coisa do gnero?
- Exactamente - disse Minos.
- Ento est a dizer-me que, digamos, uns dez por cento no se importam de passar por um aco de divrcio?
Minos mexeu-se na cadeira embaraado.
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A percentagem  um pouco superior.
- Quanto? Quinze por cento? Vinte?
- Quase quarenta.
Napoleon Chotas fitou espantado.
- Sr. Minos, est a dizer-nos que cerca de metade das pessoas que o procuram acabam por no se divorciar?
- Estou, sim.
Comearam a aparecer gotculas de suor na testa de Minos. Voltou-se para olhar para Peter Demonides, mas Demonides estava estudiosamente concentrado numa fenda do 
soalho.
- Bem, estou certo de que no se trata de falta de confiana nas suas capacidades - disse Chotas.
- Claro que no - disse Minos em tom de defesa. - Muitas pessoas s vezes vm consultar-me num impulso estpido. Um casal tem uma briga e sente que se odeia; acha 
que quer divorciar-se, mas quando vai passar ao concreto, na maioria dos casos, muda de ideias.
Parou abruptamente quando se apercebeu do que estava realmente a dizer.
- Obrigado -disse Chotas com gentileza. -As suas declaraes foram de grande utilidade.
Peter Demonides interrogava a testemunha.
- Diga-me o seu nome, por favor.
- Kasta. Irene Kasta.
- Casada ou solteira?
- Sou viva.
- Qual  a sua profisso, Sr.  Kasta?
- Sou governanta.
- Onde  que trabalha?
- Na casa  duma famlia rica em Rafina.
-  uma vila  beira-mar, no ? Cem quilmetros a nort de Atenas?
- Sim.
- Importa-se de olhar para os dois rus que esto ali sentados? J os viu antes?
- Por certo. Muitas vezes.
- Dizia-nos em que circunstncias?
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- Vivem na casa perto da moradia onde eu trabalho. Via-os muito na praia. Em pelota.
Houve um arquejo por parte do pblico, logo seguido de um burburinho breve. Peter Demonides olhou de relance para ver se Chotas ia protestar, mas o velho advogado 
permaneceu sentado, com um sorriso sonhador no rosto. O sorriso deixou Demonides mais nervoso do que nunca. Voltou-se para a testemunha.
- Tem a certeza de que so estas as pessoas que viu? Lembre-se de que est sobjuramento.
- Oh, se so!
- Quando estavam juntos na praia, pareciam amigos?
- Bem, irmo e irm  que no pareciam.
Uma gargalhada por entre o pblico.
- Obrigado, Sr. Kasta. - Demonides virou-se para Chotas. A testemunha  sua.
Napoleon Chotas assentiu amigavelmente, ergueu-se e coxeou at  mulher de grande porte que se encontrava no banco das testemunhas.
- H quanto tempo trabalha nessa moradia, Sr.  Kasta?
- Sete anos.
- Sete anos! A senhora deve ser uma boa profissional.
- Pode crer.
- Talvez me possa recomendar uma boa governanta. Tenho andado com a ideia de comprar uma casa na praia de Rafina. O meu problema  que preciso de alguma privacidade 
para poder trabalhar. Da lembrana que tenho dessas vivendas, esto todas juntas.
- Oh, no, senhor doutor. Todas as moradias so separadas por um muro enorme.
- Oh, ptimo. E no esto juntas umas das outras.
- No, senhor doutor, de maneira nenhuma. As moradias ficam longe umas das outras pelo menos cem metros. Sei de uma que est  venda. O senhor doutor ia ter toda 
a privacidade que deseja, e a minha irm podia ir l limpar lhe a casa. Ela sabe o que faz,  arrumada e ajeita-se na cozinha.
- Bem, obrigado, Sr.  Kasta, isso parece ptimo. Talvez eu lhe possa telefonar esta tarde.
- Ela trabalha a dias. s seis estar em casa.
- Que horas so agora?
- No uso relgio.
- Ah. H um relgio grande naquela parede. Que horas so?
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- Bem, custa a ver. Fica l ao fundo.
- A que distncia acha que fica o relgio?
- Cerca de cento e cinquenta metros.
- Setenta metros, Sr. Kasta. No tenho mais perguntas.
Corria o quinto dia do julgamento. A perna amputada do mdico Israel Katz doa-lhe novamente. Quando fazia uma operao, podia apoiar-se na perna artificial durante 
horas, e isso no o importunava. Mas sentado aqui sem a concentrao intensa para lhe desviar a ateno, as extremidades dos nervos enviavam mensagens constantes 
para um membro que deixara de existir. Katz mexia-se impacientemente no lugar, tentando aliviar a tenso que sentia na anca. Desde que chegou a Atenas tentava ver 
Noelle todos os dias, mas em vo. Falara com Napoleon Chotas, e o advogado explicara-lhe que Noelle estava perturbada de mais para ver velhos amigos e que seria 
melhor esperar at ao final dojulgamento. Israel Katz pedira-lhe que dissesse a Noelle que ele viera ajud-la de todas as maneiras possveis, mas no tinha a certeza 
se recebera o recado. Sentava-se no tribunal dia aps dia, na esperana de que Noelle olhasse para o lugar onde se sentava, mas ela nem sequer olhava de relance 
para os espectadores.
Israel Katz devia-lhe a vida e sentia-se frustrado por no saber como pagar-lhe essa dvida. No fazia ideia de como decorria ojulgamento, ou se Noelle seria condenada 
ou absolvida. Aprendera com Chotas que pela lei s havia dois veredictos possveis: culpado ou inocente. Se Noelle fosse considerada inocente, seria libertada. Se 
fosse considerada culpada, seria executada.
Uma testemunha da acusao prestava juramento.
- Nome?
- Christian Barbet.
- O senhor  um cidado francs, Sr. Barbet?
- Sou, sim.
- Onde  que reside?
- Em Paris.
- Queira dizer ao tribunal qual  a sua ocupao.
- Sou proprietrio duma agncia de detective privados.
- E onde se localiza essa agncia?
- A sede  em Paris.
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- Que gneros de casos trata?
- Muitos gneros. roubos comerciais, pessoas desaparecidas, vigilncia por conta de maridos e esposas ciumentos...
- Sr. Barbet, queira ter a bondade de ver se nesta sala de audincias se encontra algum que j tenha sido cliente seu.
Um olhar lento e demorado pela sala.
- H, sim, senhor doutor.
- Dizia a este tribunal de quem se trata, por favor?
- A senhora que est sentada alm. Miss Noelle Page. Um murmrio de interesse por parte dos espectadores.
- Est a dizer-nos que Miss Page o contratou para Lhe pedir os seus prstimos como detective?
- Estou, senhor doutor.
- E diz-nos exactamente do que constava esse trabalho?
- Pois no, senhor doutor. Estava interessada num homem chamado Larry Douglas. Queria que eu descobrisse tudo quanto pudesse a respeito dele.
-  o mesmo Larry Douglas que est sob julgamento nesta sala de audincias?
- Exacto.
- Diga-nos, Sr. Barbet, como procedeu para obter essas informaes sobre o Sr. Douglas?
- Foi muito difcil, senhor doutor. Sabe, eu estava em Frana, e o Sr. Douglas estava em Inglaterra e mais tarde nos Estados Unidos, e com a Frana ocupada pelos 
Alemes...
- Perdo?
- Eu disse com a Frana ocupada...
- S um momento. quero ter a certeza se entendo o que est a dizer-me, Sr. Barbet. Foi-nos dito pelo advogado de Miss Page que ela e Larry Douglas se conheceram 
h uns poucos de meses e se apaixonaram loucamente. Agora o senhor vem dizer-me que o caso amoroso entre eles comeou... h quanto tempo?
- H pelo menos seis anos.
Pandemnio.
Demonides lanou a Chotas um olhar triunfante.
- A testemunha  sua.
Napoleon Chotas coou os olhos, ergueu-se do lugar onde estava sentado e caminhou na direco do banco das testemunhas.
- No tomarei muito do seu tempo, Sr. Barbet. Sei que deve estar ansioso por voltar para junto da sua famlia em Frana.
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- Pode demorar o tempo que quiser, senhor doutor - disse ele pretensiosamente.
- Obrigado. Perdoe-me a intimidade, mas o fato que traz vestido  muito bonito, Sr. Barbet.
- Obrigado, senhor doutor.
- Fabricado em Paris?
- Foi, sim.
- Fica-Lhe muito bem. J eu no tenho tanta sorte com os meus fatos. J experimentou os alfaiates ingleses? Dizem que so excelentes.
- No, senhor doutor.
- Estou certo de que j esteve em Inglaterra muitas vezes.
- Bem... no.
- Nunca?
- No, senhor doutor.
- J esteve nos Estados Unidos?
- No.
- Nunca.
- No, senhor doutor.
- J esteve no Pacfico Sul?
- No, senhor doutor.
- Ento o senhor deve ser m detective fantstico, Sr. Barbet. tiro-lhe o meu chapu. Estes seus relatrios cobrem as actividades de Larry Douglas em Inglaterra, 
nos Estados Unidos e no Pacfico Sul... e no entanto diz-me que nunca esteve em nenhum destes stios. O senhor deve ser um mdium.
- Permita-me que o corrija, senhor doutor. Eu no precisava de ter estado em nenhum desses lugares. Utilizo aquilo a que chamamos agncias correspondentes em Inglaterra 
e na Amrica.
- Ah, perdoe a minha estupidez. Mas  claro! Foram ento essas pessoas que de facto cobriram as actividades do Sr. Demiris?
- Exactamente.
- Portanto, o senhor no tem conhecimento pessoal dos movimentos de Larry Douglas?
- Bem... no, senhor doutor.
- Portanto, na realidade, todas as suas informaes so em segunda mo?
- Suponho que... de certa maneira o so.
Chotas voltou-se para os juzes.
- Peo a anulao de todo o depoimento desta testemunha, Meretssimos Juzes, com base de que se trata de boatos.
382

Peter Demonides ps-se de p num salto.
- Protesto, Meretssimos Juzes! Miss Page contratou o Sr. Barbet para obter informaes sobre Larry Douglas. Isso no  boato.
- O meu douto colega apresentou os relatrios como prova - disse Chotas com gentileza. - Estou totalmente disposto a aceit-los... se desejar trazer aqui os homens 
que de facto conduziram a vigilncia do Sr. Douglas. De outro modo, devo pedir ao tribunal que assuma que no houve semelhante vigilncia e pedir que o depoimento 
desta testemunha seja anulado.
O presidente do tribunal virou-se para Demonides.
- Consegue trazer as testemunhas  nossa presena?
- Isso  impossvel - balbuciou Peter Demonides. - O Sr. Chotas sabe que levaria meses a localiz-los!
O presidente voltu-se para Chotas.
- Moo concedida.
Peter Demonides estava a interrogar.
- Queira identificar-se.
- George Mousson.
- Qual  a sua ocupao?
- Sou recepcionista no Hotel Palace em Jnina.
- Importa-se de olhar para os dois rus ali sentados. J os viu antes?
- O homem j. Esteve hospedado no nosso hotel em Agosto ltimo.
- Seria o Sr. Larry Douglas?
- Sim, senhor doutor.
- Estava sozinho quando se registou no hotel?
- No, senhor doutor.
- Dizia-nos quem o acompanhava?
- A mulher.
- Catherine Douglas?
- Sim, senhor doutor.
- Registaram-se como Sr. e Sr.  Douglas?
- Sim, senhor doutor.
- Alguma vez falou com o Sr. Douglas sobre as grutas de Perama?
- Falei, sim, senhor doutor.
- Quem falou no assunto primeiro?
383
- Se bem me lembro, foi ele. Fez-me perguntas e disse que a mulher estava ansiosa por conhec-las. Que adorava grutas. Isso pareceu-me anormal.
- Oh? E porqu?
- Bem, as mulheres no se interessam por exploraes e coisas parecidas.
- Por acaso nuncafalou nas grutas com a Sr.  Douglas, pois no?
- No, senhor doutor. Apenas com o Sr. Douglas.
- E que  que lhe disse?
- Bem, lembro-me de lhe dizer que as grutas podiam ser perigosas.
- Foi feita qualquer referncia a um guia?
O empregado assentiu.
- Sim, tenho a certeza de que lhe sugeri que levasse um guia. Recomendo um a todos os nossos hspedes.
- No tenho mais perguntas. A testemunha  sua, Sr. Chotas.
- H quanto tempo est na actividade hoteleira, Sr. Mousson?
- H mais de vinte anos.
- E antes disso era psiquiatra?
- Eu? No, senhor doutor:
- Talvez psiclogo?
- No, senhor doutor.
- Oh. Ento o senhor no  nenhum especialista do comportamento feminino! 
- Bem, posso no ser nenhum psiquiatra, mas na actividade hoteleira aprende-se muita coisa sobre mulheres.
- Sabe quem  Osa  Johnson?
- Osa... ? No.
-  uma famosa exploradora mundial. J ouviu falar de Amelia Earhart?
- No, senhor doutor.
- Margaret Mead?
- No, senhor doutor.
-  casado, Sr. Mousson?
- De momento no. Mas fui casado trs vezes, por isso sou um especialista em mulheres.
- Pelo contrrio, Sr. Mousson. O que eu penso  que se fosse de facto um especialista em mulheres teria sido capaz de aguentar um casamento. No tenho mais perguntas.
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- Nome, por favor?
- Christopher Cocyannis.
- Qual  a sua ocupao?
- Sou guia nas grutas de Peramam.
- H quanto?
- H dez anos.
- Gosta do que faz?
- Gosto muito. Todos os anos vm milhares de turistas ver as grutas.
- Importas-se de olhar para o homem que est sentado ali? J viu o Sr. Douglas antes?
- J sim, senhor doutor. Esteve nas grutas em Agosto.
- Tem a certeza?
- Absoluta.
- Mas isso espanta-nos a todos, Sr. Cocyannis. De todos os milhares de turistas que visitam as grutas, o senhor consegue lembrarse de um indivduo?
- Era dificil esquec-lo.
- Por que diz isso, Sr. Cocyannis?
- Antes de mais, porque no quis levar um guia.
- Todos os visitantes levam guias?
- Os alemes e os franceses so forretas, mas os americanos levam todos.
Risos.
- Compreendo. Havia outra razo para que se lembrasse do Sr. Douglas?
- Sem dvida. No teria reparado nele s por causa da questo do guia, e a mulher que o acompanhava ficou embaraada quando ele disse que no. Depois, cerca de uma 
hora mais tarde, vi-o sair pela entrada apressado, vinha sozinho e parecia bastante perturbado, e eu pensei que talvez a mulher tivesse tido um acidente ou coisa 
no gnero. Fui ter com ele e perguntei se a senhora estava bem; fitou-me de um modo estranho e disse: que senhora? e eu disse: A senhora que levou para as grutas 
consigo. Ficou plido e eu pensei que me fosse bater. Depois comeou a gritar: No a encontro. Preciso de ajuda, e comeou a agir como um doido.
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- Mas s pediu ajuda quando lhe perguntou onde estava a mulher de quem deu falta?
-  verdade.
- que aconteceu a seguir?
- Bem, reuni os outros guias e comemos a busca. Um idiota qualquer tinha tirado o aviso de Perigo da nova seco, que ainda no est aberta ao pblico. Foi onde 
acabmos por encontr-la cerca de trs horas mais tarde. Estava muito mal.
- Uma ltima pergunta. E responda com muito cuidado. Quando o Sr. Douglas saiu da gruta, estava  procura de algum a quem pedir ajuda, ou teve a impresso de que 
estava a ir-se embora?
- Estava a ir-se embora.
- A testemunha  sua.
A voz de Napoleon Chotas era muito gentil.
- Sr. Cocyannis, o senhor  psiquiatra?
- No, senhor doutor. Sou guia.
- E no  mdium?
- No sou, no.
- Fao-lhe esta pergunta porque na semana passada tivemos recepcionistas peritos em psicologia humana, testemunhas pitosgas, e agora vem o senhor dizer-nos que consegue 
olhar para um homem que chamou a sua ateno porque lhe pareceu agitado e soube adivinhar-lhe o pensamento.
Como  que o senhor sabia que ele no estava  procura de ajuda quando foi ter com ele e lhe falou?
- Porque deu a entender.
- E consegue lembrar-se assim to bem do comportamento dele?
-  verdade.
-  bvio que tem uma memria notvel. Gostaria que percorresse o olhar pela sala de audincias. J viu algum dos presentes sem ser hoje?
- O ru.
- Sim. E alm dele? Veja bem.
- No.
- Se tivesse, ter-se-ia lembrado?
- Sem dvida.
- Nunca me viu antes?
- No, senhor doutor.
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- Queira olhar para este pedao de papel, por favor. Pode dizer-me do que se trata?
-  um bilhete.
- De qu?
- Das grutas de Perama.
- E qual  a data?
- Segunda-feira. H trs meses.
- Pois . Esse bilhete foi comprado e utilizado por mim, Sr. Cocyannis. ramos um grupo de cinco. O senhor foi o nosso guia. No tenho mais perguntas.
- Qual  a sua profisso?
- Sou paquete do Hotel Palcio em Jnina.
- Olhe por favor para a r que se encontra sentada naquele banco. J a viu antes?
- Sim, senhor doutor. No cinema.
- J a tinha visto antes?
- J sim, senhor doutor. Entrou no hotel e perguntou-me em que quarto estava o Sr. Douglas hospedado. Eu disse-lhe que devia perguntar na recepo e ela disse-me 
que no queria ma-los, por isso dei-lhe o nmero do apartamento.
- E isso aconteceu quando?
- No dia um de Agosto. No dia do meltemi.
- E tem a certeza de que era a mesma mulher?
- Como  que eu a poderia esquecer? Deu-me uma gorjeta de duzentos dlares.
Ojulgamento ia na quarta semana. Todos concordavam que Napoleon Chotas conduzia a melhor defesa de sempre. Apesar disso, a culpa ia tecendo uma teia cada vez mais 
apertada.
Peter Demonides construa um quadro de dois amantes, que queriam desesperadamente estarjuntos, casados, sendo Catherine Douglas a nica pedra no seu caminho. Lentamente, 
dia aps dia, Demonides especulou sobre a trama que ia mat- la.
O advogado de Larry Douglas, Frederick Stavros, abdicara com todo o prazer do seu papel e confiara em Napoleon Chotas. Mas agora at o prprio Stavros comeava a 
sentir que seria preciso um milagre para se conseguir uma absolvio. Stavros fixou o olhar na cadeira va
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zia que se encontrava na sala apinhada de gente e interrogou-se se Constantin Demiris iria estar mesmo presente. Se Noelle Page fosse condenada, o magnata grego 
no deveria aparecer, pois isso significaria a sua derrota. Por outro lado, se o magnata soubesse que ia haver uma absolvio, deveria aparecer. A cadeira vazia 
ia-se tornando num smbolo do desfecho do julgamento.
O lugar permaneceu vazio.
Foi numa sexta-feira que o caso explodiu finalmente.
- Queira dizer-nos o seu nome, por favor.
- Dr. Kazomides. John Kazomides.
- Alguma vez esteve com o Sr. ou a Sr.  Douglas, doutor?
- J sim, com ambos.
- Em que ocasio?
- Recebi uma chamada para ir s grutas de Perama. Uma mulher perdera-se por l, e quando a equipa de busca finalmente a encontrou ela estava em estado de choque.
- Estava fisicamente magoada?
- Sim. Havia mltiplas contuses. As mos, os braos e as faces estavam cheios de arranhes causados pelas rochas. tinha cado e batido com a cabea, da eu ter 
diagnosticado uma possvel concusso. Dei-lhe de imediato uma injeco de morfina para as dores e disse-lhes que a levassem ao hospital local.
- E foi para l?
- No foi, no.
- Importa-se de dizer ao jri por que no?
- Por insistncia do marido levaram-na de volta para o apartamento do Hotel Palace.
- No achou isso estranho, doutor?
- O marido disse que queria ser ele a olhar por ela.
- De forma que a Sr. Douglas foi levada de volta para o hotel. Acompanhou-a at l?
- Exacto. Insisti em ir com ela at ao apartamento. queria estar  beira da cama dela quando despertasse.
- E estava l quando ela acordou?
- Estava, sim.
- A Sr  Douglas disse-lhe alguma coisa?
- Disse.
- Dizia ao tribunal o que foi?
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- Disse-me que o marido tinha tentado mat-la.
S depois de uns bons cinco minutos  que o tumulto gerado na sala acalmou, e o presidente teve de ameaar que mandaria evacuar a sala para o burburinho terminar. 
Napoleon Chotas fora at ao banco da r e conferenciava apressadamente com Noelle Page. Pela primeira vez, parecia perturbada. Demonides prosseguia com o interrogatrio.
- O doutor disse no seu testemunho que a Sr.  Douglas estava em estado de choque. Na sua opinio de mdico, ela estava lcida quando lhe disse que o marido tentou 
mat-la?
- Estava, sim. Euj lhe tinha dado um sedativo nas grutas e ela estava relativamente calma. Contudo, quando lhe disse que lhe ia dar mais um sedativo, ficou extremamente 
agitada e implorou-me que no o fizesse.
O presidente do tribunal inclinou-se para a frente e perguntou:
- Explicou porqu?
- Sim, Meretssimo. Disse que o marido a mataria durante o sono.
O presidente recostou-se na cadeira pensativamente e disse a Peter Demonides.
- Pode continuar.
- Dr. Kazomides, chegou a administrar um segundo sedativo  Sr.  Douglas?
- Administrei, sim.
- Enquanto estava deitada no apartamento?
- Exacto.
- Como o administrou?
- Por via hipodrmica. Na anca.
- E ela j dormia quando o senhor se foi embora?
- J, sim.
- Havia alguma hiptese de a Sr.  Douglas poder ter acordado a qualquer altura nas horas que se seguiram, sado da cama sem ajuda, ter-se vestido e sado daquela 
casa sem ajuda?
- No estado em que se encontrava? No. Seria muitssimo improvvel. Estava fortemente medicada.
-  tudo, obrigado, doutor.
Osjurados olhavam fixamente para Noelle Page e Larry Douglas, e os seus rostos tornaram-se frios e inamistosos. Um estranho podia ter entrado na sala e adivinhado 
o rumo que o caso tomara.
Os olhos de Bill Fraser brilhavam de satisfao. Depois do depoi
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mento do Dr. Kazomides j no podia haver a menor dvida de que Catherine fora assassinada por Larry Douglas e Noelle Page. Nada havia que Napoleon Chotas pudesse 
fazer para irradicar das mentes dos jurados a imagem duma mulher aterrorizada, drogada e indefesa, implorando para que no fosse abandonada s mos do seu assassino.
Frederick Stavros entrara em pnico. Deixara alegremente que Napoleon Chotas desse as cartas, indo atrs dele com f cega, confiante de que Chotas era capaz de garantir 
uma absolvio para a sua cliente e logo para o seu cliente. Neste momento sentia-se trado. Ia tudo por gua abaixo. O depoimento do mdico fora irreparavelmente 
prejudicial, tanto pelo impacte das provas como pelo impacte emocional. tirando o lugar misteriosamente reservado, a sala estava cheia. A imprensa mundial estava 
presente,  espera de relatar o que aconteceu depois.
Stavros viu-se momentaneamente a erguer-se, confrontar o mdico e transformar o depoimento dele em retalhos. O seu cliente seria absolvido e ele, Stavros, seria 
um heri. Sabia que seria a sua ltima oportunidade. O desfecho deste caso traaria a linha entre a fama e a obscuridade. Stavros sentia de facto os msculos da 
coxa contrarem-se, exigindo-lhe que se erguesse. Mas no conseguia mexer-se. Permaneceu sentado, paralisado, perante o espectro esmagador do fracasso. Voltou-se 
para olhar para Chotas. Os olhos tristes e profundos do rosto de co de caa examinavam o mdico sentado no banco das testemunhas, como se tentassem chegar a alguma 
concluso.
Lentamente, Napoleon Chotas ps-se de p. Mas, em vez de se aproximar da testemunha, foi at  tribuna e calmamente dirigiu-se aos juzes.
- Sr. Presidente, Meretssimos Juzes, no desejo contra-inter rogar a testemunha. Com permisso do tribunal, gostava de pedir um intervalo para conferenciar no 
gabinete particular com a Mesa e o advogado de Acusao.
O presidente do Tribunal virou-se para a Acusao.
- Sr. Demonides?
- No me oponho - disse Demonides, com uma voz desconfiada. A sesso foi interrompida. Ningum saiu do lugar.
trinta minutos depois, Napoleon Chotas regressou  sala de audincias sozinho. No instante que atravessou a porta do gabinete, todos na sala sentiram que algo importante 
acontecera. Havia um ar
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de auto-satisfao secreta no rosto do advogado, cujo andar estava mais rpido e gil, como se tivesse resolvido alguma charada ej no fossem necessrios mais jogos. 
Chotas aproximou-se do banco dos rus e fitou Noelle: ela ergueu o olhar para ele, com uns olhos cor de violeta, penetrantes e ansiosos. E de repente um sorriso 
aflorou aos lbios do advogado, e do brilho dos olhos dele Noelle sabia que de alguma forma conseguira, realizara o milagre apesar de todas as provas, apesar de 
todos os contras. Ajustia triunfara, mas era ajustia de Constantin Demiris. Tambm Larry Douglas olhava fixamente para Chotas, cheio de medo e de esperana. Fosse 
o que fosse, Chotas fizera-o em benefcio de Noelle. E ele?
Chotas dirigiu-se a Noelle numa voz cuidadosamente neutra.
- O presidente do tribunal deu-me autorizao para falar consigo no gabinete particular dele. - Voltou-se para Frederick Stavros, que estava numa agonia de incerteza, 
sem saber o que se passava. O senhor e o seu cliente tm permisso para vir connosco se o desejarem.
Stavros assentiu.
- Naturalmente.
Ps-se de p  pressa, quase tropeando na cadeira, tal era a ansiedade. Dois oficiais de justia acompanharam-nos ao gabinete particular do presidente, que se encontrava 
vazio. Quando os oficiais de justia saram e ficaram sozinhos, Chotas voltou-se para Frederick Stavros.
- O que eu vou dizer - disse ele calmamente -  para o bem da minha cliente. Porm, porque so corus, consegui que ao seu cliente fosse concedido o mesmo privilgio.
- Diga! - exigiu Noelle.
Chotas virou-se para ela. Falava lentamente, escolhendo as palavras com grande cuidado.
- Acabei de ter uma conferncia com osjuzes - disse ele. - Ficaram impressionados com o caso que a acusao fez contra os dois. Contudo - fez uma pausa, delicadamente 
-, consegui... ah... convenc-los de que os interesses dajustia no seriam servidos com o vosso castigo.
- que vai acontecer? - perguntou Stavros com grande impacincia.
Havia um tom de profunda satisfao na voz de Chotas quando prosseguiu:
- Se os rus estiverem dispostos a confessar a sua culpa, os ju
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zes concordaram em dar uma pena de cinco anos a cada um. - Sorriu e acrescento: - Quatro dos quais sero de pena suspensa. Na realidade, no tero de cumprir mais 
de seis meses. - Virou-se para Larry. - Pelo facto de ser americano, Sr. Douglas, ser deportado. Nunca mais poder voltar  Grcia. Larry concordou, invadido por 
uma onda de alvio. Chotas voltou-se de novo para Noelle. - No foi fcil de alcanar. Devo dizer-lhe com toda a honestidade que a primeira razo para a benevolncia 
do tribunal  o interesse do seu... ah... patrono. Sentem quej sofreu indevidamente por causa de toda a publicidade e esto ansiosos para que isto chegue ao fim.
- Entendo - disse Noelle.
Napoleon Chotas hesitou com embarao.
- H mais uma condio.
Olhou para ele.
- Sim?
- O seu passaporte ser-lhe- retirado. Nunca poder deixar a Grcia. Ficar aqui sob a proteco do seu amigo.
Afinal, tudo fora conseguido.
Constantin Demiris no faltara ao combinado. Noelle nem por sombras acreditava que os juzes foram benevolentes porque se preocupavam com o facto de Demiris ter 
sido sujeito a publicidade inconveniente. No, tivera de pagar um preo pela liberdade dela, e sabia que devia ter sido um preo bem elevado. Mas em troca Demiris 
tinha-a de volta e obrigava-a a nunca mais poder deix-lo. Ou rever Larry. Voltou-se para Larry e viu o alvio no rosto dele. Ia ser posto em liberdade, e no estava 
interessado noutra coisa. No havia mgoa por perd-la ou pelo que acontecera. Mas Noelle entendia, porque conhecia Larry, pois ele era o seu alter ego, o seu Doppelganger, 
e tinham ambos o mesmo prazer irresponsvel pela vida, os mesmos apetites insaciveis. Eram espritos gmeos para alm da mortalidade, para alm das leis que nunca 
fizeram e a que nunca obedeceram. A sua maneira, Noelle sentiria muito a falta de Larry, e quando se fosse embora parte dela iria com ele. Mas conhecia agora o valor 
precioso da vida e o medo de a perder. Feitas bem as contas era uma boa troca, e aceitou-a agradecidamente. Virou-se para Chotas e disse:
- Isso  satisfatrio.
Chotas olhou para ela, e nos seus olhos havia no s tristeza mas tambm satisfao. Noelle tambm entendeu isso. Estava apaixonado por ela e tivera de usar todo 
o seu engenho para a salvar de outro homem. Noelle encorajara deliberadamente Chotas a apaixonarse
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por ela porque precisava dele, precisava de ter a certeza de que nada o impediria de a salvar. E tudo resultara.
- Acho que  absolutamente maravilhoso-balbuciava Frederick Stavros. - Absolutamente maravilhoso.
Em boa verdade, Stavros sentiu que era um milagre, quase to eficaz como uma absolvio, e, embora fosse verdade que Napoleon Chotas ficaria com os louros quase 
todos para si, a irradiao perifrica seria ainda assim tremenda. A partir deste momento, Stavros teria a sua seleco de clientes, e sempre que contasse o conto 
dojulgamento acrescentaria um ponto ao papel que nele representou.
- Parece um bom acordo - dizia Larry. - S que ns estamos inocentes. No matmos Catherine.
Frederick Stavros voltou-se para ele furioso.
- Quem se importa que estejam ou no inocentes? - gritou ele.
- Estamos a dar-lhes a vossa vida de presente. - Lanou um olhar rpido a Chotas para ver se reagia ao ns", mas o advogado estava a ouvir, com uma atitude neutra 
e distante.
- Quero que perceba - disse Chotas a Stavros - que eu estou apenas a aconselhar a minha cliente. O seu cliente  livre de tomar a sua prpria deciso.
- Que nos teria acontecido a ns sem este acordo? - perguntou Larry.
- O jri teria... - principiou Frederick Stavros.
- Quero que seja ele a diz-lo -interrompeu Larry, asperamente. Voltou-se para Chotas.
- Numjulgamento, Sr. Douglas -respondeu Chotas -, o factor mais importante no  a inocncia ou a culpa, mas a impresso de inocncia ou culpa. No h verdade absoluta, 
existe apenas a interpretao da verdade. Neste caso, no interessa se o senhor est inocente em relao ao homicdio, pois o jri tem a impresso de culpa. Seria 
esse o motivo por que teria sido condenado, e acabariam pormat-lo tambm.
Larry olhou para ele demoradamente, depois assentiu:
- Est bem - disse ele. - Vamos para a frente com isso.
Quinze minutos depois, os dois rus encontravam-se diante da tribuna dos juzes. O presidente do tribunal estava sentado ao centro, ladeado pelos dois juzes. Napoleon 
Chotas estava ao lado de Noelle Page, e Frederick Stavros ao lado de Larry Douglas. A sala de
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audincias tinha uma carga de tenso elctrica, pois correra o boato de que ia haver uma evoluo dramtica. Mas, quando aconteceu, apanhou todas as pessoas desprevenidas. 
Numa voz formal e pedante, como se no tivesse feito uma troca secreta com os trs juzes da tribuna, Napoleon Chotas disse:
- Sr. Presidente, Meretssimos Juzes, a minha cliente deseja declarar-se culpada.
O presidente do tribunal recostou-se na cadeira e fitou Chotas surpreendido, como se estivesse a ouvir a notcia pela primeira vez.
Est a levar ojogo at ao fim, pensou Noelle. Quer fazer por merecer o dinheiro que vai ganhar ou o que Demiris lhe vai dar.
O presidente inclinou-se para a frente e aconselhou-se junto dos outrosjuzes numa agitao de murmrios. Concordaram, e o presidente baixou o olhar para Noelle 
e disse:
- Deseja declarar-se culpada?
Noelle aquiesceu e disse com firmeza:
- Desejo.
Frederick Stavros expressou-se com rapidez, como se receasse ficar de fora do processo.
- Meretssimos Juzes, o meu cliente deseja declarar-se culpado. O presidente voltou-se e olhou para Larry.
- Deseja declarar-se culpado?
Larry olhou de relance para Chotas e aquiesceu.
- Desejo.
O presidente examinou os dois prisioneiros com o rosto grave.
- Foram advertidos pelos vossos advogados de que  luz do direito grego a pena por crime premeditado  a execuo?
- Sim, senhor doutor juiz. - A voz de Noelle era forte e clara. O presidente voltou-se para Larry.
- Sim, senhor doutor juiz.
Seguiu-se nova consulta sussurrada entre osjuzes. O presidente do tribunal voltou-se para Demonides.
- O procurador da Repblica tem alguma objeco a fazer em relao  alterao da alegao?
Demonides olhou para Chotas longamente, dizendo depois:
- Nenhuma.
Noelle interrogou-se se ele tambm fazia parte da folha de pagamentos, ou se estava simplesmente a ser usado como peo.
- Muito bem - disse o presidente. - Ao tribunal s resta aceitar a deciso. - Voltou-se para o jri. - Meus senhores, em vista
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desta evoluo, ficam deste modo libertados do vosso dever de jurados. Com efeito, o julgamento chegou ao seu trmino. O tribunal ir ditar a sentena. Agradeo 
os vossos servios e a vossa cooperao. A sesso ser suspensa por duas horas.
No momento seguinte, os reprteres comearam a sair da sala aos atropelos, correndo para os telefones e mquinas do teletipo para dar notcia do recente e sensacional 
desenvolvimento dojulgamento porhomicdio de Noelle Page e Larry Douglas.
Duas horas depois, a sala de audincias estava apinhada de pblico quando o tribunal voltou a reunir. Noelle deu um relance pelos rostos dos espectadores. Olhavam-na 
com expresses de expectativa ansiosa, e foi tudo quanto Noelle podia fazer para no se rir em voz alta da sua ingenuidade. Eram pessoas comuns, o povo, que realmente 
acreditavam que ia fazer-sejustia, que em democracia todos os  homens eram iguais, que um pobre tinha os mesmos direitos e privilgios que um rico.
- Levantem-se os rus e aproximem-se da tribuna. Graciosamente, Noelle ps-se de p e avanou em direco  tribuna, ladeada por Chotas. Do canto do olho viu Larry 
e Stavros avanarem.
Teve a palavra ojuiz-presidente.
- Assistimos a umjulgamento longo e difcil -comeou por dizer.
- Em casos importantes onde se verifica uma dvida razovel de culpa, o tribunal inclina-se sempre para dar aos acusados o benefcio da dvida. Devo confessar que 
neste caso sentimos que tal dvida existia. O facto de que a Acusao no conseguiu apresentar o corpo do delito era um ponto muito forte em favor dos rus. - Olhou 
para Napoleon Chotas. - Estou certo de que o competente advogado de Defesa est bem ciente de que os tribunais gregos nunca se decidiram pela pena de morte num caso 
em que a prtica do homicdio no tenha ficado definitivamente provada.
Uma ligeira sensao de mal-estar comeou a invadir Noelle, nada de alarmante, porm, apenas uma sugesto, uma leve insinuao. O presidente prosseguia.
- Eu e os meus colegas ficmos, por essa razo, sinceramente surpreendidos quando os rus decidiram passar as suas alegaes para culpados, em plenojulgamento.
A sensao estava agora na boca do estmago de Noelle, a crescer,
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a subir, a comear a apertar-lhe a garganta, de tal forma que comeou a ter dificuldades em respirar. Larry fitava ojuiz, ainda sem copreender totalmente o que estava 
a passar-se.
- Damos valor  introspeco agonizante que deve ter acontecido antes de os rus terem decidido confessar-se culpados perante este tribunal e perante o mundo. Todavia, 
o alvio das suas conscincias no pode ser aceite como atenuante do crime terrvel que confessaram ter cometido: a morte a sangue- frio duma mulher impotente e 
indefesa.
Foi nesse momento que Noelle soube, com uma certeza sbita e esmagadora, que fora ludibriada. Demiris preparara uma charada para acalm-la num sentimento de falsa 
segurana para que pudesse fazer-lhe isto. Este foi o seujogo, esta foi a armadilha que montara. Ele sabia do medo que ela tinha de morrer, de forma que lhe atirou 
a corda da vida e ela aceitou-a, acreditou nele, e ele enganou-a. Demiris queria vingar- se agora, no depois. Podia ter salvo a vida. Claro que Chotas sabia que 
no seria condenada  morte a no ser que se apresentasse um cadver. No fizera nenhum contrato com osjuzes. Chotas tinha montado toda a defesa para atrair Noelle 
at  morte. Voltou-se para olh-lo. Ergueu o olhar para enfrentar a contemplao dela, e os olhos dele estavam cheios de pura tristeza. Amava-a e matara-a, e se 
tivesse de o fazer outra vez faria a mesma coisa, porque afinal de contas era um homem de Demiris, tal como ela era uma mulher de Demiris, e nenhum deles conseguia 
combater o poder dele.
O presidente dizia:
e pelos poderes de que estou investido pelo Estado e em conformidade com as leis vigentes, declaro que os dois rus, Noelle Page e Lawrence Douglas, sero executados 
por um peloto de fuzilamento... pena que ser executada dentro de noventa dias contados a partida desta data.
O tribunal era um pandemnio, mas Noelle j no ouvia nem via nada. Algo a fizera a olhar para trs. O lugar vazio j no estava desocupado. Constantin Demiris estava 
sentado nele. Acabara de sair do barbeiro. Vestia um fato azul de seda crua, impecavelmente talhado, uma camisa azul-clara e uma gravata de seda. Os seus olhos cor 
de azeitona estavam brilhantes e vivos. No havia sinal do homem derrotado e desfeito que fora v-la  priso, porque esse homem nunca existira.
Constantin Demiris viera ver Noelle no momento da sua derrota,
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para saborear o temor que ela sentia. Os seus olhos negros estavam cravados nos dela, e por um milsimo de segundo ela viu neles uma satisfao profunda e malvola. 
E havia algo mais. Remorso, talvez, masj tinha desaparecido antes que ela pudesse capt-lo, e de qualquer forma j era tarde de mais. A partida de xadrez findara 
por fim.
Larry ouvira as ltimas palavras do presidente com descrena chocada, e, quando um oficial de diligncias avanou e o levou pelo brao, Larry soltou-se e voltou-se 
de novo para a tribuna.
- Esperem! - gritou ele. - Eu no a matei! Isto foi uma armadilha!
Outro oficial de diligncias precipitou-se e os dois homens seguraram Larry. Um deles tirou um par de algemas.
- No! - gritava Larry. - Ouam-me! Eu no a matei! Tentou desprender-se das mos dos oficiais de diligncias, mas as algemas fecharam-se-lhe nos pulsos e ele foi 
arrastado para fora da sala.
Noelle sentiu uma presso sobre o brao. Uma mulher-polcia aguardava-a para escolt-la para fora da sala.
- Esto  sua espera, Miss Page.
Parecia a chamada para o palco. Esto  sua espera, Miss Page. S que, desta vez, quando o pano descesse, no voltaria a levantar-se. Ao pensar nisso, Noelle apercebeu-se 
de que seria a ltima vez na vida que estaria em pblico, a ltima vez que estaria rodeada de pessoas, fora das grades. Era a hora da despedida, e esta sala de audincias 
grega, suja e medonha, o seu ltimo teatro. Bem", pensou ela desafiadoramente, Kpelo menos a sala est cheia." Percorreu o olhar pela sala apinhada de gente uma 
ltima vez. Viu Armand Gautier que a fitava em silncio espantado, despido ao menos uma vez do seu cinismo.
L estava Philippe Sorel, de rosto congestionado, esforando-se por um sorriso encorajante, sem o conseguir.
Do outro lado da sala estava Israel Katz, de olhos fechados e os lbios movimentando-se como se dissesse uma orao silenciosa. Noelle lembrou-se da noite em que 
o meteu no porta-bagagens do carro do general, nas barbas do oficial albino da Gestapo, e do medo que ento sentira. Mas isso no era nada quando comparado ao medo 
que a possua agora.
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Os olhos de Noelle percorreram a sala e descansaram no rosto de Auguste Lanchon, o lojista. No conseguiu lembrar-se do nome dele, mas lembrava-se da cara de suno 
e do corpo atarracado e grosseiro e do quarto medonho do hotel em Viena. Quando a viu olhar para ele, pestanejou e baixou os olhos.
Um homem com ar de americano, alto, atraente e de cabelos grisalhos, olhava-a fixamente como se desejasse dizer-lhe qualquer coisa. Noelle no fazia ideia de quem 
se tratava. A guarda empurrava-lhe agora o brao, dizendo:
- Vamos, Miss Page...
Frederick Stavros estava em estado de choque. No s fora testemunha de uma trama a sangue-frio; fizera parte da mesma. Podia ir ter com o presidente do tribunal 
e contar-lhe o que acontecera: o que Chotas prometera. Mas iriam acreditar nele? Aceitariam a palavra dele contra a de Napoleon Chotas? Realmente no importava, 
pensou Stavros amargamente. Depois disto, estava destrudo como advogado. Ningum solicitaria os seus servios nunca mais. Algum o chamou e ele voltou-se; era Chotas 
que dizia:
- Se estiver livre amanh, porque no vem almoar comigo, Fre derick? Gostaria que conhecesse os meus scios. Acho que voc tem um futuro muito prometedor.
Sobre o ombro de Chotas, Frederick Stavros viu o presidente do tribunal sair da sala e entrar no gabinete particular. Seria a altura de lhe falar, de lhe explicar 
o sucedido. Stavros voltou-se para Napoleon Chotas, completamente horrorizado com a aco deste homem, e ouviu-se a si prprio dizer:
-  muita gentileza sua. Que hora mais lhe convinha... ?
Pela lei grega, as execues realizam-se na pequena ilha de Agena, situada a uma hora de distncia do porto de Pireu. Um barco especial do Estado transporta at 
 ilha os prisioneiros condenados. Uma srie de pequenos rochedos cinzentos ladeiam o caminho que vai dar ao prprio porto, e bem no cimo duma colina est um farol 
construdo numa salincia duma rocha. A priso de Agena fica no lado norte da ilha, fora da vista do portinho onde os bareos de excurso deixam regularmente turistas 
excitados para uma ou duas horas de compras e de passeio antes de prosseguirem viagem at  prxima
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ilha. Apriso no faz parte do programa turstico, e ningum se aproxima a no ser por razes oficiais.
Eram quatro horas duma manh de domingo. A execuo de Noelle estava marcada para as seis da manh.
trouxeram a Noelle o seu vestido preferido, um Dior de l cor de vinho, e sapatos de camura a condizer. Ia estrear roupa interior bordada  mo e um peitilho de 
renda branca de Veneza. Constantin Demiris mandara-lhe a cabeleireira habitual. Parecia que Noelle se preparava para uma festa. Racionalmente, Noelle sabia que no 
haveria perdo de ltima hora, que dentro de pouco tempo o seu corpo seria brutalmente violado e o seu sangue se espalharia pelo cho. E, no entanto, emocionalmente, 
continuava a esperar que Constantin Demiris fizesse um milagre e lhe poupasse a vida. Nem precisava de ser um milagre - bastava apenas um telefonema, uma palavra, 
um aceno com a sua mo dourada. Se a poupasse agora, compens-lo-ia. Faria tudo. Se ao menos pudesse v-lo, dir-lhe-ia que no voltaria a olhar para outro homem, 
que se dedicaria a faz-lo feliz para o resto da vida. Mas sabia que no adiantava implorar. Se Demiris viesse ter com ela, estava bem: Se tinha de ir ter com ele, 
no.
Ainda faltavam duas horas.
Larry Douglas estava noutra seco da priso. Desde a condenao, o seu correio aumentara dez vezes. Chegavam cartas de mulheres de todo o mundo, e o guarda, que 
se considerava um homem sofisticado, ficava chocado com algumas delas.
Larry Douglas t-las-ia provavelmente apreciado se tivesse tido conhecimento das mesmas. Mas estava drogado num mundo de meiocrepsculo onde nada o atingia. Nos 
primeiros dias na ilha, ficara num estado de violncia, gritando noite e dia que era inocente e exigindo um novojulgamento. O mdico da priso ordenara por fim que 
ficasse sob o efeito de tranquilizantes. Quando faltavam dez minutos para as cinco horas da manh, hora a que os guardas vieram  cela de Larry Douglas, estava sentado 
no beliche, calmo e retirado. O guarda teve de dizer o nome dele duas vezes para que Larry desse conta de que o tinham vindo buscar. Ps-se de p, com movimentos 
sonmbulos e letrgicos.
O guarda levou-o; e caminharam em lenta procisso at uma
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porta guardada ao fundo do corredor. Assim que chegaram  porta, o guarda abriu-a e estavam no exterior, num ptio murado. O ar do princpio do dia era frio e Larry 
tremia quando atravessou a porta. No cu havia estrelas e uma lua cheia. Vieram-lhe  ideia as manhs nas ilhas do Sul do Pacfico quando os pilotos deixavam os 
seus beliches quentes e se agrupavam sob as estrelas frias para uma ltima verificao das instrues de voo antes da descolagem. Ouvia o som do mar ao longe, e 
tentou lembrar-se em que ilha estava e qual era a sua misso. Uns homens levaram-no para um poste em frente a uma parede e ataram-Lhe as mos atrs das costas.
No sentia qualquer raiva agora, apenas uma espcie de admirao sonolenta pela forma como as instrues de voo estavam a ser feitas. Estava possudo por uma enorme 
lassido, mas sabia que no podia adormecer porque tinha de comandar a misso. Ergueu a cabea e viu os homens de uniforme alinhados. Apontavam as armas para ele. 
Surgiram instintos antigos e esquecidos. Eles atacariam de todas as direces e tentariam separ-lo do resto da esquadrilha, porque tinham medo dele. Viu um movimento 
a trs quartos e sabia que vinham atrs dele. Esperavam que sasse do alcance, mas em vez disso meteu os comandos afundo e fez um loop exterior que quase destruiu 
as asas do seu avio. Desceu at ao extremo do voo a pique e executou um torreau para a esquerda. No havia sinal deles. tinha-os despistado. Comeou a subir, quando 
avistou em baixo um Zero. Deu uma gargalhada e virou a alavanca dos comandos e o leme da direco para a direita, at o Zero ficar enquadrado na mira das suas metralhadoras. 
Depois mergulhou como um anjo vingador, reduzindo a distncia com uma velocidade estonteante. O dedo comeou a apertar o gatilho quando uma dor repentina e excruciante 
se espalhou pelo seu corpo. E mais uma. E mais outra. Sentia a carne rasgar-se e as tripas saltarem, e pensou: Oh, meu Deus, donde  que ele apareceu?. H um piloto 
melhor que eu... quem ser... ?
E ento fez um parafuso sbito, e a escurido tomou conta de tudo e fez-se silncio.
Na sua cela, Noelle arranjava o cabelo quando ouviu um trovo ribombar no cu.
- Vai chover?
A cabeleireira olhou para ela intrigada por um momento e viu que ela no sabia realmente que barulho era.

- No - disse ela calmamente -, vai estar um dia lindo. Ento Noelle entendeu.
A seguir era ela.
s cinco horas e trinta minutos, meia hora antes da hora aprazada para a execuo, Noelle ouviu passos aproximarem-se da cela. O corao deu um salto involuntrio. 
tivera a certeza de que Constantin Demiris quereria v-la. Sabia que nunca estivera to bela, e talvez quando ele a visse... talvez... O director da priso apareceu, 
acompanhado por uma guarda e uma enfermeira que trazia uma maleta de mdico preta. Noelle olhou para trs delas em busca de Demiris. O corredor estava vazio. O guarda 
abriu a porta da cela, e o director e a enfermeira entraram. Noelle deu conta de que tinha o corao aos pulos, que a vaga de medo comeava a afect-la outra vez, 
afogando a tnue esperana que a agitava.
- Ainda no so horas, pois no? - perguntou Noelle. O director ficou embaraado.
- No, Miss Page. A enfermeira veio dar-lhe um clister. Olhou para ele, sem perceber.
- No quero clister nenhum. Ficou ainda mais embaraado.
-  para no a deixar ficar... mal.
E depois Noelle percebeu. E o seu receio tornou-se uma agonia violenta, que lhe rasgava o estmago. Abanou a cabea em consentimento, pelo que o director girou e 
saiu da cela. A guarda trancou a porta e discretamente ficou no corredor, ficando fora de vista.
- No queremos estragar este vestido to bonito - dizia a enfermeira suavemente. - Por que no o tira num instante e se deita ali?  s um minuto.
A enfermeira deu incio  sua tarefa, mas Noelle no deu por nada. Estava com o pai, que lhe dizia: Olhem para ela, um estranho diria que era de sangue-azul, e as 
pessoas esforavam-se por peg-la ao colo. Havia um padre na cela, que disse: Gostava de confessar-se a Deus, minha filha? ", mas ela abanou a cabea impacientemente 
porque o pai estava a falar e queria ouvir o que estava a dizer. Nasceste princesa, e este  o teu reino. Quando cresceres, casars com um belo prncipe e vivers 
num palcio magnfico.
Descia um corredor comprido acompanhada de alguns homens, e algum abriu uma porta e ela deu por si num ptio frio no exterior.
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O pai segurava-ajunto a umajanela, donde viu os mastros altos de navios que balanavam na gua.
Os homens conduziram-na para um poste que havia em frente a uma parede e amarraram-lhe as mos atrs das costas e prenderam-na ao poste, e o pai disse: Ests a ver 
aqueles navios, Princesa?  a tua frota. Um dia levar-te-o a todos os lugares mgicos do mundo." E apertou-a e ela sentiu-se segura. No se lembrava do motivo, 
mas ele zangara-se com ela, mas agora estava tudo bem, e amava-a outra vez, e ela voltou-se para ele, mas o rosto dele era uma sombra indistinta, e no conseguia 
lembrar-se como era. No conseguia lembrar-se da cara dele.
Ficou com uma tristeza esmagadora, como se tivesse perdido algo precioso, e sabia que tinha de se lembrar dele ou ento morreria, e comeou a concentrar-se ao mximo, 
mas, antes que pudesse apercerber-se, houve um som violento e repentino e mil facas de agonia rasgaram-lhe a carne, e na sua cabea ouvia-se o grito: No! Ainda 
no! Deixem-me ver a cara do meu pai! "
Mas o rosto do pai perdera-se eternamente na escurido.
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EPLOGO
O homem e a mulher percorriam o cemitrio, com os rostos escurecidos pelas sombras dos ciprestes altos e graciosos que ladeavam o caminho. Caminhavam lentamente 
no calor tremeluzente do sol do meio-dia.
A Irm Teresa dizia:
- Quero exprimir-lhe uma vez mais o nosso profundo agradecimento. No sei o que seria de ns sem a sua ajuda.
Constantin Demiris acenou uma mo em ar de protesto.
- Arhaito - disse ele. - No  nada, Irm.
Mas a Irm Teresa sabia que sem este salvador o convento teria encerrado h anos. E certamente era um sinal do Cu de que agora conseguira pagar-lhe na mesma medida. 
Era um thriamvos, um triunfo. Agradeceu a So Dionsio uma vez mais por as Irms terem podido salvar a amiga americana de Demiris das guas do lago na terrvel noite 
da tempestade. Era incontestvel que o crebro da mulher ficara afectado, pois parecia uma criana, mas seria tratada. O Sr. Demiris pedira  Irm Teresa para mant-la 
dentro destas paredes, abrigada e protegida do mundo exterior para sempre. Que homem to bom e carinhoso.
Haviam chegado ao fim do cemitrio.
Havia um caminho que serpenteava at um promontrio onde a mulher se encontrava, contemplando o lago calmo e verdesmeralda l em baixo.
- L est ela - disse Irm Teresa. - Vou deix-lo agora. Hayretay.
Demiris observou a Irm Teresa retomar o caminho de volta para o convento, depois desceu o caminho at onde a mulher se encontrava.
- Bom dia - disse ele, gentilmente.
Ela voltou-se lentamente e olhou para ele. Os seus olhos estavam tristes e vazios, e o seu rosto estava irreconhecvel.
- trouxe-lhe uma coisa - disse Constantin Demiris.
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 um pequeno estojo do bolso e deu-lho. Fitou como se fosse uma criana.
- Tome,  para si.
Lentamente, estendeu a mo e segurou no estojo. Abriu-o e l dentro, aninhado em algodo, havia um pssaro de ouro em miniatura, de fabrico refinado, com olhos de 
rubi e asas abertas em pose de voo. Demiris olhava enquanto a mulher criana o retirava do estojo e o segurava. O sol brilhante reflectiu-se no ouro e no faiscar 
dos olhos rubis e causou minsculos arcos-ris no ar. Virou-o de um lado para o outro, observando as luzes que danavam  volta da cabea dela.
- No voltarei a v-la - disse Demiris -, mas no se preocupe. Ningum lhe far mal. Os maus morreram.
Enquanto ele falava, o rosto dela voltou-se por acaso na sua direco, e por um breve instante pareceu a Demiris que um claro de inteligncia, um olhar de alegria 
apareceram no olhar dela, desaparecendo logo a seguir, e apenas ficou o olhar vazio e ausente. Poderia ter sido uma iluso, um raio de sol que tivesse reflectido 
o brilho do pssaro de ouro nos seus olhos. Pensava nisso quando subia lentamente a colina, e saiu o enorme porto de pedra do convento, onde o aguardava a limusina 
que o levaria de volta a Atenas.
Chicago Londres
Paris
Atenas Jnina
Los Angeles
ISBN 972-1-03305-7 5 601072 612020
Fim
